Noemisa Batista dos Santos (Caraí, 1947 – Caraí, abril de 2024), conhecida como Mestra Noemisa, foi uma ceramista e escultora brasileira, considerada uma das mais importantes representantes da arte popular figurativa do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Ao longo de mais de cinco décadas de produção, desenvolveu uma linguagem própria a partir da tradição ceramista familiar, retratando em barro cenas do cotidiano e da religiosidade do meio rural mineiro.
Biografia Noemisa Batista dos Santos nasceu em 1947 em Ribeirão da Capivara, distrito do município de Caraí, no nordeste de Minas Gerais. Filha de um agricultor e de uma artesã, aprendeu a modelar o barro com a mãe, a também ceramista Joana Gomes dos Santos, respeitada na região. A partir dos sete anos de idade passou a criar peças figurativas, como bois e cavalos, e, em seguida, presépios por encomenda — atividade que se tornou um trabalho remunerado e por meio do qual desenvolveu uma linguagem pessoal, distinta da tradição familiar voltada à cerâmica utilitária.
Suas irmãs também se dedicaram à cerâmica, trabalhando a partir do repertório criado pela mãe e por Noemisa, de modo que a produção da família adquiriu um estilo característico e facilmente reconhecível. Ainda que a cerâmica no Jequitinhonha seja tradicionalmente uma atividade ligada ao trabalho das mulheres, a família de Noemisa, como a de outros artistas da região, reconhece no escultor Ulisses Pereira Chaves (1922–2006) um importante incentivador do trabalho com argila em Caraí.
Obra e técnica O barro de coloração rosa, vermelha ou branca utilizado por Noemisa provinha de uma olaria próxima e era preparado segundo técnicas atribuídas aos povos originários da região. Como ferramentas, a artista empregava materiais disponíveis no ambiente, como espigas de milho, pedaços de pau e penas. Após a modelagem, as peças eram pintadas com engobe — barro em pasta cujas cores derivam de pigmentos minerais — nas tonalidades vermelha e branca, e decoradas com motivos florais e desenhos de animais, por vezes aplicados em alto-relevo. Em geral, suas composições partiam de uma placa de argila sobre a qual eram dispostas as figuras que formavam as cenas, e a queima era feita em fornos a lenha, frequentemente construídos pelas próprias artesãs.
O acabamento da cerâmica de Caraí distingue-se do das demais regiões do Vale do Jequitinhonha por explorar a cor natural da argila queimada, exposta em grande parte da superfície das peças, ao contrário da tendência, observada em outras localidades, de recobrir as peças por inteiro com engobe e apresentar maior variedade de cores e texturas.
Temática A produção de Noemisa constitui uma espécie de crônica da vida no meio rural em que vivia. Além de uma grande variedade de animais — como cachorros e tatus —, retratava cenas do cotidiano e ritos católicos, como batizados e casamentos. As mulheres são representadas com vestidos estampados e acessórios elaborados, como brincos, bolsas e sapatos; os homens aparecem em postura altiva, como caçadores, soldados ou médicos. Seu repertório reunia cerca de quarenta figuras, entre elas a roda de fiar, a roda de girar mandioca, a cadeia, o folião, o cantador e a abelha fazendo mel.
A cena do casamento é recorrente em sua obra, com noivos e convidados sempre vestidos de maneira elaborada; ora aparecem todos dentro de uma capela, ora próximos ao altar, na presença do padre, e as próprias capelas apresentam variações, com a cruz do topo exibindo ou não a imagem de Jesus. Característica marcante de suas peças é a assinatura em letra cursiva, ornamentada com os mesmos motivos da decoração e geralmente posta em lugar de destaque.
Entre seus trabalhos notáveis está Cachorro caçador, em que um cão em posição de alerta, com o corpo coberto por grafismos e uma grossa coleira, observa uma cobra enrolada; o mesmo padrão pontilhado que recobre a cobra aparece no corpo do animal e na borda da placa, integrando os elementos da peça. Em Tatu, o animal recebe textura que remete ao casco real, e sua toca é idealizada com formato semelhante a um forno de cerâmica recoberto de motivos florais, com um buquê de flores no topo.
Exposições e acervos A partir da década de 1970, o trabalho de Noemisa passou a ser exposto no Brasil e no exterior, integrando acervos de museus e coleções particulares. Entre as mostras de que participou, destacam-se:
1987 — Brésil – Arts Populaires, Paris; 2000 — Brasil + 500: Mostra do Redescobrimento, São Paulo; 2008–2009 — Afluências: A arte do Jequitinhonha; 2019–2020 — Assim, como acontece; 2020 — Até logo, até já; 2020 — Mulheres na arte popular, São Paulo.
Suas obras integram acervos de instituições como o Museu Casa do Pontal e o Museu de Folclore Edison Carneiro, ambos no Rio de Janeiro, o Centro Cultural de São Francisco, na Paraíba, e o Museu Afro Brasil, em São Paulo.
Morte e legado Noemisa Batista dos Santos faleceu em abril de 2024, aos 77 anos, em sua cidade natal. Reconhecida como um dos nomes mais destacados da arte figurativa do Vale do Jequitinhonha, deixou um legado que segue influenciando artistas e artesãos da região; parte de sua família, incluindo sobrinhos, dá continuidade à produção ceramista que ajudou a consolidar.
Ver também Vale do Jequitinhonha Arte popular Ulisses Pereira Chaves
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