Yvonne Primerano Mascarenhas (Pederneiras, 21 de julho de 1931) é uma química, pesquisadora e professora universitária brasileira. Também conhecida como "Senhora dos Cristais", título recebido no ambiente acadêmico, por ser referência na área de Cristalografia.

Grande oficial da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências desde 2001, foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Departamento de Física da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC/USP), em 1956, e uma das pioneiras na fundação do então Instituto de Química e Física de São Carlos (IFQSC/USP), que vieram a se tornar, em 1994, o Instituto de Química de São Carlos e o Instituto de Física de São Carlos.

Biografia Yvonne nasceu 1931, em Pederneiras, interior do estado de São Paulo. Aos dez anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde cursou o ensino médio no Colégio Mello e Souza. Em 1953, graduou-se em Química pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (hoje a Universidade Federal do Rio de Janeiro). No ano seguinte, obteve o título de bacharel em Física pela Universidade do Estado da Guanabara (hoje a Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Em 1956, foi contratada como professora assistente pela Escola de Engenharia de São Carlos, na época única unidade da Universidade de São Paulo na cidade.

Carreira O interesse pela cristalografia teve início no Rio de Janeiro, ao participar de uma disciplina ministrada pelo professor Elysiário Távora Filho, cujo principal interesse era a geoquímica, o curso evidenciou a forte correlação existente entre a estrutura cristalina e as propriedades dos materiais. Depois de um estágio no laboratório de cristalografia da Universidade de Pittsburgh, entre 1959 e 1960, Yvonne optou de vez pela área da cristalografia.

De volta ao Brasil, defendeu em 1963, na Escola de Engenharia de São Carlos, a tese de doutorado intitulada “Determinação de estruturas cristalinas por difração de raios X: estudo do formato manganoso bi-hidratado”, sob a orientação do Dr. Theodureto de Arruda Souto. Após se doutorar, foi pesquisadora na Universidade de Princeton, em 1966, novamente com apoio da Comissão Fulbright, e professora visitante no Instituto Politécnico Nacional, do México, em 1967.

Seus trabalhos pioneiros em cristalografia no Brasil, na década de 1960, deram origem ao grupo de cristalografia do Instituto de Física e Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo. Tendo contato com outros cristalógrafos do exterior, Yvonne fundou, junto de outros pesquisadores, a Sociedade Brasileira de Cristalografia em 29 de outubro de 1971. Foi presidente desta entidade em diversas ocasiões, mesmo depois de sua aposentadoria.

Em 1971, obteve o título de livre-docente pela Escola de Engenharia de São Carlos. Atuou ainda como professora visitante na Harvard Medical School, de 1972 a 1973, e no Birkbeck College da Universidade de Londres, entre 1979 e 1980. Foi professora titular do Instituto de Física e Química de São Carlos a partir de 1981. Quando a unidade foi dividida nos Institutos de Física e de Química, em 1994, Yvonne permaneceu no primeiro, até sua aposentadoria compulsória em 2001, sem se desligar de fato das atividades de pesquisa e ensino.

Em 1998 recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico, na classe Grã-Cruz, concedido pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Em 2001, ingressou na Academia Brasileira de Ciências como membro titular. Em 2013, foi homenageada com o título de pesquisadora emérita do CNPq. Foi uma das 12 cientistas a receber o prêmio IUPAC-2017 Distinguished Women in Chemistry or Chemical Engineering Awardspela da União Internacional de Química Pura e Aplicada (Iupac) á mulheres com realizações de impacto na pesquisa em química ou engenharia química.

Em sua trajetória acadêmica, orientou inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, tendo publicado mais de 150 artigos em revistas indexadas sobre cristalografia. Coordena desde 2001 um grupo de trabalho sobre o tema no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, além de uma agência de difusão cientifica no portal Ciência Web. Mesmo aposentada, ainda é atuante, como colaboradora e professora aposentada em exercício, no Instituto de Física de São Carlos.

Em 10 de fevereiro de 2026, Yvonne Primerano Mascarenhas participou, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), de uma edição do Global Women’s Breakfast (GWB 2026), iniciativa internacional promovida pela IUPAC em celebração ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Na UFSCar, a atividade no Campus São Carlos foi coordenada pelo Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ) e pelo Departamento de Química (DQ), e contou com uma mesa-redonda da qual Mascarenhas foi convidada como referência histórica da presença feminina na ciência brasileira. O encontro integrou uma mobilização internacional que, em sua edição anterior, realizada em 2025, conectou 449 eventos em 78 países, com o objetivo de fortalecer redes de apoio e enfrentar barreiras à equidade de gênero na ciência.

A presença de Yvonne Mascarenhas nesse evento teve significado particular por sua própria trajetória. Com uma carreira grandiosa, se destacou pela atuação interdisciplinar entre química, física e ciência dos materiais, com contribuições para a determinação estrutural de moléculas por difração de raios X e para a formação de gerações de pesquisadores.

Ao participar de um evento voltado à valorização das mulheres na ciência, Mascarenhas representou uma cientista homenageada por sua obra, sendo uma figura histórica cuja trajetória ajuda a compreender os obstáculos enfrentados por mulheres nas áreas de exatas ao longo do século XX. Sua presença estabeleceu uma ponte entre diferentes gerações de pesquisadoras e estudantes. A presença foi marcada por uma troca genuína de conhecimento, entre docentes, discentes e funcionários. Yvonne trouxe para o palco, leveza em falar e fazer ciência. Trazendo a importância da memória científica feminina em espaços acadêmicos contemporâneos. Esse simbolismo é ainda mais expressivo considerando que sua carreira foi construída em um período em que a participação de mulheres em física e química era significativamente mais restrita.

História que inspira

Yvonne Primerano Mascarenhas, em recente entrevista a Revista FAPESP, conta um pouco da sua vida. Tivemos aqui um resumo em que a mesma fala da sua traetória que inspira mulheres na ciência até os dias atuais.

A pesquisadora ocupa um lugar singular na história da ciência brasileira por reunir, em sua trajetória, pioneirismo, rigor intelectual e uma rara capacidade de transitar entre diferentes campos do conhecimento. Embora amplamente reconhecida por sua atuação na física e, de modo especial, na cristalografia, a própria cientista chama atenção, em entrevista, para o caráter profundamente interdisciplinar de seu trabalho. Ao falar de si, ela observa que, mesmo trabalhando em um instituto de física, sempre lidou intensamente com químicos e que sua primeira graduação foi justamente em química. Essa observação, aparentemente simples, ajuda a compreender uma dimensão central de sua formação: Yvonne não se constituiu como uma cientista presa a fronteiras rígidas entre áreas, mas como uma pesquisadora para quem a circulação entre química, física e métodos de análise estrutural era parte constitutiva do próprio fazer científico.

Sua relação com a ciência começou cedo, mas não de maneira previsível. Na juventude, quando estudava no tradicional Colégio Mello e Souza, no Rio de Janeiro, seu grande interesse inicial não era a física nem a química, mas as letras. Ela mesma recorda que pensava em cursar letras clássicas e aprender grego ao chegar à universidade. Essa passagem de sua formação é muito reveladora, porque mostra que sua futura carreira científica não surgiu de uma vocação estreita ou de uma inclinação exclusivamente técnica, mas de uma formação intelectual mais ampla, que incluía literatura, línguas e humanidades.

No curso clássico, os estudantes tinham contato com latim, literatura portuguesa e brasileira, francês, entre outras disciplinas, além do aprendizado básico de matemática, física e química. Foi nesse ambiente que um professor, Albert Ebert, despertou seu interesse pela química, sobretudo pela química orgânica. Yvonne atribui a ele um papel decisivo, não apenas pelo conteúdo ensinado, mas pelo modo como o apresentava, com clareza lógica e com a capacidade de revelar a importância da química para compreender os compostos que formam as substâncias e os seres vivos. A lembrança desse professor indica o peso que uma mediação pedagógica qualificada pode ter na formação de futuros cientistas.

Ao rememorar esse período, Yvonne sugere que seu fascínio pela química nasceu da combinação entre estrutura racional e potência explicativa. Ela se encantou com a possibilidade de estudar os constituintes materiais do mundo vivo e não vivo, e com a forma lógica pela qual esse universo se organizava como conhecimento. Em sua fala, a química aparece como uma ciência de aplicações vastas, capaz de abrir horizontes e reorganizar a maneira de olhar para a matéria. Não se trata apenas da lembrança afetiva de uma boa professora ou professor, mas do reconhecimento de que o contato inicial com uma ciência pode produzir uma verdadeira reorientação intelectual. Foi também Albert Ebert quem a ajudou a conseguir, logo depois de formada, um emprego no Liceu Franco-Brasileiro, no Rio de Janeiro.

A entrada de Yvonne na cristalografia não se deu diretamente pela repercussão do famoso desvendamento da estrutura do DNA, embora a entrevista cite esse marco histórico como referência temporal. Sua aproximação com a área ocorreu de forma mais gradual e ligada às condições concretas de sua formação universitária. No curso de química, a disciplina de cristalografia ainda estava vinculada a uma tradição mais antiga, ministrada por mineralogistas que trabalhavam com técnicas ópticas e luz visível para analisar e classificar minerais. O ponto de inflexão veio com a presença de Elisiário Távora, recém-chegado de um doutorado no MIT com Martin Buerger, um nome importante da cristalografia. Segundo Yvonne, foi com Távora que ela teve contato com as “ideias fresquinhas” da cristalografia moderna, especialmente com a potência do uso da difração de raios X. Esse momento é decisivo porque marca a passagem de uma cristalografia voltada predominantemente à descrição óptica de minerais para uma abordagem moderna, capaz de investigar a estrutura da matéria em nível molecular.

É também nesse trecho da entrevista que aparece um aspecto muito importante de sua formação: o reconhecimento de que a cristalografia exigia uma base físico-química mais robusta. Yvonne afirma que, naquele momento, sabia pouco de biologia e bioquímica, e que foi justamente a físico-química que a impressionou a ponto de levá-la a cursar também física. Essa decisão revela muito de seu perfil intelectual. Em vez de se contentar com uma aproximação parcial, ela buscou ampliar sua própria base de formação para compreender com maior profundidade os métodos e problemas da área que a atraía. A cristalografia, em sua trajetória, não aparece como um campo isolado, mas como um ponto de encontro entre a química, a física, a matemática do tratamento de dados e, mais tarde, a biologia estrutural. Seu percurso ilustra, portanto, uma ciência construída por travessias disciplinares e por investimento contínuo em formação.