When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (estilizado em letras maiúsculas) é o álbum de estreia da cantora estadunidense Billie Eilish, lançado em 29 de março de 2019 através das gravadoras Darkroom e Interscope Records. As sessões de gravação e composição inciaram-se em maio de 2016, antes mesmo da divulgação de "Ocean Eyes", canção que tornou Eilish conhecida; a primeira faixa trabalhada foi "Listen Before I Go". Escrito quase em sua totalidade pela própria Eilish em conjunto com seu irmão, Finneas O'Connell, o disco foi produzido por O'Connell e gravado em um estúdio montado na casa dos dois, no bairro Highland Park, em Los Angeles, Califórnia; ele afirmou ser uma preferência de ambos, uma vez que a residência traz uma sensação de "privacidade", algo que não conseguiriam em um estúdio. O trabalho foi assim nomeado pois, de acordo com a cantora, é sobre "basicamente o que acontece quando dormimos", sendo influenciado por sonhos lúcidos e terror noturno.
Apesar de a artista afirmar, em diversas ocasiões, que o álbum transita pelos mais diversos gêneros, a crítica especializada o tem descrito como pop, avant-pop, art pop e electropop, sendo notada, ainda, a influência de outros estilos como hip hop e música industrial. Sua produção se destaca por ser mínima, com uso de baixo amplificado, percussão minimalista, sons acústicos e foley. O conteúdo lírico aborda temas referentes à vivência da juventude contemporânea, como dependência química, saúde mental e suicídio. De maneira geral, o disco foi aclamado pela imprensa, sendo elogiado principalmente por sua natureza macabra e coesão, além da composição de Eilish e O'Connell; no Metacritic, garante 82 em cem pontos, indicando "aclamação universal".
A estreia da cantora obteve um desempenho comercial positivo, estreando no topo da Billboard 200 com 313 mil cópias comercializadas; em junho de 2019, já ultrapassava 1 milhão de cópias nos Estados Unidos. Chegou ao cume também das paradas do Canadá, Reino Unido e Austrália, além de outros países europeus, como Espanha e Suíça. Sete singles foram lançados a partir do trabalho; "Bad Guy", o quinto lançado, foi o de maior destaque, chegando à primeira posição da Billboard Hot 100 e da UK Singles Chart, que medem cem faixas mais populares no território norte-americano e britânico, respectivamente. "You Should See Me in a Crown" e "When the Party's Over" obtiveram certificações de prata e ouro no Reino Unido, respectivamente, destacando-se em outros países europeus. "Wish You Were Gay" foi lançada em março de 2019, em um período de preparação para o álbum, enquanto "Bury a Friend" foi certificada platina dupla na Austrália e no Canadá. O álbum rendeu várias indicações a Eilish no 62ª edição do Grammy, incluindo Melhor Artista Revelação, Álbum do Ano e Melhor Álbum Vocal Pop, onde sagrou-se vencedor de todas categorias. O single "Bad Guy" ganhou nas categorias de Gravação do Ano e Canção do Ano, além de também ter sido indicado a Melhor Desempenho Pop Solo. Finneas foi indicado para Produtor do Ano, Não Clássico por seu trabalho no disco, no qual ele também ganhou.
Antecedentes e produção Billie Eilish e seu irmão Finneas O'Connell começaram a desenvolver material para When We All Fall Asleep, Where Do We Go? em março de 2016 com a faixa "Listen Before I Go". Eilish pretendia que o álbum contivesse canções que soassem "tão divertidas quanto estar no momento de um show" quanto "algo que fosse louco e também deprimente". Ela desejava "fazer tudo neste álbum" devido a sua repulsa em ser restrita a um só gênero. O álbum foi gravado no pequeno estúdio de O'Connell em Highland Park, Califórnia A dupla explicou que escolheu o local de gravação em vez de um estúdio profissional devido à natureza íntima e caseira do ambiente, bem como à maneira como o quarto afeta os vocais, enquanto critica a falta de luz natural e o alto custo de uso de um estúdio externo. A mixagem de áudio foi realizada por Rob Kinelski, que havia mixado todos os trabalhos de Eilish até agora. Em entrevista à Billboard, Kinelski revelou que O'Connell lhe enviaria "hastes muito boas" para instrumentos separados durante o processo de gravação. Em 20 de março de 2018, Eilish confirmou que estava trabalhando em um álbum e estimou que ele seria lançado no final do ano. Em julho de 2018, durante uma entrevista à BBC Radio 1, ela anunciou que o álbum deveria sair em 29 de março de 2019. Em janeiro de 2019, Eilish estava no processo de finalização do álbum.
Arte da capa A arte da capa de When We All Fall Asleep, Where Do We Go? foi fotografada por Kenneth Cappello, com quem Eilish já havia colaborado anteriormente para a obra de arte de seu EP Don't Smile at Me de 2017. Depois de trabalhar com a cantora em fotos para ela. A revista Cappello foi convidada a fotografar a obra de arte de seu próximo álbum. A filmagem aconteceu no aniversário de Eilish, em dezembro, em um estúdio em Los Angeles e durou doze horas. A cantora preparou esboços para a capa do álbum, inspirados nos temas de terror noturno e sonhos lúcidos, além do interesse de Eilish em filmes de terror, especificamente The Babadook. Cappello disse à MTV News que ele "sabia que ela queria algo relacionado a tristeza". Para "parecer real", Cappello não adicionou iluminação adicional à foto final, para dar a impressão de que "uma porta estava se abrindo e essa era a luz que entra no quarto". Além disso, ele filmou diferentes variações de Eilish sentada na cama, expressando uma gama de emoções. Eilish usava contatos para preencher seus olhos completamente com branco. Ela ainda desejava usar um mínimo de efeitos especiais adicionais e retoques no produto final para manter uma sensação de "realidade e transparência".
Composição Temas e influências na composição
O estilo vocal de Eilish em When We All Fall Asleep tem sido frequentemente descrito por especialistas como suave e sussurado. Neil McCormick, do The Daily Telegraph, observa que o tom da artista "é capaz de transitar de faceiro a ameaçador, de divertidamente irônico a emocionalmente sincero, em um suspiro", adicionando que "seu modo de cantar de maneira próxima ao microfone é realçado por camadas de harmonias etéreas sem deixar de lado uma sensação de intimidade". Jornalistas também o compararam com ASMR; enquanto alguns apenas lembraram-se da sensação ao ouvir a voz da cantora, outros relataram sentir "formigamentos". Ellen Holmes, em texto para o Observer, citou as "pequenas risadas e a entonação [de Eilish], além da maneira com que sua entonação 'cai' ao final das frases" como razões.
O disco é construído em torno da produção de O'Connell, que frequentemente inclui o uso de baixo amplificado, percussão minimalista, além de sons acústicos e foley. Enquanto as estruturas das canções são tradicionais, no que se refere à construção, feitas de melodias formais acompanhadas de instrumentação de teclado, violão ou baixo, também há uma influência áspera, da música industrial; a partir disso, Jon Caramanica, do The New York Times, descreveu a artista como "a primeira estrela pop de SoundCloud rap, mas sem fazer rap". Além disso, críticos tem notado influências de indie eletrônico, pop, EDM, dance-pop, synthpop, R&B, trap e jazz. Em análises, tem sido notada a produção minimalista e inspirada pelo hip hop, levando a comparações à estreia da neozelandesa Lorde, Pure Heroine; o uso de produção mínima era um desejo dos irmãos, já que, para eles, o uso de muitos recursos musicais em uma faixa a torna "bem pior". Devido à vasta gama de gêneros utilizada por Eilish, a jornalista Yasmin Cowan, da revista Clash, opinou que "confiná-la a um rótulo musical específico seria um desserviço à sua obra", embora outros analistas tenham classificado o trabalho como pop, avant-pop, art pop e electropop.
Liricamente, o álbum lida com as esperanças e medos da juventude contemporânea, explorando temas como dependência química, a sensação de ter o coração partido, aquecimento global, saúde mental e suicídio. Ao ser entrevistada por Zane Lowe, Eilish explicou que o disco foi largamente inspirado por sonhos lúcidos e terror noturno, revelando que é "basicamente o que acontece quando dormimos" — daí o título —, dizendo, numa ocasião anterior, que "basicamente, é pra ser um sonho ruim, ou um sonho bom". Em texto para a i-D, Jack Hall notou que, de forma a lidar com a temática séria do álbum de uma maneira menos portentosa, a musicista escreve com humor, de maneira lúdica, assemelhando-se aos memes. Apesar disso, não é claro se as experiências relatadas nas letras dizem respeito a vivências da própria Eilish, uma vez que ela tende a se distanciar do conteúdo de suas músicas. A cantora explicou, para a Rolling Stone, que ela e seu irmão "gostam de escrever a partir da perspectiva de outras pessoas", esclarecendo que metade do álbum "é ficcional e metade é sobre experiências reais, e ninguém nunca saberá qual é qual".
Estrutura musical e letras When We All Fall Asleep abre com "!!!!!!!", uma faixa de introdução, na qual Eilish sorve ruidosamente a saliva em seu Invisalign e anuncia: "esse é o álbum"; em seguida, ela e seu irmão caem em risos. De acordo com O'Connell, o objetivo da primeira obra é "encontrar um senso de humor" em meio ao "peso" do disco. A canção seguinte, "Bad Guy", deriva dos estilos pop e trap e caracteriza-se pelo uso de baixo, bumbo e estalos amplificados em sua produção. Sua letra apresenta a artista provocando seu parceiro, enquanto sugere que ela é o "cara mau", ao invés dele. A cantora teve a ideia de escrever "Xanny" após comparecer a uma festa em que seus amigos "continuavam vomitando, continuavam bebendo mais", tornando-se, como consequência, "completamente diferentes do que são". O refrão diz: "Eu sou a fumante passiva / Bebendo só uma latinha de Coca / Eu não preciso de um xanny para me sentir melhor", em referência ao ato de ingerir Xanax, um remédio para tratar a ansiedade, como droga recreativa; o termo "xanny" é uma gíria, que refere-se ao medicamento. Ao gravar a música, o par de irmãos criou um som inspirado pelo barulho que Eilish ouviu quando uma garota soprou fumaça de cigarro em sua face, além de um loop à base de bateria e com inspirações no jazz, de maneira a replicar a sensação de "ser fumante passivo".
"You Should See Me in a Crown", escrita pelos dois irmãos após assistirem a "The Reichenbach Fall", terceiro episódio da segunda temporada de Sherlock, é uma canção de hip hop e trap que apresenta Eilish cantando sobre "sintetizadores estridentes e chimbais rápidos como fogo". "All the Good Girls Go to Hell", descrita pelo Stereogum como "um número com um forte piano" e uma das "mais pop de todo o disco", explora a ideia de que Deus e o Diabo estão "olhando para os seres humanos como uma espécie de grupo manso de pessoas e pensando: 'O que eles estão tentando fazer aqui?'"; a letra traz, ainda, referências ao aquecimento global e à destruição da Terra pelos seres humanos, a exemplo do excerto "O homem é tão tolo / Por que estamos o salvando?". Segue-se "Wish You Were Gay", que narra a atração que Eilish sentia por um garoto e não era recíproca, mas sem motivo aparente; a artista canta que queria que ele fosse gay, para que a falta de reciprocidade pudesse ser justificada. Após o lançamento da faixa, o menino acabou por se assumir homossexual, ao que a cantora respondeu estar "orgulhosa". A sétima composição, "When the Party's Over", é uma balada de piano com influências de coral; foi escrita após O'Connell deixar a casa de sua parceira, "sem nenhum motivo aparente".