miniatura|Observado na disciplina, o crescimento de museus é evidência das demandas sociais por historicidade. Na foto, o Museu da Abolição, no Recife, referencia elementos de questões atuais do Brasil: racismo, escravidão, cultura afro-brasileira. miniatura|O presente é um espaço de disputa e constante reescrita. Manifestação em Brasília contra a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil A história do tempo presente é um campo dos estudos históricos voltado à análise das rupturas e permanências do passado no presente. Este campo encontrou, no início do , seus primeiros movimentos de institucionalização em países como a Alemanha e a França, após a Segunda Guerra Mundial. Baseando-se no entendimento ampliado do ofício do historiador, a história do tempo presente pode ser pensada como mais uma renovação no campo da disciplina História ao deslocar o centro da pesquisa histórica do passado para o presente, colocando problemáticas que partem do presente para análise do passado. Deste modo, o que os estudiosos do campo propõem é compreender, a partir do presente, a constituição de permanências e rupturas temporais que, de algum modo, possuem eco ou reverberação na atualidade. Diferentemente da História do presente, da História imediata ou ainda do Jornalismo, a história do tempo presente busca colocar em contexto histórico as sociedades atuais por meio da investigação da construção de seu passado e de seus usos públicos e políticos, argumentando que o tempo presente não é uma dimensão ligada apenas ao imediato, mas sim permeada por camadas de passados, lembranças e experiências.
A emergência da história do tempo presente está em consonância com o surgimento de novas políticas de memória, da investigação de traumas nacionais, do crescimento de demandas sociais por políticas de reparação e da revalorização do acontecimento para entender o processo histórico. Esse campo de estudos é, com frequência, fundamentado na hipótese da eclosão do regime de historicidade presentista, definido por François Hartog como a experiência contemporânea do tempo, em que o futuro deixa de suscitar esperança nos indivíduos. O fim dos regimes totalitários, em meados do , contribuiu para uma nova experiência do tempo, onde o presente passou a ser sentido como em constante mudança, mas levando a um futuro imprevisível e, muitas vezes, pessimista. A capacidade humana de projetar seu futuro e construir suas recordações se veem abaladas, pois o ser humano não tem outro horizonte além de seu próprio presente. Uma das consequências dessa percepção é a tentativa de dar significado aos fenômenos logo após eles ocorrerem, sem esperar que a passagem do tempo possa contribuir para um entendimento melhor do acontecido. Uma evidência dessa nova experiência do tempo está na emergência do desejo por memória, surgido no final do , e que trouxe consigo uma das principais discussões da história do tempo presente: a reinvenção do passado em um tempo de desorientação do presente. Nesse contexto é observável um grande crescimento de filmes, documentários, livros, biografias e museus, que buscaram atender as demandas sociais por historicidade e sentido do tempo presente.
A perspectiva da história do tempo presente encontra suas primeiras institucionalizações em países europeus a partir do interesse pela história das grandes guerras mundiais e pelo testemunho. Nos anos 2000, este campo surge na América Latina, em especial no Brasil, através de estudos voltados para a análise da ditadura civil-militar. O entendimento da diversidade temática e de enfoque nas diferentes emergências nacionais da história do tempo presente ajuda a entender que o campo não é isento de tensões e que articula uma série de noções fundamentais e fatores gravitacionais a partir de diferentes focos de análise. Dada a sua proposta voltada em especial ao estudo dos estratos de tempo que compõem o presente, as abordagens do campo passaram por uma série de críticas. A resposta a essas críticas fez a história do tempo presente se reestruturar em torno de eixos centrais de estudo como a cultura política, as discussões sobre memória e os usos do passado.
Emergências nacionais Alemanha
miniaturadaimagem|upright=1|O instrumento da rendição alemã que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial, assinado em Reims no dia 7 de maio de 1945 A Alemanha foi o primeiro país a formar o campo da história do tempo presente, que emergiu de maneira sistemática a partir da década de 1950. O principal termo utilizado para definir o campo é Zeitgeschichte, que remete a discussões em torno da ideia de uma reconstrução crítica do passado. A história do tempo presente teve início a partir dos debates sobre a noção de História Contemporânea (isto é, a historiografia da Idade Contemporânea), liderados por Hans Rothfels, em 1953, e que buscou delimitar temporalmente o início do que poderia ser considerado a história recente. Os debates emergiram em torno das análises sobre a história a partir do ano de 1917, pensando o viés político e as marcas da Primeira Guerra Mundial, e passou a incorporar progressivamente eventos recentes, a exemplo da Segunda Guerra Mundial.
Desde os primeiros defensores da história do tempo presente, em 1953, observa-se um crescente movimento de historiadores dedicados ao estudo sobre o passado próximo na Alemanha, principalmente em referência aos traumas e a história política recente. Se na fase inicial de consolidação do campo os estudos eram voltados ao Nazismo e ao período da Segunda Guerra Mundial, a partir das décadas de 1980 e 1990 as abordagens passaram a privilegiar estudos sobre a noção de tempo, memória e patrimônio. Uma segunda temática em crescimento é a história do país após 1990, em particular sobre os principais eventos dentro das últimas décadas pensados nas suas relações com o final do século XX. Além disso, há também o peso de pesquisadores de outras áreas, em especial do jornalismo e das ciências sociais, nos debates atuais e na produção bibliográfica recente sobre a história das últimas décadas no país. Entre vários pesquisadores debruçados sobre a história recente, há um enfoque nas relação dos principais eventos com as expectativas e experiências na Alemanha e na Europa do Pós-Guerra, contribuindo diretamente para as discussões sobre a própria ideia de história do tempo presente e as relações passado, presente e futuro.
Estados Unidos
alt=|esquerda|upright=1|miniaturadaimagem|Manifestação em 5 de Setembro de 2017 contrárias às recentes perseguições a migrantes latino-americanos ilegais nos Estados Unidos.
O desenvolvimento da história do tempo presente nos Estados Unidos esteve ligado ao campo da História Oral. A institucionalização da História Oral, associada a perspectiva do Tempo Presente, surgiu em 1950, ganhando força nos anos 1960 com o desenvolvimento de projetos voltados ao registro das recordações da sociedade estadunidense. Esses projetos, na área de História Oral, não estavam necessariamente ligados ao meio acadêmico, sendo também desenvolvidos por movimentos sociais e associados à luta por direitos das mulheres, negros, LGBT's e migrantes. A partir da década de 1960, os estudos que envolveram temas considerados próximos temporalmente também cresceram no ambiente acadêmico e escolar, incluindo as abordagens econômicas e políticas, através de temas como a crise de 1929, as migrações e a classe trabalhadora. Essas pesquisas foram diretamente influenciadas pela expansão da História Social e da História Contemporânea, com ênfase no estudo de conflitos.
A partir das décadas de 1980 e 1990 as discussões sobre a história recente ocuparam um lugar central, com o lançamento de uma série de livros e pelo crescimento da incorporação de conteúdos ligados ao nos currículos estadunidenses, tanto acadêmicos quanto escolares. Esse processo caminhou junto com a expansão dos questionamentos sobre o problema da memória na década de 1980 ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, em especial, visualiza-se a incorporação de discussões sobre a história, assim como sobre a memória, em diversos suportes como o rádio, a televisão e o cinema, expandindo as discussões sobre os significados do passado e marcando um conjunto de evidências que sustentam a hipótese do regime de historicidade presentista, desenvolvida por François Hartog. De maneira bastante semelhante, o historiador estadunidense Timothy Snyder promoveu uma série de reflexões em torno da realidade atual dos Estados Unidos e das principais permanências sociais e políticas do , como movimentos de extrema-direita ou ainda as políticas migratórias. Para o autor, seria necessário voltar os olhos ao passado para ter uma melhor compreensão do presente, em tempos onde a lembrança da violência dos governos totalitários estaria cada vez mais espalhada.
Após o 11 de setembro de 2001, tem-se um novo marco da história do tempo presente nos Estados Unidos, por causa da discussão sobre um presente alargado e marcado pelo peso deste que foi considerado pelos estadunidenses como o trauma nacional mais recente e pelos temores em relação ao surgimento de novos movimentos autoritários após a eleição de Donald Trump. Essas preocupações colocaram em evidência que o presente se explica por si mesmo, mas que possui permanências, rupturas e muito a alertar sobre o que já aconteceu. Nota-se na historiografia do tempo presente, ligada aos Estados Unidos, uma abordagem global de análise, de perspectiva conectada espacialmente e com o desenvolvimento de reflexões sobre as inter-relações entre passado, presente e futuro. Os historiadores ligados à história do tempo presente entendem que os eventos do passado podem ou não ser esquecidos, banalizados ou, ainda, tornarem-se ofuscadores da compreensão do presente e do horizonte de expectativa em relação ao futuro.
França
upright=1|miniaturadaimagem|Ocupação alemã na França durante a Segunda Guerra Mundial
Na França, a história do tempo presente emerge na década de 1970 como um campo de estudo dedicado à análise de fenômenos contemporâneos da história nacional, em especial no que diz respeito à Segunda Guerra Mundial. Este processo foi acompanhado não só por historiadores interessados no campo, mas também pelo próprio Estado francês, que tomou a iniciativa de investigar, analisar e interpretar os eventos históricos mais recentes do país. Neste sentido, muitos pesquisadores desenvolveram pesquisas que tiveram como temas centrais o trauma, o testemunho, a memória e o acontecimento, tomando como ponto de partida a Segunda Guerra Mundial ou, mais especificamente para alguns, o regime de Vichy. A discussão sobre a história do regime é marcada pelo reconhecimento do colaboracionismo da França, ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, em relação às políticas antissemitas alemãs. A história do tempo presente, no contexto francês, colocou em debate o papel social dos historiadores franceses que foram, em várias ocasiões, convocados a participar de pesquisas e investigações relativas ao que seria compreendido, para estes mesmos pesquisadores, como a mais recente catástrofe de seu país: a Segunda Guerra Mundial e o colaboracionismo da França com o Terceiro Reich.