thumb|upright=1.3|Sergio Moro durante audiência pública da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado para esclarecimentos a respeito das notícias sobre os vazamentos das conversas da Operação Lava Jato.

Vaza Jato foi o vazamento de conversas realizadas através do aplicativo Telegram entre o então juiz Sergio Moro, o então promotor Deltan Dallagnol e outros integrantes da Operação Lava Jato. A divulgação das conversas foi feita pelo periódico virtual Intercept Brasil, a partir de 9 de junho de 2019.

As transcrições indicaram que Moro cedeu informação privilegiada à acusação, auxiliando o Ministério Público Federal (MPF) a construir casos, além de orientar a promotoria, sugerindo modificação nas fases da operação Lava Jato; também mostraram cobrança de agilidade em novas operações, conselhos estratégicos, fornecimento de pistas informais e sugestões de recursos ao MPF.

Os vazamentos tiveram ampla repercussão. Sérgio Moro, a força-tarefa da Lava Jato e o MPF questionaram a autenticidade, a legalidade e a origem dos dados. Em 24 de julho de 2019, a Polícia Federal prendeu o hacker responsável pela invasão do celular de Moro e de várias outras autoridades, como parte da Operação Spoofing. Em outubro, o Supremo Tribunal Federal (STF), através do ministro Gilmar Mendes, anunciou que irá acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) para tentar atestar a autenticidade dos dados vazados. Entretanto, tal validação pode não ser tecnicamente possível devido às facilidade de se editar conversas do Telegram após uma invasão.

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Condução da Lava Jato

thumb|esquerda|O então juiz federal Sergio Moro em setembro de 2015.

Em junho de 2019, o periódico virtual Intercept Brasil publicou matéria com vazamento, de fonte anônima, de conversas no aplicativo Telegram, nas quais Moro orienta a promotoria, sugerindo modificação nas fases da operação Lava Jato; também mostraram cobrança de agilidade em novas operações, conselhos estratégicos, e antecipação de pelo menos uma decisão. Moro forneceu, ainda, pistas informais e sugestões de recursos ao MPF. Segundo juristas, tal prática viola o Código de Ética da Magistratura e a Constituição brasileira, por desrespeitar os princípios da imparcialidade, independência e equidistância entre defesa e acusação. Segundo a Constituição de 1988 (atual Constituição da República Federativa do Brasil), não pode haver vínculos entre o juiz e as partes em um processo judicial. Isso inclui dizer que o juiz e a parte acusadora não devem trocar informações nem atuar fora de audiências. As transcrições demonstraram ainda que a promotoria tinha receio da fragilidade das acusações feitas contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que buscou combinar previamente elementos do caso.

Segundo a reportagem, membros do Ministério Público também conversaram sobre formas de inviabilizar uma entrevista do ex-presidente Lula à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, no âmbito da eleição presidencial de 2018, pelo receio de que a entrevista poderia "eleger o Haddad ou permitir a volta do PT ao poder", o que indicaria partidarização e politização da conduta da promotoria.

Em reportagem de 5 de julho de 2019, a revista Veja publicou uma reportagem que aponta que, fora dos autos, Moro pediu à acusação que incluísse provas nos processos que chegariam depois às suas mãos, mandou acelerar ou retardar operações e fez pressão para que determinadas delações não andassem.Glenn Greenwald, Edoardo Ghirotto, Fernando Molica, Leandro Resende e Roberta Paduan (5 de julho de 2019) Novos diálogos revelam que Moro orientava ilegalmente ações da Lava Jato Veja

No artigo da Veja, são apontadas diversas ocasiões em que Moro conduziu e orientou investigações do Ministério Público Federal. Entre as supostas irregularidades, estão uma reação positiva diante de apresentação de denúncia contra o ex-presidente Lula, a interferência contrária a delação de Eduardo Cunha e a sugestão de datas para a prisão do então presidente da Eletronuclear.ALEXANDRE PUTTI, ANA LUIZA BASILIO (5 de julho de 2019) Novos vazamentos são suficientes para anular processos de Moro, diz Veja Carta Capital Em carta ao leitor, a revista afirma que "continua ao lado da operação, mas que não pode fechar os olhos para os abusos cometidos por Moro na condução dos processos". Também afirma que o conteúdo dos diálogos é suficiente para a suspeição do então juiz e a anulação de processos.Carta ao leitor: Sobre princípios e valores Conversas grupos da Lava Jato no Telegram divulgadas em 19 de outubro de 2019 também indicariam que Moro direcionava operações da Polícia Federal, inclusive para ordenar busca e apreensão na casa de suspeitos sem pedido do Ministério Público.

Triplex do Guarujá Mensagens trocadas entre o procurador Deltan Dallagnol e outros membros da operação Lava Jato indicariam que havia dúvidas sobre a solidez das provas apresentadas pela acusação do caso do "tríplex do Guarujá". O julgamento resultou na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 9 de setembro de 2016, Dallagnol teria enviado uma mensagem a um grupo do aplicativo Telegram chamado "Incendiários ROJ": "Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis? Então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre Petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram tô com receio da história do apto? São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua". Após ler uma reportagem do jornal O Globo em 2010 que atribui a Lula a posse de um apartamento no mesmo edifício do tríplex, Dallagnol mostrou-se mais convicto em prosseguir com a acusação. Em seguida, pediu que algum dos procuradores falasse com a jornalista que apurou a matéria.

Morte da esposa, do irmão e do neto de Lula thumb|Ato em homenagem a ex-primeira-dama Marisa Letícia em Brasília em 2017.

No dia 27 de agosto de 2019, foram reveladas mensagens de chats privados no aplicativo Telegram, onde integrantes da força-tarefa ironizaram a morte da ex-primeira-dama Marisa Letícia e o luto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ex-primeira dama faleceu em 24 de janeiro de 2017 em decorrência de um AVC hemorrágico. Em uma postagem no Twitter, a procuradora Jerusa B. Viecili, mencionada nas mensagens vazadas, pediu desculpas ao ex-presidente Lula.

Os diálogos também mostrariam que os procuradores divergiram sobre o pedido de Lula para ir ao enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, em janeiro passado (quando Lula já se encontrava preso) e que temiam manifestações políticas em favor do ex-presidente. Na ocasião, alguns membros da Lava Jato disseram acreditar que a militância petista poderia impedir a volta dele à superintendência da PF, em Curitiba. A despedida de Lula do neto Arthur Araújo Lula da Silva, que morreu aos 7 anos, em março, também foi assunto entre procuradores da Lava Jato e alvo de crítica em chat composto por integrantes do MPF.

Quebra de sigilo telefônico de Lula e vazamentos para a imprensa

thumb|esquerda|Dilma Rousseff empossa Lula como Ministro Chefe da Casa Civil, em 17 de março de 2016

No início de setembro de 2019, o jornal Folha de S. Paulo e o site Intercept Brasil revelaram registros de conversas grampeadas entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e aliados, como Michel Temer, em 2016. O material, que esteve sob sigilo todos esses anos, mostra que Lula relutou em aceitar o convite de Dilma Rousseff para ser ministro da Casa Civil.

As 22 conversas de Lula foram grampeadas após o pedido de interrupção da escuta, no dia 16 de março de 2016 e foram gravadas porque "as operadoras de telefonia demoraram a cumprir a ordem de Moro e o sistema usado pela PF continuou captando as ligações." Em nota, o Ministério da Justiça afirmou que Moro não soube dessas gravações enquanto era juiz. No entanto, a divulgação do conteúdo das conversas enfraquecem a tese usada por Moro de que o ex-presidente assumiria o cargo para travar investigações sobre ele, dando-o foro especial por prerrogativa de função. Na época, o vazamento do diálogo fez com que o STF anulasse a posse de Lula.

Em agosto de 2019, conversas divulgadas pelo Intercept também apontaram que Deltan Dallagnol passava propositalmente informações de investigações à imprensa para pressionar investigados e alterar os rumos do processo. De acordo com as mensagens exibidas pelo Intercept, Dallagnol participou de grupos em que esse tipo de vazamento era debatido, planejado e realizado.

Acusações de investigação seletiva thumb|Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. thumb|Ex-deputado federal Eduardo Cunha. thumb|Senador Flávio Bolsonaro. thumb|Deputado Onyx Lorenzoni, Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República pelo governo Bolsonaro.

Um diálogo revelado pelo Intercept Brasil em junho de 2019 entre Moro e Dallagnol reforça a controversa interação entre julgador e a acusação. Na conversa, Moro adverte Dallagnol sobre a conveniência de investigar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) no âmbito da Lava Jato. "Tem alguma coisa mesmo séria do FHC? O que vi na TV pareceu muito fraco", diz Moro, segundo o site, em 2017. O procurador concorda que os indícios são débeis, mas argumenta que investigar todos reforçaria a "imparcialidade" da força-tarefa. O então juiz retruca: "Ah, não sei. Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante."

De acordo com mensagens vazadas em julho de 2019, durante uma conversa privada em 2017, Moro teria recomendado que o Ministério Público Federal não fechasse acordo de delação premiada com o ex-deputado federal Eduardo Cunha. Procuradores também teriam optado por não dar prosseguimento a uma denúncia de manipulação de escolha do relator do processo de cassação de Cunha, mesmo considerando-a importante. Cunha acusou o ex-presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo (PR-BA), de indicar um relator mais favorável ao próprio Cunha. Araújo teria enviado interlocutores com um "recado" a Cunha, onde apresentou os nomes que seriam sorteados e depois aquele que acabaria sendo escolhido para relatar o processo: Fausto Pinato (PP-SP). Ao analisar a suposta fraude, os procuradores se impressionaram. "Realmente esse é um fato que talvez não devesse ser sonegado da sociedade. Isso mostra/expõe como ainda somos um País subdesenvolvido, em que os políticos estão tão distantes da realidade", teria dito o procurador Orlando Martello. As mensagens teriam sido trocadas em um grupo chamado "Acordo Cunha", criado por um procurador da PGR em junho de 2017, quando o advogado de Cunha, Délio Lins e Silva Júnior, teria oferecido um acordo de delação. Todos os citados na suposta fraude negaram envolvimento.

Conversas divulgadas em julho mostraram que Dallagnol também concordou que o senador Flávio Bolsonaro mantinha um esquema de corrupção em seu gabinete operado pelo assessor Fabrício Queiroz. Nas conversas, Dallagnol chega a afirmar que o atual senador "certamente" seria implicado no esquema. Contudo, logo depois, demonstra preocupação de que Moro não investigasse Flávio por pressão do presidente recém-eleito e pelo objetivo do juiz em tentar uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio Bolsonaro respondeu com críticas à operação Lava Jato apontando que "...pontualmente algumas pessoas ali [operação Lava] têm interesse político ou financeiro."