O HMS Agincourt foi um navio couraçado operado pela Marinha Real Britânica. Sua construção teve início em setembro de 1911, nos estaleiros da Armstrong Whitworth, em Newcastle upon Tyne, sendo lançado ao mar em janeiro de 1913. Era armado com uma bateria principal composta por catorze canhões de 305 milímetros, montados em sete torres de artilharia duplas, o maior número de armas e torres já instalado em qualquer couraçado na história. Com deslocamento superior a trinta mil toneladas, tinha velocidade máxima de 22 nós (41 quilômetros por hora).

Foi originalmente encomendado pelo Brasil em 1911, com o nome de Rio de Janeiro, iniciando uma corrida armamentista naval da América do Sul. Porém, com o colapso do ciclo da borracha e a melhora nas relações com a Argentina, o Brasil decidiu vender a embarcação para o Império Otomano, em dezembro de 1913. Foi renomeado como Sultân Osmân-ı Evvel e estava quase completo quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, em julho de 1914. O governo do Reino Unido tomou o couraçado para uso da Marinha Real, o que criou ressentimento nos otomanos, já que o pagamento pelo navio tinha sido finalizado, fato que contribuiu na decisão do Império Otomano em juntar-se aos Impérios Centrais.

A embarcação foi completada e renomeada para HMS Agincourt, sendo comissionada na frota britânica em agosto de 1914, passando a integrar a Grande Frota no Mar do Norte. Passou a maior parte de seu serviço de guerra em missões de patrulha e exercícios de treinamento, porém em meados de 1916 participou da Batalha da Jutlândia, contra os alemães. O navio foi colocado na reserva em março de 1919, depois do fim da guerra, com o governo britânico tentando sem sucesso vendê-lo de volta para o Brasil. O Agincourt acabou vendido para desmontagem em dezembro de 1922, a fim cumprir as limitações do Tratado Naval de Washington, sendo desmantelado em 1924.

Antecedentes

thumb|esquerda|upright=1.2|O Minas Geraes, o primeiro couraçado construído para a Marinha do Brasil O Brasil passou por um período instável depois do golpe de estado que depôs o imperador D. Pedro II, em novembro 1889. A Marinha do Brasil, principalmente após a Revolta da Armada, em 1893 e 1894, viu-se incapaz de cuidar de seus próprios navios e sem condições para adquirir novos. Enquanto isso, o Chile e Argentina, este o principal rival do Brasil, firmaram em 1902, um acordo de limitação naval, como parte de uma solução maior para uma disputa de fronteiras, porém, os dois países mesmo assim concordaram em manter as embarcações construídas nesse ínterim, muitos das quais eram significativamente mais modernas e poderosas que as brasileiras. A Marinha do Brasil também ficou atrás de suas contrapartes chilena e argentina em quantidade: o total naval do Chile na virada para o século XX era de 36 896 toneladas, a Argentina ficava em 34 425 toneladas, enquanto o Brasil totalizava apenas 27 661 toneladas, mesmo com o Brasil tendo uma população três vezes maior que da Argentina e cinco vezes maior que a do Chile.

O aumento internacional da demanda por café e borracha, no início do século XX, levou a um influxo de caixa para o Brasil. Simultaneamente, José Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco, liderou um movimento de brasileiros proeminentes para forçar as principais nações do mundo a reconhecer seu país como uma potência internacional. O Congresso Nacional inaugurou em 1904 um programa de aquisição naval. Três couraçados pequenos foram encomendados em 1906, porém o lançamento do britânico HMS Dreadnought fez a marinha brasileira reconsiderar. Foi assinado em março de 1907 um acordo para três couraçados da Classe Minas Geraes. Dois seriam construídos imediatamente pelos estaleiros britânicos da Armstrong Whitworth e Vickers, com o terceiro a ser entregue depois.

Argentina e Chile ficaram alarmados pelas movimentações brasileiras e rapidamente anularam seu acordo de 1902, procurando couraçados próprios. As encomendas argentinas, após um longo processo de licitação, foram feitas ao estaleiro norte-americano da Fore River Shipbuilding, enquanto as encomendas chilenas, também junto a Armstrong Whitworth, foram adiadas devido a um enorme terremoto que destruiu Valparaíso, em agosto de 1906. As relações brasileiras com a Argentina começaram a melhorar ao mesmo tempo que o crescimento econômico desacelerou, fazendo com que o governo do Brasil tentasse negociar, sem sucesso, a não construção do terceiro couraçado do contrato. O dinheiro necessário foi pego em empréstimo e a construção do "Rio de Janeiro" teve início em março de 1910, porém foi cancelado em maio, quando o governo brasileiro pediu para o estaleiro preparar novos projetos.

A Marinha do Brasil tinha se dividido em duas facções que discordavam sobre o tamanho da bateria principal que deveria ser instalada novo couraçado. O almirante Alexandrino Faria de Alencar, ministro da Marinha do presidente Nilo Peçanha, era a favor de um aumento em relação aos canhões de 305 milímetros que foram instalados na Classe Minas Geraes. Por outro lado, seu sucessor, o almirante Joaquim Marques Batista de Leão, favorecia manter as armas menores, porém mais rápidas no disparo. Não são claras as influências exatas sobre o governo brasileiro, porém Leão passou a defender suas opiniões em reuniões com o presidente Hermes da Fonseca. Outros eventos provavelmente também os influenciaram, como a Revolta da Chibata em novembro de 1910, os pagamentos dos empréstimos dos couraçados e a piora da situação econômica nacional que levou a um aumento da dívida governamental e déficits do orçamento. Fonseca se decidiu em maio de 1911, afirmando que:

A contrato para a aquisição do novo couraçado foi assinado em 3 de junho de 1911, com o início da construção ocorrendo em setembro. O projeto tinha catorze canhões de 305 milímetros, um número altíssimo que o historiador David Topliss atribuiu à necessidade política: a embarcação precisava parecer mais poderosa para a população brasileira do que seus predecessores, porém sem aumentar o tamanho dos canhões, com a única opção restante sendo o aumento do número total de armas.

Características thumb|upright=1.1|Desenho geral do Agincourt O Agincourt tinha um comprimento de fora a fora de 204,7 metros, boca de 27,1 metros e calado de 9,1 metros em carregamento máximo. Seu deslocamento era de 28 297 toneladas em carregamento padrão, podendo chegar a 31 355 toneladas em carregamento máximo. Sua altura metacêntrica ficavam em 1,5 metro em carregamento máximo. Seu círculo de virada era grande, porém sua manobrabilidade era boa apesar de seu grande comprimento. O couraçado também foi considerado uma boa plataforma de tiro.

A embarcação foi considerada particularmente confortável e muito bem equipada internamente quando entrou em serviço na Marinha Real Britânica. Um bom conhecimento da língua portuguesa era necessário para se trabalhar em muitas das áreas, incluindo até mesmo nos toaletes, pois as placas originais de instrução colocadas para a marinha brasileira não tinham sido substituídas quando o navio foi tomado pelos britânicos. Sua tripulação em 1917 era composta por 1 268 oficiais e marinheiros.

Propulsão O couraçado era alimentado por quatro turbinas a vapor Parsons, cada uma impulsionando uma hélice de três lâminas. Duas turbinas de alta pressão impulsionavam as hélices externas, enquanto duas turbinas de baixa pressão era o que movimentavam as hélices centrais. Cada hélice tinha 2,9 metros de diâmetro. As turbinas foram projetadas para produzir um total de 34 mil cavalos-vapor (25,4 mil quilowatts), porém conseguiram gerar quarenta mil cavalos-vapor (trinta mil quilowatts) durante seus testes marítimos, excedendo levemente sua velocidade projetada de 22 nós (41 quilômetros por hora).

A usina de produção de energia consistia em 22 caldeiras de tubo Babcock & Wilcox, que operavam a uma pressão de 235 libras-força por polegada quadrada. O Agincourt normalmente carregava 1,5 mil toneladas de carvão, mas tinha capacidade para 3,3 mil toneladas, além de 630 toneladas de óleo combustível para ser borrifado sobre o carvão, com o objetivo de aumentar sua taxa de consumo. Seu alcance em capacidade máxima era de sete mil milhas náuticas (treze mil quilômetros) a dez nós (dezenove quilômetros por hora). A energia elétrica era produzida por quatro geradores elétricos alternados movidos a vapor.

Armamentos thumb|esquerda|upright=1.65|Esquema do arranjo único da bateria principal do Agincourt, mostrando suas sete torres de artilharia e catorze canhões O Agincourt era equipado com catorze canhões BL 305 milímetros Mk III calibre 45 montados em sete torres de artilharia duplas movidas hidraulicamente, nomeadas extra-oficialmente pelos sete dias da semana, começando com Domingo na proa e indo até a popa. Este foi o maior número de torres de artilharia e canhões já instalados em uma bateria principal de um couraçado em toda a história. Esses canhões tinham um ângulo de tiro de três graus negativos até treze graus e meio positivos. Eles disparavam projéteis de 386 quilogramas em uma velocidade de saída de 831 metros por segundo; na elevação máxima isso dava um alcance de pouco mais de dezoito quilômetros com projéteis antiblindagem. As torres foram modificadas durante a guerra para que a elevação pudesse chegar em dezesseis graus, porém isso aumentou o alcance em apenas pouco mais de seiscentos metros. A cadência de tiro era de 1,5 disparos por minuto. Quando um disparo lateral completo era efetuado, "a cortina de chamas resultante era grande o bastante para criar a impressão de que um cruzador de batalha tinha explodido; era inspirador". Nenhum dano ao navio era infligido quando disparos laterais completos eram realizados, apesar da crença de que isso iria parti-lo em dois, porém boa parte das louças e objetos de vidro foram danificados após o primeiro disparo.

O navio foi construído com uma bateria secundária formada por dezoito canhões BL 152 milímetros Mk XIII calibre 50. Catorze foram instalados em casamatas blindadas no convés superior, dois na dianteira da superestrutura e mais dois atrás, estas protegidas por escudos. Outros dois canhões foram adicionados após a tomada britânica, lado a lado da ponte de comando em montagens em eixo protegidas por blindagem. Essas armas podiam ser disparadas em até sete graus negativos e treze graus positivos, depois aumentado para quinze. O alcance era de de 12,3 quilômetros a quinze graus, disparando um projétil de 45 quilogramas a uma velocidade de saída de 840 metros por segundo. Sua cadência de tiro era de cinco a sete disparos por minuto, porém isto caia para três disparos por minuto depois das munições pré-preparadas terem sido usadas; isto ocorria porque os molinetes de munição eram poucos e muito lentos para suprir as armas em tempo. Cada canhões tinha disponível aproximadamente 150 projéteis.

Cada torre de artilharia era equipada com um telêmetro blindado localizado em seu teto. Além disso, outro telêmetro ficava montado em cima de uma plataforma na parte baixa do mastro dianteiro. Na época da Batalha da Jutlândia, em 1916, o Agincourt era provavelmente o único couraçado britânico não equipado com uma mesa de controle de fogo. Um sistema de controle de disparo foi depois instalado no mastro dianteiro e mais adiante uma das torres foi modificada para controlar todo o armamento principal. Um sistema de controle para os canhões de 152 milímetros foi instalado em cada lateral em 1916–17. Um telêmetro de alto ângulo também foi instalado em 1918.