miniaturadaimagem|Apolinário Pinheiro Moreira
Apollinário Pinheiro Moreira foi político militante de grande prestígio, orador fluente, Prefeito Municipal de Anajás, Deputado Estadual, Senador Estadual, Secretário de Estado da Fazenda Pública do Pará (atual SEFA/PA), Presidente e fundador da União Espírita do Pará, Presidente da Associação de Imprensa do Pará, Presidente do Conselho Deliberativo do Clube do Remo, Presidente do Centro Intelectual Paraense e fundador da Legião Republicana. Fundou, em 1927, a Grande Loja Maçônica do Pará. Exerceu os cargos de Venerável Mestre da Loja "Renascença" e por muitos anos o de Grão Mestre da Grande Loja do Pará. Grau 33º, foi por muito tempo Grande Inspetor Litúrgico da Região. Mestre consagrado pelas obras que deixou, redigiu diversos artigos publicados na imprensa local, legando, outrossim, obras de maior porte como "Chave dos Mestres" e "Código Maçônico da Grande Loja do Pará". Em Belém há uma loja maçônica denominada "Apolinário Moreira", fundada pelo então Grão Mestre Cândido Marinho da Rocha e outros dedicados obreiros. Dita Loja possui Templo próprio, sito à Av. Conselheiro Furtado. Foi membro da Academia Paraense de Letras, ocupando a cadeira nº 10, assim como do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. Por muitos anos desempenhou o cargo de Inspetor Federal de Seguros.
O Homem Público Nascido na cidade de Anajás, na Ilha de Marajó, aos 23 de julho de 1893, Apollinário Pinheiro Moreira vinha, pelo lado paterno, de Joaquim José Moreira (nascido em Moreira do Rei, Fafe, Portugal) e, pelo materno, de Serafina Rosa Moreira (nascida Pinheiro), da antiga família dos Lopes e Pinheiro, com ramificações em Abaeté, Igarapé-Miri, Cametá e Bragança.
Em Belém, Pará, fez o curso primário no Grupo Escolar "José Veríssimo" e o secundário nos ginásios Paraense e de Nossa Senhora do Carmo.
Iniciam-se nessa fase os primeiros remigios literários, na direção da revista "A Crisálida", órgão estudantil onde seu espírito de escol pontificava entre as mais belas inteligências de sua geração que ali floresciam.
Terminadas as humanidades, Apollinário Moreira iniciou, na Faculdade, o curso de Medicina. Mal, porém, concluído o primeiro ano, a morte do pai interrompe-lhe os estudos. Chamado pela responsabilidade da direção do patrimônio familiar, o moço afeito à vida da cidade, com o futuro da formação científica aberto a seus passos, não hesitou em renunciar os triunfos antevistos na profissão médica, para voltar ao interior e administrar os seringais da herança paterna.
Espírito progressista, entretanto, a visão de empreendedor valeu-lhe, aos vinte e quatro anos de idade, a eleição para intendente do município de seu nascimento, Anajás, e um ano depois entrava para o Congresso Estadual como deputado. Ampliavam-se-lhe os horizontes da vida pública mercê da capacidade organizadora de que mais tarde tanto se haveria de beneficiar a Ordem Maçônica no Pará. Foi seguidamente Diretor da Recebedoria de Rendas, Diretor da Fazenda Pública (cargo equivalente ao de Secretário de Estado da Fazenda do Estado do Pará) e Senador do Estado.
Nessa casa do Congresso, entre celebrações cuja memória faz honra à história do Pará, a passagem de Apollinário Moreira assinalou-se de maneira indelével. Guardam os anais do Parlamento páginas de inapagável valor devidas à sua atuação, como o discurso em que, na importante questão da reforma da Constituição do Estado, bateu-se, com ardor cavalheiresco de um Templário, pelo princípio basilar, nos regimes democráticos federativos, da eletividade dos gestores municipais.
Após uma profícua vida com muitas contribuições à sociedade, veio a falecer na cidade de Santos Dumont, em 22 de Dezembro de 1949. Decorridos sete anos de seu sepultamento no solo mineiro, seus restos mortais foram transportados, numa urna, para Belém, onde chegaram no dia 6 de fevereiro de 1957, tendo sido inumados em catacumba, no cemitério Santa Isabel.
Conforme escreveu Aláudio de Oliveira Melo no artigo “Relembrando o Fundador da Cadeira nº 23 da Academia Paraense de Letras", Apolinário, “com a idade de vinte e quatro anos foi Intendente Municipal de Anajás. Trabalhando pela crescente prosperidade de nossa terra, fez-se político. Eleito para Senado Estadual - extinto com o advento da Revolução de 1930 - ocupou, a seguir, uma das cadeiras de Deputado à Assembleia Legislativa do Estado. Como parlamentar, em contato com as leis e com os legisladores, pronunciou discursos, elaborou projetos, emitiu pareceres, visando o bem comum da terra paraense.
Devotado desportista, pugnando pelo fortalecimento da raça, compreendia que a prática do atletismo e dos esportes em geral, é condição geradora de energia e vigor físico de um povo.
Sócio benemérito do Clube do Remo, tendo exercido, durante vários anos ininterruptos, à presidência de seu conselho deliberativo, ainda hoje o seu nome é reverenciado com respeito e saudade pelos aficionados da agremiação por cujo engrandecimento sempre se debater a, os pais não podem convidar sua eficiente atuação à frente daquele poder associativo. Quando preliávamos, nas regatas, pelo Paysandu Sport Club, vimo-lo, várias vezes, vibrando e fazendo vibrar a alma dos remadores azulinos no interior de sua sede Náutica, nos repastos confraternizantes dos atletas do mar! Com que satisfação envergava a camisa remista, anualmente, no dia 7 de setembro, nos desfiles comemorativos da independência da Pátria!
Diretor da Recebedoria de Rendas, Secretário de Finanças, desempenhou, por último, o cargo de inspetor Federal de Seguros, tendo como prestimoso auxiliar o professor Arthur Cezar Ferreira Reis, que, mais tarde, seria o grande historiador da Amazônia. Probo e solícito, resolvia os problemas que ele estavam afetos e atendia com lhaneza de trato todos que o procuravam.
Poeta emotivo e de fina sensibilidade, produziu pequenas joias confabulando com as Musas. E os estetas da rima, em seus devaneios sonhadores, aspirando o ‘perfume embriagante de um desejo e a saudade imortal de uma ilusão’, perquirem o motivo de haver Apolinário Moreira deixado que a sua lira emudecesse”.
Jornalita insígne, foi Presidente da Associação de Imprensa do Pará, tendo colaborado em várias revistas e órgãos citadinos, alguns dos quais administrou. Dotado de pena vibrante, deu à publicidade artigos primorosos, críticas construtivas, comentários oportunos.
Polemista intimorato, terçou armas com ardorosos adversários.
Membro prestigioso do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Academia Paraense de Letras - havendo esta última lhe prestado condigna homenagem póstuma - destacou-se dentre seus pares pela vivacidade de seu espírito fulgurante e pelos conhecimentos históricos e geográficos de que era possuidor, tendo sido fundador, neste cenáculo, da cadeira nº 23, da qual é Patrono João Marques de Carvalho.”Melo, Aláudio de Oliveira. “Relembrando o Fundador da Cadeira nº 23 da Academia Paraense de Letras". Revista da Academia Paraense de Letras nº XVIII, 1975, páginas 109 a 113.
Estes em resumo os dados biográficos do benemérito maçom. Todavia nada melhor para lhe retratar a personalidade do que recordar um episódio de sua vida, relatado no livro “Caixa de Memórias” de autoria do Dr. Leonam Cruz, destacado membro da Academia Paraense de Letras. Conta esse escritor que, quando ainda estudante do Colégio Estadual Paes de Carvalho, ao tempo da 2ª guerra Mundial, presenciou graves tumultos no bairro comercial de Belém: “Vi então os grupos de pessoas crescerem e começarem a arrombar e invadir determinadas casas de comércio, que também encerrara suas atividades, com o fim da pilhagem, observando-se que indivíduos saiam correndo com determinados objetos. Daí a momentos apareceu um contingente da Policia Militar atirando para cima. Continuei a minha caminhada afastando-me cada vez mais do centro dos tumultos. Quando cheguei próximo a Padre Prudêncio, um ajuntamento numeroso e agitado de pessoas me chamou atenção: pretendiam arrombar a joalheria de uma família italiana, já estavam começando a quebrar as vitrines de relógios e olhei para dentro pelos vidros e vi pessoas abraçadas umas as outras, chorando. Pela fúria do grupo, pensei que o fato estava consumado. No entanto, de repente um cidadão, ainda moço subiu numa cadeira e começou a falar. Era o grande tribuno paraense Apolinário Moreira. Esse fato eu contei num artigo, “Província do Pará” e em consequência recebi uma carta de Flávio Moreira. Diga-se que ele causou no meu espírito juvenil profunda e indelével emoção. Jamais pensara que uma pessoa, apenas pelo interesse da justiça, pudesse tomar uma atitude tão arriscada como aquela".
Esse, em síntese, o homem público.
O Homem de Letras Apollinário Moreira foi, desde a aurora da juventude, um cerebral, artista da palavra que cultuou com ternuras de enamorado, dando-lhe delicadezas de ourives florentino em páginas que o levaram à imortal idade acadêmica.
Jornalista, suas atividades ensaiadas na direção de "A Crisálida" na fase do estudante secundarista, viriam alargar-se mais tarde quando, com Nogueira de Faria, fundou em 1920 o "Jornal da Tarde", que circulou por alguns meses, e após no "República", onde a seu espírito organizador coube a árdua tarefa de diretor gerente, o que lhe não impedia de atirar a público, frequentemente, artigos de doutrinação política, ou, pelas páginas de "A Semana" ou de "Belém Nova", revistas das melhores que já tivemos, trabalhos literários de requintado gosto na forma e na ideia.
São desse tempo as páginas como "Nossa Senhora do Rio", que se ocupava de um fato passado em Anajás e onde o autor tece, em fantasia de soberbo conto, um hino ao poder da fé; ou ainda "Coração de Caboclo", "O filme da morte", "No teclado da vida", "Se se morre de amor", tantas, tantas páginas que marcaram lugar destacado a Apollinário Moreira na admiração do mundo intelectual.
Dessas, em cuja delicadeza nos recorda a finura de concepção de um Coelho Neto ou de um Julio Dantas, é o milagre de emoção e de sentimento que ides ouvir:
“Se se morre de amor”
Ouçamo-la, pois:
"Tocava ao termo o jantar. Tiniram as taças num brinde último ao casal Gonzaga Mendes, cujo primeiro aniversário esponsalício festejávamos. Veio o café. Circularam licores e charutos. A palestra, borboleteando, animava-se e crescia, cordialmente expansiva, fútil aqui, maliciosa, além.
- Já não se morre de amor, minha senhora, disse alto o bacharel Lauro Casarino, respondendo a uma vizinha que o interpelara. Contemporâneos da navegação aérea e do cinema, na vida vertiginosa que levamos, não há vagar para as grandes paixões, tão comuns no pretérito. A mulher fatal, hoje, é uma recordação, mais nada. Os dois sexos consolam-se sem estrépito, quando, numa partida de flirt, um dos figurantes deserta o jogo ou toma outro parceiro. As pieguices poéticas de Gonçalves Dias e Casemiro, exprimem estados dalma que não voltam. Hodiernamente, agimos e pensamos por forma diversa. A própria mulher, masculinizando-se, precipitou a morte do sentimentalismo...