Creta () é a maior e mais populosa ilha da Grécia. Situada no sul do mar Egeu, é a quinta maior ilha do Mediterrâneo e a segunda maior do Mediterrâneo Oriental. Administrativamente é uma região, com capital em Heraclião, que é também a maior cidade da ilha. Tem e em 2020 tinha habitantes ().
A ilha constitui uma parte significativa da economia e do património cultural da Grécia, ao mesmo tempo que conserva características culturais próprias, nomeadamente na música e poesia. Foi em Creta que floresceu a Civilização Minoica, entre os primeiros séculos do e meados do , que é considerada a mais antiga civilização de que há registo na Europa. Segundo a mitologia grega, foi ali que cresceu Zeus e que viveu o Minotauro.
Etimologia A primeira referência escrita à ilha, em textos da cidade síria de Mari datados do , é Captara, uma forma repetida por fontes neoassírias posteriores e na Bíblia, onde aparece como Caphtor. No Antigo Egito foi conhecida como Keftiu. Pensa-se que o nome minoico fosse semelhante simultaneamente aos nomes sírio e egípcio.
Em micénico aparece a forma ke-re-si-jo ("cretense") em textos escritos em , com as palavras ke-re-te (*Krētes; em grego posterior: , plural de ) e ke-re-si-jo (*Krēsijos; em grego posterior: ), "cretense". Em grego antigo o nome Creta aparece pela primeira vez na Odisseia de Homero. A sua etimologia é desconhecida. Uma proposta especulativa sugere que o nome deriva da palavra luvita hipotética *kursatta (cf. kursawar, ["ilha"], kursattar ["cortar" ou "lascar"]). Em latim tornou-se Creta.
O nome original de Creta era , mas depois do estabelecimento pelo Emirado de Creta no da sua nova capital em tanto a cidade como a ilha passaram a ser chamados Khandhax/Chandáx ou Khandhakas/Candacas , que deu origem ao nome latino e veneziano Candia, do qual derivaram o Cândia, o Candie e o Candy ou Candia. Durante o domínio otomano, a ilha chamou-se Girit .
História
esquerda|upright|thumb|Fresco do "Príncipe dos Lírios", em Cnossos
Há vestígios de hominídeos em Creta desde pelo menos há anos. Os assentamentos datados do Neolítico pré-cerâmico, no , tinham animais domésticos como bovinos, ovinos, caprinos, suínos e cães, além de cultivarem cereais e legumes. Um dos maiores desses assentamentos foi Céfala, que depois se tornaria Cnossos, o maior centro urbano da ilha. Outros assentamentos neolíticos foram Magasa e Trapeza.
Nos primeiros séculos do , desenvolveu-se em Creta a Civilização Minoica, a primeira civilização avançada europeia, que atingiu um elevado grau de sofisticação em vários campos. As ruínas minoicas mais monumentais, os chamados palácios, como Cnossos, Festo, Mália e Hagia Triada, são atualmente atrações turísticas. A Civilização Minoica irradiou depois para outras regiões do mar Egeu, incluindo a Grécia continental. A partir da primeira metade do Creta chegou a ser o centro cultural e comercial do Mediterrâneo Oriental, graças à sua marinha, que transportava produtos como vinho, azeite, cerâmica, tecidos e joalharia tanto para locais vizinhos como para paragens mais distantes, como a Sicília ou o Egito. Os minoicos usaram um tipo de escrita, o , que ainda não foi decifrado. A história cretense primitiva está repleta de lendas como as do rei Minos, Teseu e o Minotauro, as quais foram transmitidas oralmente e chegaram até aos nossos dias graças a poetas como Homero.
A Civilização Minoica extinguiu-se no final do , quando a ilha foi ocupada militarmente pelos aqueus (Civilização Micénica), oriundos do continente grego. Embora durante algum tempo se tivesse afirmado que a causa principal para o declínio minoico foram os tsunâmis causados pela erupção de Tera, que se estima ter ocorrido em algum momento entre e , ultimamente essa hipótese é posta em causa, quando não rejeitada, por diversos estudiosos. Os registos mais antigos de escrita em grego, escritas em , são do período micénico e foram encontrados em Cnossos.
Após o período minoico, a ilha foi dominada por várias entidades gregas, embora a ilha fosse repartida entre várias cidades-estado independentes, algumas delas bastante poderosas. No houve uma grande guerra entre as principais cidades da ilha. No primeiro quartel do , as cidades-estado cretenses envolveram-se nas Guerras Mitridáticas entre a República Romana e o Reino do Ponto. Um ataque romano à ilha em comandado por Marco António Crético foi repelido. No entanto, em , os romanos lançaram outra campanha militar em grande escala contra a ilha, com três legiões sob o comando de Quinto Cecílio Metelo Crético, e em toda a ilha estava sob o domínio romano. Há algum tempo que Cnossos tinha perdido protagonismo em favor de Gortina, que se tornou a capital não só da ilha como da província romana de Creta e Cirenaica, criada em e que incluía também grande parte do que é hoje a Líbia. Com a reforma administrativa de Diocleciano , a província de Creta passou a fazer parte da Diocese da Mésia, da Prefeitura pretoriana da Ilíria. Creta foi separada da Cirenaica em e em 306, durante o reinado de Constantino , passou a fazer parte da Diocese da Macedónia.
thumb|Teatro de Gortina
Quando o Império Romano foi dividido, Creta ficou na parte oriental, modernamente conhecida como Império Bizantino. A ilha foi devastada por sismos em 365 e 415, atacada por vândalos em 467, por eslavos em 623 e por árabes em 654, na década de 670 e durante o . Circa 732, o imperador transferiu a jurisdição da ilha do papa para o Patriarcado de Constantinopla.
Entre 823–961, a ilha foi ocupada pelos árabes, tendo sido reconquistada pelo Império Bizantino no ano de 961, que a tornou numa base naval importante. Após a Quarta Cruzada, nos primeiros anos do , passou para as mãos da República de Veneza. Estes teriam que defender a ilha das investidas dos otomanos durante o . Os turcos instalaram-se na ilha em 1645 e acabam por conquistá-la totalmente em 1715, introduzindo o islão sunita, contudo, a grande maioria da população permaneceu fiel ao cristianismo ortodoxo grego. Tornou-se um estado autónomo (o Estado de Creta) em 20 de março de 1898 e em 6 de outubro de 1908 a ilha foi anexada pelo Reino da Grécia, ficando a população dividida entre turcos e gregos. A anexação só seria reconhecida internacionalmente em 1913.
Soberanos mitológicos Lista de soberanos cretenses na mitologia grega: Astério, marido de Europa Minos, filho de Zeus e de Europa (Minos pode ter sido um rei mitológico ou pode ter sido um termo local para rei, semelhante à palavra faraó no Egito) Deucalião, filho de Minos (ou de outro Minos) Idomeneu, neto de Minos
Geografia thumb|upright=1.33|Ilha de Creta vista da Estação Espacial Internacional
Com de área, Creta é a maior ilha da Grécia e a quinta maior do Mediterrâneo. Situa-se na parte mais meridional do Egeu, separando este mar do mar da Líbia.
A ilha tem uma forma alongada, com 260 km na direção leste-oeste e 60 km na direção norte-sul na sua parte mais larga. Na parte mais estreita, o istmo de Ierápetra, a distância entre as costas sul e norte é de apenas 12 km. O perímetro total da costa é . A costa é muito recortada.
A costa norte é banhada pelo mar de Creta , a sul pelo mar da Líbia , a oeste pelo mar Mirtoico e a leste pelo mar de Cárpatos. A ilha encontra-se a cerca de 160 km do ponto mais meridional da Grécia continental, ou seja, da costa sul do Peloponeso.
Orografia e hidrografia Creta é uma ilha montanhosa, encontrando-se as serras mais elevadas ao longo de uma sucessão de altas cordilheiras que praticamente percorrem a ilha de leste a oeste e das quais se destacam, nesse sentido: As Montanhas Brancas que se elevam até aos no monte Pachnes. A cordilheira do monte Ida ou Psilorítis, cujo nome se deve à montanha mais alta (), e da qual também faz parte o monte Cédros (). Montanhas Asterúsia, cujo ponto mais alto é o monte Kofinos (ou Kófinas; ). Os montes Dícti, cuja montanha mais alta é Spathi (). A cordilheira de , cuja montanha mais alta é Afentis ().
Estas montanhas originam grandes vales, como o de Amári, planaltos férteis como o de Lasíti, ou de Nída, cavernas como a Ideana (de Zeus) e Dicteia (de Psicro), onde segundo a lenda Zeus nasceu e foi criado, respetivamente, além de vários desfiladeiros ou gargantas, como a de Samariá, Imbros, (ou Asomatos), (ou Há), Platánia, a garganta do Morto, em Cato Zacro, , perto de Sitía, etc.
Os principais rios são o , o , o , o Almiro e o (Megalos Potamós). Há apenas dois lagos de água doce: o e o Agia, ambos na unidade regional de Chania. O Vulisméni, em Ágios Nikolaos era um lago de água doce, mas no último terço do foi artificialmente ligado ao mar.
Ilhas em volta Ao largo das costas de Creta há numerosas ilhas, ilhéus e rochedos. Muitas delas são visitadas por turistas, algumas são visitadas apenas por arqueólogos e biólogos. Algumas são áreas protegidas. Entre elas encontram-se (de oeste para leste):
thumb|Vista aérea da laguna e praia de Balos, com as ilhas Grambússa ao fundo
thumb|O ilhéu de Micronissi visto da ilha de Chrissi
Imeri e Ágria Grambússa — Situadas no extremo noroeste, junto à laguna de Balos, no município de Císsamos, foram um reduto de piratas e de rebeldes. — Situada no extremo sudoeste na unidade regional de Chania, ali ocorreu um massacre de várias centenas de pessoas, levado a cabo em 1824 por soldados otomanos, durante a Guerra de independência da Grécia. Outro desastre associado a ilha é o naufrágio do navio de passageiros Imperatrix, em 1907. Gavdos — Situada 48 km ao largo de Chora Sfakion, é frequentemente apontada como o ponto mais meridional da Europa. Habitada desde o Neolítico, chegou a ter habitantes no período bizantino. É um das localizações possíveis da mítica Ogígia, onde Calipso teve Ulisses como prisioneiro. — São dois ilhéus situados ao largo de Agía Galíni onde, segundo uma versão da mitologia grega a deusa Leto deu à luz Apolo e Ártemis. Dia — Também conhecida como ilha de Zeus ( é homónimo de Zeus em grego, situa-se ao largo de Heraclião. Tem diversos vestígios arqueológicos e segundo a lenda é um monstro petrificado por Zeus e é um dos locais onde o herói Teseu poderá ter deixado a sua amante Ariadne quando voltou para Atenas após ter matado o Minotauro. Espinalonga — Situada ao largo de Elunda, ali existe uma grande fortaleza veneziana e onde funcionou a última leprosaria da Europa. Chrissi — Situada ao largo de Ierápetra, é famosa pelas suas praias de areia branca e pequenas conchas, pelas águas límpidas azul-turquesa e pouco profundas e pelas abundantes rochas vulcânicas coloridas. Pela sua «rara combinação de ecossistemas, que é habitat de muitas espécies endémicas», e ao seu «elevado valor estético, classificado como de excecional beleza natural», a ilha integra uma área protegida com 700 hectares que faz parte da . Pseíra — Situada no golfo de Mirabelo, tem importantes vestígios arqueológicos que remontam ao Ali se situou uma importante cidade portuária durante o período minoico. — Situadas ao largo de Siteía, no extremo nordeste de Creta, foram um local de culto de Dionísio. Juntamente com o palmeiral de constituem uma reserva natural. — Conhecida como Leuce na Antiguidade, situa-se ao largo da extremidade sudeste de Creta. Tem vestígios arqueológicos importantes, que vão do período minoico até ao pós-bizantino. Na Antiguidade era conhecida pela exploração de esponjas e pela produção de uma tintura púrpura a partir do molusco Hexaplex trunculus.
Clima thumb|esquerda|O monte Ida visto do palácio minoico de Festo em fevereiro de 2015