thumb|400px|O índice da primeira edição de Primeiras Estórias traz, conto por conto, ilustrações de acordo com esboços feitos pelo próprio Guimarães Rosa, redesenhados depois pelo desenhista Luís Jardim, como este acima, especialmente para "A Terceira Margem do Rio".Rosa, 2014. "A Terceira Margem do Rio" é o conto mais famoso e uma das obras mais influentes de Guimarães Rosa, publicado em seu livro Primeiras Estórias, lançado em 1962.

Narrado em primeira pessoa pelo filho de um homem que decide abandonar a família e toda a sociedade para viver dentro de uma pequena canoa num imenso rio.

Guimarães Rosa dá um tom regionalista e universal ao conto, em estilo de prosa poética e oralidade específica, tratando de grandes dilemas da existência humana.

"A Terceira Margem do Rio" é sempre posicionado como um dos melhores contos ou o melhor da literatura brasileira.Goulart, 2004, p. 129.

Inspiração e escrita No quarto prefácio de Tutameia – Terceiras Estórias (1967), livro de contos, última obra publicada em vida meses antes de sua partida, Guimarães Rosa confessa:

"(...) A "Terceira Margem do Rio" (de Primeiras Estórias) veio-me na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para "pegá-la", como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. (...)"Rosa, 2001, p. 221-223.

Esta curta explicação é dada, no mesmo prefácio, junto a diversas outras explicações de como surgiram outras obras do escritor, geralmente por meio de uma inspiração mágica: "Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponho escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. (...) No plano da arte e criação – já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações." thumb|300px|Avenida Presidente Vargas, 1958. Em relação ao texto "A Terceira Margem do Rio", Rosa não deixou registrado e especificado em qual rua tivera a sua inspiração, mas o colecionador, editor e jornalista João Condé ― que chegou a ter correspondência direta com outros escritores, como João Ribeiro, Gilberto Freyre, Aníbal Machado, Murilo Mendes, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Coelho Neto, entre outros,Jornal Vanguarda correspondências essas guardadas naquilo que Carlos Drummond de Andrade chamava de "Arquivos Implacáveis", milhares de fotografias, caricaturas, cartas, bilhetes, depoimentos etc. relativos a mais de 40 anos da literatura brasileira, figurando importante dentro da fortuna crítica de Guimarães Rosa a carta de 19 onde lhe revela detalhes de como escreveu Sagarana (1946), o livro anterior ―, costumava contar, no início dos anos 1970, na redação do Jornal de Letras, em Copacabana, que fundou junto aos irmãos Elísio Condé e José Condé (escritor que também tivera amizade com Rosa), que Guimarães Rosa teve a ideia súbita de "A Terceira Margem do Rio" em plena Avenida Presidente Vargas, no centro nervoso do Rio de Janeiro.Bueno, 2008.

Às seis da tarde, "hora do rush", Rosa, diplomata e mineiro do interior, acabava de deixar o Palácio do Itamaraty, onde exercia cargo de chefe da Divisão de Fronteiras, e, fumando seu cigarro Yolanda, andava um trecho a pé da larga avenida de quatro pistas e 80 metros de largura. Wilson Bueno, escritor e colega de Condé, relembra o relato em crônica de 2008:

"[...] Homem sensível, de traço feminil, ao perceber-se engolido pelo tráfego pesado, literalmente no meio da rua, Rosa quase tem um chilique. Salva-o o talento de predestinado das letras: tomando a avenida como a metáfora de um rio, fulmina-o, naquele exato instante - destacava o saudoso João Condé -, a ideia daquela que viria a ser uma das mais antológicas peças da literatura brasileira, e de todas as literaturas, o conto “A Terceira Margem do Rio”.

"A peça inteira, leitor, sua montagem e textura, suas engrenagens e engenharias, lhe vem à mente. O seu começo, o seu meio e o seu fim. De um jeito mediúnico e, como se vê, de modo rigorosamente imprevisto.

"Guimarães Rosa, nervoso, ofegante, segue incólume por entre carros, buzinas, urros, freadas, desvios, acenando inutilmente para um táxi, mas já a caminhar na direção do primeiro ponto de ônibus. Não havia tempo a perder.

"O terno elegante encharcado de suor, embarca no primeiro lotação que leve ao Posto Seis, onde vive com Araca, a sua sempre Araci [de Carvalho Guimarães Rosa], no belo apartamento da rua Francisco Otaviano, no que, anos depois, ele próprio detalharia em depoimento célebre: aquela vez, repetia sempre, era como se equilibrasse aos ombros, sem figura de retórica, uma cristaleira.

"Uma cristaleira -enfatizava João Condé, pitando seu Hollywood- de uma cristaleira mesmo, onde tremelicavam, impávidos, os mais finos cristais, isto é, personagens, diálogos, entrechos, tons, entretons, linguagem, embocadura. Toda a dobrante e dobrável estrutura de “A Terceira Margem do Rio”. (...)"

"– “Sabe do que o Rosa mais teve medo aquele dia?” – perguntava o bom Condé, fazendo uma pausa e já antegozando a própria resposta. – “O maior medo dele foi, aquele dia, o de topar com um amigo, sobretudo carioca...”

"– “Como assim?” – perguntei.

"– “Temia, a sério, um abraço, desses efusivos e espalhafatosos, que só os cariocas sabem dar... Podia que fizesse, o abraço, desabar a cristaleira...”"

Estilo e crítica literária Língua portuguesa Entre o registro erudito e o regional (estilo misto ampliado exemplarmente no romance Grande Sertão: Veredas), entre a sintaxe rigorosa e a sincopada, a semântica oficial e o neologismo, críticos têm notado que Rosa trata a língua portuguesa tal como o pai de seu conto: "perto e longe de sua família dele".Azevedo, 2001, p. 66.

Narrativa Para João Adolfo Hansen, Guimarães Rosa

"[...] propõe, enfim, que sua ficção – como prática de um autor e efeito num leitor – produz a forma como indeterminação das mediações lógicas e técnicas das representações que o leitor conhece como critério para estabelecer a verossimilhança dos textos. É o que acontece em “A Terceira Margem do Rio”, de Primeiras Estórias, quando o narrador vai fornecendo motivações para a ação do pai e simultaneamente as elimina, deixando o leitor no ar. Mas adverte: “A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia”, evidenciando a funcionalidade do procedimento de narrar a nu, sem motivação, que pode remeter a leitura para convenções antigas do gênero fantástico e também para o arbitrário moderno do ato da invenção. [...]"Hansen, 2012, p. 128.

Sem, no entanto, abdicar de elementos realistas, a narrativa de "A Terceira Margem do Rio" se compõe de ações em suspensão e suspeita.Araújo, 2016, p. 16. Guimarães Rosa usa de indeterminações das técnicas das representações e mesmo de mediações lógicas familiares ao leitor, flertando com ou mesmo assumindo a prosa poética.Araújo, 2016, págs. 18-19.

Oralidade Sobre a oralidade, o crítico literário Paulo Rónai, em artigo de fevereiro de 1966 sobre os contos de Primeiras Estórias e a obra geral de Guimarães Rosa, observa que os contos de Primeiras Estórias "porejam modismos e fórmulas que estamos habituados a ouvir na boca de pessoas do povo e que, em seu frusto vigor, dão à fala popular sabor e energia deliciosos", destacando, por exemplo, as frases de "A Terceira Margem do Rio": "Nosso pai nada não dizia.", "Do que eu mesmo me alembro", "Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua", "perto e longe de sua família dele", "avisado que nem Noé".Rónai, 1966, p.31-32. Rosa, assim, não seria um escritor que meramente reproduz a linguagem popular, pois também lança mão de neologismos, numa arte que, para Rónai, torna-se "tão provocativamente original".Rónai, 1966, p.32. Destaca outras frases dos outros contos do livro junto às frases "a alguma recomendação" e "pelas certas pessoas", presentes no "A Terceira Margem do Rio", para notar o uso do artigo definido na frente dos adjetivos indefinidos, prática comum na aparência popular e regional e no estilo oral.

Neologismos Como dito anteriormente, Rosa não só retrata um falar popular e sertanejo, como também inventa novas palavras e termos em suas obras. Em "A Terceira Margem do Rio", o neologismo "diluso" é uma variante possível de "diluto", "diluído".

Em carta-resposta de 5 de fevereiro de 1963 para o poeta Murilo Mendes, entre diversos outros apontamentos sobre vários assuntos, Guimarães Rosa escreve:

"(...) Agora, respondendo às consultas: 1) rio-pondo não é nada, é espécie de "in die busîllis", busílis, é rio — pondo perpétuo (o risquinho não é hífen, mas um travessão; foi que, lá na José Olympio, começaram com isto de botar encostadinhos nas palavras os travessões, à moda inglesa, só para confusão nossa, que estamos milenarmente acostumados à maneira nossa, latina, de deixar os ditos — —s afastados decentemente das palavras, pois); 2) quanto ao diluso, Você é que está certíssimo, pois ali a palavra quer dizer "diluído", apagado, esbatido, sfumatto, menos que vulto. (...)"Alçada, 1987, p.62.

Em relação a rio — pondo perpétuo, que deve ter causado confusão em Mendes, fora corrigido nas edições subsequentes e nas modernas, em que surge conforme a preferência de Rosa.

Interpretações e leituras Sociais e marxistas Conforme nota Alfredo Bosi, partindo da elaboração por Karl Marx entre o reino das necessidades (na exploração de uma classe social por outra) e o reino da liberdade (a sociedade comunista):

"Muitas personagens de Primeiras Estórias acham-se privadas de saúde, de recursos materiais, de posição social e até mesmo do pleno uso da razão. Pelos esquemas de uma lógica social moderna, estritamente capitalista, só lhes resta esperar a miséria, a abjeção, o abandono, a morte. O narrador, cujo olho perspicaz nada perde, não poupa detalhes sobre o seu estado de carência extrema. Apesar disso, os contos não correm sobre os trilhos de uma história de necessidades, mas relatam como, através dos processos de suplência afetiva e simbólica, essas mesmas criaturas conhecerão a passagem para o reino da liberdade."Bosi, 2003, págs. 36-37.

A dicotomia entre a necessidade e a liberdade está em textos de Marx, como nos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844 e no terceiro livro de O Capital (publicado postumamente em 1894 por Friedrich Engels), sendo o reino da liberdade um sinônimo para a sociedade comunista; assim, os elementos religiosos do conto são encarados por Bosi da seguinte maneira:

"Guimarães Rosa entra em sintonia com essa 'alma de um mundo sem alma', como Marx define com o maior dos realismos a religião dos oprimidos".Bosi, 2003, p. 37.

A leitura social de "A Terceira Margem do Rio" discute também o quanto o pai do conto encarna a força do patriarcado e a desestruturação da família a partir de seu desvio e distanciamento.Goulart, 2004, p. 134. A distinção entre a suporta submissão do pai ("homem cumpridor, ordeiro, positivo, só quieto") em relação à mãe e sua suposta supremacia ("nossa mãe era quem regia") são discutidos ou até contestados.Idem, p. 134. O tio, irmão da mãe, que vem ajudar na fazenda e nos negócios, encarna o papel da marcha do capital.Goulart, 2004, p. 137.

Psicológicas Em seu artigo de crítica literária de 1966, Paulo Rónai conclui que "A Terceira Margem do Rio" trata da alienação que é "aceita como parte dolorosa da rotina da vida quando se declara paulatinamente".Rónai, 1966, p.22 O narrador do conto iria se contagiando com a demência do pai.Rónai, 1966, p.26.