Luísa Isabel (em francês: Marie Louise-Élisabeth; Versalhes, – Versalhes, ) foi a esposa do duque Filipe I e Duquesa Consorte de Parma, Placência e Guastalla de 1748 até sua morte, sendo a governante de facto dos ducados.

Nascida uma princesa da França, filha primogênita do rei Luís XV e de Maria Leszczyńska, Luísa Isabel foi usada como instrumento político em um casamento destinado a fortalecer as alianças entre as potências católicas da França e da Espanha, unindo-se ao infante Filipe de Bourbon, segundo filho do rei Filipe V da Espanha e de Isabel Farnésio. Ambiciosa e determinada, ela jamais se conformou com o destino que lhe foi imposto, pois se via desiludida e relegada a um papel secundário ao lado de um príncipe sem direito ao trono. Sua ambição levou-a a envolver-se nas intrigas da corte, empenhada em alcançar seus objetivos políticos e conquistar para si e para o marido um reino próprio.

Pelo Tratado de Aquisgrão de 1748, seu marido, Filipe, tornou-se Duque de Parma, fundando a Casa de Bourbon-Parma. Inteligente e politicamente ativa, ela participava de todas as decisões do governo e mantinha forte ligação com a França, buscando sempre ampliar o poder e prestígio de sua família. Considerava a Espanha como rival e apoiou alianças que favorecessem os interesses franceses, como o Tratado de Versalhes de 1756. Exerceu grande influência política, mas morreu jovem em 1759, aos 32 anos, sem alcançar a posição de rainha que tanto desejava, ainda assim garantindo casamentos vantajosos para seus filhos com os herdeiros da França e da Áustria.

Personalidade miniaturadaimagem|esquerda|Retrato póstumo de Luísa Isabel da França, Duquesa de Parma, em traje de corteJean-Marc Nattier, 1761 Madame Infante é frequentemente descrita como uma pessoa de personalidade firme, consciente de sua posição e dotada de "uma vontade bastante determinada". Em Versalhes, seus contemporâneos destacavam com frequência sua presença precoce na corte, onde, ainda muito jovem, recebia mulheres de alta posição e embaixadores. Demonstrou também notável interesse pelos assuntos políticos e administrativos, além de firmeza de caráter, especialmente quando, já estabelecida em Madrid, surgiu a questão de assegurar uma residência para si e para Dom Filipe. Essa ambição manifesta-se claramente na pintura de Van Loo, A Família de Filipe V, em que ela aparece em posição central na composição, próxima à coroa, símbolo da glória e da grandeza às quais a filha mais velha do rei da França aspirava desde a infância.Peyrat, M. (2025). "Introduction". In Madame Infante à la cour de Parme. Rennes: Presses universitaires de Rennes. pp. 17-30. https://doi.org/10.4000/13j9x.

Primeiros anos miniaturadaimagem|Luísa Isabel e sua irmã gêmea, Henriqueta Ana, retratadas em uma pintura atribuída a Pierre Gobert, por volta de 1737 Nascida em 14 de agosto de 1727, no Palácio de Versalhes, junto com sua irmã gêmea Henriqueta Ana, Luísa Isabel foi a primogênita do rei Luís XV da França e de sua esposa Maria Leszczyńska.. Quando ela e sua irmã gêmea nasceram, o rei Luís XV, que se tornou pai aos dezessete anos, emocionado, exclamou: "On m'avait dit incapable d'engendrer et j'ai fait coup double" (Em português, "Foi me dito que era impotente e dei um um golpe duplo").Maucort. É. À l'ombre d'un chêne: Fils de Louis XIV, de Louis XV, de Napoléon: trois vies en marge de l'Histoire (em francês). Quint'feuille, 2022. ISBN 9782373970968. Luísa Isabel foi batizada na Capela de Versalhes no dia 27 de abril de 1737, tendo como padrinhos o Duque de Chartres e sua homônima, a Princesa de Conti. Na corte, ela era conhecida como Madame Première ou Madame Royale ("Madame Real"), título tradicional concedido à filha solteira mais velha do monarca francês,. ou simplesmente como Madame. O rei a chamava de Babette.Gooch. G.P. Louis XV: The Monarchy in Decline (em inglês). Longmans, 1962, p. 132.

Ela foi criada em Versalhes, junto com suas duas irmãs, Henriqueta Ana e Maria Adelaide, e seu irmão, Luís Fernando, Delfim da França. Juntamente com o delfim, foi a única entre seus dez irmãos a se casar. Ao contrário de suas irmãs mais novas, Vitória, Sofia Filipina e Luísa Maria, que foram enviadas para a Abadia de Fontevraud para serem criadas,Poignant. S. «L'Abbaye de Fontevrault et les filles de Louis XV (em francês). Nouvelles éditions latines, Paris, 1966, p. 186. Luísa Isabel cresceu no seio de uma família amorosa. Inteligente e precoce, ela se parecia fisicamente com o pai, sendo sua filha favorita.Hopkins. D. R. The Greatest Killer: Smallpox in History (em inglês). University of Chicago Press, 2002, p. 61. ISBN 9780226189529.

Casamento Antecedentes miniaturadaimagem|esquerda|260px|A Família de Filipe V em 1723, por Jean Ranc; no centro, Filipe, acompanhado da mãe Isabel Farnésio Após a Guerra da Sucessão Espanhola (1700–1713), um monarca Bourbon assumiu o trono em Madrid. Contudo, logo as ambições da Espanha passaram a divergir das diretrizes políticas da França. Filipe V recusou-se a aceitar o Tratado de Utrecht, que lhe retirara diversos territórios da Coroa Espanhola, especialmente na península Itálica. Após casar-se com Isabel Farnésio em 1714, o rei empreendeu várias tentativas de recuperar influência na Itália. A primeira, com as expedições à Sardenha e à Sicília em 1717 e 1718, terminou em fracasso. Já a segunda, mais bem-sucedida, garantiu a Dom Carlos a herança Farnésio, que ele posteriormente renunciou em troca dos reinos de Nápoles e da Sicília, conquistados durante a Guerra da Sucessão Polonesa (1733–1738). Nesse período, as relações entre França e Espanha oscilaram entre crises e reaproximações. A devolução à Espanha da jovem infanta Mariana Vitória pela França em 1725 afastou temporariamente as duas monarquias. Entretanto, após os êxitos alcançados pela aliança de 1733, Filipe V, buscando fortalecer ainda mais os laços entre os dois ramos da Casa de Bourbon, propôs em 1739 o casamento de seu filho mais novo, Filipe, com uma filha de Luís XV.

Em 30 de março de 1739, o Cardeal de Fleury, após mostrar a Madame um retrato de Filipe de Bourbon pela primeira vez, relatou o ocorrido ao Conde de La Marck, embaixador do rei em Madrid: "Inicialmente, tentei disfarçar o retrato com outro nome para ver o que ela diria, mas ela não se enganou e, com grande alegria, respondeu que era o retrato do Infante Dom Filipe. Ela ficou completamente satisfeita e, se tivesse ousado, acredito que teria beijado o retrato com todo o seu coração."Stryienski, C. (1904). Le gendre de Louis XV, Don Philippe: Infant d'Espagne et duc de Parme, d'après des documents inédits tirés des archives de Parme, des archives des Affaires étrangères. Paris: Librairie Plon, pp. 15-16. A notícia logo se espalhou. Em 23 de agosto, o Marquês de La Mina chegou com grande cerimônia para pedir a mão de Madame em casamento ao rei, pedido que ela aceitou prontamente.

Cerimônia de casamento e e partida para a Espanha

O noivado foi recebido com desagrado na corte francesa, pois Filipe era apenas o terceiro na linha de sucessão ao trono, o que tornava remota a possibilidade de vir a reinar na Espanha. O jurista Barbier registrou em seu diário: "Parece extraordinário que a filha mais velha da França não se case com uma cabeça coroada." Já o marquês d’Argenson sugeriu que a união fora planejada apenas com o intuito de preparar o infante para se tornar o futuro rei de Nápoles e da Sicília. A própria Luísa Isabel via seu destino como menos glorioso do que julgava merecer e, ao ser perguntada se ficaria satisfeita em ser chamada de Infanta, teria reagido com uma expressão de desdém.Latour. L.-T. (1927). "The Daughters Of Louis XV". In Princesses Ladies and Salonnières of the Reign of Louis XV (em inglês). Traduzido por Ivy E. Clegg. Kegan Paul, Trench, Trübner & Co, pp. 219-261. A cerimônia de casamento aconteceu em 26 de agosto, na capela do Palácio de Versalhes, onde o Duque de Orleães se casou por procuração com aquela que passou a ser denominada Madame Infante. Seguiram-se vários dias de celebrações, marcados por grande brilho e solenidade, até o momento da separação.Moine, M.-C. (1991). Les fêtes du mariage de Madame Première à Versailles les 26 janvier et 26 août 1739. Bibliothèque de l’École des Chartes, 149 (1), pp. 107‑129.

Na manhã de 31 de agosto, Luísa Isabel despediu-se da família. O Duque de Luynes relata o comovente episódio em suas Mémoires. Maria Leszczyńska conversou com a filha por meia hora. O rei, por sua vez, empalideceu quando ela entrou em seus aposentos privados, onde houve ainda mais choro de ambos os lados. Antes de partirem, as irmãs gêmeas, Luísa Isabel e Henriqueta Ana, abraçaram-se, irrompendo em lágrimas, e, sem conseguir se separar, disseram: "É para sempre". Luísa Isabel, de treze anos, então entrou em sua carruagem, na qual Luís XV sentou-se ao seu lado, acompanhando-a por algumas léguas. O monarca aproveitou esses momentos finais para oferecer à filha seus últimos conselhos. Aconselhou-a a considerar o Rei da Espanha "como seu tio e como seu pai", acrescentando que ela não deveria ter "nenhuma outra aplicação ou preocupação senão a de agradá-lo". Por fim, Luís XV pediu-lhe que "se lembrasse de tudo o que vira em Versalhes, porque o Rei Católico, que conhecia bem aquele lugar, certamente lhe faria muitas perguntas". Já em Plessis-Picquet, pai e filha se abraçaram pela última vez antes de a princesa seguir para Saint-Jean-Pied-de-Port e depois para a fronteira espanhola.

Na Espanha Ao chegar em Madrid, Luísa Isabel impressionou positivamente os sogros, sendo tratada com grande respeito e rapidamente se tornando uma figura admirada na cidade. Madame Infante também conheceu seu marido, Dom Filipe, um jovem de 18 anos com um temperamento equilibrado, rosto encantador e interesse por leitura, especialmente sobre assuntos militares, embora ainda apresentasse alguns traços infantis, como vaidade.

miniaturadaimagem|esquerda|Luísa Isabel da França, esposa do Infante Filipe, futuro Duque de ParmaLouis-Michel van Loo, 1745 A vida de Madame Infante na corte espanhola foi relativamente tranquila, sem o brilho de Versalhes, mas sob a orientação de sua sogra, Isabel Farnésio, ela adquiriu muito conhecimento, especialmente sobre política. A rainha expressou satisfação com sua pupila, escrevendo ao Bispo de Rennes sobre Luísa Isabel: "Ela observa e escuta com grande atenção, nunca deixando transparecer qualquer indício de indiscrição. Em resumo, desde sua chegada, não há nada a ser recriminado em sua conduta". No entanto, o relacionamento com a sogra, logo se tornou tenso. A rainha não gostou da falta de pagamento do dote da princesa pela França, nem da ausência de apoio francês na guerra contra a Grã-Bretanha. Além disso, após algum tempo, Isabel percebeu que não conseguiria controlar Luísa Isabel como fazia com seu filho, e temeu que a nora pudesse ter mais influência sobre ele do que ela própria. De fato, Madame Infante logo passou a dominar seu marido. Embora ele fosse oito anos mais velho que ela, ele, assim como seu pai, era supostamente tímido, passivo e submisso. Luísa Isabel, embora sentisse afeição por ele, geralmente o tratava como se fosse "um menino muito mais jovem", apesar da diferença de idade. O Duque de Luynes observou mais tarde: "Embora o príncipe, aos vinte e oito anos, seja tão infantil como aos quatorze ou quinze, ele tem, no entanto, uma consideração afetuosa pela infanta".

miniaturadaimagem|300px|Detalhe da pintura A Família de Filipe V (1745) por Louis-Michel van Loo; no centro, Madame Infante, acompanhada do marido e de membros da família real espanhola