Charmbracelet é o nono álbum de estúdio da artista musical estadunidense Mariah Carey, lançado em 3 de dezembro de 2002 pela Island Records e MonarC Entertainment. O álbum foi seu primeiro lançamento após o fracasso crítico e comercial de seu filme Glitter (2001) e sua trilha sonora acompanhante. Para o projeto, ela voltou a trabalhar com antigos colaboradores, como Jermaine Dupri, Jimmy Jam e Terry Lewis, e também juntou-se a novos parceiros como 7 Aurelius e Dre & Vidal. Charmbracelet liricamente combina temas pessoais e introspectivos, enquanto tenta recapturar o público de Carey ao fornecer um som mais adulto contemporâneo, mas mantendo a sonoridade urbana presente em seus álbuns anteriores.

Após seu lançamento, Charmbracelet recebeu avaliações mistas dos críticos musicais. Muitos sentiram que embora as canções fossem boas, nenhuma delas se destacava para fazer um impacto muito grande. Além disso, eles discordaram sobre a voz de Carey, com alguns apontando que ela soava danificada, enquanto outros apreciaram sua qualidade vocal. Charmbracelet estreou na terceira posição da tabela estadunidense Billboard 200, vendendo 241.000 cópias na primeira semana. Internacionalmente, o álbum teve sucesso moderado, atingindo o top 40 em sete países, enquanto figurou entre os 10 álbuns mais vendidos no Japão e Suíça. Charmbracelet contabiliza cerca de 3 milhões de exemplares vendidos ao redor do mundo.

Três singles foram lançados para promover o álbum; o primeiro, "Through the Rain" foi o maior sucesso entre os três, alcançando o top 10 no Canadá, Suíça, Suécia e Itália e Reino Unido. Nos Estados Unidos, ele falhou em repetir o sucesso dos singles anteriores de Carey, alcançando apenas a posição 81 na Billboard Hot 100. Os outros dois, "Boy (I Need You)" e "Bringin' on the Heartbreak", não conseguiram igualar os números internacionais do primeiro single. Carey também se apresentou em vários programas de televisão, como no trigésimo American Music Awards, Today e The Oprah Winfrey Show, além de embarcar na Charmbracelet World Tour: An Intimate Evening with Mariah Carey, que tornou-se sua excursão mais longa, com 69 concertos realizados em oito meses.

Antecedentes

Ao final da década de 1990, Carey havia se divorciado de seu marido e executivo de sua gravadora Columbia Records, Tommy Mottola, e obteve mais controle criativo sobre sua carreira. Com Butterfly (1997), seu primeiro álbum lançado após a sua separação, a cantora libertou sua "gatinha sensual interna" segundo alguns críticos, e com seu próximo lançamento, Rainbow (1999), a cantora continuou a infundir mais influências de R&B em sua música, nomeadamente com "Heartbreaker", o primeiro single do álbum, que caracterizou a maior proximidade de Carey no território do hip hop. Carey começou a deixar para trás sua voz da década de 1990, e de acordo com um escritor do The Sacramento Bee, tentou soar mais gueto. Ela parou de trabalhar com produtores pop como Babyface e Walter Afanasieff, a fim de buscar um novo som e público com escritores como Sean Combs e Jermaine Dupri. A partir desse momento, ela decidiu se aventurar no cinema com o filme Glitter. Simultaneamente, ela deixou a Columbia e assinou um contrato avaliado em 100 milhões de dólares com a Virgin Records, e lançou a trilha sonora do filme como primeiro álbum com a nova gravadora. Durante a campanha promocional para o projeto, fez uma aparição polêmica no Total Request Live (TRL), na qual ela distribuiu sorvetes para os fãs e demonstrou o que foi considerado pela mídia como "comportamento errático". Depois de deixar mensagens preocupantes em seu website, Carey internou-se num hospital em Connecticut, em decorrência de um "colapso emocional e físico", de acordo com sua porta-voz Cyndi Berger.

Após seu lançamento, Glitter obteve má recepção tanto pelos profissionais de cinema quanto em termos comerciais. A trilha sonora do filme teve um desempenho ligeiramente melhor, com "Loverboy" tornando-se o single mais vendido de 2001 nos Estados Unidos, apesar de ter vendido apenas uma pequena fração quando comparado às vendas dos álbuns anteriores de Carey. Após o fraco desempenho do filme e sua trilha sonora, o contrato de Carey com a Virgin foi terminado por iniciativa do próprio selo, que pagou a ela 28 milhões de dólares para que o rompimento se realizasse. A cantora posteriormente viajou para Capri, Itália, permanecendo lá por cinco meses, período em que ela começou a escrever e produzir material para um novo álbum de estúdio, decorrente das experiências que ela havia vivido nos últimos meses. Em maio de 2002, foi anunciado que a cantora havia firmado um contrato com a Island Records – com a qual ela quase havia assinado antes de optar pela Virgin – num valor estimado em 20 milhões de dólares, que previa a criação de seu próprio selo, o MonarC Entertainment. Lyor Cohen, presidente da Universal Music Group, companhia da qual a Island era subsidiária, comentou que "tudo que Mariah precisava era de um grande abraço e de uma companhia que realmente ama os artistas e que entende as dificuldades de ser um artista. Mariah é um presente para todos nós".

Desenvolvimento e gravação

Carey começou a escrever canções para seu novo álbum ainda sem título em 2002, antes do contrato com a Island ser assinado. Ela decidiu viajar para Capri no intuito de descansar e gravar o disco, mudando-se para um estúdio de gravação onde ela poderia focar em escrever e gravar sem nenhum tipo de distração. De acordo com a cantora, ela escrevia as canções em seu apartamento no andar de cima, e as gravava no estúdio que ficava no andar de baixo, no período da noite. A maior parte do álbum foi gravada em Capri, embora ela tenha ido para Atlanta, Nova Iorque e Filadélfia para gravar algumas faixas. O material produzido tornou-se o "álbum mais pessoal" de Carey. Ela se reuniu com colaboradores de longa data como Jermaine Dupri, Jimmy Jam, Terry Lewis e Randy Jackson, enquanto também trabalhou com novos compositores e produtores como 7 Aurelius, Just Blaze, Damizza e Dre & Vidal. A música de abertura e primeira faixa a ser escrita para o álbum, "Through the Rain", foi escrita por Carey ao lado de Lionel Cole. A canção, que foi inspirada pelas lutas que Carey havia passado no ano anterior, foi coproduzida por Jam e Lewis. "Eu sempre tento inserir positividade em minhas canções sempre que posso, para inspirar outras pessoas que passaram por essas coisas. Quero dizer que as coisas que falaram em tablóides e que as coisas que eram tão excessivamente exageradas, que é um aspecto. Eu também passei por um monte de coisas pessoais, um monte de coisas de família este ano. [...] Me trouxe para outro lugar. As pessoas vão ler e dizer: 'Esta é Mariah e sua luta'", disse Carey sobre a canção. Outra faixa que Jam, Lewis e Carey trabalharam em juntos é "Yours", Jam disse que contém "provavelmente um dos melhores ganchos [de todos os tempos]." Ele também comparou a uma das colaborações anteriores do trio, "Thank God I Found You" (2000). Inicialmente, a canção foi gravada como dueto com o cantor Justin Timberlake; A parte de Carey foi gravada primeiro e Timberlake gravou em uma sessão diferente. No entanto, devido a complicações contratuais, ela nunca foi lançada e a versão incluída no álbum tem apenas os vocais de Carey. Jam e Lewis também produziram mais duas músicas, "Wedding Song" e "Satisfy", que possui vocais de fundo de Michael Jackson, mas estas não entraram no alinhamento final.

Carey decidiu trabalhar com Just Blaze depois que ela ouviu a canção "Oh Boy", que ele havia produzido para Cam'ron. Juntos, eles produziram "Boy (I Need You)", um remake de "Oh Boy", e também "You Got Me". A cantora descreveu a primeira como uma de suas favoritas no álbum. "É definitivamente uma das minhas favoritas, porque eu amo a original. Foi legal tê-lo aqui, fazendo suas coisas em um ambiente tão aleatório", disse ela. Já a última apresenta versos de rap de Jay-Z e Freeway, e foi descrita por Carey como um "canção de assinatura de Just Blaze". Na época que a canção foi gravada, Jay-Z estava aproveitando um período de férias em Capri, e foi ao estúdio para ouvir a canção. Depois de ouvi-la, ele quis contribuir para a canção e acrescentou a ela versos de rap de sua autoria. Dupri produziu "The One" e "You Had Your Chance". Ele disse que queria manter o "mesmo som familiar" de suas colaborações anteriores com Carey. "The One" foi descrita como uma "canção pessoal" por Carey e foi inspirada sobre o momento em que alguém se sente "machucado por relações no passado, e talvez você conhece alguém e você quer se envolver, mas você não tem certeza se você deve ou não". Ainda, ela decidiu gravar com uma banda ao vivo para o álbum. Em abril de 2002, ela conheceu 7 Aurelius e perguntou se ele poderia produzir canções para o álbum. Eles voaram para Nassau, Bahamas e lá gravaram uma série de canções de andamento acelerado e mediano, bem como baladas acompanhadas por uma banda ao vivo. 7 Aurelius disse que Carey foi "uma compositora maravilhosa" e descreveu o processo de gravação:

Fizemos três ou quatro canções em três ou quatro dias. A forma como estávamos fazendo-as, eu tinha [a secção de metais] lá em baixo junto comigo. Arrumamos todo o espaço com velas, um pouco de vinho agradável - [era] uma atmosfera muito boa. Foi completamente despojado, como 'Mariah Carey Unplugged'. Ela se revelou para mostrar seu talento. Ela estava realmente confiante em mim e minha visão, e eu estava confiante em quem ela era.

Randy Jackson contribuiu para quatro faixas do álbum. Ele comentou que o álbum era "o mais verdadeiro e honesto que ela fez. Ela não se importava com o que alguém pensava das letras. Elas só eram importantes para ela". Uma das faixas é uma regravação da música de Def Leppard, "Bringin' On the Heartbreak". Durante a sessão de fotos para Charmbracelet em Capri, Carey deparou-se com uma cópia do álbum Vault (1995), que contém a canção, e decidiu fazer uma versão para seu disco. Em entrevista à Billboard, Carey disse que a canção é "um exemplo de sua diversidade musical". Ela disse: "Eu adoro mostrar minhas influências de Minnie Riperton e [ir do] hip hop ao rock. É tudo de mim. Para 'Heartbreak', foi divertido relembrar uma canção que eu adorava cantar quando eu estava na escola. Eu acho que nós trazemos alguns novos elementos a ela". Outra canção que eles trabalharam juntos foi "My Saving Grace", que Carey descreveu como sua "graça salvadora" o processo de escrever, gravar e dar os toques finais ao álbum. Enquanto trabalhava no álbum em Capri, o pai de Carey, de quem ela era muito próxima, ficou doente e ela voltou a Nova Iorque para passar algum tempo com ele. Ele havia sido diagnosticado com câncer e podia tolerar apenas flores de girassóis devido a alergias que ele havia desenvolvido; porém, ele morreu logo após. Em sua memória, Carey escreveu e produziu a canção "Sunflowers for Alfred Roy". Ela comentou o que a canção representa: "[...] é meio difícil de falar. Passamos por um período de tempo muito difícil, porque era algo diferente, como um instante, tipo de coisa chocante que aconteceu". A canção provou ser "muito emocional" para Carey, o que a fez cantá-la apenas uma vez no estúdio. DJ Quik também produziu canções para o álbum, mas nenhuma delas entrou no alinhamento final.

Música e letra