Miss Mundo 1970 foi a 20ª edição do concurso de beleza feminino de Miss Mundo. O certame idealizado pelo gerente de vendas publicitárias da Mecca Leisure Group, Eric Douglas Morley, foi realizado no dia 20 de novembro de 1970. Tendo como palco o Royal Albert Hall, o concurso reuniu cinquenta (58) candidatas - oito a mais que no ano anterior - de diferentes países. A vencedora do certame foi a primeira negra a ter ganho na história do evento, representando a ilha de Grenada, Jennifer Hosten foi coroada por Bob Hope, devido a negativa de sua antecessora, Miss Mundo 1969, Eva Rueber-Staier (mesmo estando presente na final).
Concurso Compra da Meca Promotions No dia 13 de agosto de 1970, foi anunciado que o bilionário Maxwell Joseph havia comprado 80% das ações da Meca Promotions por um valor de 36 milhões de libras, com a intenção de unir a companhia de salões de dança e proprietária do Miss Mundo, com sua cadeia Hotéis Grand Metropolitan. Alan B. Fairley, da Meca, apoiou a oferta e assinou. A mudança mais significativa no concurso após a compra de suas ações foi que o hotel sede seria o recém-inaugurado Hotel Britannia (agora conhecido como Millennium Hotel London Mayfair), construído entre 1967 e 1969 e de propriedade de Joseph.
A ascensão de Julia Morley A mulher por trás do grandioso evento poderia ser facilmente confundida com uma de suas concorrentes. Julia Morley permanece no comando do concurso pelo segundo ano consecutivo e conseguiu alcançar (ou manter) um total de 68 diretores nacionais este ano. No entanto, perdeu quatro países africanos (Egito, Marrocos, República Democrática do Congo e Gana) que decidiram não continuar apoiando o concurso mundial. Dos 68 países com diretores, dois deles (Chile e Quênia) não realizaram um concurso nacional neste ano. Pela enésima vez, a União Soviética foi convidada novamente a participar, mas ignorou o convite. A propósito, somente em 1970 que Julia decidiu proibir definitivamente a participação de mulheres casadas no certame.
Anualmente o número de países participantes aumentava consideravelmente, "eles não são obrigados a participar. Eles participam apenas se quiserem, disse Julia. Como ela ressalta, isso deve servir de prova da dignidade e reputação do concurso. Organizar algo que envolve tantos países era uma questão complicada, como as Nações Unidas provavelmente poderiam justificar. A Srª Morley, mãe de cinco filhos, esposa de Eric Morley, o homem que criou o concurso 20 anos antes, fez tudo com a ajuda de uma pequena equipe. Mas ela não minimizou as dificuldades e as responsabilidades. "Este não é apenas mais um concurso de beleza", disse ela, "nem é um jogo. Cada garota é uma possível vencedora, uma representante de seu país. Os países envolvidos garantem que caso sua candidata vença, ela será uma boa embaixadora. De nossa parte, cabe verificar que nada, mas nada, aconteça durante a quinzena que as meninas permanecem na cidade-sede, e que de alguma forma as prejudicam ou a imagem dos países que representam." De 8 de novembro, quando as competidoras começam a desembarcar em Londres, até o concurso no Royal Albert Hall, em 20 de novembro, 13 mulheres jovens discretas, compreensivas e eficientes em seus uniformes roxos estarão no fundo de todas as fotos de glamour, acompanhando as candidatas. Nos dois primeiros dias em que as meninas estarão na cidade, é tarefa das acompanhantes ver se elas trouxeram tudo o que precisam, como roupas, maquiagem, etc.
Julia se juntou a enorme organização de lazer e entretenimento de seu marido pouco antes do último concurso, quando grande parte do trabalho já estava concluído. Apesar disso, houve problemas, já que a maior parte do departamento de promoções se incomodou ao ver a esposa do chefe assumir o cargo de diretora de promoções. "Eu realmente não esperava que os diretores me mantivessem após o último concurso". Julia Morley, após 10 anos de casamento e criação de uma família ("na linha de produção", como ela mesma diz), assumiu surpreendentemente bem o status de executiva. Seu entusiasmo é ilimitado, sua capacidade de liderar sua equipe jovem de forma óbvia, na maneira como lida com três telefones tocando constantemente em sua enorme mesa desarrumada. Ela transfere uma ligação das Bermudas para um assistente e continua descrevendo o concurso turco, do qual acabara de retornar.
O concurso de Miss Mundo custa a Meca cerca de £250.000 libras, embora esses gastos tenham sido arcados por vários patrocínios anuais. As 10.000 libras provenientes das bilheterias, além de alguns sorteios aleatórios, foram para o Fundo Infantil do Variety Club. Julia era benfeitora em uma escola para deficientes por alguns anos antes de trocar as crianças por belezas internacionais, claramente influenciada pelo ângulo da caridade. "O dinheiro sempre foi, sem deduções de qualquer espécie, para o Variety Club, porque tem ligações internacionais e o dinheiro vai para todo o mundo."
A Srª Morley não tem medo sobre passar o resto da vida organizando concursos. "Espero ficar por aqui por um tempo", disse ela. "O que realmente quero é criar um departamento de promoções do qual possa me orgulhar." Ela não quer ser lembrada como a esposa do chefe e gostaria de organizar o concurso em outros países. "Por que não?", ela disse animadamente. "É uma busca internacional, em auxílio a uma instituição de caridade internacional. Eu gostaria de vê-lo realizado na Grã-Bretanha a cada dois anos e em algum outro lugar nos anos alternados. Já temos países participantes suficientes para garantir locais para os próximos 138 anos".
Miss África do Sul e Miss Sul da África Em 8 de outubro de 1970, foi anunciado pela organização do concurso que este ano a África do Sul seria representada por duas candidatas, uma branca e outra negra. A ideia veio de Eric Morley, que comentou: "Os opositores do apartheid me perguntaram se haveria alguma objeção a uma candidata negra da África do Sul, e eu disse "Não". Quando fiz a mesma pergunta aos organizadores da participante branca, o Johannesburg Sunday Times, eles também concordaram". A organização oficial do concurso "Miss África do Sul" só aceita a participação de mulheres brancas, que nos últimos anos provocaram protestos de grupos anti-apartheid, então Morley decidiu conceder os direitos a outra organização, que escolheu Pearl Gladys Jansen como representante negra dos sul-africanos. Para distingui-las, decidiu-se que ela seria identificada como "Miss Sul da África", enquanto a menina branca usaria a faixa de "Miss África do Sul". Mas os grupos liberais não estavam satisfeitos com isso e o líder antiapartheid, Peter Hain, sugeriu que fossem chamadas de "Miss África do Sul Branca" e "Miss África do Sul Preta" o que Morley não permitiu. Pearl, que era três centímetros mais baixa que Jillian, foi eleita pela Federação de Culturismo da África do Sul. As duas garotas mantinham uma boa amizade.
Um jornal do Kansas "The Hayls Daily News" publicou o seguinte: "Desejamos registrar um protesto, a África do Sul enviou duas participantes ao concurso Miss Mundo em Londres. Uma delas era a Miss África do Sul branca; a outra era negra. Isso não é justo com as concorrentes. Nenhum país deve enviar duas competidoras, seja ela vermelha, amarela, branca, preta ou marrom. A organização do Miss Mundo não pode evitar se a África do Sul tem uma política oficial de apartheid. E se todo país que tivesse um problema racial enviasse delegadas de todas as raças? Veja quantas concorrentes os EUA teriam. Toda cor seria representada. Talvez pudéssemos ter representantes loiras, morenas, ruivas e grisalhas também. Em concursos tão importantes e emocionantes quanto o caso Miss Mundo, é vital respeitar as regras. A África do Sul deve ser forçada a se decidir: preta ou branca. É muito injusto."
Mercado de Gado Os organizadores do concurso negaram as acusações de que o evento é "um mercado de gado". Mas seus ânimos estavam agitadas quando uma das participantes apareceu em uma recepção vestindo uma blusa transparente e sem sutiã. Peter Hain, mais conhecido como o homem que liderou a campanha contra a turnê sul-africana de críquete da Inglaterra no verão, anunciou planos de interromper o concurso de beleza. Hain, vice-presidente nacional dos jovens liberais, divulgou as intenções de seu grupo de interromper o evento, que ele descreveu como "apenas um mercado de gado, degradando as mulheres". O organizador do concurso, Eric Morley, ignorou a ameaça. "Desde quando", ele perguntou, "os jovens liberais julgam a dignidade das mulheres?"
Os organizadores do concurso disseram que militantes de esquerda ameaçaram "sabotar" a competição por permitir que uma concorrente branca da África do Sul competisse com uma negra. As duas sul-africanas disseram aos repórteres que estavam felizes em competir juntas, se consideram representantes conjuntas do seu País e que iriam se ver após o concurso, apesar das leis raciais. Peter Hain, voltou a dizer que seu grupo se manifestaria contra a inclusão de Jessup no concurso "porque ela representa a minoria branca da África do Sul". "Discordo", disse Jillian, uma loira de 20 anos que tem as mesmas medidas de Pearl. "Nós duas representamos toda a África do Sul." Pearl Jensen, Miss Sul da África disse: "Se eu for coroada, será uma vitória para todos os sul-africanos, não apenas os brancos".
A revolta da Miss Suécia A Miss Suécia, uma das favoritas no concurso deste ano, denunciou o evento como mercado de gado e disse que sairia se não estivesse sob contrato com os organizadores. "Eu nem quero ganhar", disse a loira Maj Christal Johansson, uma modelo de 20 anos de Estocolmo. "Fui avisada de que o concurso era como um mercado de gado e estou inclinada a concordar. Eu me sinto como uma marionete. Estou farta de pessoas gritando comigo. As rotinas de ensaio são exaustivas. Se eu não estivesse sob contrato com os organizadores, sairia imediatamente." Maj acrescentou que o acompanhamento restrito é "bastante ridículo". "No hotel em que estamos hospedados", ela disse, "não posso nem descer as escadas para comprar um jornal sem que uma acompanhante venha comigo." Um porta-voz do concurso disse: "Neste concurso sempre haverá acompanhantes para as meninas e ninguém poderá sair sem uma". Uma importante casa de aposta londrina fez da sueca uma favorita de 7 para 1 para ganhar a coroa. No dia seguinte, a garota, que parecia bipolar (ou teria sido forçada?), disse que discordava dos liberacionistas femininos que chamaram o concurso de "um mercado de gado que degrada as mulheres". Ela também disse que o concurso foi "a experiência de uma vida". "Todos sabemos o que são concursos de beleza", acrescentou.
Bomba Uma bomba explodiu na sexta-feira (20) sob um caminhão da British Broadcasting Corp. corrompendo equipamentos de televisão que cobririam a competição final do concurso. Por volta das 14h30 de sexta-feira, um grupo de cerca de quatro ou cinco jovens se reuniu em torno de um dos caminhões de transmissão da BBC estacionados ao lado do teatro. Elas colocaram uma bomba caseira embaixo do caminhão e correram rapidamente por Kensington Gore em direção a Notting Hill. Uma pequena quantidade de TNT, embrulhada em uma cópia do "The Times", explodiu alguns minutos depois, acordando os moradores em um bloco de apartamentos próximo, um dos quais viu jovens fugindo. Os jovens vistos saindo de cena eram membros de um grupo de anarquistas que mais tarde se autodenominariam "The Angry Brigade". Autoridades disseram que a explosão, que causou pequenos danos ao caminhão, foi uma tentativa de sabotar o concurso. Um porta-voz da organização disse: "Acreditamos em medidas pacíficas. Este incidente não tem nada a ver conosco.".
Noite final