A eleição presidencial nos Estados Unidos em 2020 foi realizada em 3 de novembro, uma terça-feira. Foi a 59.ª eleição presidencial do país. O ex-vice-presidente democrata Joe Biden derrotou o presidente republicano Donald Trump. A senadora Kamala Harris se tornou a primeira mulher a ser eleita vice-presidente. Foi a primeira vez desde a eleição de 1992 que um presidente não foi reeleito, com Biden ganhando a maior fatia de voto popular para um opositor a um presidente incumbente desde 1932. A eleição registrou a maior participação popular desde 1900, sendo que a chapa Biden-Harris atingiu a maior quantidade de votos na história do país, superando os 81 milhões; Trump, com 74 milhões, se tornou o segundo presidenciável mais votado da história.
Eleito na última eleição, Trump candidatou-se à reeleição e em março de 2020 atingiu a quantidade de delegados necessária para ser nomeado o candidato republicano para a presidência. Na oposição democrata, as primárias contaram com dezenas de candidatos relevantes e, em abril de 2020, Biden se converteu no presumível candidato do partido com a desistência do senador Bernie Sanders. Biden então escolheu Harris como sua vice, tornando-a a primeira mulher negra a concorrer ao cargo por um grande partido. Outras agremiações menores, como o Libertário e o Verde, também escolheram seus candidatos presidenciais.
A disputa presidencial ocorreu simultaneamente com as eleições para todos os assentos da Câmara dos Representantes e parte dos do Senado, além de vários cargos a níveis estadual e local. Os temas da campanha eleitoral incluíram o impacto da pandemia de COVID-19, que deixou mais de duzentos mil mortos no país no momento da votação, a morte da juíza associada Ruth Bader Ginsburg e a indicação de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, o sistema de saúde, as mudanças climáticas e os protestos antirracistas, assim como a interferência estrangeira, assuntos relacionados ao voto antecipado e o reconhecimento dos resultados. Biden e Trump foram os candidatos presidenciais mais idosos já designados pelos maiores partidos.
A eleição registrou um número histórico de votos antecipados em decorrência da pandemia, fazendo com que a apuração fosse mais lenta em alguns estados. A vitória de Biden foi projetada em 7 de novembro, mas Trump recusou-se a aceitar sua derrota, proferindo reiteradas alegações infundadas sobre fraudes, ingressando com diversas ações judiciais e buscando outros meios para reverter os resultados nos estados. Nenhum desses esforços foi exitoso. Em meados de dezembro, o Colégio Eleitoral formalizou a vitória da chapa Biden-Harris, com 306 votos, contra 232 para Trump e seu vice, Mike Pence. Em 6 de janeiro de 2021, em meio a tumultos, o Congresso dos Estados Unidos, numa sessão simbólica, contou os votos do colegiado e ratificou oficialmente a vitória de Biden.
Processo eleitoral
O Artigo II da Constituição dos Estados Unidos estabelece os critérios de elegibilidade para o cargo de presidente, exigindo que este deve ser um cidadão nato, ter ao menos 35 anos de idade e ser residente nos EUA por ao menos catorze anos. Embora candidaturas independentes sejam permitidas, todos os presidentes desde George Washington pertenciam a um partido político, que utilizam métodos próprios para escolher seus candidatos. Os principais partidos, Democrata e Republicano, realizavam eleições primárias nos estados e territórios em que os eleitores votavam em uma lista de delegados comprometidos a apoiar um determinado candidato na convenção partidária. O candidato a presidente normalmente escolhe um vice-presidente para compor a chapa, com a decisão sendo posteriormente ratificada pelos delegados.
A eleição geral em novembro também era indireta. Os candidatos vencedores em cada estado e no Distrito de Colúmbia ganhavam o número de votos que estes possuíam no Colégio Eleitoral, onde era necessário reunir 270 votos para vencer a eleição. A quantidade de votos no Colégio Eleitoral era definida pelo número de representantes e senadores eleitos pelos estados. Como cada estado conta com dois senadores e o número de representantes era determinado pela quantidade de habitantes, estados mais populosos possuíam mais votos. Assim, enquanto o candidato vencedor na Califórnia garantia 55 votos no Colégio Eleitoral, o que fosse vitorioso em Wyoming recebia apenas três. Se nenhum candidato reunisse os 270 votos necessários, a Câmara dos Representantes determinaria o presidente dentre os três candidatos que receberam o maior número de votos no Colégio Eleitoral, e o Senado selecionaria o vice-presidente entre os dois candidatos que receberam mais votos.
A Vigésima Segunda Emenda à Constituição estabelece que ninguém pode ser eleito para o cargo de presidente mais do que duas vezes; não há limites de mandato para vice-presidentes. Deste modo, os ex-presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama eram inelegíveis para disputarem a eleição presidencial de 2020; Jimmy Carter, que cumpriu apenas um mandato, era o único ex-presidente elegível. Ademais, a eleição presidencial de 2020 ocorreu simultaneamente com as eleições legislativas, para a Câmara dos Representantes e o Senado, bem como para governos e legislaturas de alguns estados.
Contexto
thumb|O presidente eleito Donald Trump cumprimentando Barack Obama, ao lado de Joe Biden, em janeiro de 2017 O empresário republicano Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos na eleição de 2016 após derrotar a democrata Hillary Clinton, um resultado considerado surpreendente pela maioria dos analistas, imprensa e políticos. Embora tenha recebido 2,8 milhões de votos a menos que Clinton, Trump conseguiu 306 votos no Colégio Eleitoral, ante 232 da rival. O Partido Republicano também manteve o controle do Congresso. Empossado em janeiro de 2017, Trump sancionou um corte de impostos, indicou dois juristas conservadores para a Suprema Corte, retirou os EUA da Parceria Transpacífica e do Acordo de Paris, engajou-se em uma guerra comercial com a China e buscou revogar o Obamacare, assim como diversas políticas de Obama.
De acordo com a Gallup, a popularidade de Trump durante seu mandato variou de 35-49%, com 40% de média. Nas eleições de 2018, os democratas recuperaram a maioria na Câmara pela primeira vez desde 2011. Em 2019, o conselheiro especial Robert Mueller reafirmou a interferência russa nas eleições de 2016 e não isentou Trump de responsabilidade. Em dezembro, o inquérito conduzido pela Câmara concluiu que Trump havia solicitado ajuda da Ucrânia para interferir na eleição presidencial de 2020 de modo a favorecer sua candidatura à reeleição. Em dezembro, a Câmara aprovou dois artigos de impeachment contra o presidente, acusando-o de abuso de poder e obstrução do Congresso. No início de 2020, Trump foi absolvido pelo Senado de ambas as acusações.
Vários eventos relacionados à eleição presidencial de 2020 foram alterados ou adiados por conta da pandemia de COVID-19. Em março de 2020, Trump, Biden e Sanders anunciaram uma pausa nos eventos de campanha presenciais, dando lugar a uma campanha realizada virtualmente pela internet. A Convenção Nacional Democrata foi adiada de julho para agosto, bem como 16 estados postergaram suas primárias. A legislação sancionada para minorar os efeitos da pandemia estabeleceu recursos financeiros aos estados para que ampliassem a votação por correspondência; a campanha de Trump se opôs fortemente à medida, argumentando que esta propicia fraudes, o que foi rejeitado por especialistas. No final de junho, Trump retomou os eventos de campanha presenciais.
Nomeações Partido Republicano
Primárias thumb|210px|Trump durante comício em Huntington, Virgínia Ocidental, em agosto de 2017
A campanha à reeleição de Donald Trump esteve essencialmente em andamento desde sua vitória em 2016, levando especialistas a descrever sua tática de realizar comícios continuamente durante toda a presidência como uma "campanha sem fim". Às 17h11min de 20 de janeiro de 2017, dia em que foi empossado, Trump submeteu a documentação necessária para legalmente declarar sua candidatura para 2020. Como ocorre nas primárias em que os presidentes incumbentes são candidatos a um novo mandato, a disputa pela nomeação partidária é geralmente pró-forma, com uma oposição simbólica que não apresenta candidaturas adversárias fortes. No caso de Trump, o aparato republicano, a níveis estadual e nacional, mobilizou-se para implementar mudanças que dificultassem qualquer candidatura dissidente. Em janeiro de 2019, o Comitê Nacional Republicano endossou Trump.
Vários comitês estaduais republicanos cancelaram suas respectivas primárias ou caucuses. Como justificativa, as agremiações citaram o fato de que os republicanos cancelaram várias primárias estaduais quando George H. W. Bush e George W. Bush buscaram um segundo mandato em 1992 e 2004, respectivamente, bem como que os democratas fizeram o mesmo quando Bill Clinton e Barack Obama foram candidatos à reeleição em 1996 e 2012, respectivamente. Após cancelarem suas prévias, alguns desses estados, como Havaí e Nova Iorque, imediatamente comprometeram seus delegados a apoiar Trump, enquanto outros estados como Kansas e Nevada realizaram formalmente uma convenção ou reunião para distribuir oficialmente seus delegados.
A partir do segundo semestre de 2017, surgiram relatos de que republicanos, particularmente das alas moderadas e do establishment, estavam preparando uma campanha contra Trump. O senador John McCain disse: "Os republicanos veem fraqueza neste presidente". Os senadores Susan Collins e Rand Paul e o ex-governador Chris Christie expressaram dúvidas sobre se Trump seria o candidato republicano em 2020; Collins declarou que era "muito difícil dizer". Ao mesmo tempo, o senador Jeff Flake argumentou que Trump estava instigando uma candidatura republicana opositora pela maneira como governava.
thumb|Bill Weld em 2016. Nas prévias de 2020, Weld foi o opositor republicano a Trump que recebeu a maior quantidade de votos populares
Em abril de 2019, Bill Weld declarou sua candidatura à nomeação republicana; Weld foi governador de Massachusetts e o candidato a vice-presidente do Partido Libertário em 2016. A chance de sua candidatura ser exitosa era vista como improvável por conta da popularidade do presidente entre os republicanos e as visões políticas de Weld em questões como aborto, controle da venda de armas e casamento entre pessoas do mesmo sexo, que conflitavam com as posições conservadoras em relação a estes temas. Também ex-governador, Mark Sanford, da Carolina do Sul, declarou-se candidato em setembro de 2019, mas desistiu 65 dias depois.
Em agosto de 2019, Joe Walsh, ex-representante pelo Illinois, anunciou sua candidatura, declarando: "Vou fazer o que puder. Não quero que [Trump] vença. O país não pode permitir que ele vença. Se não tiver sucesso, não vou votar nele". Walsh desistiu em fevereiro de 2020, depois de obter cerca de 1% de apoio no caucus de Iowa. Após anunciar sua decisão, Walsh afirmou que "ninguém poderia derrotar Trump nas primárias republicanas" porque o Partido Republicano era agora "um culto" a Trump. Para Walsh, os apoiadores do presidente se tornaram "seguidores" pois, após absorverem informações erradas "da mídia conservadora", creem que Trump "não pode fazer nada errado": "Eles não sabem o que é a verdade e — mais importante — eles não se importam".
Durante seu mandato, Trump manteve um alto nível de aprovação entre os republicanos. Em fevereiro de 2020, a Gallup informou que 94% dos republicanos aprovavam sua gestão. Neste contexto, Trump venceu todas as prévias republicanas, atingindo em 17 de março de 2020 a quantidade necessária de delegados para ganhar a nomeação. Weld desistiu de sua candidatura no dia seguinte. Ao final das prévias, Trump recebeu 18,1 milhões de votos (94%), ante 453 mil de Weld (2,3%) e 173 mil de Walsh (0,9%).
Chapa