D. Narcisa de Villar : legenda do tempo colonial é um romance escrito pela catarinense Ana Luísa de Azevedo Castro e publicado com o pseudônimo de "Indygena do Ypiranga" sob forma de folhetim no jornal A Marmota, de 13 de abril a 6 de julho de 1858. Em 1859, foi lançado em livro pelo jornalista e editor Francisco de Paula Brito, mantendo o mesmo pseudônimo e, portanto, o anonimato da autora.
Segundo Nelly Novaes Coelho, registros críticos da época indicam que o romance teve boa aceitação.
Sinopse A narrativa é apresentada por meio de uma moldura em que a narradora recorda uma história que teria ouvido durante a infância de duas mulheres indígenas, tia Simoa e mãe Micaela. Segundo o relato, acontecimentos ocorridos na região de Ponta Grossa e da Ilha do Mel deram origem às histórias de assombração associadas ao local.
A lenda se passa na época colonial, na Ilha do Mel, situada na região da atual Baía da Babitonga, em Santa Catarina, e apresentada na narrativa como um lugar assombrado. O romance é protagonizado por Narcisa de Villar, jovem portuguesa que vem morar no Brasil com seus irmãos após a morte de sua mãe. No Brasil, acaba sendo criada principalmente por Efigênia, uma indígena descrita como inteligente e afável, e estabelece uma relação próxima com Leonardo, filho de Efigênia, cuja educação fica a seu cargo.
Com o passar dos anos, Narcisa e Leonardo se apaixonam, porém as vontades da jovem são sufocadas por seus irmãos, que pretendem casá-la por conveniência com um coronel português chamado Pedro Paulo. D. Martim de Villar, seu irmão mais velho, negocia o casamento sem o consentimento de Narcisa, que chega a assinar os documentos relativos à união sem conhecer seu conteúdo. Ao longo da obra, Narcisa é subjugada por seus irmãos, que exercem autoridade sobre suas decisões, enquanto ela procura resistir à imposição do casamento. No dia marcado para as bodas, Narcisa foge com Leonardo durante uma tempestade, dando início a uma perseguição que termina na Ilha do Mel. Ali, Leonardo é morto durante o confronto com os irmãos de Narcisa e, em seguida, a própria jovem é assassinada por eles. Efigênia sepulta os dois juntos na ilha, e o epílogo retoma o caráter lendário da narrativa ao associar Narcisa e Leonardo às aparições que, segundo a tradição apresentada no romance, assombrariam o local.
Personagens principais D. Narcisa de Vilar — protagonista do romance. Portuguesa, chega ao Brasil aos doze anos, após a morte da mãe, para viver sob a autoridade dos irmãos. Desenvolve forte vínculo com Efigênia e Leonardo e se opõe ao casamento decidido pelos irmãos com o coronel Pedro Paulo. Leonardo — filho de Efigênia. Criado próximo a Narcisa, recebe dela instrução de leitura e religião. Na juventude, apaixona-se por Narcisa e procura impedir que ela seja obrigada a casar-se com Pedro Paulo. Foge com a jovem e enfrenta seus irmãos na Ilha do Mel. Efigênia — mulher indígena encarregada dos cuidados de Narcisa e mãe de Leonardo. Torna-se uma das pessoas mais próximas da protagonista e procura protegê-la ao longo da narrativa. Após a morte de Narcisa e Leonardo, sepulta os dois na Ilha do Mel. D. Martim de Vilar — irmão mais velho de Narcisa e principal autoridade da família no Brasil. Governa suas propriedades de maneira despótica e decide promover o casamento da irmã com Pedro Paulo sem consultar sua vontade. D. Luís e D. José de Vilar — irmãos de Narcisa que acompanham D. Martim em suas decisões e participam da perseguição a Narcisa e Leonardo. Coronel Pedro Paulo — fidalgo português escolhido pelos irmãos de Narcisa para casar-se com ela. Sua chegada desencadeia o conflito que leva à tentativa de casamento imposto e à fuga de Narcisa com Leonardo. Mãe Micaela — mulher indígena que, no prólogo, conta à narradora a história de Narcisa e Leonardo, estabelecendo a moldura narrativa que apresenta os acontecimentos como uma lenda relacionada à Ilha do Mel. Tia Simoa — irmã de mãe Micaela, presente na cena inicial em que a narradora ouve histórias sobre a região.
Características O romance possui estrutura clara de folhetim, com corte de capítulos, ganchos, recapitulações e desfecho trágico. O enredo utiliza elementos da estética gótica, que se revelam na ambientação de florestas, nas tempestades ao mar, na fuga em canoa, no medo incutido na personagem principal e no próprio recuo a um tempo passado em que se situa a lenda. A Ilha do Mel é apresentada como um espaço assombrado e inabitado, associado a aparições e fantasmas, contribuindo para a atmosfera gótica da narrativa.
Ana Luísa de Azevedo Castro também se aproxima da vertente do gótico feminino, entendida como um espaço utilizado por escritoras para expressar angústias relacionadas à condição da mulher na sociedade brasileira. A escrita parte de uma perspectiva feminina e realça conflitos associados às limitações impostas às mulheres. Na análise de Zahidé Lupinacci Muzart, o romance caracteriza-se pela presença marcante da voz feminina da narradora e apresenta, entre seus temas centrais, a crítica à falta de liberdade da mulher e ao casamento entendido como negócio. A pesquisadora relaciona ainda a narrativa à opressão das mulheres pela família e pela sociedade e à escravização dos indígenas pelos colonizadores, identificando na obra denúncias do machismo e do racismo. Segundo Muzart, a escritora elege, dessa forma, dois grupos oprimidos — a mulher e o indígena — como elementos centrais de sua construção temática.
D. Narcisa de Villar pode ser considerado um romance indianista, representando Leonardo como herói e contrapondo, na construção narrativa, personagens indígenas associados a valores positivos aos homens portugueses apresentados como agentes de opressão. ```
Referências
Categoria:Livros de 1859 Categoria:Romances do Brasil