Manuel Francisco de Barros e Sousa de Mesquita de Macedo Leitão e Carvalhosa ComTE • ComSE • GCC (Lisboa, — Paris, ), 2.º visconde de Santarém, foi um historiador, diplomata e estadista português que se notabilizou como estudioso da antiga cartografia (termo que criou) e como historiador dos descobrimentos portugueses, produzindo diversas obras destinadas a sustentar a primazia da presença portuguesa em várias regiões, com destaque para a costa ocidental africana a sul do cabo Bojador. Exerceu, durante o Verão de 1827, na regência de D. Isabel Maria de Bragança e já fase de desagregação da primeira experiência do Cartismo, os cargos de Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino e Ministro e Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. Em 1828, já sob D. Miguel I, aceitou ser Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, ligando-se ao miguelismo, o que implicou o seu exílio para Paris após a vitória liberal. Era membro da Academia Real das Ciências de Lisboa, do Institut de France e de múltiplas academias e organizações científicas estrangeiras, sendo à época um dos intelectuais portugueses com maior projecção internacional.

Biografia Filho de João Diogo de Barros Leitão de Carvalhosa, 1.º visconde de Santarém, e da sua primeira esposa, Mariana Rita Xavier Porcille O'Kelly Ribeiro Rangel, ficou órfão de mãe aos 3 anos incompletos de idade. Educado por familiares, ingressou no Colégio dos Nobres a 24 de Janeiro de 1803, com apenas 11 anos, frequentando os estudos até 23 de Outubro de 1807.

Quando, face ao avanço das forças napoleónicas comandadas por Jean-Andoche Junot, em Novembro daquele ano de 1807, a família real portuguesa procurou refúgio no Brasil, o jovem aristocrata também se incorporou no grupo que acompanhou os reis, partindo na companhia de D. Mariana Leocádia de Barros Leitão e Carvalhosa, irmã de seu pai e açafata de D. Carlota Joaquina, e de seu marido Francisco José Rufino de Sousa Lobato, então guarda-roupa da rainha e depois 1.º barão e 1.º visconde de Vila Nova da Rainha.

Tendo-se fixado no Rio de Janeiro, cedo manifestou grande interesse por investigações históricas, especialmente as referentes à diplomacia, passando a estudar assiduamente os arquivos do Estado e a frequentar o gabinete de manuscritos da Biblioteca Real daquela cidade. Devotado a esse labor, a partir de 1809 principiou a coligir e a ordenar por ordem cronológica e por potência contratante todos os apontamentos e notícias dos documentos diplomáticos relativos às relações entre a Coroa Portuguesa e as nações estrangeiras.

A partir de 1811 esse trabalho foi alargado aos livros e manuscritos que haviam constituído a Real Biblioteca da Ajuda, começada a organizar pelo rei D. José I, que naquele ano, por ordem do príncipe regente D. João, haviam sido enviados para o Brasil.

Em 1814, foi nomeado conselheiro de embaixada, tendo recebido então ordens para acompanhar o ministro plenipotenciário António de Saldanha da Gama, mais tarde 1.º conde de Porto Santo, como adjunto da legação portuguesa ao Congresso de Viena de Áustria. Contudo, quando se preparava para embarcar na corveta que os deveria conduzir à Europa, recebeu ordens para permanecer no Rio de Janeiro, encarregado de redigir memórias sobre os limites das possessões portuguesas na América do Sul e sobre a questão de Olivença. Tais memórias destinavam-se à corte de Londres e à Legação em Viena, tendo como objectivo fundamentar historicamente as posições portuguesas nas disputas que Portugal então mantinha com a corte de Madrid.

Continuando no Brasil entregue aos seus estudos históricos, a 30 de Novembro de 1816, na Capela Real do Rio de Janeiro, casou com Maria Amália de Saldanha da Gama, filha do 6.º conde da Ponte, João de Saldanha da Gama, governador da Baía, já então falecido, e sobrinha do já citado António de Saldanha da Gama.

Continuando adido à carreira diplomática, em Setembro de 1817 foi nomeado conselheiro à embaixada portuguesa em Paris, mas não chegou a partir para a Europa. Foi-lhe então comunicado pelo Ministro dos Estrangeiros, João Paulo Bezerra de Seixas, que lhe estava reservada um dos postos diplomáticos da Europa.

Por decreto de 6 de Fevereiro de 1818, dia da aclamação de D. João VI de Portugal, sendo ainda desconhecida no Rio do Janeiro a morte de seu pai, o 1.º visconde de Santarém, foi-lhe concedido, por uma vida, o título de seu pai, decreto que foi confirmado a 28 do mesmo mês e ano. Sucedeu a toda a casa paterna e nos cargos que seu pai exercia, sendo em 1819 autorizado a tomar posse da sua herança por seu bastante procurador.

Quando Portugal pretendia restabelecer relações diplomáticas com a Dinamarca, por enviados extraordinários, o visconde de Santarém foi nomeado, por decreto de 22 de Janeiro de 1819, para servir na corte de Copenhaga com o posto de encarregado de negócios. Tendo de ir desempenhar o cargo, ou pelo menos tomar posse, o visconde de Santarém saiu do Rio de Janeiro para a Europa a 9 de Abril desse ano. Por essa altura tinha coligido um tão grande número de documentos diplomáticos, que já constituíam 80 volumes.

No Verão de 1819 visitou a Inglaterra, onde fez várias excursões pelo interior, visitou a biblioteca pública de Plymouth, e passou a Lisboa, fixando residência naquela cidade para se ocupar dos negócios da sua casa, agora mais complexos por causa de inventário e partilhas, e para poder entregar-se a novas investigações diplomáticas nos documentos arquivados na Torre do Tombo. Para esse fim tinha alcançado, por decreto de 31 de Março de 1819, autorização para obter todas as cópias que pedisse.

Foi durante a sua residência em Lisboa, que recebeu de D. João VI a mercê da alcaidaria-mor de Santarém, em sua vida, por alvará de 25 de Agosto de 1819, e carta de 19 de Abril de 1820.

Não aderiu aos ideais da revolução liberal de 1820, tendo optado por abandonar Portugal. Saiu a muito custo, com 8 pessoas de família, a 30 de Setembro desse ano, com destino à Inglaterra. Desembarcou em Falmouth a 15 de Outubro, seguiu para Londres, e daí para Paris, onde chegou a 21 de Novembro. Aguardando pelo degelo do mar Báltico, nunca chegou a partir para a Dinamarca.

Durante a sua permanência em Paris continuou as suas investigações de história da diplomacia portuguesa, examinando 74 códices da Biblioteca Real, além dos manuscritos da Biblioteca do Pantheon, da Biblioteca Mazarini e de outros arquivos de França. Também iniciou a publicação de diversos artigos no periódico de língua portuguesa Annaes das sciencias, letras e artes, que então se publicava em Paris por iniciativa do desembargador José Diogo de Mascarenhas Neto, correio-mor e vereador do Senado de Lisboa, que também ali estava exilado.

Apesar de exilado em Paris, manteve a sua ligação ao serviço diplomático português, recebendo instruções destinadas ao plenipotenciário de Portugal que foi participar no Congresso de Laibach, realizado na cidade que hoje é Ljubljana (na altura parte do Império Austríaco), de 26 de Janeiro a 12 de Maio de 1821. Tratava-se do futuro conde de Porto Santo.

Entretanto, rebentou no Rio de Janeiro o levantamento de 25 de Fevereiro de 1821, que obrigou D. João VI e a família real a voltar para Lisboa. O visconde de Santarém, tendo-se demitido do seu cargo diplomático, regressou também a Lisboa.

Tendo ganhado fama de historiador erudito e especialista em história da diplomacia portuguesa, a 12 de Dezembro de 1821 foi admitido como correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. Apesar de ter reingressado formalmente na carreira diplomática, manteve-se em Lisboa, onde continuou os seus estudos, consolidando a sua reputação como historiador e um dos mais importantes intelectuais portugueses da época.

Quando Pedro de Sousa Holstein, o 1.º conde de Palmela, assumiu o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros, em Julho do 1823, o governo nomeou o visconde de Santarém enviado extraordinário e ministro plenipotenciário para os Estados Unidos. Contudo, os diplomas de nomeação não chegaram a ser assinados em consequência da recusa terminante do visconde em aceitar a missão. Os motivos da escusa apresentados a D. João VI foram aceites, com a benesse de, apesar da recusa, não ser considerado fora da carreira e com a promessa de que logo que houvesse uma missão vaga na Europa, seria ele o nomeado. Com esta resolução, o visconde de Santarém conservou as honras inerentes ao serviço diplomático.

Por proposta Pedro de Sousa Holstein, já então com o título de marquês de Palmela, o visconde de Santarém foi nomeado interinamente, em vida do antecessor, 39.° guarda-mor da Torre do Tombo em 1824, confirmado, pelos decretos de 13 e 27 de Julho desse ano, cargo que assumiu com grande entusiasmo e espírito reformador, pois correspondia à sua natural apetência e vocação, até 23 de Julho de 1833. O seu trabalho à frente daquela instituição foi a todos os títulos notável. Apenas com a morte do guarda-mor titular, o 1º visconde de Azurara (1746-1825), se tornou, em 1827, guarda-mor efectivo. Já então era, desde 1826, sócio livre da Academia Real das Ciências de Lisboa.

Após o falecimento de D. João VI, ocorrido a 10 de Março de 1826, e tomando a regência do Reino a infanta D. Isabel Maria de Bragança, o regime cartista entrou numa fase de grande instabilidade, com o campo liberal em crescente retrocesso. Nesse contexto, e sendo o visconde de Santarém considerado um moderado, que não tinha aderido à revolução de 1820, mas que se tinha acomodado aos sucessivos governos do constitucionalismo, num gesto apaziguador da regente, por decreto de 8 de Junho de 1827 foi nomeado Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino.

Ao contrário do que tem sido repetido ad nauseam, sem base documental, esse cargo não correspondia à presidência do Governo (1.º governo do Miguelismo). Por decreto de 14 de Agosto, passou a acumular também a pasta de Ministro e Secretário da Marinha e Ultramar. Contudo, face à crescente instabilidade política, foi exonerado de todos os cargos a 5 de Setembro daquele mesmo ano, regressando às suas funções na Torre do Tombo.

Quando em Fevereiro do 1828 a regência do Reino foi entregue ao infante D. Miguel, o visconde do Santarém foi convidado a assumir o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sendo nomeado por decreto de 13 de Março (Correspondência do 2º Visconde de Santarém, vol. I, 1918, p. 29, reproduz esse documento). Esta decisão, particularmente porque conservou a pasta mesmo depois de D. Miguel ter passado de regente a rei, deixou-o inevitavelmente ligado ao miguelismo, o que lhe traria graves consequências após a vitória liberal.

Contudo, mantendo a sua posição de moderação, era favorável a uma solução política da guerra civil portuguesa, o que está bem patente num parecer por ele elaborado e comunicado ao duque de Lafões (então, por casamento, D. Segismundo Caetano Álvares Pereira de Melo, 3.º duque de Lafões) em ofício de 24 de Março de 1833, acerca da forma de conceder uma capitulação a D. Pedro (Correspondência do 2º Visconde de Santarém, vol, V, pp. 31-34). Como é vísível pela documentação, publicada, da época (Idem, Op. Cit., pp. 43 e 46-51), tal solução era do conhecimento e aprovação de D. Miguel. Porém, a franqueza do visconde ao referir-se à ameaça que representava a presença do ramo carlista da família real espanhola em Portugal foi vista, entre outros factores, como quase traição, levando a que D. Miguel, ao partir para Santarém, em meados de Agosto, o mandasse afastar da corte, então em Coimbra. Porém, existe correspondência que prova que manteve, mesmo quando residindo em Tomar e Abrantes, a gerência dos negócios do seu ministério, pelo menos até 4 de Abril de 1834 (Daniel Protásio, Mátria XXI, nº 6, Maio de 2017, Santarém, Centro de Investigação Joaquim Veríssimo Serrão, ISSN 2183-1467, pp. 113-125).