O vazamento de óleo no Brasil foi um derrame de petróleo cru que atingiu mais de dois mil quilômetros do litoral das regiões Nordeste e Sudeste do Brasil. As investigações concluíram que o vazamento veio do petroleiro Bouboulina, de bandeira grega. A embarcação havia sido carregada na Venezuela, e seguiria para a Cidade do Cabo, na África do Sul. Ainda segundo as investigações, o vazamento teria ocorrido entre 28 e 29 de julho de 2019, quando o Bouboulina navegava a cerca de 730 km da costa brasileira.
Histórico Os primeiros registros do derrame ocorreram no fim do mês de agosto de 2019. Até 23 de outubro, a contaminação havia atingido mais de duzentas localidades de vários municípios dos nove estados da Região Nordeste. Um relatório da Marinha estimou que mais de mil toneladas de óleo haviam sido retiradas das praias nordestinas até o dia 21 de outubro. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), tratou-se do maior desastre ambiental já registrado no litoral brasileiro.
Em 8 de outubro de 2019, um relatório da petrolífera brasileira Petrobras apontou que a substância seria uma mistura de óleos da Venezuela, o que não significa que o país fosse o responsável pelo desastre. O governo venezuelano rejeitou qualquer ligação com o vazamento. A Marinha notificou 30 navios-tanque de dez países diferentes que passaram pelo litoral brasileiro a prestar esclarecimentos. Os culpados estão sujeitos à Lei de Crimes Ambientais. Segundo o Ministério da Defesa, até 22 de outubro de 2019, cerca de 5 500 militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea atuavam na limpeza das praias do Nordeste, além de servidores da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, assim como milhares de voluntários.
Em junho de 2020 voltaram a surgir mais manchas do mesmo óleo, no litoral de Alagoas e Pernambuco.
Em julho de 2021, quase dois anos depois do primeiro surgimento, novas manchas de óleo voltaram a aparecer no litoral da Bahia, tendo sido coletados entre 300 e 400 quilos. Até então, a contaminação havia atingido km do litoral brasileiro, em mais de mil localidades de 130 municípios, desde o litoral do Maranhão até o litoral norte do Rio de Janeiro. Ao todo, foram coletadas toneladas de óleo, sendo a maior parte no litoral de Alagoas ( toneladas) e Pernambuco ( toneladas).
Investigação thumb|Marinha notifica 30 navios-tanque a prestar esclarecimentos sobre o óleo no Nordeste
O governo brasileiro anunciou a investigação de três hipóteses para o vazamento: naufrágio de navio petroleiro, falha na transferência de petróleo entre embarcações ou despejo criminoso. O então presidente Jair Bolsonaro não descartou a possibilidade de ação criminosa. As investigações sobre a origem do petróleo se concentraram inicialmente em 23 embarcações suspeitas. Se o responsável pelo despejo fosse identificado, mesmo que estrangeiro, poderia ser multado em até 50 milhões de reais e responder pelo crime ambiental, com base na Lei 9.605/1988, que pune condutas lesivas ao meio ambiente.
Em 8 de outubro de 2019, um relatório da petrolífera brasileira Petrobras caracterizou o óleo como um tipo mais residual, com densidade elevada, característico do óleo venezuelano. Dois dias depois, um laudo do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA) também apontou que o material contaminante teve origem venezuelana, ao comparar o óleo coletado nas praias com uma amostra de petróleo da Venezuela existente na instituição.
No dia 10 de outubro o governo venezuelano negou responsabilidade pelas manchas de petróleo. Em comunicado, a petrolífera estatal PDVSA afirmou que as acusações do governo brasileiro sobre a origem do material eram "infundadas" e que não foi comunicada por clientes ou subsidiárias sobre vazamentos de petróleo perto da costa brasileira.
No dia 11 de outubro, a Marinha afirmou em nota que, "após uma triagem das informações do tráfego mercante na região de interesse", notificou 30 navios-tanque de dez diferentes países a prestarem esclarecimentos". "A Marinha entrará em contato com as autoridades competentes dos países dessas bandeiras, com a Organização Marítima Internacional e com a Polícia Federal, visando elucidar todos os fatos", afirmava a nota. A ação teve apoio do Ministério da Defesa, do Exército e de instituições dos Estados Unidos, além de ter mobilizado 1.583 militares de 48 organizações diferentes, cinco navios, uma aeronave e embarcações e viaturas pertencentes a autoridades ao longo do litoral nordestino, como capitanias dos portos, delegacias e agências. Em 25 de outubro, a Petrobras informou que o óleo encontrado em praias do Nordeste brasileiro desde o final de agosto seria proveniente de três campos da Venezuela.
Hipótese de vazamento do petroleiro Bouboulina thumb|esquerda|Petroleiro Bouboulina, de bandeira grega, suspeito de ter derramado óleo na costa brasileira No dia 1 de novembro, o navio petroleiro Bouboulina, de bandeira grega, e a empresa grega Delta Tankers, que o administra, foram citados em uma decisão judicial que autorizou o pedido de busca e apreensão em endereços no Rio de Janeiro. Em sua decisão, o juiz Francisco Eduardo Guimarães afirmou que o navio teria sido o único "a passar pelo polígono suspeito demarcado como ponto de origem do derramamento", conforme indicado por um relatório elaborado voluntariamente pela empresa Hex Tecnologias Geoespaciais e entregue à Polícia Federal.
A embarcação grega havia atracado no porto de Jose, na Venezuela, no dia 15 de julho. Três dias depois, já carregado com cerca de um milhão de barris de petróleo tipo Merey 16 cru, deixou a costa venezuelana rumo a Singapura pelo Oceano Atlântico. No dia 23 de julho chegou à costa brasileira, passando pelo Amapá. Entre os dias 28 e 29, segundo a investigação da PF, teria dado início ao desastre ambiental que atingiu as praias do Brasil. Em 9 de agosto, chegou à Cidade do Cabo, na África do Sul, onde parou por menos de um dia e seguiu em direção à costa de Malaca, na Malásia.
Em nota publicada em 2 de novembro, a Delta Tankers desmentiu as acusações, afirmando que não haveria provas de que o navio tenha realizado alguma escala entre a Venezuela e a Malásia, onde descarregou todo o petróleo, sem qualquer falta. Também afirmou que não houve desvio do curso ou qualquer tipo de operação ship to ship (STS) durante a rota. Segundo a empresa, foi realizada uma investigação completa nos registros das câmeras e sensores que equipam a embarcação, que monitoram as atividades a bordo, e esse material estaria disponível para ser compartilhado com as autoridades brasileiras assim que solicitadas para a investigação.
Imagens de satélite coletadas pela Hex apontaram uma mancha de óleo original em 29 de julho, a a oeste do estado da Paraíba, e fragmentos se movendo em direção ao litoral nordestino. Ainda segundo a decisão judicial, laudos técnicos emitidos pela Petrobras apontaram haver uma "correlação significativa" entre amostras coletadas na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, e petróleo cru ou um tipo de derivado produzido a partir de petróleo venezuelano. Estudos da Universidade Federal da Bahia, a partir do óleo retirado de praias de Sergipe e Bahia, confirmaram essa correlação. A Interpol também realizou diligências no exterior contra os acusados de crimes ambientais.
Hipótese de vazamento no Golfo da Guiné Pesquisadores do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas acreditaram que o óleo pudesse ter se originado de um vazamento na costa do país de Camarões, no Golfo da Guiné, um local de exploração de petróleo e tráfego intenso de navios, a aproximadamente do litoral do nordeste brasileiro. Para chegar a essa conclusão, analisaram as imagens do satélite Sentinel-1. As imagens mostraram que no segundo semestre de 2019 houve um padrão incomum na costa ocidental da África, com uma mancha de óleo de mais de 430 quilômetros quadrados, a aproximadamente duzentos quilômetros da costa de Camarões. Segundo os cientistas, naquela área existe uma confluência de correntes, o que poderia ter trazido o óleo para a costa do nordeste brasileiro. Foram analisados dados coletados de julho de 2019 até agosto de 2020, apresentando um padrão de repetição nas manchas que indicou vazamentos constantes. As imagens do Sentinel-1 revelaram que em julho de 2019, aproximadamente um mês antes do primeiro registro oficial de petróleo nas praias nordestinas, havia manchas de óleo que poderiam ser de vazamentos na costa africana. Os pesquisadores não puderam ter certeza que de fato o petróleo que chegou ao nordeste tenha essa origem, mas sim que houve um derramamento constante naquela região a partir de julho de 2019, e que a intensidade desse derramamento diminuiu ao longo de 2020.
Conclusão As investigações realizadas pela Polícia Federal concluíram que o óleo vazou do navio petroleiro grego Bouboulina. Foram analisadas as características e procedência do óleo, bem como estudos para detectar o local exato do vazamento, utilizando imagens de satélite e simulações. Também foi levantada uma base em dados, documentação e informações, através de uma cooperação nacional e internacional com apoio da Interpol. Segundo o relatório divulgado em dezembro de 2021, os custos iniciais para a limpeza das praias e oceano, arcados pelos poderes públicos foram estimados em mais de R$ 188 milhões.
Impactos thumb|Manchas de óleo em praia nordestina thumb|Tartaruga marinha coberta de óleo em praia do Nordeste. thumb|Manchas de petróleo cru foram vistas em 9 de outubro de 2019 na região do Baixo São Francisco
Ambiental Técnicos ambientais de Alagoas detectaram manchas de óleo na foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu, no litoral sul do estado, em monitoramento de rotina. A foz do São Francisco, maior rio inteiramente brasileiro, se localiza na divisa entre Alagoas e Sergipe, mas o aparecimento do óleo ficou restrito à foz, não chegando a invadir o rio. Por isso, o abastecimento da população nordestina não foi afetado. O espalhamento de óleo prejudicou tartarugas marinhas, aves e o peixe-boi-marinho, o mamífero dos oceanos com maior risco de extinção no Brasil. Segundo especialistas, o petróleo cru poderia afetar a digestão dos animais e o desenvolvimento de algas, essenciais para a cadeia alimentar dessas espécies.
Oceanógrafos, químicos e autoridades baianas avaliaram o impacto da movimentação da mancha pela costa do Nordeste após a chegada à Baía de Todos os Santos, em Salvador. Até chegar ali, o óleo já havia deixado um rastro tóxico por milhares de quilômetros e atingido os mangues e corais dessa região em uma etapa mais avançada de degradação — um tipo de contaminação que é mais difícil de ser limpa e que permanecerá durante anos no meio ambiente. O petróleo cru, ainda que seja altamente tóxico, é uma substância orgânica. Dessa forma, ele pode ser degradado através de fatores naturais, como a rebentação das ondas (que dispersam o material), a irradiação solar (que evapora determinados componentes) e até mesmo bactérias que se alimentam do carbono contido no material, mas o processo pode levar décadas.