Arlete Honorina Vitor Hilú, (Itajubá, 6 de abril de 1945 – Porto Feliz, 19 de dezembro de 2023) amplamente conhecida apenas como Arlete Hilú, é uma ex-traficante de bebês confessa, atuante especialmente nos anos 1980 e já condenada e presa, natural de Itajubá (MG), e que viveu no Paraná, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Ela morreu no interior de São Paulo em 19 de dezembro de 2023.

Biografia Arlete Hilú nasceu na cidade de Itajubá, Minas Gerais, em 6 de abril de 1945, filha do casal Zacarias de Morais Vitor e Edith Luiza Heidrich Vitor. Seu local de nascimento costumava ser motivo de disputa, com algumas fontes indicando que ela teria nascido em Curitiba (PR), o que se revelou incorreto. Os endereços conhecidos publicamente estão localizados no bairro Cabral, na capital paranaense, e no centro da cidade de Balneário Piçarras (SC).

Começou sua carreira como "advogada", embora não fosse diplomada em Direito, na Penitenciária Estadual do Paraná, de onde foi demitida em 1981. A partir de 1983, passou a trabalhar como "curadora especial de menores" e se envolveu no tráfico de crianças. Uma reportagem de 1986 do jornal O Estado de S. Paulo afirmava que a demissão "acabou favorecendo-a ainda mais (...), e daí foi um passo para iniciar a lucrativa atividade de vender bebês brasileiros a casais de vários países".

Em 1986, a imprensa dava conta de que Arlete Hilú era viúva e tinha um filho, então com 19 anos. Ela era viúva e tinha dois filhos, nascidos em 1967 e em 1984. Em 1986, o jornal O Estado de S. Paulo afirmava que "Arlete parece ter hoje uma invejável situação financeira, sempre apresentada como uma bem-sucedida advogada". A informação sobre o segundo filho de Arlete era desconhecida do jornal.

Hilú apresentava-se ora como advogada, ora como contabilista, por vezes como assistente social ou "curadora especial de menores", às vezes como enfermeira, mas não há informações precisas sobre sua real profissão.

Paradeiro O paradeiro de Arlete Hilú era desconhecido publicamente ao menos desde 2016, quando ela tinha 72 anos, segundo uma rede de TV que a entrevistou com exclusividade naquele ano. Ela morava, na época, em uma cidade que a reportagem não precisava além do fato de que se localizava no litoral de Santa Catarina. Hoje, sabe-se que a cidade é Balneário Piçarras. Na entrevista ao programa Repórter Record Investigação, da Record TV, ela confessou os crimes de tráfico de bebês, disse não se arrepender pois os agora jovens adotados estariam, como disse, "maravilhosamente bem", e ainda afirmou que se divertiu na prisão.

Embora não houvesse informações públicas sobre o paradeiro da mulher, o jornalista investigativo brasileiro-israelense Gabriel Toueg, que pesquisa o tráfico de bebês desde 2012, recebeu denúncia de uma fonte anônima segundo quem, no final de 2023, Hilú vivia em uma casa de repouso na cidade de Porto Feliz, no interior de São Paulo, a cerca de 120 km da capital paulista. Ela havia sido internada em 2016.

Outra fonte anônima que teve contato próximo com Hilú nos últimos anos de vida revelou a Toueg que a mulher "não costumava receber visitas na casa de repouso e que usava roupas emprestadas porque não tinha nenhuma". Segundo a família, Arlete havia perdido todos seus bens devido a uma enchente que inundou sua casa em Balneário Piçarras, em Santa Catarina, em 2012.

Arlete faleceu aos 78 anos em Porto Feliz-SP, segundo familiares, ela tinha Alzheimer, e a causa da morte foi um choque séptico de múltiplos focos, que teria evoluído através de uma infecção urinária e uma pneumonia. Ela vivia na casa de repouso desde 2016.

Esquema de tráfico de crianças Na década de 1980, um esquema assumidamente liderado por Arlete Hilú tirava ilegalmente bebês do Brasil e os levava de forma clandestina para adoção por famílias estrangeiras, em vários países. Pelos crimes de tráfico de crianças, falsidade ideológica, formação de quadrilha e pela retirada ilegal de crianças do país, Arlete foi condenada duas vezes, entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 1990. Há informações divergentes sobre uma eventual terceira prisão, na mesma época.

Segundo a imprensa brasileira da época, Arlete começou a traficar bebês em 1983, mediando a adoção de crianças estrangeiras. Segundo a criminosa, ela o fazia "apenas por assistencialismo", mas cada bebê era vendido por 8 mil a 10 mil dólares (dado de 1986).

Contexto O esquema liderado por Arlete Hilú ocorreu num período em que houve vários casos de desaparecimento de crianças no sul do Brasil, especialmente no Paraná. Em meio a essas ocorrências, dois casos ganharam especial destaque na época: o caso Evandro, com o desaparecimento, por sequestro, e morte do garoto Evandro Ramos Caetano, de apenas 6 anos de idade; e o também desaparecimento de Leandro Bossi, ocorrido dois meses antes do sequestro de Evandro.

Os dois casos ocorreram na cidade de Guaratuba, no Paraná. Ambos foram esmiuçados pelo jornalista Ivan Mizanzuk no podcast Projeto Humanos. A temporada a respeito do caso Evandro virou série na Globoplay e livro de autoria de Mizanzuk. Embora o envolvimento de Hilú nestes dois casos específicos nunca tenha sido provado de forma definitiva, a polícia do Paraná chegou a levantar, à imprensa, a suspeita de seu envolvimento.

Alcance do esquema Arlete Hilú agia principalmente na região Sul do Brasil, para conseguir crianças com traços europeus, o que ela atribuía à "demanda" dos casais estrangeiros, principalmente os que viviam na Europa. Ela agia inicialmente no Paraná, principalmente em Curitiba, mas após ser presa por falsidade ideológica e contrabando, em 1984, começou a operar em cidades vizinhas à capital, usando cartórios menores para obter registros falsos de adoção. A partir daí, a quadrilha passou a agir também em outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Três comparsas passaram a cuidar das operações em Curitiba quando ela se transferiu para o Rio de Janeiro. Com o cerco policial aumentando, ela abriu uma "sede" em Dourados, Mato Grosso do Sul.

Primeiro caso Embora o nome de Arlete Hilú apareça vinculado a milhares (a estimativa é de até 12 mil) de casos em que crianças foram retiradas ilegalmente do Brasil e adotadas por casais estrangeiros, com destaque para famílias em Israel e na Europa, o primeiro caso de que se tem notícia foi registrado em Curitiba (PR) em 1983 e ficou conhecido como "caso Fabinho", com o sequestro de um bebê recém-nascido de dentro de uma maternidade na capital paranaense. À época, o Paraná vivia uma onda de desaparecimento de crianças, muitos deles nunca solucionados ou com crianças encontradas mortas, mas a relação desses casos com Arlete Hilú não é comprovada.

O caso Fabinho atraiu a atenção da imprensa e mobilizou a sociedade, sendo solucionado em poucas semanas. A partir da resolução do caso, surge uma denúncia de venda de crianças para "exportação (...) para Israel", todos, aí sim, com intermediação de Arlete Hilú, que cobrava altos honorários em dólares, com a suposta cumplicidade ou ao menos conivência de membros do Juizado de Menores e até de agentes da Polícia Federal.

Apesar de o "caso Fabinho" ser o primeiro amplamente conhecido, existe a suspeita de que a quadrilha de Arlete tenha começado a agir em 1968, quando ela tinha apenas 23 anos.

Adoções em Israel O esquema de Arlete Hilú era particularmente atuante em Israel, onde estima-se que cerca de 3 mil crianças teriam sido adotadas com sua intermediação. O número é tão alto que existe hoje no país do Oriente Médio um movimento organizado por jovens que foram adotados ainda bebês ou crianças de forma ilegal e que hoje desejam conhecer a família biológica. Esse grupo é liderado pelo jovem Lior Vilk, um dos adotados, que encontrou parte da família paterna no Brasil e costuma vir ao país ao menos duas vezes por ano.

Chen Levy, uma das "crianças" que foram adotadas nos anos 1980 por pais israelenses, chegou a aprender português e passar uma temporada no Brasil atrás de pistas que pudessem levá-la à mãe biológica, embora não tenha conseguido obter respostas. Ela chegou a dar um depoimento para a novela Salve Jorge, que abordou o assunto.

Em uma entrevista de 2008, a jornalista e documentarista israelense Nili Tal explicou que em Israel "não temos crianças (disponíveis) para adoção. Por isso, famílias israelenses que queriam filhos viajavam para países do 3º mundo antes que Madonna e Angelina (Jolie) o fizessem. Nos anos 1980, elas descobriram a oportunidade de adotar no Brasil. Era longe e caro, mas toparam".

Apesar do cometimento dos crimes, parte da sociedade israelense se comoveu e a apoiou quando ela foi presa no país, em abril de 1986. O jornalista Moisés Rabinovici, correspondente do Estadão em Israel à época, cobriu o caso e escreveu no jornal brasileiro uma matéria em que contava que "Muitos israelenses estão dispostos a se atirar sobre a pista do aeroporto de Tel-Aviv para impedir que algum avião decole levando a mineira Arlete Hilú de volta para o Brasil, onde ela está com prisão preventiva decretada". Na mesma reportagem, Rabinovici conta que "pais de crianças adotadas superlotaram (...) o tribunal, cantando e segurando rosas para proteger Arlete até mesmo dos repórteres".

Outra reportagem da época, publicada na imprensa israelense, assim descreveu a acolhida: "Hilú fugiu para Israel e foi devotamente amparada por famílias adotivas que se beneficiaram de seus 'serviços', pessoas que a consideram uma heroína por tê-las ajudado em um momento estressante". O jornal fazia referência à luta das famílias locais para adotar um bebê.

Caso Bruna

Ver artigo principal: Caso Bruna Vasconcelos Um caso de enorme repercussão em que Arlete Hilú esteve também envolvida ocorreu em 1986. A menina Bruna Aparecida Vasconcelos foi sequestrada de sua casa, em Curitiba, aos 4 meses de idade, por uma falsa babá ligada à quadrilha de Hilú. A bebê foi então levada para fora do Brasil através da Ponte da Amizade, para o Paraguai, e de lá para Israel, onde foi adotada por uma família local e ganhou o nome Caroline.

O episódio gerou muita comoção à época, tanto em Israel como no Brasil. Em meio a uma longa disputa judicial, que levou a mãe de Bruna, Rosilda Gonçalves, até Israel para lutar pelo retorno da filha, a Suprema Corte israelense acabou ordenando a "devolução" da bebê à família biológica. Isso só aconteceria, porém, em 1988, quase dois anos depois do sequestro.

A luta de Rosilda foi acompanhada exaustivamente pela imprensa. Uma das primeiras jornalistas a revelar o caso no Brasil, Elza Oliveira contou, ao podcast Rádio Novelo Apresenta, de 2023, que "[Rosilda] ficava atrás de todo mundo, ia na polícia o tempo inteiro. Ela nunca desistiu, bateu na porta da polícia, dos deputados, foi pra Brasília, foi no Itamaraty, ela realmente foi uma mulher muito guerreira".

Marisa Vieira, a falsa babá que havia levado Bruna, segundo Elza, "tinha sido contratada [por Rosilda], chegou na casa e deu um dinheiro pra esse menino [irmão de Bruna, então com 12 anos] e falou assim: 'Ó, fiquei devendo um dinheiro pra sua mãe, porque ela me emprestou, e vim aqui pagar, queria que você fosse ali no botequinho da esquina trocar o dinheiro'. O menino saiu pra ir no boteco da esquina e quando voltou, a moça tinha ido embora com a Bruna". Dois dias depois do sequestro Marisa foi presa em Curitiba, o que acabou ajudando a polícia a descobrir o paradeiro da bebê

Em Israel, o caso gerou imensa repercussão, com a foto da menina e da mãe estampando páginas de jornais, aparecendo na TV. O público ficou dividido sobre o retorno dela para o Brasil após a adoção pelo casal local. Em 2006, vinte anos depois do caso, a jornalista e documentarista israelense Nili Tal encontrou Bruna no Brasil e acompanhou sua vida em Curitiba. A pesquisa de Nili Tal virou um documentário.

Casos em outros países