Zumbi, também conhecido como Zumbi dos Palmares (morto em 20 de novembro de 1695), foi uma das principais lideranças políticas e militares dos Palmares, conjunto de mocambos estabelecido na Capitania de Pernambuco, em território hoje pertencente sobretudo ao estado de Alagoas. Não se conhecem fontes contemporâneas que permitam determinar sua data ou local de nascimento, filiação, infância ou juventude. Após o fracasso do acordo de 1678 e a destruição de Cucaú, por volta de 1680, tornou-se a principal liderança dos grupos que continuaram a resistir às autoridades coloniais. Sobreviveu à queda da cerca do Barriga, em fevereiro de 1694. Em 20 de novembro do ano seguinte, foi morto por uma força comandada por André Furtado de Mendonça.
A data de sua morte tornou-se um marco da memória pública de Zumbi e de Palmares. Em 1971, o Grupo Palmares, de Porto Alegre, realizou uma homenagem em 20 de novembro, e, em 1978, o Movimento Negro Unificado passou a adotar nacionalmente a data como Dia da Consciência Negra. Em 2011, o 20 de novembro foi instituído oficialmente como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra e, por lei sancionada em 2023, tornou-se feriado nacional, celebrado em todo o país a partir de 2024.
Nome e etimologia O nome pelo qual Zumbi ficou conhecido aparece na documentação colonial sob numerosas grafias, entre as quais Zumbi, Zombi, Zambi, Zumby e Zombj. A forma atualmente padronizada, Zumbi, não era sequer a mais frequente nos documentos portugueses das décadas de 1680 e 1690, nos quais predominava Zombi. Marc A. Hertzman atribui boa parte dessas variações às convenções ortográficas e fonéticas do português seiscentista, embora ressalve que algumas ocorrências possam referir-se a indivíduos, nomes ou designações distintos.
Os termos zumbi ou nzumbi e zambi ou nzambi possuíam campos semânticos diferentes nas línguas bantas da África Centro-Ocidental. Nzumbi podia designar um espírito ancestral ou espírito de uma pessoa falecida, sendo frequente que falantes de português representassem o grupo consonântico inicial nz simplesmente por z. Nzambi ou Zambi, por sua vez, era associado a uma divindade ou ser supremo. Hertzman considera improvável que falantes de línguas bantas confundissem os dois vocábulos, cuja diferença entre as vogais u e a era foneticamente significativa.
Uma relação escrita em 1678, ao narrar uma campanha de 1675, chama Zambi a um "general das armas" dos Palmares e explica o termo como "Deus da guerra". Essa glosa reflete, contudo, a interpretação do autor colonial e não constitui por si só uma etimologia linguística. No início do século XX, Nina Rodrigues defendeu que Zambi seria um título dos governantes palmarinos e que Zumbi resultaria de um erro ortográfico; estudos mais recentes consideram essa interpretação demasiado restritiva. A documentação permite inclusive a possibilidade de terem existido diferentes indivíduos chamados por formas de Zumbi ou Zambi, ou de essas designações terem também funcionado como nomes ou títulos, não estando estabelecida uma interpretação única.
Palmares esquerda|miniaturadaimagem|Réplica contemporânea de uma sede administrativa palmarina no Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga. A estrutura integra o projeto memorial do local e não constitui uma construção preservada do século XVII. Os Palmares constituíram um conjunto de mocambos estabelecidos nas matas ao sul da Capitania de Pernambuco, numa região que atualmente se distribui sobretudo pelo estado de Alagoas. A documentação permite afirmar que esses assentamentos já existiam no início do século XVII: correspondência administrativa de 1603 registra expedições contra grupos de fugitivos na região e menciona expressamente "os Palmares". A expansão dos mocambos intensificou-se durante o período da ocupação holandesa de Pernambuco, entre 1630 e 1654, quando a guerra e a desorganização dos engenhos favoreceram novas fugas.
As fontes do período holandês mostram que Palmares não correspondia a uma única povoação. Em 1645, o diário da expedição de Johan Blaer e Jürgens Reijmbach descreveu um dos grandes assentamentos como formado por cerca de 220 casas, além de edifícios associados a reuniões e práticas religiosas. O mesmo documento registra uma autoridade que os holandeses chamaram de "rei", de nome Dambij, uma casa de conselho, áreas de cultivo e atividades artesanais.
A subsistência dos mocambos baseava-se em atividades agrícolas, caça e aproveitamento dos recursos da floresta. Fontes seiscentistas mencionam cultivos, armazenagem de alimentos e o uso intensivo das palmeiras, cujos produtos eram empregados na alimentação e em diferentes atividades materiais. O diário de 1645 registra ainda artesãos e oficinas de metalurgia, e documentos posteriores mencionam forjas nos maiores mocambos. Palmares também mantinha contatos com moradores das áreas coloniais vizinhas, inclusive por meio de trocas clandestinas; armas de fogo, por exemplo, podiam ser adquiridas ou obtidas fora dos mocambos.
Na década de 1670, várias povoações apareciam articuladas em torno da autoridade de Gana Zumba, chamado nas fontes de "rei" e "senhor". A Relação de 1678 descreve diferentes mocambos dirigidos por "potentados" e "cabos maiores", muitos deles ligados a Gana Zumba por relações expressas em termos de parentesco. Essa organização possuía caráter hierárquico e linhageiro, embora expressões como "irmão", "filho" ou "sobrinho" não devam ser automaticamente interpretadas como descrições de parentesco biológico, pois também podiam indicar posições políticas e relações de dependência nas sociedades centro-africanas.
As dimensões exatas da população e do território dos Palmares são desconhecidas. Estimativas antigas de dezenas de milhares de habitantes e representações de Palmares como uma unidade territorial contínua não correspondem a um levantamento demográfico ou cartográfico do século XVII. A documentação revela antes uma rede variável de mocambos, cercas e assentamentos menores, cuja localização e importância se modificaram ao longo do tempo.
Essa estrutura também não permaneceu estável. As campanhas militares de 1677–1678, o acordo firmado com Gana Zumba, a transferência de parte da população para Cucaú e a destruição desse núcleo em 1680 desarticularam a antiga rede política e linhageira. A partir desse momento, as fontes passam a mostrar uma configuração mais dispersa e militarizada, na qual Zumbi surge como a principal liderança dos grupos que continuaram a resistir às autoridades coloniais.
Origem e juventude Não se conhecem fontes contemporâneas que permitam determinar a data ou o local de nascimento de Zumbi, a sua filiação, infância ou juventude. A documentação seiscentista conhecida fornece informações sobre a sua atuação em Palmares e sobre a sua morte, mas não contém dados biográficos sobre os primeiros anos da sua vida.
Em 1981, o jornalista Décio Freitas acrescentou à terceira edição de Palmares: a guerra dos escravos uma nova biografia de Zumbi, que dizia basear-se em cartas de um padre chamado Antônio Melo. Nela, afirmou que Zumbi teria nascido em 1655, sido capturado ainda criança, batizado como Francisco, criado por Melo, teria aprendido português e latim e servido como coroinha. Segundo o texto atribuído às cartas, Melo teria recebido em 1655 uma criança de "escassos dias de existência". Freitas afirmou ter obtido essas informações em cartas do suposto padre, sem nunca indicar a localização exata dos documentos, a respectiva cota arquivística ou sequer, inicialmente, o número e a data das cartas.
Uma investigação da Folha de S.Paulo identificou a versão posteriormente atribuída a duas cartas do suposto padre, datadas de 1696 e 1698, as quais teriam sido copiadas em 1978, a pedido de Freitas, no arquivo da Casa de Cadaval, em Muge. A responsável pelo arquivo, contudo, não conseguiu localizar os alegados documentos. As cartas também não figuram no inventário dos manuscritos brasileiros da Casa de Cadaval dos séculos XVI e XVII publicado em 1955 por Virgínia Rau e Maria Fernanda Gomes da Silva, mais de vinte anos antes da alegada cópia feita para Freitas em 1978. Décadas depois, os historiadores Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira continuavam a assinalar o problema da proveniência das informações divulgadas por Freitas, referindo-se às "supostas cartas que só ele [Freitas] leu".
Acordo de 1678 e liderança da resistência Em 1678, depois das campanhas militares conduzidas contra Palmares nos anos anteriores, o governador de Pernambuco, Aires de Sousa de Castro, negociou com uma embaixada enviada por Ganga Zumba. O documento resultante, datado de 22 de junho, não constituía exatamente um tratado formal, sendo designado na própria documentação como um "papel" que estabelecia os termos acordados entre as partes. O acordo previa a instalação dos palmarinos na região de Cucaú, onde poderiam cultivar terras sob a proteção do governo português, reconhecendo a liberdade dos nascidos em Palmares que aderissem ao acordo; em contrapartida, exigia a submissão à Coroa e a entrega dos escravos que tivessem fugido das capitanias para os mocambos. Ganga Zumba confirmou os termos menos de um mês depois, e nos meses seguintes houve troca de cartas e presentes entre o governo de Pernambuco e as lideranças palmarinas.
Na documentação relativa às negociações, Zumbi aparece integrado na hierarquia política e militar dos Palmares. A crônica de 1678 identifica-o, juntamente com Andalaquituche, como um dos "sobrinhos" de Ganga Zumba, no quadro de uma rede de parentes e chefes de mocambos que ocupavam os principais postos políticos e militares. Entre essas lideranças encontrava-se também Gana Zona, referido na documentação como irmão de Ganga Zumba. A designação de parentesco não deve ser necessariamente entendida em sentido genealógico estrito, pois termos como "irmão", "tio" e "sobrinho" podiam também exprimir relações de dependência e posição política entre populações centro-africanas.
Em novembro de 1678, as negociações e o deslocamento para Cucaú ainda estavam em curso. Numa carta dirigida a Gana Zona em 12 de novembro, Aires de Sousa de Castro mencionava informações segundo as quais muita gente se encaminhava para Cucaú e outro grupo "viria em breve" em companhia de Zumbi. O desfecho foi, contudo, diferente. Depois do fracasso do acordo, da morte de Ganga Zumba e da destruição de Cucaú, por volta de abril de 1680, Zumbi aparece afastado da antiga estrutura linhageira, tendo-se retirado para o "mais oculto destes Palmares" com "a melhor gente de guerra". A partir daí, tornou-se a principal liderança da resistência que permaneceu ativa fora de Cucaú, sendo referido na documentação das décadas de 1680 e 1690 sobretudo como "capitão" e "corsário".
Campanhas finais e queda do Barriga miniaturadaimagem|312x312px|Vista da Serra da Barriga, em Alagoas. Depois da destruição de Cucaú e da dispersão da estrutura política associada a Ganga Zumba, os grupos resistentes permaneceram distribuídos por vários mocambos. Durante a década de 1680, a cerca do Barriga tornou-se um dos principais pontos de concentração dessa resistência, sendo alvo de sucessivas expedições.
Em 1692, uma força comandada por Domingos Jorge Velho tentou atacar o Barriga, sem conseguir tomá-lo. Numa carta de 27 de novembro daquele ano, o próprio comandante descreveu a posição como fortificada por "três cercas", com fogo e estrepes no exterior, onde se concentrava numerosa população.