miniaturadaimagem Processos colaborativos peer-to-peer são interações sociais com uma dinâmica peer-to-peer. Os participantes (peers) podem ser humanos ou computadores. Peer-to-peer (P2P) é um termo originário do conceito computacional da arquitetura de aplicativo de distribuição computacional "P2P", que compartilha tarefas e cargas de trabalhos entre inúmeros participantes. Essa estrutura de aplicativo se popularizou através de sistemas de compartilhamento de arquivos como Napster, o primeiro de seu tipo, no final da década de 1990.

O conceito inspirou novas estruturas e filosofias em várias áreas da atividade humana. A dinâmica humana do P2P oferece um olhar crítico às estruturas dos atuais sistemas sociais autoritários e centralizados. O modelo peer-to-peer representa ainda uma alternativa política e social para aqueles que acreditam que ele seja superior aos modelos tradicionais.

Definição P2P é uma forma específica de dinâmica relacional, baseada na suposta equipotência de seus participantes. Ela é organizada através da cooperação livre de colaboradores em prol da performance de uma tarefa comum ou para a criação de um bem comum. Na P2P, as formas de tomada de decisão e a autonomia dos participantes são amplamente distribuídas ao longo da rede.

Existem vários aspectos fundamentais nos processos P2P: Produção participativa (Peer Production) - a produção colaborativa é aberta à participação e consumo do mais amplo número de pessoas possível (como definido por Yochai Benkler, em seu ensaio "Coase's Penguin"); Governo participativo (Peer Governance) - A produção ou o projeto são governados pela própria comunidade de produtores e não por alocação de mercado ou hierarquia corporativa; Propriedade participativa (Peer Property) - o valor de uso da propriedade é universalmente acessível; serviços e produtos são distribuídos através de novos modos de propriedade que não são exclusivos, embora reconheçam a autoria individual (exemplo: a Licença Pública GNU ou as licenças Creative Commons).

Como o processo produtivo não é orientado à produção de commodities por valor de troca, a P2P não usa os tradicionais mecanismos de preço e hierarquia corporativa para determinar a alocação de recursos. Isso distingue a P2P de ambos o mercado capitalista (apesar de poder ser embutida nele); e o mercado de produção através de planificação estatal ou corporativa. Como o modo de governança se difere da hierarquia linear tradicional; e como o modo de propriedade difere-se da propriedade privada e da propriedade pública embasada no estado, a P2P gera uma propriedade coletiva que pertence aos seus respectivos produtores, usuários ou até a totalidade da espécie humana. Diferente da propriedade privada, a propriedade participativa é inclusiva ao invés de exclusiva — sua natureza é ter seu direito de posse e domínio compartilhado pela sociedade o máximo possível, ao invés do mínimo.

Características Os processos P2P não são desestruturados, mas caracterizados por estruturas dinâmicas e mutáveis que se adaptam às necessidades. Suas regras não derivam de uma autoridade externa, como em sistemas hierarquizados; ao invés disso, são geradas internamente. Não negam a "autoridade", mas apenas a hierarquia forçada e fixa; e portanto, aceitam-na baseada na especialidade, engajamento no projeto, entre outros. A P2P elimina a maioria, senão todas, as barreiras de entrada. O limiar para participação de interessados mantém-se o mais baixo possível. Equipotência significa não haver nenhum filtro formal para entrada de novos participantes, mas sim a própria adesão, participação e prática determinam o nível de especialidade e participação do indivíduo. A comunicação deixa de ser "de cima para baixo" e baseada em regras estritamente definidas de reportação. Ela se baseia em feedback sistêmico integrado no protocolo do sistema cooperativo. A identidade pessoal torna-se parcialmente gerada pela própria contribuição no projeto comum. As características de sistemas P2P vem sendo estudadas por Howard Rheingold em sua publicação "Cooperation Project".

P2P é uma rede, e não uma hierarquia piramidal e linear, embora possa ter alguns de seus elementos; é distribuída, embora por ter elementos de centralização; suas informações e inteligências não estão localizadas em um centro, mas por toda a parte dentro do sistema. Assegurar equipotência significa que sistemas P2P partem da premissa de que "não se sabe onde os recursos necessários deverão ser alocados". Pressupõe-se que ''todos'' podem cooperar; e não estabelece regras prévias que determinem quem pode participar. Espera-se que seus participantes se auto organizem do modo que melhor corresponda às suas especialidades. Equipotência, ou seja, a capacidade de cooperar, pode ser verificada no próprio processo de cooperação. A validação de conhecimento é determinada pelo coletivo através do uso das regras digitais que estiverem embutidas no protocolo base do projeto. A cooperação deve ser livre, não forçada, e baseada na neutralidade. Esses processos existem com a finalidade de produzir algo de modo a permitir a mais ampla participação possível por parte dos interessados. Considerando que os participantes de sistemas hierarquizados estão sujeitos aos desejos dos poucos que controlam a grande maioria, em sistemas P2P os participantes tem acesso e direito de influenciar no todo.

Infraestrutura Para facilitar a implementação dos processos P2P, existem cinco requisições:

A primeira requisição é a existência de uma infraestrutura tecnológica que permita acesso ao capital fixo distribuído. Computadores individuais que, conectados remotamente, componham uma máquina universal capaz de executar qualquer tarefa lógica, são uma forma de capital fixo distribuído disponível à preço baixo à qualquer produtor. A internet, como uma rede ponto a ponto, foi especialmente arquitetada visando a participação de usuários sem o uso obrigatório de um hub. Apesar de não estar totalmente nas mãos de seus participantes, a internet é controlada através de governança distribuída; e fora da hegemonia completa da propriedade privada ou do estado. Mesmo os elementos hierárquicos da internet, como a estrutura de protocolos TCP/IP e do DNS, não impedem a participação livre. Comunicadores virais, ou meshworks, são extensões lógicas da internet. Com essa metodologia, os dispositivos criam suas próprias redes através do uso de capacidade excedente, contornando a necessidade de uma estrutura preexistente. Wireless community networks, Open Spectrum advocacy, file-serving television e outras infraestruturas alternativas de telecomunicação baseadas em meshwork são exemplos dessa tendência. O segundo requerimento é um sistema alternativo de comunicação e informação que permita comunicação autônoma entre os agentes colaboradores. A web (em particular a web 2.0 que está em processo de implementação) permite a produção, disseminação e consumo autônomo universal de material escrito, enquanto o desenvolvimento dos sistemas de podcasting e webcasting criam uma infraestrutura alternativa para a criação e publicação audiovisual. A existência de uma infraestrutura como essa permite a produção de conteúdo autônomo que pode ser distribuído sem o intermédio dos meios de publicação e difusão tradicionais. O terceiro requerimento é a existência de uma infraestrutura de software para cooperação global autônoma. Um crescente número de ferramentas colaborativas, como blogs e wikis, embutidas em software de redes sociais, facilitam a criação de confiança e capital social, tornando possível a criação de grupos globais que podem produzir valor de uso sem o intermédio da produção e distribuição de empresas ou negócios que visem lucro. O quarto requerimento é uma infraestrutura legal que permita a produção de valor de uso e o proteja da apropriação econômica por parte de interesses privados. A GNU General Public License (que proíbe a apropriação do código-fonte de software), a similar Open Source Initiative e algumas versões da licença Creative Commons servem à esses propósitos. Eles permitem a proteção do uso comum do produto em questão e utilizam-se de características virais para se espalharem. GLP e materiais relacionados, por exemplo, garantem que tudo que estiver sob sua licença só pode ser usado em projetos que, por sua vez, também disponibilizem seus códigos modificados em domínio público (mantendo, assim, o ciclo). E o quinto requerimento é cultural. A difusão da intelectualidade de massa (ou seja, a distribuição da inteligência humana) e das mudanças associadas nos modos de ser, agir e pensar, têm sido instrumentalizadas para a criação da mentalidade de cooperatividade necessária para sustentar a ética que permite a existência de projetos P2P.

Na economia

Capitalismo Existem dois importantes aspectos onde pode ocorrer o desenvolvimento da dinâmica P2P na esfera econômica. De um lado, como um formato de produção participativa, vem emergindo como um "terceiro modo de produção" baseado na cooperação de agentes autônomos. De fato, se o primeiro modo for o capitalismo laissez-faire e o segundo modo for a economia comandada, então o terceiro modo não se caracterizaria pela busca por lucro nem pela alocação de recursos centralmente planificada. Ao invés disso, a alocação de recursos não utilizaria mecanismos de precificação ou comandos gerenciais, mas sim relações sociais. Produção participativa já representa uma parte significativa da atual economia, mesmo não sendo tão divulgada na literatura economista.

Apesar das diferenças significantes, o mercado capitalista e a dinâmica P2P são altamente interconectados. No atual contexto, o P2P depende do mercado e o mercado depende dele. A dinâmica P2P já produz valor de uso na maior parte das produções imateriais, sem prover diretamente receita para seus produtores. Os participantes não podem viver de produção participativa, embora possam obter significado e valor dela.

O mercado e o capitalismo também são dependentes do P2P. O capitalismo se tornou um sistema baseado em redes distribuídas, em particular na infraestrutura P2P em computação e comunicação. A produtividade é altamente baseada no trabalho de equipe cooperativo, muitos dos quais organizados de maneiras derivadas do modelo de governança de produção participativa. O apoio dado por grandes empresas de TI ao desenvolvimento open source é inclusive um testemunho do uso derivado dos novos regimes de propriedade coletiva. O modelo de negócios geral parece ser o mesmo usado na infraestrutura P2P; e cria mais-valia através de serviços, que podem ser comercializados como valor de troca. A maior parte das empresas com fins lucrativos utilizam-se de implementações parciais de P2P. A Amazon se estruturou a partir das avaliações de seus usuários; o eBay reside numa plataforma de leilões mundialmente distribuídos; e plataformas de busca como Google e redes sociais como Facebook são constituídas por conteúdo gerado pelo usuário. A criação de valores atualmente não se limita às empresas, mas sim à massa intelectual dos trabalhadores, que através de suas experiências e conexões durante a vida, constantemente inovam dentro e fora das empresas. Mais recentemente, na última década, trocas P2P têm se tornado ainda mais predominante na chamada economia de troca, também chamada de "economia acessiva" ou "economia de troca participativa" Novos negócios, como por exemplo o Uber, Lyft e Airbnb são todos baseados em trocas físicas participativas. Alguns analistas estimam que essa economia de troca chegará a abranger $335 bilhões até 2025.