Orgia ou O Homem que Deu Cria é um filme brasileiro experimental, produzido em 1970, dirigido e roteirizado pelo escritor e ativista João Silvério Trevisan. Vinculado ao cinema marginal e à produção da Boca do Lixo, é também considerado uma obra de caráter performático.
O filme foi censurado pelo Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) durante a ditadura militar brasileira, por ter sido considerado ofensivo à moral e "inconveniente em quase toda a sua totalidade". O diretor recusou os cortes exigidos, e a obra não teve lançamento comercial à época. Em 1995, o filme foi exibido no Festival Mix Brasil, em São Paulo.
Em matéria publicada pela Folha de S.Paulo em 2021, por ocasião dos cinquenta anos do longa-metragem, o pesquisador João Nemi Neto classificou a obra como precursora do cinema queer no Brasil. Segundo sua análise, o filme tornou explícita uma temática que, até então, havia aparecido apenas pontualmente na produção cinematográfica do país. Enredo O filme acompanha uma viagem a pé de diversos personagens, que partem de uma região rural em direção à cidade. A jornada é iniciada por um caipira que acaba de matar o pai, mas o percurso e os encontros entre as personagens são mais relevantes para a narrativa do que a chegada ao destino. A cada parada, um novo integrante se junta ao grupo, entre eles uma travesti negra caracterizada como Carmen Miranda, um cego, um rei africano cadeirante que segura a taça da Copa do Mundo de 1970, um anjo negro com uma asa quebrada, um cangaceiro grávido que carrega uma bandeirola com o logotipo da Volkswagen, um padre e freiras que encenam a Primeira Missa no Brasil, prostitutas e indígenas canibais.
O percurso é marcado por episódios e interrupções que agregam novas figuras à caminhada. Pelo caminho, o grupo encontra um intelectual que se enforca e queima seus livros, um homem que fabrica bombas e empresários de uma empresa de preservativos em falência por causa da difusão das pílulas anticoncepcionais, entre outros personagens. Ao final, o rei africano morre de indigestão, o cangaceiro dá à luz em um cemitério e o recém-nascido é devorado pelos indígenas canibais.
Elenco
Pedro Paulo Rangel como Caipira Ozualdo Candeias como Pai do caipira Jean-Calude Bernardet como Leitor voraz Deoclides Gouveia como Homem que carrega cruz Zezé Motta na voz do anjo Marco Nanini na voz na voz da travesti Contexto O filme foi produzido em 1970, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici, período de endurecimento da ditadura militar brasileira e de difusão do discurso de modernização associado ao chamado milagre econômico. A censura exercida pelo regime afetava diretamente o setor audiovisual e levava produtores e cineastas a buscar formas alternativas de criação, distribuição e exibição. Após a interdição do filme, Trevisan deixou o Brasil e se estabeleceu na Califórnia.
miniatura|Othon Bastos como o cangaceiro Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). A personagem foi satirizada em Orgia ou o Homem que Deu Cria por meio da figura do cangaceiro grávido.
Nesse contexto, o cinema marginal consolidava-se como uma vertente cinematográfica que, embora se contrapusesse ao Cinema Novo em diferentes aspectos, também compartilhava com ele o interesse pela crítica social e pela experimentação formal. Em Orgia, os gemidos, grunhidos e ruídos que dominam a trilha sonora foram associados à estética agressiva, escatológica e antinaturalista do cinema marginal e da produção da Boca do Lixo.
O tom carnavalesco do filme também foi relacionado ao chamado "desbunde", termo usado para caracterizar personagens marginais que recusavam a função de porta-vozes heroicos da miséria popular. O cangaceiro grávido funciona, nesse sentido, como uma inversão paródica do personagem Corisco, de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Em entrevista, Trevisan afirmou que Glauber Rocha quis agredi-lo durante uma exibição do filme no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
O tropicalismo e o pós-tropicalismo também influenciaram a forma e a estética do cinema marginal. Nesse período, o cinema dialogava com a produção de artistas plásticos como Rubens Gerchman, Carlos Vergara, Hélio Oiticica e Lygia Pape, e de compositores como Luiz Galvão, José Carlos Capinam, Jorge Mautner e Jards Macalé.
Temas e análise Orgia tem sido objeto de análises acadêmicas sobre sua estética transgressora, seu contexto político e suas inovações narrativas no cinema brasileiro. Janaína Júlia Langaro compara a obra a Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, destacando as jornadas coletivas, as subversões das representações de gênero e as metáforas da caminhada, da devoração e da morte.
Sob a perspectiva dos estudos da performance, Guiomar Gomes estabelece comparações entre o longa-metragem e outras produções experimentais e de baixo orçamento do cinema marginal, como Prata Palomares (1971), de André Faria, e Sem essa, Aranha (1970), de Rogério Sganzerla. Segundo a autora, essas obras compartilham o esvaziamento da narrativa clássica, a criação coletiva baseada no improviso e o uso de figuras alegóricas e abjetas para transitar entre o deboche e o horror.
Críticas e referências ao Cinema Novo O enredo se desenvolve pelas relações estabelecidas entre as personagens durante a jornada. Elas se comunicam por meio de berros, gemidos, vozes pouco articuladas, danças, saltos, rastejos e outros movimentos corporais, elementos associados ao desbunde e à crítica ao Cinema Novo.
Trevisan afirmou que pretendia romper a relação do cinema marginal com o Cinema Novo, movimento do qual Glauber Rocha era visto por ele como uma figura paterna. A morte do pai no início do filme foi interpretada pelo diretor como uma referência a essa ruptura. Ele também declarou que o cangaceiro grávido parodia o Corisco interpretado por Othon Bastos em Deus e o Diabo na Terra do Sol.
Embora o Cinema Marginal tenha se constituído em oposição ao Cinema Novo, Nemi Neto ressalta que os dois movimentos também compartilhavam procedimentos e preocupações. Ambos se voltavam para questões como pobreza, moralidade burguesa e decadência social, além de adotarem formas de produção de baixo orçamento. A principal diferença estaria no tratamento estético desses temas: enquanto o Cinema Novo buscava conferir dignidade política ao sujeito marcado pela fome e pelo subdesenvolvimento, o Cinema Marginal recorria ao lixo, à abjeção, ao excesso e à fragmentação.
Desbunde e contracultura O comportamento excessivo, corporal e antinaturalista das personagens foi relacionado ao conceito de desbunde, termo que adquiriu conotações políticas durante as décadas de 1960 e 1970. Inicialmente empregado de maneira pejorativa para designar aqueles que teriam abandonado a militância política tradicional, o desbunde também passou a identificar práticas contraculturais que politizavam o corpo, a sexualidade e modos de vida rejeitados tanto pela direita quanto por setores da esquerda.
Segundo João Nemi Neto, embora fosse frequentemente interpretado como alienação, o desbunde constituiu uma resposta política e antiestética à repressão cultural do período. Ao abrir espaço para manifestações não normativas e para identidades minoritárias pouco reconhecidas pela militância convencional, essa postura contribuiu para a aproximação entre o Cinema Marginal, a dissidência sexual e uma estética posteriormente interpretada como queer.
Em Orgia, essa orientação manifesta-se nos gritos, gemidos, danças, rastejamentos, gestos obscenos e comportamentos desordenados das personagens. Em vez do herói popular e politicamente consciente associado a parte do Cinema Novo, o filme reúne figuras marginais que recusam a função de representar heroicamente o sofrimento do povo.
Antropofagia e Movimento Antropofágico right|thumb|180px|Antropofagia no Brasil segundo a descrição de Hans Staden. O filme possui cenas que são comparadas a este ritual. A devoração cultural e literal proposta pelo movimento antropofágico é relacionada à cena em que os índios canibais devoram um recém-nascido. No filme, esse ato é seguido por uma declaração ir de que agora eles estão prontos para entrar na "Civilização da sífilis". Além disso, a travesti recita "Canto de Regresso à Pátria" de Oswald de Andrade, sátira do poema "Canção de Exílio", de Gonçalves Dias..
Um fotograma do filme é usada como capa do livro "Cannibalizing Queer: Brazilian Cinema from 1970 to 2015", de João Nemi Neto. O estudo tem como objetivo teorizar uma sobreposição produtiva entre o queer e a antropofagia.
O autor do livro também situa o filme no ressurgimento da antropofagia como procedimento estético do cinema brasileiro do final da década de 1960. Nesse contexto, a antropofagia é designada como a apropriação, a deformação e a ressignificação de imagens e gêneros culturais preexistentes. Em Orgia, esse procedimento aparece na incorporação paródica de figuras do cangaço, do nacionalismo, da religiosidade, do carnaval e do próprio Cinema Novo, que são “devoradas” e reapresentadas sob uma forma grotesca, marginal e dissidente.
Resistência e crítica à ditadura militar Para Jean-Claude Bernardet, o filme apresenta um carnaval de personagens alegóricos, cuja "avacalhação agressiva" representa tanto elementos associados às raízes do Brasil quanto a conjuntura social durante o regime militar.
Langaro relaciona a degradação corporal, o rebaixamento e a ênfase nos orifícios do corpo ao conceito de corpo grotesco de Mikhail Bakhtin. As personagens cospem, defecam diante da câmera, limpam-se com páginas dos livros do intelectual, comem com as mãos e se retorcem em grunhidos. Segundo essa leitura, a exibição de uma humanidade vulnerável e "suja" contrapõe-se à estética militar de uniformes limpos e corpos disciplinados.
O suicídio do intelectual também é interpretado como metáfora da morte das ideias silenciadas pelos Atos Institucionais.
Ainda segundo João Nemi Neto, o filme deve ser compreendido no contexto das mudanças políticas e materiais que atingiram o cinema brasileiro no final da década de 1960. A promulgação do Ato Institucional n.º 5, em 1968, ampliou a censura e restringiu as liberdades civis, afetando diretamente a produção cinematográfica. Ao mesmo tempo, a criação da Embrafilme aumentou a participação do Estado no financiamento e na distribuição de filmes, favorecendo uma produção considerada politicamente inofensiva e culturalmente conservadora. Nesse cenário, o Cinema Marginal surgiu como uma resposta contracultural tanto à repressão estatal quanto ao esgotamento do Cinema Novo.
Representação de gênero e sexualidade e comparação com Macunaíma (1969)
Ao comparar Orgia ou o Homem que Deu Cria com Macunaíma, a historiadora Janaína Júlia Langaro analisa as representações de gênero nos dois filmes a partir das formulações de Joan Scott e Judith Butler, segundo as quais o gênero não decorre necessariamente do sexo atribuído ao nascimento, mas é constituído por normas, expectativas e práticas socioculturais. Para a autora, enquanto Macunaíma ainda reproduz relações marcadas pela objetificação das mulheres e por concepções tradicionais de masculinidade e feminilidade, Orgia incorpora personagens e situações que desestabilizam essas convenções. miniaturadaimagem|Carmen Miranda, cuja imagem é apropriada pela personagem travesti de Orgia ou o Homem que Deu Cria. Segundo a historiadora Janaína Júlia Langaro, a personagem integra a ruptura promovida pelo filme com as convenções tradicionais de gênero.