A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra (RVISSM) é uma associação pública de fiéis católicos, canonicamente estabelecida na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António de Mafra, inscrita na Lista UNESCO do Património Mundial da Humanidade, como parte do Bem Cultural designado por Real Edifício de Mafra..

Tem, entre outras atribuições, a missão de promover a Festa do Corpo de Deus e a respectiva procissão, e ainda a de efectuar as 4 tradicionais procissões da Quaresma da vila de Mafra: a Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Mafra; a Procissão de Penitência da Ordem Terceira de São Francisco (dita dos Terceiros); a Procissão das Sete Dores de Nossa Senhora (dita da Burrinha); e a Procissão do Enterro do Senhor.

O conjunto de imagens de vestir custodiado por esta Irmandade é o maior existente em Portugal, imagens essas que, na sua maioria, continuam a processionar nas funções religiosas organizadas pela RVISSM.

É, presentemente, a instituição mais antiga do concelho de Mafra ainda existente, depois das várias paróquias dispersas pelo território do concelho (com excepção das paróquias da Malveira e Venda do Pinheiro, de criação mais recente).

É uma instituição católica de tendência tradicionalista. Em 4 de Novembro de 2017 promoveu a visita a Mafra do Cardeal conservador Raymond Leo Burke...., conhecido por ser um opositor ao Papa Francisco e apoiante de Donald Trump.., por ocasião de uma vinda do mesmo a Portugal, que gerou críticas entre o clero nacional, nomeadamente de D. Manuel Linda, à data Bispo das Forças Armadas..

História

A Colegiada de Santo André da Vila de Mafra e instituição da Irmandade do Santíssimo Sacramento

350px|thumb|left|Vista panorâmica da Igreja de Santo André de Mafra, antiga Colegiada e antiga sede da Irmandade, c. 1900.

A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra tem as suas origens sepultadas num passado indocumentado, não existindo, no seu arquivo, documentação anterior a 1725ARVISSM (Arquivo da Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra), Compromisso da Irmandade .. É desconhecida a data exacta da sua instituição. Presume-se que a sua “antiquissima” fundaçãoARVISSM, Correspondência [1835-1900]. remonte ao último quartel do século XVI, circunstância confirmada por um documento proveniente do arquivo da então antiga e nobre Colegiada de Santo André de Mafra, no qual, por verba testamentária de Jorge Rodrigues, foi dada ordem para que se:

“faça dar a Comfraria do Samto Sacramento os mil e cem reaes que estavão depositados pera o que levasse mandado pera ler o que se pasa nesta verba ao cartoreo da igreja”VENTURA (2002), pp. 135-136..

A citada verba foi inscrita em 14 de Março de 1597, o que faz deste documento a mais antiga referência à então confraria, que mantinha as suas dependências e Casa do Cabido num anexo da Igreja de Santo André, pelo lado do Evangelho. Estas dependências existiram até aos últimos anos do século XIX, tendo, provavelmente, desaparecido definitivamente no decurso das demolições iniciadas em 1904. A ausência de documentação anterior ao primeiro compromisso da Irmandade poderá ser justificada com um facto relatado no diário de Francisco Militão Pereira, sacristão da Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António de Mafra, que, em 12 de Março de 1860, registou a seguinte nota:

“Vieram de Lisboa dois sujeitos no omnibus … , e hoje pelas 7 horas da manhã foram à Egreja com o Prior abrir-se o archivo e tomaram conta de todos os papeis que pertenciam a Collegiada e passaram recibo ao Prior.”AJI (ARQUIVO JÚLIO IVO), Memórias de Francisco Militão Almeida Pereira, fl. 146..

A transferência da documentação da Colegiada de Santo André para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde com forte probabilidade se encontrariam os fundos documentais da Confraria do Santíssimo Sacramento, terá sido efectuada no âmbito do artigo primeiro do decreto de 2 de Outubro de 1862, pelo qual os arquivos e cartórios de todas as igrejas e corporações religiosas deveriam ser transferidos para o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Presume-se que, por esse motivo, não exista documentação anterior à data do compromisso no arquivo da Irmandade, facto confirmado pela inexistência de documentação paroquial anterior ao século XVIIIHENRIQUES, Tiago, "A Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paróquia de Santo André de Mafra – A Antiga e Nobre Colegiada de Santo André da Vila de Mafra e a Instituição da Irmandade do Santíssimo Sacramento", in Mafra Sacra : memória & património, 1717-2017 (…), pp. 167-177..

Alguns anos mais tarde, em 1871, o mesmo sacristão volta a registar no seu diário:

“Novembro 23 - O Prior mandou fazer arranjos na Egreja da Villa, mandou vender a pezo os livros de coro da Colegiada”AJI, Memórias (…), fl. 230..

Não obstante a ausência de documentos que nos permitam estabelecer uma data aproximada da instituição da confraria, o remanescente permite aceitar, de forma inequívoca, que se trata da mais antiga instituição que actualmente existe na vila de Mafra, sendo por esse motivo considerada um dos mais importantes repositórios da memória histórica do concelho.

O lançamento da primeira pedra do Real Edifício e o compromisso de 1725

300px|thumb|rigth|A fachada principal do Real Edifício de Mafra, que serve de sede à RVISSM.

Aquando da decisão tomada pelo “Magnanimo e religioso Monarcha Rei de Portugal o Senhor Dom João Quinto de Gloriosa Memoria”ARVISSM, Livro donde se lansão os acordaos e rezollusoins da menza, fl. 156 v., de iniciar as reais obras no Alto da Vela, a nascente da vila de Mafra, foi designado pelo monarca o dia 17 de Novembro de 1717PIMENTEL (2002), p. 127. para o lançamento da primeira pedra no local onde seria edificada a nova igreja. Na manhã do dia determinado, em barraca armada no largo fronteiro ao local onde nasceria o Real Edíficio, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, revestido com as vestes pontificais, saiu em procissão para a igreja de madeira que havia sido edificada no local, sendo o cortejo aberto pela cruz processional da freguesia de Santo André de MafraCf. PRADO (1751), p. 5-6. Sobre a cruz veja-se PEREIRA (2000), pp. 61-62., que, na actualidade, continua a ser custodiada pela Irmandade.

250px|thumb|left|Frontispício dos estatutos da Irmandade, 1725.

Entre os anos 1717 e 1730 terão trabalhado na construção para cima de cinquenta mil operáriosCf. CARVALHO (1992), p. 17; e ainda em PIMENTEL (2002) pp. 142-143., muitos dos quais terminaram os seus dias no decorrer das obras. Em consequência da chegada do grande número de operários, artesãos e militares, o já naquele tempo vetusto templo de Mafra terá verificado o aumento de fiéis assistentes na paróquia, que, até então, não ultrapassariam as duas centenas. A testemunhar o referido facto, verificam-se numerosos pedidos de admissão à Irmandade por parte de residentes “no citio da Real Obra”ARVISSM, Livro donde se asentão os Irmaos desta Irmandade, fls. 27, 30, 31, 33, 33 v., 34, 39, 40, 40 v., 158 v., 162, terminando o volume no ano 1761, nos volumes subsequentes podem ser encontrados mais pedidos de irmãos que residiam e trabalhavam na Real Obra.. A então Confraria do Santíssimo Sacramento decerto terá beneficiado deste aumento populacional, assim como do favor do Magnânimo, que, em diversas ocasiões, terá mantido residência na Quinta da Cerca, propriedade da família dos então viscondes de Vila Nova de Cerveira. Todavia, importa referir que, já em 1726, faziam parte da Mesa Administrativa António Baptista Garvo como escrivão, e o capitão-mor de Mafra, Máximo de Carvalho, como secretário da Irmandade, sendo este, simultaneamente, escrivão da receita e despesa da Real Obra. Desconhecem-se as datas de ingresso dos supracitados irmãos, assim como todos os que foram aceites em data anterior a 1725.

Em 19 de Março de 1725, de acordo com o que informa o preâmbulo do compromisso do mesmo ano, os membros da Confraria, reunidos na Casa do Cabido, reconhecendo que anualmente existiam muitas despesas, sem que pelas suas mortes houvesse o benefício de sufrágios pela salvação das suas almas, decidiram passar de confraria a irmandade com compromisso ao qual todos os irmãos ficariam obrigados “para que assim uniformes todos os irmãos em tão santo exercício possamos triunfar de nossos inimigos guardando a forma do que nele se contém”ARVISSM, Compromisso da Irmandade , fl. 3.. No dia 19 de Julho do mesmo ano, D. Tomás de Almeida, primeiro Cardeal-Patriarca de Lisboa, por petição dos irmãos, confirmou o compromisso que lhe havia sido apresentado para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Paroquial Igreja de Santo André da Villa de Mafra, que alegavam sujeitar-se ao Cardeal-Patriarca e seus sucessores. Volvidos 292 anos, o 17.º Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, concedeu a distinta honra à Irmandade de ser inscrito no número dos seus Irmãos de Honra.

O contributo da Real Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra para a história local

220px|thumb|rigth|O Rei D. Manuel II, Juiz Honorário e Perpétuo da Irmandade.

Alguma da documentação inédita existente no arquivo da Irmandade do Santíssimo Sacramento permite lançar novos dados sobre diversos personagens que intervieram na construção e gestão do Real Edifício de Mafra, assim como sobre a participação da Irmandade em diversos factos que tiveram lugar na vila. O compromisso de 1725, que regeu os destinos da Irmandade desde a data da sua aprovação até 1913, no seu primeiro artigo, imediatamente ordenava que o Juiz deveria ser pessoa de autoridade e prudência para que os irmãos o “reconheção por cabeça principal desta Irmandade obedecendolhe em tudo o q. por elle lhe for ordenado q. respeite a cauza desta Irmandade”. Por este motivo encontramos inscritos nas Mesas Administrativas um número considerável de capitães-mores de Mafra, assim como outros importantes personagens do enquadramento local, que vieram a ter, ou já teriam, projecção social per si fora do contexto mafrense. Neste sentido destacam-se particularmente D. Tomás Xavier de Lima, décimo terceiro Visconde de Vila Nova de Cerveira e primeiro Marquês de Ponte de Lima, e o Capitão-Mor de Mafra, José Máximo de Carvalho, a quem William Beckford se refere no seu diário, descrevendo a opulência com que foi recebido em sua casa. Os infantes D. Luís, D. João, D. Augusto e D. Fernando, assim como os reis D. Fernando II e D. Pedro V, foram juízes da Irmandade. O último rei de Portugal, D. Manuel II, foi nomeado juiz honorário e perpétuo a 11 de setembro de 1910.

260px|thumb|left|D. Tomás Xavier de Lima, Marquês de Ponte de Lima e Juiz da Irmandade.

No que à Igreja de Santo André diz respeito, por verbas inscritas nos livros de despesas, pode constatar-se que a capela-mor seria mantida pela Irmandade, enquanto as restantes obras seriam custeadas a meias com a Colegiada e as restantes irmandades. O primeiro averbamento de despesas que o arquivo conserva refere uma despesa feita com as “obras que se fizerão como foi o arco da pia do batismo, Caza do Cabido e escada do Coro em que entrarão com meya despeza os Reverendos Padres desta Igreja”ARVISSM, Livro [que] serve das contas da Irmandade da meza, fl. 3.. Do mesmo modo, os inventários demonstram que as armações da igreja, frontais, candelabros, tocheiros e demais alfaias pertenciam na sua quase totalidade à Irmandade e não à fábrica da Colegiada. Actualmente, um número considerável dos ornatos e imagens descritos nos antigos inventários ainda se encontram em uso nas funções litúrgicas que têm lugar na Real Basílica de Nossa Senhora e de Santo António, perpetuando-se, deste modo, a memória da Igreja de Santo André.