thumb|Mapa tectônico da América do Sul: 1- Sistema orogênico andino. 2- Terreno Patagônia. 3- Cobertura fanerozóica da Plataforma Sul-Americana. 4- Escudos da Plataforma SulAmericana, destacando a Província Mantiqueira (5) e o Cráton do São Francisco (6).Heilbron, M.; Pedrosa-Soares, A. C.; Campos Neto, M.; Silva, L. C.; Trouw, R. A. J.; Janasi, V. C. (2004a). A Província Mantiqueira. In: V. Mantesso-Neto, A. Bartorelli, C.D.R. Carneiro, B.B. Brito Neves (eds.) O Desvendar de um Continente: A Moderna Geologia da América do Sul e o Legado da Obra de Fernando Flávio Marques de Almeida. São Paulo, Ed. Beca, cap. XIII, p. 203-234 .A Província Mantiqueira, ou Sistema Orogênico Mantiqueira, corresponde a uma entidade geotectônica brasileira localizada a leste do Cráton São Francisco, representando uma longa faixa com 600 quilômetros de largura na parte norte e 200 quilômetros na parte sul além dos seus surpreendentes 3.000 quilômetros de extensão, indo do Rio Grande do Sul até o sul da Bahia, com uma continuação no Uruguai. Hasui, Y. Sistema orogênico mantiqueira. Geologia do Brasil. Beca, São Paulo, p. 331-610, 2012.
A Província guarda um importante e longo registro acerca da evolução geológica neoproterozoica no terreno brasileiro (900-520 Milhões de anos) Heilbron, M., Pedrosa-Soares, A. C., Campos Neto, M. D. C., Silva, L. D., Trouw, R. A. J., & Janasi, V. D. A. (2004). Província mantiqueira. Mantesso-Neto, V.; Bartorelli, A.; Carneiro, CDR, 203-234.. O sistema Mantiqueira foi compartimentado em três setores correspondentes a três cinturões orogenéticos principais. (Figura 1). Estratigrafia e Compartimentação
O Sistema Mantiqueira é composto em sua maioria por rochas pré-silurianas (<450M.a) que estão expostas em quase sua totalidade areal. Unidades mais recentes como diques básicos e corpos alcalinos cretácicos, em sua grande maioria, possuem pequena representatividade espacial, apesar de serem importantes para a compreensão do sistema. Os compartimentos são complexos, assim como sua geologia e histórica tectônica. Hausi, Yociteru. A grande colisão pré-cambriana do sudeste brasileiro e a estruturação regional. Geociências, p. 141-169, 2010.
A Província Mantiqueira foi compartimentada em três setores por Almeida e Hassui Almeida, F.F.M. de; Hasui, Y.; Brito-Neves, B.B de; Fuck, R. A. (1977). As províncias estruturais do Brasil. In: SBG, Simp Geol. Nordeste, 8, Bol. Esp., 12p , sendo eles o setentrional, central e meridional. Com avanços nos conhecimentos geológicos esses compartimentos ficaram então associados a três orógenos: Araçuai, Ribeira e Tijucas, respectivamente. (Figura 2) .
Numerosos domínios dentro de cada cinturão orogênico foram definidos (Figura 2) baseados em suas idades geocronológicas e associações litoestratigráficas.
Evolução do Sistema Mantiqueira As paleoplacas mais importantes envolvidas na evolução tectônica da Província Mantiqueira são: São Francisco-Congo, Paranapanema, Rio de la Plata e Kalahari. No Arqueano e Paleoproterozoico houve geração de rochas granitoides, representando retrabalhamento de crosta arqueana, e acreção juvenil em ambientes de arcos de ilhas. Já o Neoproterozoico foi marcado pela Tafrogênese Toniana, resultando em bacias do tipo rifte em cerca de 930-880 ma, as quais evoluíram para bacias de margem passiva. Isso é representado por extenso vulcanismo félsico-máfico continental na Faixa Congo Ocidental, por intrusões anorogênicas no Orógeno Araçuaí e por diques máficos no Supergrupo Espinhaço .
A etapa seguinte foi em cerca de 840-800 Ma, correspondente a uma abertura oceânica evidenciada pela Formação Ribeirão da Folha, no Orógeno Araçuaí, pela Megassequência Andrelândia e unidades supracrustais do Terreno Oriental. O contexto no início do Neoproterozoico, portanto, condiz com oceanos ao longo das margens ocidentais e sul do Cráton do São Francisco, do Cráton Paranapanema e do Cráton Rio de La Plata. O Orógeno Araçuaí representa por sua vez um orógeno confinado, que sucedeu uma bacia marinha interior. Em cerca de 800 Ma, a Bacia Araçuaí-Congo Ocidental configurava um amplo golfo, que desembocaria em um oceano representado atualmente pelo Orógeno Ribeira entre outros .
Continuadamente, o intervalo entre 790 e 585 Ma é demarcado pela geração de arcos magmáticos, como nos orógeno São Gabriel, Ribeira, Araçuaí e Dom Feliciano. Já bacias pré a sin-colisionais desse período são representadas por unidades dos grupos São Roque e Açungui no Terreno Apiaí-Guaxupé, por exemplo. Em relação à formação dos orógenos da província, que foi diacrônica, tem-se: o episódio colisional de cerca de 700 Ma representando a colagem com o Cráton Rio de la Plata (registrado pelo Orógeno são Gabriel); tectonismo na extremidade sul do Orógeno Brasília entre 630 e 600 Ma, resultante da colisão dos paleocontinentes Paraná e São Francisco-Congo e do Orógeno Dom Feliciano pela colisão dos paleocontinentes Rio de la Plata e Kalahari; evento tectono-metamórfico nos orógenos Ribeira e Araçuaí entre 605-550 Ma, resultando na colisão do Terreno Oriental-Serra do Mar com a borda sudeste da região paleoncontinental do São Francisco; evento colisional em cerca de 520 Ma no Terreno Cabo Frio do Orógeno Ribeira, resultante do fechamento tardio de bacia retro-arco na amalgamação do Gondwana Ocidental. Associado aos episódios colisionais houve a sedimentação de bacias tardi-tectônicas representadas pelas unidades Eleutério, Pouso Alegre, Castro, Camarinha, Camaquã e Formação Salinas. Por fim, há registros da transição para um regime extensional, resultante do colapso dos orógenos do Sistema Mantiqueira, cujas pistas se identificam nos orógenos Araçuaí e Ribeira .
Geomorfologia
Quanto à sua geomorfologia a província apresenta-se como um compartimento caracterizado por “Domínio de Planalto em Cinturões Orogênicos, Planaltos e Serras do Atlântico Leste e Sudeste”, como afirma Ross (1985). Sua geomorfologia foi estruturada pelo embasamento pré-siluriano e através de falhas normais decorrentes de sistemas de rifts. Ross(1985) descreve a morfologia dos Planaltos em Cinturões Orogênicos como ocorrendo em faixas de orogenia antiga e correspondentes a relevos residuais sustentados por litologias diversas, geralmente associados a metamorfismo e intrusões. Devido às características estruturais encontram-se serras, anticlinais e sinclinais erodidos durante o pré-Cretáceo e Terciário-Quaternário. O modelo dominante no Planalto Atlântico é caracterizado por formas convexas, elevada densidade de canais de drenagem e vales profundos, tipificando o domínio dos mares de morros conforme Ab’Saber(1967) .
Podem ser destacadas como exemplos significativos da geomorfologia e dos processos que moldaram o relevo da Província Mantiqueira: a Serra do Mar, a Serra da Mantiqueira e a Serra do Espinhaço. A Serra do Mar se estende por aproximadamente 1.500 quilômetros ao longo do litoral brasileiro, do estado do Rio de Janeiro até o norte de Santa Catarina, alcançando altitudes de até 2300 m. A serra da Mantiqueira se estende por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e alcança altitudes máximas de 2798 m. A origem de ambas serras teria ocorrido em duas etapas.
A primeira etapa do desenvolvimento é iniciada durante o Cretáceo Inferior, representa o soerguimento regional datado de 1240-120Ma. Este soerguimento progride para uma junção tríplice, na qual dois dos braços evoluíram para riftes, formando margens passivas e culminando na separação da América do Sul e África. O terceiro braço do rift é abortado formando o Arco de Ponta Grossa. O rifteamento seguiu direções ENE e NNE, evoluindo através de falhas normais e lístricas .
Após um período de estabilidade tectônica, uma segunda etapa é desenvolvida no Paleógeno, com soerguimento em dois pulsos 85-65 Ma e 35Ma, essa etapa afeta a região costeira do Paraná ao Espírito Santo e sul de Minas Gerais. O relevo das serras posteriormente é moldado por processos superficiais e por tectonismo transcorrente intraplacaHasui, Y., Carneiro, C. D. R., de Almeida, F. F. M., & Bartorelli, A. (Eds.). (2012). Geologia do Brasil (p. 900). São Paulo: Beca. .
A Serra do Espinhaço possui orientação geral NS a NNW, que se estende por mais de 1.000 km, entre a região central de Minas Gerais a fronteira dos Estados da Bahia e Piauí. Com largura variável entre 5 e 75 km e elevações médias compreendidas entre 800 e 1.300 m, é subdividida em dois segmentos com base em aspectos morfoestruturais, o meridional e o setentrional. É a expressão morfológica de parte da faixa de dobramentos Araçuaí, que contorna o Cráton do São Francisco pelo leste.
Compartimentação da Província Mantiqueira
Cinturão Araçuaí - Setor Setentrional Ocupando quase que a metade de toda a extensão da Província Mantiqueira, o Cinturão, ou Orógeno Araçuaí representa o compartimento norte da mesma. Com unidades paleoarqueanas a neoproterozoicas o Orógeno Araçuaí guarda importantes informações geotectônicas sobre a evolução de uma importante parte da plataforma Sul Americana.
O cinturão se estende desde o sul da Bahia onde faz limite com o Cráton São Francisco, até a divida entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde inicia-se o domínio do Cinturão Ribeira.
Constituição
O cinturão Araçuaí é composto por unidades de diferentes idades com uma história geológica de mais de 3 Bilhões de anos. Orógeno Araçuaí teve seus limites definido por Almeida, 1977 e desde então, seus limites com a faixa Ribeira têm sido discutidos. Almeida deu o nome Araçuaí à faixa de dobramentos edificada paralelamente à margem sudeste do Cráton do São Francisco, durante a Orogênese Brasiliana.
A geologia dessa porção da Província é bastante complexa e diversa. Iniciando no Arqueano com associações de gnaisses do tipo TTG (TTG - Tonalito, Trondjhemito, Granodiorito) como os Complexos Gavião, Santa Bárbara, Gouveia, Guanhães e Juiz de Fora. Diversos núcleos de unidades metavulcanossedimentares e terrenos greenstone belt se desenvolveram nessa época, como o Greesntone Belt Rio das Velhas. Além disso, diversas sequências supracrustais de destaque na geologia do Brasil compõem as unidades pertencentes a esse seguimento, como o Supergrupo Minas, com seus gigantescos depósitos de ferro. Diversas outras unidades metassedimentares pós orogenia no Riaciano como o Supergrupo Espinhaço, Grupo Macaúbas, Complexos Paraíba do Sul e Búzios são exemplos entre diversos outros. Unidades de granitóides cambrianos e pós-tectônicos também fazem parte da rica geologia do Orógeno Araçuaí. As principais unidades podem ser vistas na figura 3.
Estruturação tectônica De modo geral, as unidades pertencentes ao orógeno guardam informações estruturais e metamórficas da Orogenia Brasiliana, que obliterou grande parte das estruturas que haviam sido desenvolvidas durante a história Arqueana e Paleo/Mesoproterozoica. Uma pequena porção, entretanto, localizada na região do Quadrilátero Ferrífero guarda parte dessa estruturação mais antiga com direções predominantemente nordestes-sudoeste, vergentes para noroeste.
As direções principais no Orógeno são norte e sul em grande parte da região entre o limite baiano até a região de Belo Horizonte, onde as falhas e outras estruturas inflectem para a direção nordeste-sudestes Esse encurvamento, como pode ser visto na Figura 4, está relacionado com a rotação das estruturas graças ao sistema transcorrente dextral, Sistema Paraíba do Sul já pertencente ao Cinturão Ribeira, parte Central da Província Mantiqueira.
Evolução