Inglês como língua franca (ILF) corresponde a qualquer uso da língua inglesa entre falantes de diferentes línguas maternas para quem o inglês é o meio de comunicação escolhido e, frequentemente, a única opção.SEIDLHOFER, B. Understanding English as a Lingua Franca. Oxford: Oxford University Press, 2011. O uso do ILF acontece quando você com frequência, em contextos multilíngues e internacionais, e, em tais contextos comunicativos, a escolha de qual variedade da língua inglesa a ser usada depende dos falantes envolvidos. Em geral, múltiplas variedades da língua inglesa são representadas nessas situações, uma vez que cada usuário traz aquela com a qual tem mais familiaridade.MATSUDA, A. Is Teaching English as an International Language All about Being Politically Correct? In: RELC Journal. Vol. 49 (I), p. 24-35, 2018JENKINS, J. Repositioning English and multilingualism in English as a Lingua Franca. Englishes in Practice, v. 2, n. 3, 2015, p. 49-85 Por essa razão, nesses contextos comunicativos, os participantes empregam várias estratégias para negociar diferenças em formas e uso da língua inglesa visando a inteligibilidade mútua e o alcance dos objetivos comunicativos.FRIEDRICH, P. ELF, intercultural communication and the strategic aspect of communicative competence. In: MATSUDA, A. (ed.) Principles and Practices of Teaching English as an International Language. Bristol: Multilingual Matters, 2012. p. 44–54. Dentre essas estratégias comunicativas, encontram-se as seguintes: habilidade de acomodação, sinalização de incompreensão, pedido/fornecimento de repetições, paráfrases, code-switching, etc.GIMENEZ, T. Renomeando o Inglês e Formando Professores de um Língua Global. Estudos Linguísticos e Literários, Salvador, n. 52, 2015. p. 73-93.
A língua inglesa na contemporaneidade A paisagem sociolinguística do mundo apresenta um panorama da língua inglesa linguística e culturalmente diverso.MATSUDA, A. Introduction – Teaching English as an International Language. In: MATSUDA, A. (ed.) Principles and Practices of Teaching English as an International Language. Bristol: Multilingual Matters, 2012. p. 44–54. Tal realidade tem se tornado cada vez mais complexa se comparada à de outras línguas no mundo de hoje. As novas tecnologias trouxeram novas oportunidades linguísticas, fazendo com que a língua inglesa emergisse como a língua de primeiro plano em muitas atividades da sociedade atual.MARLINA, R. The Pedagogy of English as an International Language (EIL): More Reflections and Dialogues. In: MARLINA R.; GIRI R. (eds) The Pedagogy of English as an International Language: perspectives from scholars, teachers, and students. Switzerland: Springer, 2014. p. 1- 19. Um exemplo disso, é o acordo internacional para uso de uma variedade especializada do inglês para os tráfegos aéreo e marítimo. Há ainda agências internacionais, como as Nações Unidas e a Associação das Nações do Sudeste Asiático, que fazem uso do inglês como língua oficial ou de trabalho. Além disso, o desenvolvimento da internet e da comunicação online tem criado mais oportunidades para o uso do inglês em contextos multilíngues. Consequentemente, os falantes da língua inglesa não estão necessariamente localizados em uma fronteira geográfica. Eles habitam e praticam outras línguas e culturas em suas próprias localidades. No entanto, apesar da heterogeneidade linguística e cultural e da separação espacial, o inglês é reconhecido por esses falantes como um recurso compartilhado que assegura uma comunicação bem sucedida. Fazendo uso da bem conhecida metáfora de Anderson (1984), essas comunidades podem ser vistas como comunidades imaginadas (imagined communities).CANAGARAJAH, S. Lingua Franca English, Multilingual Communities, and Language Acquisition. The Modern Language Journal, p. 923-939, 2007.HOUSE, J. English as a lingua franca: A threat to multilingualism? Journal of Sociolinguistics, 7, 2003. p. 556-578.Anderson, B. Imagined communities: Reflections on the origins and spread of nationalism. London: Verso.1984 Embora alguma proficiência em inglês seja, certamente, necessária, o nível requerido para fazer parte dessas comunidades invisíveis ainda não se encontra definido. Dessa forma, a expansão global do inglês e o aumento do número de usuários bilíngues e multilíngues desse idioma tem levado ao surgimento de diferentes variedades da língua inglesa. Com suas formas plurais, o inglês é um veículo para usuários do inglês projetarem suas identidades culturais. Outras terminologias do inglês A discussão acerca do que significa o inglês na atualidade, devido à amplitude de suas performances nos mais diversos contextos do mundo, tem resultado numa crescente e profícua literatura que apresenta definições e compreensões concorrentes em razão da multiplicidade de perspectivas e posicionamentos ideológicos.GIMENEZ, T. Renomeando o Inglês e Formando Professores de uma Língua Global. (Renaming English and Educating Teachers of a Global Language). Estudos Linguísticos e Literários, 52, 2016. p. 73-93. A título de ilustração, pode-se destacar algumas terminologias utilizadas para nomear o inglês na atualidade, tais como, World Englishes, World English, Global English (Inglês Global) e International English (Inglês Internacional). Tais termos, com seus significados brevemente diferenciados, podem sublinhar aspectos distintos da expansão e variação da língua inglesa ou podem apresentar-se sobrepostos e intercalados.
As discussões sobre essas terminologias ainda continuam em aberto, propiciando cada vez mais a compreensão de que as línguas são, na verdade, sempre muitas línguas e, por esse motivo, o inglês não pode se constituir como uma exceção.JORDÃO, C. M. ILA, ILF, ILE, ILG: quem dá conta? Revista Brasileira de Linguistica Aplicada, Belo Horizonte, v. 14, n. 1, p. 13-40, jan./mar. 2014.FRIEDRICH, P. & MATSUDA, A. When Five Words Are Not Enough: a conceptual and terminological discussion of English as a lingua franca. International Multilingual Research Journal, v.4, n.1, p.20-30, 2010. A realidade sociolinguística contemporânea da língua inglesa tem conduzido um número crescente de pesquisadores no campo da Linguística e/ou da Linguística aplicada para o desenvolvimento de diferentes enquadramentos ou abordagens acadêmicas, em busca de conceitos e pesquisas que melhor se aplicam ao ensino e ao aprendizado da língua inglesa, já que nesse atual contexto de globalização, o inglês falado pelo mundo tem desafiado a superioridade inquestionável de noções, como, por exemplo, Received Pronunciation e General American, ao propor uma visão mais liberal e democrática de língua.MARLINA, R. The Pedagogy of English as an International Language (EIL): More Reflections and Dialogues. In: MARLINA R.; GIRI R. (eds) The Pedagogy of English as an International Language: perspectives from scholars, teachers, and students. Switzerland: Springer, 2014. p. 1- 19.
Inglês como língua estrangeira vs. Inglês como língua franca A visão que está subjacente no processo de ensino de inglês como língua estrangeira (ILE) é a de que essa perspectiva realça a importância de aprender sobre os aspectos culturais e a sociedade do falante nativo.GRADDOL, D. English next. London: British Council, 2006. Essa forma de compreensão da língua faz sentido para os aprendizes que têm como aspiração aprender o inglês igual ao do nativo. Assim, seria completamente válido para o ensino de língua estrangeira harmonizar a aprendizagem de uma língua à cultura a ela associada, já que o propósito primário da aprendizagem de uma língua estrangeira é engajar-se com a sua respectiva comunidade.
No entanto, esse é um contexto bastante diferente daquele que os pesquisadores do ILF estão investigando, pois os seus proponentes sugerem que o inglês deve ser ensinado e avaliado conforme as necessidades e aspirações de um número cada vez maior de falantes não nativos que utilizam o inglês para se comunicar com outros não nativos. Assim, as normas da língua são estabelecidas durante as interações e são reguladas pelas próprias exigências interacionais, em vez de serem relacionadas ao que é correto ou apropriado sob o ponto de vista dos falantes nativos.
Nesse sentido, o ILF e o ILE são dois fenômenos distintos orientados por necessidades e interesses bastante diferentes: a) da perspectiva do ILF, em contraposição com o ensino do ILE, a “inteligibilidade” é mais importante do que a “precisão” em termos do padrão nativo; b) os conceitos de “natividade” e “autenticidade” são substituídos por “práticas locais” e “relevância”; c) o conceito “repertório linguístico” torna-se mais elementar do que “língua alvo”; d) a palavra “correção” dá lugar à “negociação”; e) a aplicação de “regras gramaticais” torna-se menos eficaz do que o desenvolvimento da “consciência metalinguística”; f) da perspectiva do ILF, o distanciamento das normas do inglês como língua nativa é visto como uma característica potencial e emergente a ser explorada, enquanto na perspectiva do ILE tal distanciamento é visto como sinal de incompetência linguística; g) o ILF é sustentado pelas teorias de contato e evolução da língua, enquanto o ILE se sustenta em teorias de interferência e fossilização da língua materna; e h) sob a ótica do ILF, a mudança de código é considerada um recurso pragmático bilíngue crucial na comunicação, já para o inglês como ILE, ela é considerada como uma evidência lacunar no conhecimento dos falantes não nativos do inglês.JENKINS, J.; COGO, A.; DEWEY, M. Review of developments in research into English as a lingua franca. Language Teaching, v. 44, n. 3, p. 281-315, 2011.HÜLMBAUER, C; BÖHRINGER, H; SEIDLHOFER, B. Introducing English as a lingua franca (ELF): Precursor and partner in intercultural communication. Synergies Europe, n. 3, p. 25-36, 2008. Corpus do ILF É provável que o maior, mais avançado e mais conhecido projeto de pesquisa sobre o ILF seja o Vienna-Oxford International Corpus of English (VOICE), que consiste em um corpus de gravações e transcrições de áudio de interações orais em língua franca. Este projeto, conduzido pela pesquisadora Barbara Seidlhofer, propõe estabelecer uma base empírica sólida para a investigação do fenômeno do ILF. Embora o VOICE seja um corpus que visa fornecer base para qualquer tipo de pesquisa relacionada ao ILF, o foco principal tem-se concentrado no léxico-gramática, supostamente por ser um tópico de extrema importância para a pedagogia de línguas.SEIDLHOFER, B. Research perspectives on teaching English as a Lingua Franca. Annual Review of Applied Linguistics, v. 24, 2004. p. 209-239.
O segundo principal corpus do ILF, o English as a Lingua Franca in Academic Settings (ELFA), foi lançado dois anos depois do VOICE sob a coordenação de Anna Mauranen na Universidade de Helsinki, Finlândia. Essa compilação busca capturar interações orais entre falantes de diferentes línguas maternas em programas de certificação internacional e em outras atividades da universidade que são regularmente realizadas em inglês. Outro corpus potencialmente importante é o Asian Corpus of English (ACE), coordenado por Andy Kirkpatrick em Hong Kong. Esse corpus reúne dados de várias partes da Ásia oriental onde o inglês é usado como língua franca entre falantes multilíngues.