A língua jarauara, designada também jarawara, yarawara ou jaruára, é uma das pertencentes à família arauá. O idioma é falado pelo povo jarauara, que vive em algumas aldeias próximas ao município de Lábrea (Amazonas), na região de Juruá-Purus, onde mantêm forte contato com outros dois povos: jamamadi e banauá-iafi.

Além das línguas desses três povos possuirem uma estrutura gramatical muito semelhante, 95% do vocabulário delas coincide, tornando-as extremamente parecidas e fazendo com que a comunicação entre esses três povos seja facilitada. Por esse motivo, muitas vezes, são consideradas três dialetos distintos de uma outra língua, chamada de madi.

Apesar da possibilidade de convívio com esses outros povos na própria língua e do pouco uso de línguas estrangeiras pelo povo, há um certo nível de risco de extinção do dialeto jarauara, principalmente por conta do gradual aumento da presença da língua portuguesa. Isso ocorre devido às interações com falantes de português no rio Purus e com enfermeiros enviados pelo governo que não conhecem o dialeto local.

Etimologia O termo jarauara (ou jarawara, como também é conhecido), deriva do nome do povo que utiliza a língua, os jarauaras, termo esse que não é reconhecido por eles, tratando-se de um exônimo. O termo, inclusive, possui um som inicial que não está presente na língua, mas sim no português. Esse nome tem base na língua geral, a partir de jara, que significa “homem branco” e wara, “comer”.

A língua Jarauara possui ainda dois endônimos: e yokana ou ee jokana, termos que também derivam do nome do povo, sendo, dessa vez, do nome com que eles se autodenominam. Na língua jarauara, esses nomes significam “pessoas de verdade” ou “povo de verdade”.

Distribuição

Rio_Purus_-_Lábrea|miniaturadaimagem|upright=1|Pôr do Sol no rio Purus

A língua jarauara está relacionada ao povo jarauara, que habita a região média do rio Purus, afluente do rio Solimões, próximo à cidade de Lábrea no Amazonas. O número de falantes corresponde aos cerca de 210 indígenas da etnia jarauara, dos quais apenas 2 ou 3 falam português fluentemente para a interação com pessoas externas à comunidade, de forma que a comunicação interna se restringe ao idioma nativo.

Risco de extinção Apesar de apenas alguns indígenas jarauaras falarem fluentemente a língua portuguesa e o idioma nativo ser o principal meio de comunicação entre eles, existe um certo risco para a sobrevivência do jarauara, considerando, entre outros fatores, os indígenas que saem da aldeia para morar na cidade e o aumento da quantidade de falantes do português como segunda língua.

Isso ocorre por conta da necessidade de contato com estrangeiros, já que o povo, além de receber a visita de enfermeiros que não falam a língua local e realizar trocas comerciais nas margens do rio Purus com não indígenas, tem o costume de ir até a cidade de Lábrea no início de todo mês para passear, fazer compras e receber auxílio do governo.

Dialetos e línguas relacionadas O jarauara, que pertence à família arauá, por possuir diversas semelhanças com outras duas línguas, o jamamadi e o banauá, é considerado, por muitos linguistas, um dialeto de uma outra língua, chamada madi. Esses três idiomas possuem uma gramática muito parecida e compartilham aproximadamente 95% do vocabulário, embora a entonação e o modo de falar sejam evidentemente diferentes, de forma que o jarauara é mais veloz e menos nasal que as duas outras línguas.

Além do madi (que inclui seus três dialetos), a família linguística arauá possui outras 4 línguas: paumari, zuruahã, deni e arauá (sendo essa última já extinta). Considerando o jarauara, o jamamadi e o banauá como dialetos, a organização das línguas arauá seria da seguinte forma:

História Pelo fato de o idioma ser falado por um povo específico, a história da língua jarauara está estritamente relacionada à história dos jarauaras. Assim, as interações e modificações da língua são melhor estudadas a partir da análise das relações estabelecidas com outras etnias e dos antecedentes do povo.

História dos jarauaras O povo jarauara habita a região situada entre os rios Juruá e Purus, na terra indígena Jarawara/Jamamadi/Karamanti. Não existem documentos históricos a respeito do rio Purus que determinem a origem do povo, mas alguns indígenas da etnia acreditam que, inicialmente, os jarauaras viviam no Alto Rio Purus, no Acre, e que, há quase um século, desceram o rio e se instalaram na região atual, estabelecendo interações com os demais povos da família de línguas arauás.

Além disso, por volta dos anos 1960, muitos jarauaras se casaram com indígenas de outro grupo chamado wayafi, com os quais compartilhavam a mesma língua e a mesma mitologia, de forma que se tornaram uma mistura de ambos os povos. Por conta dessas características semelhantes entre jarauaras e wayafis, existe a possibilidade de serem subgrupos de uma mesma etnia que se separaram por uma geração e se reencontraram posteriormente.

Mudanças na língua Em função do contato com não indígenas falantes de português, o jarauara recebeu uma grande quantidade de empréstimos linguísticos da língua portuguesa, já que, por conta das mudanças no modo de vida, surgiu a necessidade de expressar novas ideias, por exemplo, o conceito de “dinheiro”, que não era presente no cotidiano do povo antes do contato com não indígenas.

+Tabela com alguns empréstimos linguísticos da língua portuguesaPalavra em jarauaraPalavra em portuguêsBalitoPalitoSitatiCidadeJineroDinheiroTehafimiTerra firmeMaaMarFonoForno

Além dos empréstimos da língua portuguesa, também há registros do empréstimo linguístico da palavra “towisawa” , que significa “chefe da aldeia” e tem origem na língua geral.

História da documentação Grande parte da documentação realizada a respeito da língua jarauara foi feita pelo linguista australiano Robert Dixon e por Alan Vogel, um missionário da Associação Internacional de Linguística (SIL International). Vogel se instalou na aldeia Casa Nova, uma das aldeias do povo, em 1987 e, em 1991, convidou Dixon para auxiliar nos estudos a respeito da língua jarauara. As análises de ambos os linguistas se baseou na análise de textos e na interação com falantes nativos e tinham, como objetivo, focar no modo como os jarauaras realmente falam.

Fonologia

Consoantes A língua jarauara possui um sistema fonético com 16 fonemas consonantais, sendo que dois deles, e , não existem na língua portuguesa.

+Tabela de fonemas consonantaisBilabialAlveolarPós-alveolarPalatalVelarLabiovelarGlotalPlosiva NasalTap ou flapFricativaAproximanteAproximante lateralAfricada Vogais O quadro de fonemas vocálicos do jarauara se assemelha ao da língua portuguesa, com a adição, apenas, do fonema , que, inclusive, é posicionado, por alguns autores, no quadro de consoantes como uma semi-vogal palatal.

+Tabela de fonemas vocálicosAnteriorCentralPosteriorFechada SemifechadaAberta

Ortografia A língua passou a ter uma forma escrita em 1988, quando Robert Dixon analisou a estrutura da fonologia do jarauara e atribuiu os mesmos símbolos da língua portuguesa, ou seja, os símbolos do alfabeto latino, porém, com a ausência de algumas letras, possuindo somente onze consoantes e quatro vogais. Essa forma escrita se baseou, principalmente, na ortografia jamamadi, sendo necessárias apenas algumas alterações, já que os dialetos são muito semelhantes.

Pelo fato de a forma escrita da língua jarauara ter sido elaborada a partir de outras formas que são baseadas na ortografia da língua portuguesa, essa escrita é realizada na horizontal, partindo do canto superior esquerdo.

A correspondência entre os grafemas da escrita da língua jarauara e seus respectivos fonemas está demonstrada na tabela a seguir:

+Correspondência grafema-fonemaGrafemaFonemaComparação com o portuguêsbpato bolattela darkcôco golffino (mas só com os lábios)ssacola não existe no portuguêshrãmmandarnnucarcara calorwacauãycuiú não existe no portuguêsefreteifitaafatooboca curar É possível notar que alguns grafemas (ou letras) correspondem a dois fonemas, ou seja, uma letra da escrita jarauara pode ser pronunciado de formas diferentes dependendo da palavra.

Gramática

Pronomes pessoais Os pronomes pessoais, na língua jarauara, são divididos em duas classificações, de acordo com suas posições na sentença e suas funções: pronomes oblíquos e pronomes retos.

Os pronomes podem variar em grau e número. A variação de grau ocorre em primeira, segunda e terceira pessoa, sendo que, nesse último caso, também há variação entre animado e inanimado, ou seja, se o sujeito/objeto ao qual o pronome se refere é um ser humano/animal/entidade ou não. Já a variação em número ocorre entre singular e plural, em que a primeira pessoa do plural (nós) pode ser inclusiva (inclui o interlocutor) ou exclusiva (não inclui o interlocutor).

Pronomes oblíquos Os pronomes oblíquos são aqueles que exercem função de objeto de uma oração. +Tabela de pronomes oblíquos1a pessoa2a pessoa3a pessoa (animado)3a pessoa (inanimado)Singularowatiwa∅∅Plural (inclusivo)erateramee, mera∅Plural (exclusivo)otara Exemplo de uso de um pronome oblíquo:

owa ti-kako-ne (Você está bravo comigo)

tiwa haa o-na-bana (Eu ia te chamar)

Pronomes retos Os pronomes retos são os que exercem função de sujeito na oração.

+Tabela de pronomes retos1a pessoa2a pessoa3a pessoa (animado)3a pessoa (inanimado)Singularo-ti-∅∅Plural (inclusivo)eeteemee∅Plural (exclusivo)otaa Exemplos de uso de pronomes retos:

maa o-ha o-ke (Eu estou cansado)

ee to-ka-haba ee-ke mina (Nós vamos de manhã)

Pronomes possessivos Assim como os pronomes pessoais, os pronomes possessivos também variam em grau e número. Porém, além disso, também podem ser divididos em pronomes possessivos alienáveis (posse que pode ser separada do possuidor, como um objeto) e pronomes possessivos inalienáveis (posse não pode ser facilmente separada do possuidor, como partes do corpo ou parentesco). +1a pessoa2a pessoa3a pessoa (animado)3a pessoa (inanimado)Singularoko / o-, okotika / ti-, tikahinaka / fee, hee∅Plural (inclusivo)ee kaa / eetee kaa / teemee kaa / mee∅Plural (exclusivo)otaa kaa / otaa Nota: A barra (/) separa os pronomes possessivos alienáveis (antes) dos inalienáveis (depois).

Exemplos de uso de pronomes possessivos:

hinaka jimo o-nabohe-himari-ka (Eu matei a formiga dele)

o-wisi hete to-na-ke (Minha perna ficou presa)

Verbos Os verbos podem ser classificados seguindo dois critérios: a possibilidade de ser flexionado e a transitividade.

O primeiro critério divide-os em flexionáveis, ou seja, que podem receber afixos, e inflexionáveis, que não recebem afixos e, portanto, precisam de um radical auxiliar para ser flexionados. Esse radical auxiliar pode ser -na- ou -ha-, sendo o primeiro mais comum, e é ele que recebe os sufixos e prefixos ao invés do verbo. Os verbos flexionáveis costumam ser representados com hífen (-) antes e depois para indicar a possibilidade de afixos.

Quanto à transitividade, existem verbos transitivos, verbos intransitivos e verbos ambitransitivos (que podem ser tanto transitivos quanto intransitivos).

Conjugação verbal A conjugação dos verbos é feita a partir da adição de afixos ao verbo (no caso de verbos flexionáveis) ou ao radical auxiliar (em verbos inflexionáveis).

Essa conjugação pode acontecer de acordo com 3 elementos: evidencialidade, tempo e modo, sendo que cada sufixo marcador desses elementos pode variar em gênero (feminino e masculino). Diferentemente da língua portuguesa, o gênero não marcado, no jarauara, é o feminino, ou seja, o gênero que é utilizado, quando não há evidências do gênero do sujeito ou quando o sujeito é representado por um pronome, é o feminino.