thumb|220px|Entrada da Academia Imperial de Belas Artes, com a estátua de João Caetano em frente, em 1891. Fotografia de Marc Ferrez.

A Academia Imperial de Belas Artes (AIBA) foi uma escola superior de arte fundada no Rio de Janeiro, Brasil, por D. João VI. Enfrentando muitas dificuldades iniciais, por fim conseguiu se estabilizar, assumindo um papel central na determinação dos rumos da arte nacional durante a segunda metade do século XIX, sendo um centro de difusão de novos ideais estéticos e educativos, e um dos principais braços executivos do programa cultural nacionalista patrocinado pelo imperador D. Pedro II. Com o advento da República, passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes, mas foi extinta como instituição autônoma em 1931, sendo entretanto absorvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e continuando em atividade até os dias de atuais, como uma de suas unidades de ensino, a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ordem Cronológica dos nomes da Escola de Belas Artes

Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios – 1816 - 1822 Academia Imperial de Belas Artes – 1826 - 1889 Escola Nacional de Belas Artes – 1890 - 1965 Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro – 1965 em diante

Origens left|150px|thumb|Lebreton A fundação de uma escola de artes e ofícios no Brasil se deve, segundo informa Rafael Denis, à iniciativa da ala francófila do conselho de ministros de Dom João, representada pelo Conde da Barca. Uma escola desta feição se tornava cada vez mais necessária para a formação de profissionais especializados para servirem ao Estado e às indústrias nascentes, quando no país até então praticamente nada existia em termos de ensino regular e a tradição artística se transmitia através do antigo sistema das corporações. A implementação da ideia exigia a contratação de professores estrangeiros, de modo que enviados do Conde entraram em contato em Paris com Joachim Lebreton, então secretário perpétuo da seção de Belas Artes do Institut de France, para que ele reunisse o grupo de mestres necessários, que seria conhecido como a Missão Artística Francesa.Denis, Rafael Cardoso. "Academicism, Imperialism and national identity: the case of Brazil's Academia Imperial de Belas Artes", In: Denis, Rafael Cardoso; Trod, Colin. Art and the academy in the nineteenth century. Manchester University Press, 2000. pp. 55-56 miniatura|direita|220px|Estatutos da Imperial Academia e Escola de Bellas Artes (1820)

Entretanto, a fundação da escola é controversa, e outros autores apontam diferentes mentores possíveis para o projeto, entre eles Dom João, o Marquês de Marialva e os franceses Lebreton ou Taunay. A documentação sobrevivente parece deixar claro que a Missão foi idealizada pelos próprios franceses. Em duas cartas Nicolas Taunay oferece seus serviços à corte portuguesa, a correspondência do Marquês de Aguiar refere que de parte da corte não havia intenção nenhuma de financiar a viagem deles ou garantir-lhes a estadia, correspondência do diplomata Francisco José Maria de Brito ao Conde da Barca apresenta o projeto como concebido por Lebreton, e numa carta de Brito a Lebreton ele lembrava ao destinatário que o projeto era inteiramente obra de Lebreton, que não lhe garantira nada em nome do governo português, e que uma acolhida oficial dependeria apenas da circunstância, incerta, de o príncipe regente querer apoiá-los.Pinassi, Maria Orlanda. Três devotos, uma fé, nenhum milagre: Nitheroy, revista brasiliense de ciências, letras e artes. Coleção Prismas. UNESP, 1998, pp. 55-59Schwarcz, Lilia Moritz. O sol do Brasil: Nicolas-Antoine Taunay e as desventuras dos artistas franceses na corte de d. João. Companhia das Letras, 2008, pp. 176-188 Por fim, o decreto de fundação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios em 12 de agosto de 1816 informa que Dom João iria aproveitar o trabalho de um grupo de franceses que havia procurado sua proteção.Wanderley, Monica Cauhi. "História da Academia - diferentes nomes, propostas e decretos". In: 19&20, 2011; VI (2)

De qualquer maneira Lebreton assumiu a direção do grupo e seus colegas efetivamente se mudaram para o Brasil. Entre eles estavam um arquiteto naval, um engenheiro mecânico, um mestre ferreiro, carpinteiros e outros artesãos, bem com alguns artistas. Os mais conhecidos destes foram o pintor Jean-Baptiste Debret, antigo aluno do celebrado Jacques-Louis David, o arquiteto Grandjean de Montigny e o pintor Nicolas-Antoine Taunay, ambos vencedores do Prêmio de Roma. Aportaram no Rio de Janeiro em 26 de março de 1816, a bordo do navio Calpe, escoltado por navios ingleses. Diversos trouxeram suas famílias e criados. A eles se juntaram alguns outros pouco mais tarde, dando nascimento a uma pequena colônia que se tornou conhecida mais tarde pelo nome de Missão Artística Francesa. A Missão forneceu os recursos humanos, técnicos e conceituais que estruturaram a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, o primeiro nome da instituição que foi a primeira em seu gênero no Brasil.Neves, Lúcia M. B. Pereira das. A Missão Artística Francesa. Rede da Memória Virtual Brasileira.Fernandes, Cybele Vidal Neto. "O Ensino de Pintura e Escultura na Academia Imperial das Belas Artes" In: 19&20, 2007; II (3)

O programa de ensino foi delineado por Lebreton, conforme atesta um memorando seu enviado ao rei em 12 de junho daquele ano. Nele o autor divide o ciclo de aprendizado artístico em três etapas, a partir do sistema consagrado pela Academia Francesa:

Desenho geral e cópia de modelos dos mestres, para todos os alunos; Desenho de vultos e da natureza, e elementos de modelagem para os escultores; Pintura acadêmica com modelo vivo para pintores; escultura com modelo vivo para escultores, e estudo no atelier de mestres gravadores e mestres desenhistas para os alunos destas especialidades.

Para a arquitetura haveria também três etapas divididas em teóricas e práticas:

Na teoria:

História da arquitetura através de estudo dos antigos; Construção e perspectiva; Estereotomia.

Na prática:

Desenho; Cópia de modelos e estudo de dimensões; Composição.

Paralelamente Lebreton sugeria ainda o ensino da música, bem como sistematizava o processo e critérios de avaliação e aprovação dos alunos, o cronograma de aulas, sugeria formas de aproveitamento público dos formados e projetava a ampliação de coleções oficiais com suas obras, discriminava os recursos humanos e materiais necessários para o bom funcionamento da Escola, e previa a necessidade da formação de artífices auxiliares competentes através da proposta de criação paralela de uma Escola de Desenho para as Artes e Ofícios, cujo ensino seria gratuito mas igualmente sistemático.Lebreton, Joachim. Memória do Cavaleiro Joachim Lebreton para o estabelecimento da Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 12 de junho de 1816.

Primeiros anos thumb|220px|Dom João VI, pintado por Debret. Museu Nacional de Belas Artes

Esse projeto, um representante típico do chamado Academismo, tinha um perfil muito contrastante com o sistema de ensino e circulação de arte até então prevalente no Brasil. Havia na terra já uma longa e rica tradição artística local, visível no vasto legado de arte barroca que ainda sobrevive no país, mas seus métodos eram em tudo diversos. O aprendizado seguia o modelo informal das corporações de ofícios medievais, o status de artista nem era reconhecido, antes eram considerados meros artesãos especializados, cuja inserção na sociedade era apenas marginal. As temáticas privilegiadas por esse produtores eram basicamente religiosas, sendo a Igreja o maior mecenas do período. O sistema de arte do Brasil Colônia não estava capacitado para a produção de uma arte palaciana como a que desejava a corte recém chegada, e assim se explica a rápida encampação do projeto de Lebreton pela monarquia no exílio, considerando-o o marco inaugural da entrada no Brasil na "verdadeira" civilização.Schwarcz, pp. 189-193 A Missão chegou ao Brasil imbuída de altos propósitos, como escreveu Debret:

"Animados todos por um zelo idêntico e com o entusiasmo dos sábios viajantes que já não temem mais, hoje em dia, enfrentar os azares de uma longa e ainda, muita vezes, perigosa navegação, deixamos a França, nossa pátria comum, para ir estudar uma natureza inédita e imprimir, nesse mundo novo, as marcas profundas e úteis, espero-o, da presença de artistas franceses".Siqueira, Vera Beatriz. "Redescobrir o Rio de Janeiro". In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, no 3, novembro de 2006.

Mas a realidade contradisse suas expectativas. Embora com o apoio real, a Missão, promotora do Neoclassicismo, encontrou resistência entre os artistas nativos, ainda seguidores da estética barroca, e ameaçava a posição de profissionais portugueses já estabelecidos. Aparentemente os franceses foram recebidos como importunos tanto por portugueses quanto por brasileiros. O governo central tinha muitas outras preocupações, trabalhando em um contexto difícil, e não teve condições de dar muita atenção à escola. O principal e um dos únicos verdadeiros incentivadores do projeto, o Conde da Barca, faleceu no ano seguinte. O contrato dos artistas foi posto em discussão e o cônsul francês no Brasil, representante da monarquia Bourbon restaurada, não via com bons olhos a presença de antigos bonapartistas como Lebreton.

A escola não tinha sede, e ficou à mercê das oscilações políticas. Os artistas sobreviviam da pensão que lhes concedera o governo, e ocupavam-se aceitando encomendas de retratos e organizando festas suntuosas para a corte. Aulas efetivas foram poucas, dadas em condições precaríssimas por Debret provavelmente em seu pequeno atelier particular no Catumbi. O próprio grupo enfrentava dissidências internas. Lebreton foi acusado de favorecimentos indevidos e má administração, e teve de se isolar de todos, falecendo em seguida, em 1819. Sucedeu-o Henrique José da Silva, pintor português, inimigo ferrenho dos franceses. O seu primeiro ato oficial, como primeiro diretor da instituição agora nomeada Academia Real de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil, foi liberá-los de todas as suas obrigações como professores. Tantas foram as dificuldades que Taunay abandonou o país em 1821, deixando para trás o seu filho, Félix. Pouco depois o Taunay escultor, Auguste, também faleceu, desfalcando ainda mais o grupo primitivo, do qual foram efetivamente aproveitados pelo governo apenas cinco integrantes: Debret, Nicolas e Auguste Taunay, Montigny e Ovide, mecânico.Freire, Laudelino. Um Século de Pintura (1816-1916). Disponível em Pitoresco.comSchwarcz, pp. 233-234

O Primeiro Reinado thumb|220px|Projeto do prédio da Academia publicado por Debret em 1826. (Documento sob a guarda do Arquivo Nacional)

Apesar de todos os obstáculos e controvérsias, os franceses deixaram uma marca indelével no cenário cultural brasileiro, e a semente que lançaram acabou frutificando. Debret e Montigny se tornaram os principais núcleos de resistência. O primeiro foi distinguido como pintor oficial de Dom Pedro I, e o segundo foi responsável por vários projetos arquitetônicos e urbanísticos que contribuíram para a renovação da fisionomia urbana do Rio, influenciando muitos alunos. Lebreton, por sua vez, com o plano curricular que estabeleceu em 1816, deixou diretrizes metodológicas que com algumas modificações permaneceram norteando a evolução da instituição ao longo de todo o século XIX. Alguns dos primeiros alunos da escola também acabaram se destacando e perpetuando o ideal primitivo, entre eles Simplício de Sá e José de Cristo Moreira, portugueses; Afonso Falcoz, francês; Manuel de Araújo Porto-Alegre, Francisco de Sousa Lobo, José dos Reis Carvalho, José da Silva Arruda e Francisco Pedro do Amaral, brasileiros.Mattos, Adalberto. "O Salão de MCMXXIV. Pintura, Escultura, Arquitetura, Gravura". In: Illustração Brasileira, ano V, n. 48, ago. 1924, s/p