Para a atividade de captura, veja Pesca. Para o clado que reúne peixes ósseos e tetrápodes, veja Osteichthyes. Para outros significados, veja Peixe (desambiguação).
Peixe é um animal aquático anamniótico, com brânquias e um crânio resistente que protege o cérebro. É um vertebrado sem membros dotados de dedos. Os peixes podem ser divididos entre os sem mandíbula, mais basais, e os com mandíbula, mais comuns. Estes últimos abrangem todos os peixes cartilaginosos e ósseos viventes, além dos placodermos e acantódios, extintos. Durante muito tempo, todos os peixes foram reunidos em uma única classe, Pisces. A filogenética passou a classificar os peixes como um grupo parafilético, que abrange todos os vertebrados, com exceção dos tetrápodes.
A maioria dos peixes é ectotérmica, ou seja, sua temperatura corporal varia com a da água ao redor. Alguns nadadores grandes e ativos, como o tubarão-branco e o atum, conseguem manter a temperatura interna mais elevada. Muitos peixes se comunicam por sons, por exemplo durante as exibições de corte. O estudo dos peixes é a ictiologia.
Em agosto de 2026, eram reconhecidas 37.730 espécies válidas de peixes. Os peixes reúnem aproximadamente metade das espécies de vertebrados. A maioria pertence à classe Actinopterygii, dos peixes de nadadeiras raiadas, que reúne aproximadamente metade dos vertebrados viventes.
Os primeiros peixes surgiram no Cambriano como pequenos filtradores. Sua evolução prosseguiu ao longo do Paleozoico, com a diversificação em muitas formas. Os primeiros peixes com brânquias especializadas na respiração e nadadeiras pares, os ostracodermos, tinham pesadas placas ósseas. Essas placas formavam um exoesqueleto que os protegia de predadores invertebrados. Os primeiros peixes com mandíbulas, os placodermos, surgiram no Siluriano e se diversificaram muito no Devoniano, a "idade dos peixes".
Os peixes ósseos, que têm endoesqueleto ossificado e, em muitas linhagens, pulmões ou bexigas natatórias, tornaram-se o grupo dominante após a extinção do final do Devoniano, que eliminou os placodermos, os predadores de topo. Os peixes ósseos se dividem em peixes de nadadeiras lobadas e de nadadeiras raiadas. Cerca de 96% das espécies viventes de peixes são teleósteos, um grupo coroa de peixes de nadadeiras raiadas capazes de projetar as mandíbulas para a frente. Os tetrápodes, um clado de vertebrados em sua maioria terrestres, dominam os níveis tróficos superiores dos ecossistemas aquáticos e terrestres desde o final do Paleozoico. Eles evoluíram a partir de peixes de nadadeiras lobadas no Devoniano. Os pulmões já existiam em seus ancestrais aquáticos e são homólogos às bexigas natatórias.
Os peixes são um recurso natural usado pelos seres humanos desde a Pré-História, sobretudo na alimentação. A pesca comercial e a pesca de subsistência capturam peixes em ambientes naturais. Também há criação em viveiros ou tanques-rede no mar. Os peixes são capturados na pesca recreativa ou criados por aquaristas como animais ornamentais, para exibição particular ou pública em aquários e lagos de jardim. Ao longo dos séculos, os peixes fizeram parte da cultura humana como divindades, símbolos religiosos e temas de obras de arte, livros e filmes.
Etimologia A palavra peixe vem do latim piscis, com o mesmo significado. A mesma origem latina está no elemento pisci-, usado em palavras como piscicultura e piscívoro.
Evolução
Registro fóssil Ver também: Cronologia da evolução dos peixes.
miniatura|Dunkleosteus foi um placodermo gigante com placas ósseas do Devoniano, há cerca de 400 milhões de anos.
Há cerca de 530 milhões de anos, durante a explosão cambriana, surgiram animais semelhantes a peixes, com notocorda e olhos na parte anterior do corpo, como Haikouichthys. No final do Cambriano, surgiram outras formas sem mandíbula, como os conodontes.
Os vertebrados com mandíbula surgiram no Siluriano. Entre eles estavam os placodermos, que reuniam formas gigantes com placas ósseas, como Dunkleosteus. Os peixes com mandíbula também surgiram no Siluriano, com os cartilaginosos, Chondrichthyes, e os ósseos, Osteichthyes.
No Devoniano, a diversidade dos peixes aumentou muito, inclusive entre os placodermos, os peixes de nadadeiras lobadas e os primeiros tubarões. Por isso, o período recebeu o nome de "idade dos peixes".Benton, 2005, p. 35, figura 2.10, e p. 73, figura 3.25.
Filogenia
Os peixes formam um grupo parafilético, pois qualquer clado que reúna todos os peixes com mandíbula, Gnathostomata, ou todos os peixes ósseos, Osteichthyes, também reúne os tetrápodes. Esses vertebrados de quatro membros, em sua maioria terrestres, geralmente não são classificados como peixes. Alguns tetrápodes, como os cetáceos e os ictiossauros, voltaram ao ambiente aquático e adquiriram uma forma corporal semelhante à dos peixes por evolução convergente. A obra Fishes of the World comenta que "é cada vez mais aceita a ideia de que os tetrápodes, incluindo nós mesmos, são simplesmente peixes ósseos modificados. Assim, não vemos dificuldade em usar o táxon Osteichthyes como um clado que também abrange todos os tetrápodes".
A biodiversidade dos peixes viventes se distribui de maneira desigual entre os grupos. Os teleósteos, peixes ósseos capazes de projetar as mandíbulas para a frente, reúnem 96% das espécies.Benton, 2005, pp. 175–184. O cladograma apresenta as relações evolutivas entre todos os grupos de peixes viventes, com contagens de espécies compiladas em 2016, e os tetrápodes. Tabela 1a: Number of species evaluated in relation to the overall number of described species, and numbers of threatened species by major groups of organisms Os grupos extintos são assinalados com uma cruz, †. Um ponto de interrogação e linhas tracejadas assinalam os grupos cuja posição é incerta. Os grupos com mais de 25.000 espécies estão em negrito.
Taxonomia
Sem os tetrápodes, os peixes formam um grupo parafilético. Por isso, a classe Pisces, usada em obras de referência antigas, deixou de ser empregada nas classificações formais. A classificação tradicional divide os peixes em três classes com representantes viventes, "Agnatha", Chondrichthyes e "Osteichthyes". As formas extintas às vezes são classificadas nesses grupos e às vezes recebem classes próprias.
Os peixes reúnem mais da metade das espécies de vertebrados. Em 2016, havia mais de 32.000 espécies descritas de peixes ósseos, mais de 1.100 de peixes cartilaginosos e mais de 100 de mixinas e lampreias. Um terço delas pertence às nove famílias com mais espécies, em ordem decrescente, Cyprinidae, Gobiidae, Cichlidae, Characidae, Loricariidae, Balitoridae, Serranidae, Labridae e Scorpaenidae. Cerca de 64 famílias são monotípicas, com uma única espécie.Nelson, Grande e Wilson, 2016, p. 3.
Diversidade
O tamanho dos peixes vai dos 16 m do tubarão-baleia aos apenas 8 mm de alguns teleósteos, como o ciprinídeo Paedocypris progenetica e Schindleria brevipinguis.
A capacidade de natação também varia. Atuns, salmões e carangídeos podem percorrer de 10 a 20 vezes o comprimento do próprio corpo por segundo. Já as enguias e as raias não ultrapassam 0,5 comprimento corporal por segundo.Helfman, Collette e Facey, 1997, p. 103.
Um peixe típico é ectotérmico, tem corpo hidrodinâmico para nadar rapidamente e extrai oxigênio da água pelas brânquias. Possui dois pares de nadadeiras, uma ou duas nadadeiras dorsais, uma anal e uma caudal. Tem mandíbulas e pele coberta por escamas, e põe ovos. Cada uma dessas características tem exceções, o que resulta em grande diversidade de formas corporais e modos de vida. Alguns peixes que nadam rapidamente, por exemplo, mantêm o corpo aquecido. Outros, de natação lenta, têm formas corporais que se afastam do formato hidrodinâmico.Helfman, Collette e Facey, 1997, pp. 3, 33–36.
Ecologia
Peixes também transportam sementes. Durante as cheias da bacia amazônica, o tambaqui entra nas florestas inundadas, come frutos caídos e elimina sementes que ainda podem germinar. Esse transporte leva sementes para longe da planta de origem. Peixes maiores podem carregá-las por distâncias maiores, de modo que a captura dos grandes indivíduos pode reduzir a dispersão.
Peixes marinhos participam do ciclo do carbono ao precipitar carbonatos de cálcio ricos em magnésio no intestino e eliminá-los na água. Esses carbonatos se dissolvem com relativa facilidade e alteram a alcalinidade da água do mar.
Habitats miniatura|upright=2.5|As espécies de peixes estão adaptadas a muitos tipos de habitat de água doce e marinhos.
As espécies de peixes se dividem em proporções aproximadamente iguais entre os ecossistemas de água doce e os marinhos. Uma compilação publicada em 2020 reuniu cerca de 15.200 espécies de água doce e 14.800 marinhas. Os recifes de coral do Indo-Pacífico concentram a maior diversidade de peixes marinhos. Nos continentes, a diversidade de peixes de água doce é maior nas grandes bacias hidrográficas das florestas tropicais, sobretudo nas bacias do Amazonas, do Congo e do Mekong. Somente as águas doces da região neotropical abrigam mais de 5.600 espécies de peixes. Os peixes neotropicais correspondem a cerca de 10% de todas as espécies de vertebrados da Terra.
Os peixes são abundantes na maioria dos corpos d'água. Vivem em quase todos os ambientes aquáticos, desde riachos de montanha, onde há salvelinos e gobiões, até as zonas abissal e hadal dos oceanos, onde vivem ofidiídeos e liparídeos. Contudo, não foram encontrados nos 25% mais profundos do oceano. O maior registro confirmado de profundidade para um peixe é de 8.336 m, onde um liparídeo do gênero Pseudoliparis foi filmado na fossa de Izu-Ogasawara, ao sul do Japão, em 2022.
O peixe-gelo-de-Jonas vive nas águas frias do oceano Austral, inclusive sob a plataforma de gelo Filchner-Ronne, a 79° S. Já Cyprinodon macularius vive em nascentes, riachos e pântanos desérticos, por vezes muito salinos, com temperaturas da água de até 36 °C.
Alguns peixes passam a maior parte do tempo em terra ou põem ovos em terra, perto da água. Os saltadores-do-lodo se alimentam e interagem entre si em planícies lodosas, e entram na água para se esconder em suas tocas. Uma espécie ainda não descrita de Phreatobius recebeu o nome de "peixe terrestre", pois esse bagre de corpo vermiforme vive exclusivamente entre folhas mortas encharcadas. Peixes cavernícolas de diferentes famílias habitam lagos subterrâneos, rios subterrâneos ou aquíferos.
Parasitas e predadores Ver também: Doenças e parasitas de peixes e Peixe predador.
Assim como outros animais, os peixes sofrem com o parasitismo. Algumas espécies recorrem a peixes-limpadores para remover parasitas externos. Entre os mais conhecidos estão os bodiões-limpadores dos recifes de coral dos oceanos Índico e Pacífico. Esses pequenos peixes mantêm estações de limpeza, onde outros peixes se reúnem e fazem movimentos específicos para chamar sua atenção.Helfman, Collette e Facey, 1997, p. 380. O comportamento de limpeza ocorre em diferentes grupos de peixes. Um exemplo envolve dois ciclídeos do mesmo gênero, Etroplus maculatus, o limpador, e E. suratensis, de tamanho muito maior.
Os peixes ocupam muitos níveis tróficos nas teias alimentares de água doce e marinhas. Os que ocupam os níveis superiores são predadores, e boa parte de suas presas são outros peixes. Mamíferos como golfinhos e focas também se alimentam de peixes, assim como aves como gansos-patolas e cormorões.
Anatomia e fisiologia
miniatura|Peixe preparado por diafanização para permitir a observação das estruturas anatômicas, em exposição no Museu de Anatomia Veterinária da USP.
Locomoção