Os esteroides anabolizantes androgênicos sintéticos (EAAs) são derivados sintéticos da testosterona utilizados inicialmente para fins terapêuticos. Contudo, o uso abusivo e indiscriminado na tentativa de melhoria da performance esportiva ou com fins estéticos estão entre os principais fatores que resultantes de hipogonadismo induzido por suplementação hormonal (ASIH sigla em inglês de anabolic steroid–induced hypogonadism).

Nesse sentido, o hipogonadismo hipogonadotrófico é caracterizado pela falência da função gonadal secundária à deficiência na secreção de gonadotrofinas. Essa condição clínica é comumente descrita a lesões estruturais ou anomalias funcionais envolvendo o eixo hipotalâmico-hipofisário. Jarow, J.P. and Lipshultz, L.I. Anabolic steroid–induced hypogonadotropic hypogonadism. Am J Sports Med. 1990; 18: 429–431

Breve histórico

Os andrógenos sintéticos se originam na década de 1930, quando houve a descrição pela primeira vez do uso medicinal da metiltestosterona, como tratamento de deficiência de testosterona, osteoporose, caquexia, puberdade atrasada e câncer de mama.

Desde então, os derivados de Testosterona têm sido utilizados especialmente para aumento de massa muscular magra, queima de gordura e aumento do desempenho atlético. Contudo, o uso de andrógenos resulta em diversos efeitos colaterais significativos a exemplo de hepatotoxicidade, cardiotoxicidade, policitemia, dislipidemia, hipertensão, depressão, ginecomastia, atrofia testicular e infertilidade.

Dentre as consequências do uso indiscriminado dos esteróides anabolizantes andrógenos (EAA), o hipogonadismo induzido (ASIH sigla em inglês de anabolic steroid–induced hypogonadism) torna-se o centro de discussões que abrangem desde a ética no esporte à saúde pública, já que estudos afirmam que pelo menos quatro de cinco usuários de EAA não são atletas, mas, pessoas que desejam aumentar a massa muscular e diminuir a gordura corporal. Casavant, M.J., Blake, K., Griffith, J., Yates, A., and Copley, L.M. Consequences of use of anabolic androgenic steroids. (x)Pediatr Clin North Am. 2007; 54: 677–690

Epidemiologia

Artigos recentes demonstraram que, no hipogonadismo profundo, com taxas de testosterona abaixo de 50 ng/dl (identificado em 97 homens do grupo analisado em um dos estudos), a principal etiologia estava ligada ao uso abusivo de anabolizantes não prescritos (identificado em 43% desse grupo). “Esses dados apontam que os anabolizantes são uma causa preocupante e evitável de hipogonadismo, sobretudo em homens jovens” (Cyrus D. Rahnema, 2014).

Um estudo realizado em 2003 apontou que, dos participantes que responderam a um questionário aplicado em três grandes academias, 19% declararam-se usuários de EAA, sendo que 8% declararam fazer uso contínuo de anabolizantes e 11% relataram já terem feito uso da droga. 70% dos que responderam o questionário e 90% dos usuários de EAA eram do sexo masculino. Além disso, a principal faixa etária de usuários foi de 25 a 29 anos (46%). Silva, Luciana Silvia Maria Franco and MOREAU, Regina Lúcia de Moraes. Uso de esteróides anabólicos androgênicos por praticantes de musculação de grandes academias da cidade de São Paulo. Rev. Bras. Cienc. Farm. [online]. 2003, vol.39, n.3, pp.327-333. ISSN 1516-9332. Sistema reprodutor masculino e feminino

Breve revisão anatômica e embriológica gonadal

No desenvolvimento embrionário do sistema reprodutor, a formação das gônadas é indiferenciada até a sétima semana de gestação e começa a se diferenciar a partir da migração das células germinativas primordiais – as CGPs – no embrião, até formar, em conjunto com o epitélio celômico, um par de cristas genitais precursoras das gônadas.

A diferenciação do sistema em masculino ou feminino dependerá da presença do gene SRY, expresso a partir do cromossomo Y. Nesse contexto, sob a influência de tal gene, células somáticas de suporte – CSS - diferenciam-se em células de Sertoli, nos homens, e posteriormente, induzem a conversão das células de Leydig, produtoras de testosterona. Esses eventos, então, dão início aos fenômenos que resultarão na constituição de todo o aparelho reprodutor masculino e na migração das gônadas para sua posição final.

Em se tratando de gônadas masculinas, o processo de descida dos testículos ocorre desde o período embrionário até aproximadamente 1 ano após o nascimento. Inicialmente, as gônadas se encontram no interior do abdômen, na altura da décima vértebra torácica, e por volta da 7ª semana inicia-se a descida testicular pela formação do ligamento gubernáculo que se relaciona à região inferior do embrião.

Na fase intra-abdominal testicular, o gubernáculo se encurta posicionando os testículos para próximo do anel inguinal profundo. Após o 7º mês fetal, os testículos penetram o canal inguinal, atravessando os músculos oblíquos interno e externo do abdômen e suas fáscias, em resposta a novo encurtamento do gubernáculo além do aumento de pressão intra-abdominal resultante do aumento das vísceras. Este processo empurra as gônadas em direção caudal, levando à acomodação dos testículos na bolsa escrotal.

Ao fim desse processo, os testículos se localizam no escroto, fora da cavidade abdominal. As gônadas ficam suspensas, principalmente, pelo funículo espermático, estrutura que abriga o ducto deferente, nervos, vasos linfáticos e sanguíneos. Schoenwolf, G. C.; Bleyl, S. B.; Brauer, P. R.; Francis-West, P. H. Larsen Embriologia Humana, 4a edição. Editora Elsevier, 2010.

Internamente, os testículos são subdivididos em lóbulos por septos que têm origem no mediastino. Os lóbulos testiculares são formados pelos túbulos seminíferos contorcidos, estruturas envolvidas na espermatogênese.

Os testículos possuem faces anterior, medial e lateral e ambos os pólos são convexos, lisos e revestidos por três túnicas: túnica vaginal (extremidade inferior do processo vaginal do peritônio), túnica albugínea (denso revestimento do testículo, composto por feixes entrelaçados de fibras colágenas) e túnica vasculosa (contém um plexo de vasos sanguíneos e delicado tecido conjuntivo frouxo, estende-se sobre a face interna da túnica albugínea).

Além disso, os testículos são irrigados, principalmente, pela artéria testicular esquerda (localizada posteriormente à veia mesentérica inferior) e artéria testicular direita (localizada anteriormente à veia cava inferior). Cada artéria passa anteriormente ao nervo genitofemoral, ao ureter e à parte inferior da artéria ilíaca externa, e segue até o anel inguinal profundo, penetra no funículo espermático e passa através do canal inguinal para chegar ao escroto. O testículo também recebe sangue do ramo cremastérico da artéria epigástrica inferior e da artéria para o ducto deferente.

A drenagem venosa, feita pelas veias testiculares, emerge posteriormente ao testículo, drenam o epidídimo e se unem para formar o plexo pampiniforme, um componente principal do funículo espermático, subindo anteriormente ao ducto deferente. No canal inguinal, o plexo pampiniforme é drenado por três ou quatro veias que seguem até o abdome através do anel inguinal profundo. Dentro do abdome, essas veias se unem em duas veias, as quais sobem de cada lado da artéria testicular. As veias se unem para formar as veias testiculares direita ou esquerda: a veia testicular direita se abre na veia cava inferior e a veia testicular esquerda se abre na veia renal esquerda.

Esses vasos (artérias e veias testiculares) são essenciais para o transporte da testosterona produzida no órgão para a circulação sistêmica.

A superfície lateral do ovário se encontra em contato com o peritônio parietal na fossa ovariana. A superfície medial está voltada para o útero e para os vasos uterinos no ligamento largo, e o recesso peritoneal. A extremidade inferior aponta para baixo, em direção ao assoalho pélvico.

O ligamento ovariano está inferior e medialmente. O ligamento redondo é anterior à tuba.

Em se tratando de gônadas femininas, caso não haja indução pelo gene SRY na embriogênese, as células somáticas de suporte (CCS) se diferenciam em células foliculares, em vez de células de Sertoli. Ainda, os ductos paramesonéfricos persistem e são estimulados a se diferenciar em tubas uterinas, útero e vagina.

Com a conclusão desse processo, as gônadas femininas se posicionam lateralmente ao útero, do lado esquerdo e do lado direito, próximos à parede pélvica lateral e ficam suspensas na cavidade pélvica com o auxílio dos ligamentos mesovário, ovariano e infundíbulo-pélvico, principalmente. Além disso, as artérias ovarianas (ramos da aorta abdominal) são responsáveis pela irrigação dos ovários, enquanto a drenagem decorre das veias ovarianas, sistema associado à circulação dos hormônios sexuais na região. Moore, Keith L. Anatomia orientada para a clínica. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014. Netter, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000

Em caso de hipogonadismo masculino, a diminuição do volume testicular pode ser notada. Para tal, o orquidômetro é um instrumento clínico utilizado para medir o volume dos testículos e determinar a normalidade: tamanhos pré-púberes são de 1 a 3 ml, tamanhos puberais são considerados em torno de 4 ml e tamanhos de testículos adultos estão entre 12 a 25 ml.

Desse modo, a discrepância do tamanho testicular com outros parâmetros de maturação pode ser um indício importante de várias doenças além de hipogonadismo primário ou secundário. Aspectos morfológicos e histopatológicos das gônadas Gônadas masculinas

As gônadas masculinas são denominadas testículos. Cada testículo é revestido por uma cápsula de tecido conjuntivo denso (túnica albugínea), a qual apresenta um espessamento na porção dorsal, que projeta septos incompletos de tecido conjuntivo os quais dividem os testículos em 250 a 300 lóbulos. No interior de cada lóbulo, há de 1 a 4 túbulos seminíferos, estruturas tubulares em formato de U – com uma parede de epitélio germinativo delimitada por uma membrana basal, sustentada pelas células de Sertoli. Entre os túbulos seminíferos, se localiza o tecido intersticial, onde se encontram as células de Leydig (produtoras de testosterona). Os ""túbulos seminíferos"" terminam na região posterior do testículo, nos túbulos retos, que se anastomosam formando a rede testicular, de onde partem os ductos eferentes que penetram no epidídimo. O epitélio germinativo do túbulo seminífero possui duas populações celulares distintas:

1. Células de Sertoli (somáticas) – constituem barreira hematotesticular e auxiliam o processo de espermatogênese. São células cilíndricas que se estendem da lâmina basal até o lúmen do túbulo seminífero, possuem núcleo claro e nucléolo evidente, a região apical e lateral da membrana plasmática é de perfil irregular, formando criptas que alojam as células espermatogênicas em desenvolvimento. As células de Sertoli, que respondem principalmente ao hormônio foliculoestimulante (FSH), conferem sustentação (física e nutricional) às células da linhagem espermatogênica em diferenciação, fagocitam os corpos residuais, facilitam a liberação de espermátides maduras (espermiação), e secretam um fluido rico em proteínas e íons para o lúmen do túbulo seminífero.

2. Células espermatogênicas - Representam a linhagem espermatogênica formada por espermatogônias, espermatócitos e espermátides que antecedem a diferenciação final do espermatozóide.

Fora dos túbulos seminíferos, especificamente na região entre tais túbulos, as células intersticiais de Leydig possuem núcleo arredondado com cromatina dispersa e exibem um citoplasma acidófilo com vacúolos lipídicos. Reguladas pela ação do hormônio luteinizante (LH) as células de Leydig secretam o principal hormônio sexual masculino – a testosterona endógena.