A   é objeto da antropologia e está definida como o estudo da origem e do desenvolvimento da espécie humana, seja ele por bases teóricas científicas, culturais ou mitológicas. O termo tem origem no ánthropos (homem) e génesis (origem), e possui como conceitos similares antropogonia e antropogenia, este último associado ao estudo da ontogenia e filogenia humanas.

thumb|Adão e Eva, gravura de 1504|268x268px thumb|Imagem ilustrativa da evolução craniana de primatas|esquerda|268x268px

Historicamente, a antropogênese abarcou teses das mais variadas origens, dentre as quais podem ser citadas as mitológica-culturais, associadas a explicações desenvolvidas por povos a fim de construir uma narrativa condizente para a origem do ser humano, até às científicas, as quais estão fundamentadas em hipóteses e pesquisa empírica interdisciplinar, as quais abarcam desde as ciências biológicas às humanas e às exatas.

Nesse meio, a antropogênese científica busca responder a algumas questões, dentre as quais pode-se destacar: Identificar e explicar as diferenças estruturais e moleculares entre humanos e membros da família hominídea geneticamente relacionada com grandes símios; definir e explicar as origens evolutivas dos humanos, em especial compreender os eventos dos últimos 15 milhões de anos de grandes primatas e evolução humana; identificar especializações funcionais humanas em relação a outros hominídeos e explicar os mecanismos genéticos e biológicos envolvidos na geração dessas especializações; e identificar e explicar os mecanismos externos, sejam eles ambientais, culturais, que afetam a seleção e expressão destas especializações funcionais humanas.

Teorias científicas

Não existe um consenso sobre qual a origem da espécie humana. Mesmo no meio científico, há controvérsias sobre o assunto e existem diversas teorias sobre como o ser humano, da maneira que conhecemos hoje, surgiu. A teoria científica mais aceita é a de que o ser humano moderno (Homo sapiens) surgiu na África, há cerca de 200 mil anos, decorrente de um processo evolutivo. Evidências genéticas e de medições de crânios fósseis corroboram com a teoria do surgimento do homem na África.

Acredita-se que os primeiros hominídeos evoluíram de um ancestral comum compartilhado com os grandes símios de hoje (orangotangos, gorilas e chimpanzés).

thumb|Comparação entre esqueletos de humanos, gibãos, gorilas, orangotangos e chimpanzés|esquerda|273x273px O surgimento do gênero Homo teria ocorrido há cerca de 2 milhões de anos atrás, tendo como características que os diferenciam de espécies anteriores, por exemplo dos Australopithecus, a dentição, face e prognatismo menores, e também menor dimorfismo sexual, aumento da capacidade craniana e bipedia obrigatória, com essa diferenciação se tornando maior ao decorrer do surgimento de novas espécies. Os primeiros hominíneos a surgirem foram os Homo habilis e os Homo rudolfensis, que ainda possuíam características semelhantes aos Australopithecus, o que gera discussões entre os paleoantropólogos se eles seriam mesmo os primeiros representantes do gênero Homo.

Seguindo a linha evolutiva, surge, então, o Homo erectus, espécie que teria passado por uma maior transição morfológica, com fósseis datados a cerca de 1,9 milhões de anos, encontrados no leste e no sul da África. Também foram encontrados fósseis na Ásia, com datação de 1,6 milhões de anos, o que indica, possivelmente, a primeira saída do gênero da África. Esta seria a espécie mais parecida com a do ser humano moderno, possuindo face plana, nariz proeminente, braços mais curtos, pernas mais longas, massa corpórea maior e bipedia estritamente terrestre. Foram observadas mudanças de comportamento também, como a saída da África, manipulação de grandes ferramentas, predação de mamíferos de médio e grande porte e o uso do fogo, sendo os primeiros a realizarem tal feito. O Homo erectus teria sobrevivido até cerca de 125 mil anos atrás, sendo sucedido pelo Homo heidelbergensis, que possuía uma maior encefalização.

thumb|Evolução de crânios do gênero Homo|centro|570x570px thumb|Representação de rotas da migração humana com origem na África|256x256px A migração dos hominídeos da África para outros locais do planeta ocorreu cerca de 1,85 milhões de anos atrás. E, há cerca de 500 mil anos, no final do Pleistoceno Médio surgem os Homo neanderthalensis, uma evolução do gênero Homo que ocorre graças às diferenças climáticas na Eurásia. Eles eram mais robustos, com corpos mais compactos e maior tamanho craniano que o dos humanos modernos; eram bons caçadores e bem adaptados a climas frios. Simultaneamente, há cerca de 300 e 200 mil anos, ocorre a evolução dos Homo sapiens na África, adquirindo características dos humanos modernos. Com a sua migração para Ásia, depois para a Oceania e Europa e, posteriormente, para as Américas, ele acaba substituindo espécies arcaicas. Homo neanderthalensis e Homo sapiens conviveram juntos na Europa e no oeste asiático a partir de cerca de 200 mil anos atrás, possuindo um último ancestral em comum, que por conta da falta de fósseis encontrados, não pode ser detalhado. ocorrendo cruzamento entre as duas espécies.

Com a chegada na Europa é observada uma maior longevidade do Homo sapiens, o que pode ser explicado por sua passagem por um extenso período de desenvolvimento e a aquisição de um pacote cultural que levou à diminuição da mortalidade. Ademais, entre 14 e 12 mil anos atrás, ocorre a sedentarização da espécie humana, processo em que humanos deixam de ser nômades e passam a dominar a agricultura e domesticação de animais. Os seres humanos como conhecemos hoje, que têm domínio da linguagem, convivência em grandes grupos, agricultura, entre outros, contudo, não surgiram do dia para a noite. Para que sua origem acontecesse foi necessário um processo de milhares de anos, que é estudado por paleoantropólogos de forma muito detalhada, mesmo com a grande dificuldade de encontrar fósseis de períodos tão longínquos. Antiguidade clássica Grécia thumb|Prometeu leva o fogo para a humanidade|esquerda|114x114px thumb|Prometeu recebendo sua punição; escultura por Nicolas-Sébastien Adam|143x143px Em algumas versões da mitologia grega, acredita-se que Prometeu foi o criador da humanidade, a partir do barro. O titã criou os humanos ao se sentir vazio e solitário. Certo dia, ele se sentou nas colinas da região grega da Fócia, pegou uma porção de terra, misturou um pouco de água e começou a moldar o barro. Ao terminar, ficou admirado com sua criação e resolveu fazer várias réplicas. Prometeu então, os presenteou com a vida: a argila foi se transformando em carne, pele e osso. Mais tarde, ele enfureceu os deuses do Olimpo, tirando deles o fogo e entregando-o à humanidade na forma de tecnologia, sabedoria e civilização.

Zeus, rei dos deuses do Olimpo, condenou Prometeu ao sofrimento eterno pela sua insolência. Prometeu foi amarrado a uma rocha, e uma águia foi enviada para comer seu fígado. Seu fígado voltaria a crescer durante a noite, apenas para ser comido novamente no dia seguinte em um ciclo contínuo. Américas Indígenas ameríndios Na cultura indígena ameríndia, ainda que composta por muitas etnias diferentes entre si, não parecia haver uma máquina antropológica de hierarquização entre os animais não humanos e os humanos - ou melhor, a distinção entre esses grupos não ocupava a mesma função do que no mundo ocidental. Segundo o literato indígena “O banquete dos deuses: conversa sobre a origem e a cultura brasileira” de Daniel Munduruku, representante da etnia Tapajó, “uma árvore, um rio, um ser humano, o fogo, a água, o vento, a terra os demais seres vivos, todos são espíritos e fazem parte da trama da vida, são familiares que dividem o mesmo destino. Se na história da criação da humanidade, cada povo precisa distanciar-se do mundo animal para se encontrar como povo, para criar uma cultura comunitária e um modo de vida, não há distanciamento que cause rupturas nessa trama, tudo permanece interconectado”. thumb|Construções Kaxinawá no Acre|esquerda|257x257pxNesse sentido, para o povo Kaxinawá, que habita áreas ribeirinhas do Acre, a partícula “nawa” designa tanto os homens pertencentes a outras culturas quanto os animais e plantas - sendo o encontro com o diferente uma oportunidade de transcendência e transformação. Além disso, muitos mitos de origem de povos ameríndios diversos apontam animais como seus ancestrais. A etnia Mawé, por exemplo, surge da interação entre “uma mulher, uma árvore, um rio e um buraco na terra, sendo precedido de vários animais que nascem como irmãos do mesmo útero da terra antes do primeiro homem”

Ademais, outra noção relevante é a de que, para muitos povos da floresta, não se deve matar mais animais do que se pode comer; a caça deve ocorrer com animais livres e perante a necessidade de alimentação do grupo caçador. Isso porque, para o povo Wari’, a instância divina mais profunda é representada pelos Xamãs, seres com uma dualidade de corpos humana e animal. A aldeia, então, representaria um lugar de passagem entre humanos e animais: “Se os animais são potencialmente humanos, os Wari’ são potencialmente presas, de modo que a humanidade não é algo inerente, mas uma posição pela qual se deve lutar todo o tempo".

Outro exemplo de povo com uma complexa visão antropogênica são os Desanos, um dos grupos e etnias indígenas que habitam nas margens do rio Uaupés e seus afluentes, autodenominam-se Umükomahsã, gente do universo, estando espalhados pelos rios Tiquié e Papuri e seus principais afluentes.

thumb|Maloca do povo Desana|274x274pxDentro de sua extensa cosmologia, os Desana organizaram uma forma de pensar sobre a própria origem humana partindo inicialmente da criação do mundo e da ‘’Avó do mundo’’. No princípio, o mundo não existia e as trevas cobriam tudo. Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por si mesma. Ela apareceu sustentando-se sobre seu banco de quartzo branco, cobriu-se com seus enfeites e fez como um quarto. Esse quarto chama-se Uhtãboho taribu, o “Quarto de Quartzo Branco”. A mulher se chamava Yebá Buró, a “Avó do Mundo”. Mascando ipadu e fumando cigarro, ela transformou o ipadu em trovões, os ‘’Avôs do Mundo’’. Cada um dos cinco trovões recebeu uma maloca, e somente dentro delas havia luz, no resto do mundo havia somente escuridão. Yebá Buró havia dado origem a eles para que pudessem criar a luz, os rios e a futura humanidade, mas ao perceber que eles não conseguiriam, ela teve a ideia de dar origem a um outro ser, este que apareceu da fumaça que saia de seu cigarro e não possuía corpo, ‘’Era um ser que não se podia tocar, nem ver.’’ Depois de tê-lo pego com o seu pari, ela o saudou, nomeando-o Umukosurãpanami, “Bisneto do Mundo”. Com a ajuda da avó do mundo, criou o Sol, e a Terra e suas camadas, Umukosurãpanami conjuntamente com o terceiro trovão foram à maloca e pegaram as riquezas lá existiam, sob as quais realizaram ritos, ensinados pela Avó, e assim todas as riquezas se transformaram em gente. Em cada maloca aconteceu a mesma coisa, e assim se deu a humanidade. As primeiras malocas estão na beira do "Lago de Leite", o oceano. As outras estão nas costas do Brasil, no rio Amazonas, no rio Negro, no rio Uaupés e, por fim, no rio Tiquié. Foi dessa forma, segundo o povo Desana que a humanidade teve sua origem.

Portanto, vê-se que a visão antropogênica difere tanto entre as culturas indígenas ameríndias quanto em relação ao mundo ocidental. É primordial visar compreendê-las e valorizá-las, haja vista que por muitos séculos sua subalternização foi dada com o fim de justificar a colonização desses povos. O predomínio de uma visão etnocêntrica silencia os diferentes modos de vida e impede que soluções para problemas contemporâneos - como o aquecimento global, por exemplo - sejam encontradas, como discorre Ailton Krenak em sua obra “Futuro Ancestral”.

Ásia Mesopotâmia Sumérios Sumerian 26th c Adab|thumb|182x182px|Tábua com escrita cuneiforme