A Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM) foi fundada em 1963 com o nome de Faculdade de Medicina de Campinas e a partir dela nasceu a Universidade de Campinas. Em 1966 seu nome mudou para Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

É a única Faculdade de Medicina da América Latina a compor o comitê de indicação do Prêmio Nobel de Medicina, tendo feito em duas ocasiões: 2010 e 2012.

Em seu complexo hospitalar, centralizado no Hospital de Clínicas (HC), está o maior hospital universitário do Brasil com atividade especializada em Ginecologia e Obstetrícia, o Hospital da Mulher (CAISM).

História

Campanha pela instalação (1946–1962) Na década de 1940, Campinas era uma das maiores cidades do interior paulista, com cerca de 130 mil habitantes, forte desenvolvimento industrial e cerca de 25 mil estudantes matriculados no ensino primário e secundário. Ainda assim, contava apenas com duas faculdades, de Filosofia, Ciências e Letras, e de Administração e Ciências Econômicas, e não possuía escola de medicina, o que levava famílias a enviar seus filhos para estudar em outras cidades.

A campanha teve início com o artigo "Campinas Centro de Ensino", do jornalista Luso Ventura, redator-chefe do Correio Popular, publicado em 25 de agosto de 1946. Em 1948, a Lei nº 161 criou diversos estabelecimentos de ensino superior no interior paulista, entre eles uma Faculdade de Direito em Campinas — resultado recebido com frustração pelo movimento, que reivindicava uma escola de medicina. O deputado estadual Ruy de Almeida Barbosa apresentou o Projeto de Lei 200 propondo substituir a Faculdade de Direito por uma Faculdade de Medicina; a proposta foi sancionada em junho de 1953 pela Lei nº 2.154, ainda subordinada à Universidade de São Paulo, mas sem estrutura para entrar em funcionamento.

Em março de 1955 foi criado o Conselho das Entidades de Campinas, reunindo associações de classe para pressionar o governo estadual pela instalação efetiva da faculdade. O movimento enfrentou a oposição do professor Zeferino Vaz, então diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e membro do Conselho Estadual de Ensino Superior, que defendia a instalação de uma nova escola médica em Botucatu em vez de Campinas — posição que gerou embates públicos com lideranças locais, como o otorrinolaringologista Paulo Mangabeira Albernaz, presidente do Rotary Club de Campinas. Em 1958, o governador Jânio Quadros sancionou a Lei nº 4.996, recriando a Faculdade de Medicina de Campinas como instituto isolado de ensino superior, desvinculado da USP.

No início do governo de Carvalho Pinto (1959), um relatório assinado por onze entidades campineiras reforçou o pedido de instalação da escola, mas o parecer da comissão presidida por Zeferino Vaz voltou a favorecer Botucatu. A partir de 1961, o movimento se intensificou, somando o apoio de entidades como a Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, o Jóquei Clube, a Liga Campineira de Futebol e a Cruzada das Senhoras Católicas, além de cidades vizinhas como Amparo, Piracicaba, Sumaré e Jundiaí. Um memorial descritivo apresentado ao governo detalhava a infraestrutura de saúde da cidade, então com 18 hospitais, 256 médicos, 1.779 leitos e 20 ambulatórios. A proposta do presidente Juscelino Kubitschek de criar uma faculdade federal de medicina em Campinas pressionou o governo estadual a agir; uma nova comissão, presidida pelo reitor da USP, Ulhôa Cintra, emitiu parecer favorável à instalação simultânea das escolas de Campinas e Botucatu, prevista para 1963.

Em dezembro de 1962, o governador Carvalho Pinto sancionou a Lei nº 7.655, que criou a Universidade de Campinas (UEC) como entidade autárquica, incorporando a Faculdade de Medicina criada pelas leis de 1953 e 1958. O professor Cantídio de Moura Campos, que desde 1958 ocupava o cargo de diretor pro tempore da Faculdade de Medicina, foi indicado para conduzir a nova universidade.

Instalação e primeiros anos (1963–1969) Em 1963, sob a reitoria de Cantídio de Moura Campos, a Universidade de Campinas iniciou suas atividades. O oftalmologista Antônio Augusto de Almeida, então vice-diretor da Maternidade de Campinas, foi nomeado diretor da Faculdade de Medicina. A primeira turma, com 50 alunos aprovados no vestibular de abril daquele ano, teve aula inaugural no Teatro Municipal de Campinas em 20 de maio de 1963, data adotada como aniversário oficial da instituição, com as aulas funcionando de forma precária no edifício ainda inacabado da nova Maternidade de Campinas.

Em 1965, o Conselho Estadual de Educação questionou a validade da UEC por ela possuir um único curso, quando a legislação exigia ao menos cinco estabelecimentos reunidos sob administração comum. A então presidente do conselho, Esther de Figueiredo Ferraz, emitiu parecer reconhecendo a universidade como em fase de organização e sugeriu ao governador Adhemar de Barros a criação de uma comissão para estruturá-la definitivamente, indicando o professor Zeferino Vaz — que acabara de deixar a reitoria da Universidade de Brasília — para presidi-la. Em setembro de 1965, o Decreto nº 45.220 instituiu a Comissão Organizadora da Universidade de Campinas, presidida por Zeferino Vaz e integrada também por Paulo Gomes Romeo e Antônio Augusto de Almeida. Nesse mesmo ano, entrou em vigor o convênio com a Santa Casa de Misericórdia de Campinas, permitindo o início das atividades clínicas do curso médico em suas dependências.

A ausência de sede definitiva gerou protestos estudantis, incluindo uma passeata organizada pelo Centro Acadêmico em 1966. Após recusar ofertas de terrenos na Fazenda Santa Cândida e na Chácara Taquaral, a Comissão Organizadora optou por uma área de trinta alqueires no distrito de Barão Geraldo, doada pelo fazendeiro João Ademar de Almeida Prado e desapropriada pelo governo estadual pelo valor simbólico de 1 cruzeiro. O governador Laudo Natel destinou uma verba de 606 milhões de cruzeiros para o início das obras. Para atender à exigência legal de reunir ao menos cinco estabelecimentos de ensino superior, a Comissão Organizadora incorporou, a partir de 1967, a Faculdade de Engenharia Civil de Limeira, a Faculdade de Odontologia de Piracicaba e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro.

Em 5 de outubro (1966), foi lançada a pedra fundamental do campus de Barão Geraldo, com a presença do presidente da República, Castelo Branco, e do governador Laudo Natel. Em dezembro do mesmo ano, o Conselho Estadual de Educação aprovou o relatório da Comissão Organizadora, autorizando o funcionamento da universidade; a comissão foi então extinta e Zeferino Vaz nomeado reitor.

A primeira turma da Faculdade de Medicina formou-se em 1968, ainda com o curso funcionando nas instalações da Santa Casa de Misericórdia, enquanto aguardava a transferência para o campus definitivo — concluída em 1970, quando o Departamento de Farmacologia foi o último a deixar a antiga Maternidade de Campinas. Pelo Decreto nº 52.255, de 30 de julho de 1969, a Universidade de Campinas passou a se chamar Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e a Faculdade de Medicina foi rebatizada Faculdade de Ciências Médicas.

Consolidação e transferência para o campus (1969–1986) Nos anos seguintes à reorganização de 1969, a faculdade expandiu seus departamentos e programas de residência médica, ainda funcionando em regime de convênio com a Santa Casa de Misericórdia de Campinas. Em 1975, foi lançada a pedra fundamental do Hospital de Clínicas (HC) no campus de Barão Geraldo. Com a conclusão da primeira etapa das obras, em 1979, os ambulatórios da faculdade começaram a ser transferidos da Santa Casa para a nova unidade hospitalar, então instalada em uma área ainda de características rurais.

Em 10 de outubro de 1985, o convênio com a Santa Casa de Misericórdia foi encerrado e o HC recebeu seu primeiro leito. Em dezembro do mesmo ano foi realizada a primeira cirurgia do hospital. Em março de 1986, a Faculdade de Ciências Médicas foi definitivamente transferida para o campus de Barão Geraldo com todos os seus departamentos, na mesma época em que foram inaugurados o Hospital de Clínicas e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM). A nova sede administrativa da faculdade ocupava inicialmente um bloco de três andares, com cerca de 1.200 m².

Graduação

Medicina O curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp é o mais antigo da universidade, tendo sido instalado em 1963, antes mesmo da criação formal da instituição. Desde sua origem, está estruturado sobre a integração entre ensino, pesquisa e assistência, contando com um complexo docente-assistencial que inclui o Hospital de Clínicas da Unicamp, o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), o Hemocentro, o Gastrocentro, o Hospital Estadual de Sumaré e uma rede de Unidades Básicas de Saúde do município de Campinas.

O curso oferece 120 vagas anuais, sendo 110 preenchidas pelo Vestibular da Unicamp e 10 pelo Programa de Formação Interdisciplinar Superior (ProFIS). Tradicionalmente, figura entre os cursos mais procurados da universidade, recebendo candidatos de todas as regiões do país.

A formação médica na FCM caracteriza-se pela forte proximidade entre docentes e estudantes, pela inserção precoce em cenários reais de prática e pela promoção da iniciação científica. O projeto pedagógico enfatiza sólida base científica, articulação entre ciências básicas e clínica, atuação ética, humanística e socialmente referenciada, além do estímulo à aprendizagem autônoma e contínua. O curso tem duração mínima de seis anos e máxima de nove anos, conforme diretrizes da universidade.

Estrutura curricular O curso de Medicina da FCM organiza-se em um currículo integrado, estruturado por eixos temáticos que articulam conteúdos básicos, clínicos e sociais ao longo dos seis anos de formação. O projeto pedagógico adota metodologias ativas, atividades práticas desde o primeiro ano e inserção progressiva em diferentes níveis de atenção à saúde.

Nos anos iniciais, os estudantes cursam componentes das ciências biomédicas em integração com o território, com atividades no Instituto de Biologia, laboratórios especializados e unidades de saúde do município de Campinas. O eixo “Prática de Ciências” introduz o aluno aos fundamentos da investigação científica e ao uso de laboratórios avançados localizados no complexo hospitalar.

A formação em saúde coletiva ocorre em Unidades Básicas de Saúde vinculadas ao Sistema Único de Saúde, onde os estudantes acompanham equipes multiprofissionais, realizam visitas domiciliares e desenvolvem ações de vigilância, promoção e prevenção. Os conteúdos clínicos se ampliam progressivamente, com atividades práticas em enfermarias, ambulatórios e serviços de urgência.

O internato médico ocupa os três últimos anos do curso, estruturado em ciclos obrigatórios de Clínica Médica, Cirurgia, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Medicina de Família e Comunidade, Urgência e Emergência, além de estágios optativos em áreas de interesse do estudante. Todos os estágios são realizados em unidades próprias da Unicamp ou conveniadas, assegurando experiência em níveis primário, secundário e terciário de atenção.

Fonoaudiologia O curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp foi criado em 2003, com a proposta de formar profissionais aptos a atuar em todas as áreas da comunicação humana, abrangendo linguagem, voz, audiologia, motricidade orofacial e saúde coletiva. Desde sua implantação, caracteriza-se pela forte integração com os serviços assistenciais da universidade, especialmente o Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação – Cepre, o Hospital de Clínicas da Unicamp, o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) e diferentes unidades de atenção primária do município de Campinas.