miniaturadaimagem| Primavera, Pierre Auguste Cot, 1873 miniaturadaimagem| Dois homens íntimos em um simpósio grego antigo. Parte de um afresco da Tumba do Mergulhador (Pesto, Itália, c. 475 a.C.). Eros ( érōs "amor" ou "desejo") é um dos quatro termos greco-cristãos antigos que podem ser traduzidos como "amor". Os outros três são storge, philia e ágape. Eros refere-se comumente a "amor apaixonado" ou amor romântico; storge ao amor familiar; philia à amizade como uma espécie de amor; e ágape refere-se a "amor altruísta", ou "caridade", como é traduzido nas escrituras cristãs (do latim caritas, qualidade de alguém querido).C.S. Lewis, The Four Loves
O termo erótico é derivado de eros. O eros também tem sido usado em filosofia e psicologia em um sentido muito mais amplo, quase como equivalente à "energia da vida".
Na literatura
A tradição grega clássica No mundo clássico, o amor erótico era geralmente referido como um tipo de loucura ou theia mania ("loucura dos deuses"). Essa paixão amorosa foi descrita por meio de um elaborado esquema metafórico e mitológico envolvendo "flechas do amor" ou "dardos do amor", cuja fonte costumava ser a figura personificada de Eros (ou seu equivalente latino, Cupido),Ver, por exemplo, o Amores e o Heroides de Ovídio que frequentemente se referem à paixão irresistível causada pelos dardos do Cupido. ou outra divindade (como RumorVer a carta de Páris a Helena de Troia, em Ovídio, Heroides e Amores, XVI, 36-38.). Às vezes se dizia que a fonte das flechas era a imagem do belo objeto de amor em si. Se essas flechas chegassem aos olhos do amante, elas viajariam e 'furariam' ou 'feririam' seu coração e o sobrecarregariam de desejo e saudade ("doente de amor"). A imagem da "ferida da flecha" às vezes era usada para criar oxímoro e antítese retórica a respeito de seu prazer e dor.
O "amor à primeira vista" foi explicado como uma sedução súbita e imediata do amante através da ação desses processos, mas esse não era o único modo de se apaixonar nos textos clássicos. Às vezes, a paixão podia ocorrer após a reunião inicial, como, por exemplo, na carta de Fedra a Hipólito em Heroides de Ovídio: "Naquela época, fui a Elêusis... era então acima de tudo (embora você já tivesse me agradado antes) aquele amor penetrante alojado nos meus ossos mais profundos."Ovídio, Heroides and Amores, translated by Grant Showerman. Second edition revised by G.P. Goold. Loeb Classical Library (Cambridge: Harvard University Press, 1986), IV, 67-70, p 49. Às vezes, a paixão poderia até preceder o primeiro vislumbre, como na carta de Páris a Helena de Troia no mesmo trabalho, onde Páris diz que seu amor por Helena veio sobre ele antes que ele a visse: "...você era o desejo do meu coração antes de ser conhecida por mim. Observei suas feições com a minha alma antes de as ver com meus olhos; o rumor, que me falou de você, foi o primeiro a causar minha ferida."Ovid, Heroides and Amores, translated by Grant Showerman, second edition revised by G.P. Goold (Cambridge: Harvard University Press, 1986), XVI, 36-38, pp. 199-201.
Seja pela "primeira vista" ou por outras rotas, o amor apaixonado muitas vezes teve resultados desastrosos, segundo os autores clássicos. No caso em que o ente querido era cruel ou desinteressado, esse desejo demonstrava levar o amante a um estado de depressão, causando lamentação e doença. Ocasionalmente, a amada era retratada como um enlouquecedora involuntária do amante, por causa de sua beleza sublime - uma "maldição divina" que inspira os homens a sequestrá-la ou tentar estuprá-la.Para mais sobre esses tropos na novela grega antiga, ver Françoise Létoublon, Les Lieux communs du roman: Stéréotypes grecs d'aventure et d'amour, Leiden: E.J.Brill, 1993. . Histórias em que homens involuntários avistam o corpo nu de Ártemis, a caçadora (e algumas vezes Afrodite) levam a devastação semelhante (como no conto de Acteon).
Eros também apresentou sentidos sem referência sexual, segundo LSJ (1940).O'Brien, Denis (2010). "Why is Socrates’ ‘Absurd Question’ Absurd? (Plato, Symposium 199 C 6-D 7)". The International Journal of the Platonic Tradition 4. pp. 4-26. Arquivado na Wayback Machine em 24 de julho de 2022. A exemplo de Eurípides, no fragmento 358 Nauck: "amem sua mãe, filhos, pois não há outro tipo de amor mais doce de amar do que este" (érâte metrós, paîdes, ós ouk ést' éros toioûtos állos óstis edíon erân), ou do uso feito por Aristóteles em Metafísica, em que descreve a causa final como sendo atraente tal qual eromenos (amado): "Ela causa movimento como sendo um objeto de amor". Eurípides é considerado por Helen F. North como tendo antecipado o conceito platônico de amor pela definição de "eros temperado" (sóphron éros).
No Banquete de Platão, a ideia do Eros tem um significado abrangente que é descrito desde o amor romântico e mais corpóreo até o Amor transcendente e sublime, como narrado na scala amoris por Diotima.de Almeida, Yuri Galvão Oberlaender. (2018). Scala Amoris: Síntese da Educação Filosófica no Banquete de Platão. Dissertação de mestrado em Filosofia ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. "Diotima: 'Como eu sugerira, ele [Eros, o Amor] é entre o mortal e o imortal.'Sócrates: 'O que é, Diotima?'Diotima: 'Um grande espírito (daemon), Sócrates: pois todos os espirituais são mediadores entre o divino e o mortal.'Sócrates: 'E Ele tem que poder?'Diotima: 'Ele interpreta e transporta coisas humanas aos Theoí (Deuses), e coisas divinas aos homens; preces e sacrifícios de baixo, e ordenanças e retribuições de cima: e [o Amor] preenchendo em meio a eles, o todo se interliga. Por meio dEle se transmitem toda profecia e sacerdócio em relação a sacrifício e rito e cantos, e os oraculares todos e encantamento. Theós (Deus) não se mistura com o homem; mas toda comunhão e conversação dos deuses com os homens, sejam despertos ou dormentes, é levada por intermédio dEle. Aquele que é sábio em alguma dessas maneiras é um homem espiritual; enquanto que aquele que é sábio em qualquer outra maneira, em uma profissão ou qualquer trabalho manual, é meramente um mecânico (bánausos). Muitos e diversos são esses espíritos, e um deles é o Amor.'"–O Banquete, 203"Diotima: 'Então o amor", ela disse, "pode ser descrito geralmente como o amor da possessão eterna do Bem?'Sócrates: 'Isso é mais que verdadeiro.'"–O Banquete, 206a"Diotima: 'Aquele que foi instruído até agora nas coisas do amor, e que aprendeu a ver o belo na devida ordem e sucessão, quando ele chega ao fim, de repente perceberá uma natureza de maravilhosa beleza; e isso, Sócrates, é a causa final de todos os nossos trabalhos anteriores, uma natureza que em primeiro lugar é eterna, não crescendo e decaindo, ou plenificando e minguando; ... E a verdadeira ordem de ir, ou ser conduzido por outro, para as coisas do amor, é começar das belezas da terra e subir para o bem daquela outra beleza, usando-as apenas como degraus, e de um passando para duas, e de duas para todas as formas belas, e de formas belas para práticas belas, e de práticas belas para noções belas até que, de noções belas, ele chega à noção de beleza absoluta e finalmente sabe qual é a essência da beleza. Esta, meu caro Sócrates,' – disse a mulher de Mantineia – 'é aquela vida acima de todas as outras que o homem deveria viver, na contemplação da beleza absoluta'”–O Banquete, 211No diálogo, também é transmitido por Aristófanes um mito da origem do amor heterossexual e homossexual. Originalmente, cada ser humano tinha duas cabeças, quatro braços e quatro pernas, antes de Zeus decidir dividir cada pessoa em duas. Depois que todos se separaram, cada metade procurou a outra metade, para se tornarem inteiras novamente. Algumas pessoas eram originalmente metade homens e mulheres, e quando Zeus as separou, elas se tornaram homens e mulheres que procuravam parceiros do sexo oposto. Algumas pessoas eram originalmente todas do sexo feminino e se dividiram em mulheres que procuravam parceiras. Alguns eram todos do sexo masculino e se dividiram em homens que procuravam outros homens. </blockquote>
Literatura europeia miniaturadaimagem| The Old, Old Story, John William Godward, 1903 A concepção clássica das flechas do amor foi desenvolvida pelos poetas trovadores da Provença durante o período medieval e tornou-se parte da tradição europeia do amor cortês. O papel dos olhos de uma mulher na obtenção de desejo erótico foi particularmente enfatizado pelos poetas provençais, como N. E. Griffin aponta: De acordo com essa descrição, o amor se origina nos olhos da mulher quando encontrados pelos de seu futuro amante. O amor assim gerado é transmitido por brilhantes raios de luz dos olhos dela para os dele, através dos quais passa a ocupar sua morada em seu coração.Ver a introdução por Nathaniel Edward Griffin para Il Filostrato of Giovanni Boccaccio (New York: Bilbo and Tannen, no date. ), p.76, note 2. Em alguns textos medievais, o olhar de uma mulher bonita é comparado à visão de um basilisco - um réptil lendário que diz ter o poder de causar a morte com um único olhar.
Essas imagens continuaram sendo divulgadas e elaboradas na literatura e iconografia dos períodos renascentista e barroco.Para uma discussão completa da cena de "amor à primeira vista" na ficção, ver Jean Rousset, "Leurs yeux se rencontrèrent" : la scène de première vue dans le roman, Paris: José Corti, 1981. Boccaccio, por exemplo, em seu Il Filostrato, mistura a tradição da flecha de Cupido com a ênfase provençal nos olhos como o berço do amor: "Nem ele (Troilus) que era tão sábio pouco antes... percebeu que o amor com seus dardos habitava nos raios daqueles olhos adoráveis... nem notou a flecha que disparava ao seu coração."Giovanni Boccaccio, Il Filostrato, canto 1, strophe 29; translation by Nathaniel Edward Griffin and Arthur Beckwith Myrick, p. 147. De acordo com Griffin: "In the description of the enamorment of Troilus is a singular blending of the Provençal conception of the eyes as the birthplace of love with the classical idea of the God of Love with his bows and quiver..." (ibid., p.77, note 2).
A antítese retórica entre o prazer e a dor do dardo do amor continuou até o século XVII, como por exemplo, nessas imagens de inspiração clássica de A Rainha das Fadas:
Em filosofia e psicologia
Platão O filósofo antigo Platão desenvolveu um conceito idealista de eros que provaria ser muito influente nos tempos modernos. Em geral, Platão não considerava a atração física uma parte necessária do eros. O "amor platônico", nesse sentido original, pode ser alcançado pela purificação intelectual de eros de carnal para a forma ideal. Este processo é examinado no diálogo de Platão, o Banquete, e definido pela scala amoris. Por ela, Platão argumenta que o eros é inicialmente sentido por uma pessoa, mas, com a contemplação, pode se tornar uma apreciação da beleza dentro dessa pessoa, ou mesmo uma apreciação da própria beleza no sentido ideal. Como Platão expressa, o eros pode ajudar a alma a "lembrar" a beleza em sua forma pura. Daí resulta, para Platão, que o eros pode contribuir para a compreensão da verdade.
Eros, entendido nesse sentido, diferia consideravelmente do significado comum da palavra na língua grega da época de Platão. Também diferia do significado da palavra na literatura e poesia contemporânea. Para Platão, eros não é puramente humano nem divino: é algo intermediário que ele chama de daimon.
Paradoxalmente, para Platão, o objeto de eros não precisa ser fisicamente bonito. Isso ocorre porque o objeto de eros é a beleza, e a maior beleza é eterna, enquanto a beleza física não é de forma alguma eterna. No entanto, se o amante alcançar a beleza interior (ou seja, ideal) do amado, sua necessidade de felicidade será satisfeita, porque felicidade é a experiência de saber que você está participando do ideal.Platão. O Banquete. 199c5-212c
Sigmund Freud