thumbnail|upright=1.6|Lago Nyos menos de um mês após a erupção límnica O desastre do Lago Nyos ocorreu em 21 de agosto de 1986, quando uma erupção límnica no Lago Nyos, no noroeste de Camarões, matou 1.746 pessoas e 3.500 cabeças de gado.
A erupção desencadeou a liberação repentina de cerca de 100 mil a 300 mil toneladas de dióxido de carbono (). A nuvem de gás subiu inicialmente a quase 100km/h e então, sendo mais pesada que o ar, desceu sobre aldeias próximas, sufocando pessoas e animais a até 25km do lago.
Um sistema de desgaseificação foi instalado no lago, com o objetivo de reduzir a concentração de nas águas e, portanto o risco de novas erupções. Juntamente com o desastre do Lago Monoun dois anos antes, é uma das duas únicas erupções límnicas registadas na história humana moderna.Ohba, Takeshi, et al. "A Depression Containing CO2-Enriched Water at the Bottom of Lake Monoun, Cameroon, and Implications for the 1984 Limnic Eruption." Frontiers in Earth Science, vol. 10, maio de 2022, p. 766791. DOI.org (Crossref), https://doi.org/10.3389/feart.2022.766791.
Erupção e liberação de gás Não se sabe o que desencadeou a catastrófica liberação de gases. A maioria dos geólogos suspeita de um deslizamento de terra, mas alguns acreditam que uma pequena erupção vulcânica pode ter ocorrido no leito do lago. Uma terceira possibilidade é que a água fria da chuva que caiu em um dos lados do lago tenha desencadeado a inversão. Outros cientistas sugerem que nenhuma ação externa é necessária para iniciar esse evento. “A estratificação horizontal da coluna d'água se deve à difusão diferencial de e calor, mas, ao contrário do sal (que estabiliza a estratificação termohalina dos oceanos), o dióxido de carbono tem uma solubilidade limitada pela temperatura, tornando a estratificação intrinsecamente instável. Assim, não há necessidade de um gatilho externo (deslizamento de terra, terremoto ou chuva forte) para perturbar a estratificação do lago. Uma vez que as bolhas de se nucleiam dentro de uma camada saturada da água do lago, elas sobem e crescem, atraindo em seu rastro água mais profunda disponível para exsolução, alimentando o processo de reação em cadeia: todo o lago se vira através de uma coluna ascendente de bolhas que sobem e se expandem.”
O evento resultou na rápida mistura da água profunda supersaturada com as camadas superiores do lago, onde a pressão reduzida permitiu que o armazenado efervescesse da solução.
Acredita-se que sejam cerca de 1,2 quilômetro cúbico de gás foram liberados. As águas normalmente azuis do lago ficaram vermelho-escuras após a liberação de gases, devido à água rica em ferro das profundezas subir à superfície e ser oxidada pelo ar. O nível do lago baixou cerca de um metro e árvores próximas foram derrubadas.
Os cientistas concluíram, com base em evidências, que uma coluna de água e espuma de 100metros formou-se na superfície do lago, gerando uma onda de pelo menos 25 metros que varreu a costa de um dos lados do lago.
Como o dióxido de carbono é 50% mais denso que o ar, a nuvem permaneceu próxima ao solo e desceu pelos vales, onde havia diversas aldeias. A massa era de cerca de 50 metros de espessura e desceu a uma velocidade de 20-50 quiômetros por hora. Por aproximadamente 23 quilômetros, a nuvem de gás estava concentrada o suficiente para sufocar muitas pessoas enquanto dormiam nas aldeias de Nyos, Kam, Cha e Subum. Cerca de 4 mil habitantes fugiram da área e muitos deles desenvolveram problemas respiratórios, lesões e paralisia como resultado da nuvem de gás.
É possível que outros gases vulcânicos tenham sido liberados juntamente com o , já que alguns sobreviventes relataram um cheiro de pólvora ou ovos podres, o que indica que o dióxido de enxofre e o sulfeto de hidrogênio estavam presentes em concentrações acima de seus limiares de odor. No entanto, o foi o único gás detectado em amostras de água do lago, sugerindo que este foi o gás predominante liberado e, como tal, a principal causa do incidente.
Efeitos nos sobreviventes miniaturadaimagem|Gado sufocado por dióxido de carbono do Lago Nyos Repórteres na área descreveram a cena como "parecendo o resultado de uma bomba de nêutrons". Um sobrevivente, Joseph Nkwain de Subum, descreveu-se quando acordou após o impacto dos gases:
Após a erupção, muitos sobreviventes foram tratados no principal hospital de Iaundé, a capital do país. Acreditava-se que muitas das vítimas haviam sido envenenadas por gases à base de enxofre. O envenenamento por esses gases causaria dores ardentes nos olhos e no nariz, tosse e sinais de asfixia semelhantes aos de estrangulamento.
Entrevistas com sobreviventes e estudos patológicos indicaram que as vítimas perderam a consciência rapidamente e que a morte foi causada por asfixia por . Em níveis não letais, o pode produzir alucinações sensoriais, de modo que muitas pessoas expostas ao relatam o odor de compostos sulfúricos quando nenhum está presente. As lesões de pele encontradas nos sobreviventes representam úlceras de pressão e, em alguns casos, exposição a uma fonte de calor, mas não há evidências de queimaduras químicas ou de queimaduras por exposição a gases quentes.
Desgaseificação A dimensão do desastre levou a estudos sobre como uma recorrência poderia ser evitada. Vários pesquisadores propuseram a instalação de colunas de desgaseificação em jangadas no meio do lago. O princípio é liberar lentamente o elevando a água saturada do fundo do lago através de um tubo, inicialmente usando uma bomba, mas apenas até que a liberação de gás dentro do tubo eleve naturalmente a coluna de água efervescente, tornando o processo autossustentável.
A partir de 1995, estudos de viabilidade foram conduzidos com sucesso e o primeiro tubo de desgaseificação permanente foi instalado no lago em 2001. Dois tubos adicionais foram instalados em 2011. Em 2019, determinou-se que a desgaseificação havia atingido um estado essencialmente estável e que um único dos tubos instalados seria capaz de sustentar o processo de desgaseificação no futuro, mantendo indefinidamente o em um nível seguro, sem qualquer necessidade de energia externa.
Perigo semelhante no Lago Quivu Após o desastre do Lago Nyos, cientistas investigaram outros lagos africanos para verificar se um fenômeno semelhante poderia ocorrer em outros lugares. Em 2005, o Lago Quivu, na República Democrática do Congo, 2 mil vezes maior que o Lago Nyos, também foi descoberto que estava supersaturado, e os geólogos encontraram evidências de que eventos de desgaseificação ao redor do lago aconteciam aproximadamente a cada mil anos.
No entanto, um estudo realizado em 2018 e divulgado em 2020 encontrou falhas no estudo de 2005, incluindo um possível viés na conversão de concentrações em pressões parciais, uma superestimação das concentrações ou um problema de calibração dos sensores em alta pressão. O estudo de 2020 concluiu que, quando esses erros foram considerados, o risco de uma erupção de gás no Lago Quivu não pareceu estar aumentando ao longo do tempo.
Cultura popular Em The Exodus Decoded (2006), o jornalista Simcha Jacobovici faz referência ao desastre do Lago Nyos para explicar como as pragas bíblicas (como o Rio Nilo se transformando em "sangue", a morte em massa do gado, o surto de úlceras e a morte dos primogênitos) ocorreram devido à erupção minoica em Santorini por volta de 1600 a.C. Jacobovici propôs que o Êxodo pode ter coincidido com a erupção de Santorini, argumentando que a atividade sísmica poderia ter contribuído para os eventos descritos na narrativa bíblica, incluindo as pragas e a abertura do Mar Vermelho. Jacobovici também sugeriu que o Mar Vermelho bíblico pode ter se referido a um lago de água doce perto da atual Ismailia. Suas teorias foram criticadas pelo arqueólogo Manfred Bietak, que argumentou que o documentário deturpou sua pesquisa e afirmou que não havia evidências arqueológicas da existência dos israelitas antes da Idade do Ferro.
Ver também Lista de desastres naturais por número de óbitos Mazuku Limnologia
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