Os contos populares coreanos são uma mistura complexa entre as crenças, pensamentos e valores do xamanismo, confucionismo e budismo. Sinteticamente, as crenças xamanísticas são vistas na orientação e nos pensamentos animistas; o confucionismo é perceptível no culto ancestral e na ideia de um relacionamento humano adequado; e por fim, o budismo, nas ideias de encarnação e retribuição. Há também alguns elementos do taoísmo: a teoria Um-Yang (Yin-Yang chinês) refletida nas crenças religiosas populares coreanas. Esses quatro sistemas de crenças agem como pilares e se reforçam mutuamente, sem conflitos entre si e nos atos subjacentes à vida do povo coreano comum.

A vida humana, no geral, pode ser caracterizada como um triunfo de esperanças e sonhos em detrimento das nossas reais experiências. Esta é a verdade do povo coreano através de sua longa história, de sociedades tribais anciãs às suas sociedades modernas ideologicamente divididas. Provavelmente, mais do que qualquer outro gênero literário, contos populares coreanos refletem a vida comum das pessoas em diferentes arranjos e dimensões. Eles refletem sonhos, esperanças e aspirações de pessoas comuns, que por muitas vezes vivenciaram experiências duras e injustas. As pessoas com governadores justos, benevolentes e sábios; eles tiveram esperança de por um fim às misérias humanas da pobreza e doenças; eles aspiraram colher mais do que poucas recompensas de suas labutas incessantes e devastadoras. Mais frequentemente do que eles queriam, seus sonhos ardiam sem piedade; no entanto, eles continuaram sonhando e esperando, e adquiriram, enquanto no decurso, uma natureza estoica de natural aceitação tenaz e uma estrondosa afirmação da vida. Essa tenacidade e persistência contribuíram na germinação de uma virtuosa paciência: eles podem esperar de maneira incessante.

Os contos populares coreanos também refletem padrões de crença, pensamentos e valores que guiaram a vida das pessoas comuns geração após geração, por muitos séculos. Suas crenças e pensamentos sobre a natureza, sobre a relação entre o homem e a natureza; sobre este mundo e o futuro; valores sobre as relações humanas na família, um clã, uma comunidade unida e uma sociedade rigidamente hierárquica como um todo – e isso se reflete em muitas fábulas e nos estilos de vida reais do povo coreano. Embora a natureza às vezes leve desastres ao homem, é a principal fonte de nutrição do mesmo. O homem não compete com a natureza, mas deve aprender os caminhos da natureza e se harmonizar com eles. Então, essencialmente, o homem é parte integrante da natureza, e não deve lutar contra ela.

Eles, portanto, refletem a cultura duradoura do povo, ou seja, longas tradições, crenças e hábitos compartilhados entre o povo ao longo dos milênios de sua história de convivência. Eles refletem seu modo de vida particular e uma visão única do mundo. Ao mesmo tempo, suas fábulas tiveram o efeito de preservar e reforçar todos esses aspectos.

Os Irmãos Heungbu e Nolbu (흥부와 놀부)

Origem A história dos dois irmãos Heungbu e Nolbu é um dos mais típicos e populares entre todos os contos do folclore coreano. Ele foi escrito no final da Dinastia Joseon (1392-1897), e a identidade de seu autor é desconhecida.

Esse conto possui um longo histórico em ser transmitido oralmente, e nos tempos atuais é uma das histórias de dormir mais contadas para as crianças coreanas. É, também, uma das 5 canções pansori originais restantes, sendo conhecido como A Canção de Heungbu, Heungbuga, or também como O Conto de Nolbu, Nolbujeon, entre outros nomes.

No período desde o final da Guerra da Coreia na década de de 1950, esse conto se tornou uma das histórias coreanas mas populares, servindo como inspiração para várias peças e dramas televisivos. O reconhecimento desse conto foi indicado em sua seleção como um dos exemplos da cultura popular em um set de selos publicados pela Coreia do Norte em 1963, e também como um dos quatro representantes do folclore coreano em uma série de postais impressos pela República da Coreia em 1969/1970.

História Era uma vez Nolbu e Heungbu, eles eram irmãos. Após a morte do pai, o irmão mais velho Nolbu tomou todas as propriedades de seu pai, deixando quase nada para seu irmão mais novo Heungbu. Heungbu e seus vários filhos estavam passando muita fome e, por isso, resolveu visitar seu irmão mais velho Nolbu para lhe implorar para que dividisse um pouco de seus grãos. Mas, em vez de dar alguns grãos a Heungbu, a esposa de Nolbu bateu na bochecha de Heungbu com uma colher à qual alguns grãos estavam presos na superfície. A bochecha de Heungbu ficou suja e mesmo magoado com a situação, deu os grãos que ficaram grudados em sua bochecha para seus filhos.

E então, um dia quando Heungbu estava caminhando, ele encontrou uma andorinha com a perna quebrada e a ajudou a se curar. Depois disso, a andorinha deu para Heungbu uma semente de cabaça. Heungbu plantou a semente e então uma cabaça muito grande cresceu. Quando Heungbu e sua esposa abriram a cabeça, notaram que ela estava cheia de riquezas como ouro e prata, e assim a família de Heungbu tornou-se rica.  

Nolbu ficou sabendo da notícia da fortuna do seu irmão mais novo e quis ser rico assim como ele. Então, ele propositalmente quebrou a perna da andorinha e a curou. A andorinha também trouxe a semente da cabaça para Nolbu mas, desta vez, dentro da cabaça, não havia nada além de goblins. Os goblins então puniram o malicioso Nolbu.

Nolbu se arrependeu de seus erros e propôs ao seu irmão mais novo que morassem juntos. Finalmente, Heungbu e Nolbu viveram felizes para sempre.

Lições

Gwon-seon-jing-ak (권선징악, 勸善懲惡): Incentivar o bom trabalho e disciplinar coisas más. Nam-ui nun-e nunmul naemyeon, je nun-e-neun pi-nunmuli nanda (남의 눈에 눈물 내면 제 눈에는 피눈물이 난다.): Se você faz alguém chorar, certamente você vai chorar mais;   Se você faz o mal, você será punido mais. Jinachin yoksim-eun hwa-leul buleunda (지나친 욕심은 화를 부른다.): Ganância excessiva leva ao infortúnio; Se você for excessivamente ganancioso, isso trará má sorte. Ak-eulo mo-eun sallim ak-eulo manghanda. (악으로 모은 살림 악으로 망한다.): Riqueza coletada pelo mal, destruída é pelo mal; A propriedade que é feita fazendo coisas ruins além de ser prejudicada, não durará muito.

Interpretações A história geralmente é analisada como um conto sobre moralidade, em que se é ensinado a gentileza e compaixão entre irmãos.

Porém, há quem interprete de maneiras diferentes, como Mark Peterson, que escreveu um artigo em 2019 no The Korea Times a respeito de como ele analisa a história. Em suas palavras, “desde que a história, primeiramente contada por cantores pansori e posteriormente escrita, foi criada na época em que a divisão igual de herança deu lugar à primogenitura, eu acredito que a história se encaixa na categoria de ‘literatura de protesto’. Ela protesta a perda da herança pelos Heungbus da nação, e o comando da casa principal e de diversos campos e escravos pelos filhos mais velhos, os Nolbus do país. A história demonstra a injustiça da divisão desigual das propriedades, em um tempo em que a memória das divisões igualitárias ainda estava viva na mente das pessoas.”

O Conto de Kongjwi e Patjwi (콩쥐와 팥쥐)

Origem O conto de Kongjwi e Patjwi é uma das fábulas mais conhecidas da Coreia do Sul, que foi adaptada para crianças desde o começo do século XX, e pertence à tradição de narrativa de “Cinderela”, combinando o conto de casamento com o conto de madrasta. A segunda metade da narrativa, a da morte de Kongjwi, transformação e reencarnação, é uma das variações típicas que o leste asiático atribui ao conto de Cinderela. A versão coreana foi profundamente influenciada, no decurso da transmissão, pela versão romântica clássica da história, assim como pela narrativa ocidental de Cinderela.

História Este conto narra a história de Kongjwi (Menina de feijão), que morreu após sofrer maus tratos de sua madrasta e sua meia-irmã Patjwi (Menina de feijão vermelho), mas que com a ajuda de seres sobrenaturais, supera suas provações e retorna à vida.

A mãe de Kongjwi faleceu e a sua madrasta se mudou para a casa, trazendo consigo a filha chamada Patjwi. A madrasta tratava Kongjwi de maneira abusiva, e a fazia executar tarefas extremamente difíceis. Em certo dia, a madrasta deu à Kongjwi uma enxada de madeira e à Patjwi uma enxada de metal e ordenou que ambas capinassem o campo. Patjwi terminou mais cedo e voltou para casa, mas Kongjwi quebrou sua enxada e caiu em prantos. Nesse momento, um boi preto desceu do céu, trazendo para Kongjwi uma enxada de metal e capinando o campo para ela.

Noutro dia, a madrasta saiu com Patjwi para um banquete na casa de seus avôs, e falou que Kongjwi poderia ir também, mas apenas após completar uma série de tarefas: encher a jarra de água que tinha uma rachadura; bater o arroz; e tecer e girar o cânhamo. Kongjwi sentou-se chorando quando um sapo apareceu e preencheu o buraco da jarra, pássaros voaram para bater o arroz, o boi negro girou o cânhamo e uma fada desceu para tecer o cânhamo, trazendo para Kongjwi um vestido e sapatos para vestir no banquete. Mas no caminho para o banquete, Kongjwi perdeu um de seus sapatos, que o magistrado encontrou e devolveu para ela, no decurso do qual os dois se casaram. Patjwi sentiu muita inveja e atraiu Kongjwi para uma lagoa, empurrando-a na água e a matando, fazendo-se passar por Kongjwi depois. Kongjwi reencarnou como uma flor, e, perturbada pela flor, Patjwi arremessou a flor à lareira da cozinha e a queimou em cinzas.

Uma senhora idosa da vizinhança veio à casa e pediu fogo emprestado da lareira, na qual ela encontrou mármore e levou para casa. O mármore se transformou em Kongjwi e alertou ao magistrado a verdadeira identidade de Patjwi. O magistrado então desenterrou o corpo de Kongjwi para revivê-la e executou Patjwi, mandando o corpo para a sua mãe (a madrasta), que faleceu de choque após ver sua filha morta.  

Variações do conto As diversas variações dessa história podem ser categorizadas em três tipos: o primeiro tipo é similar ao romance clássico Kongjwipatjwijeon (O conto de Kongjwi e Patjwi). A segunda versão apresenta motivações extras para o boi, que engole o cânhamo e o gira com o seu ânus, e depois cozinha o arroz em um caldeirão com rachadura, e Patjwi atrai Kongjwi com mingau de feijão vermelho.

A terceira versão retira a parte do sapato perdido, provavelmente omitido durante a transmissão do conto. Nessa versão, os nomes das personagens principais também variam indiscriminadamente, de Kongjoji Patjoji, Kongjosi e Patjosi, para Kongrye e Patrye. Em alguns casos os nomes das duas personagens são invertidos.

Interpretações A versão resumida acima foca nos acontecimentos que seguem o casamento de Kongjwi, o que pode ser interpretado por alguns como a narrativa de uma mulher construindo o seu próprio mundo através de ritos de passagem. Os temas de morte, reencarnação e mudança de forma estão associados à mitologia agrária, elementos estes que, segundo algumas análises, são narrativas predominantes do leste asiático, o que demonstra a forte de manda em heroínas que provem sua feminilidade.

As fábulas de Cinderela (enquanto gênero) são um dos contos de fada mais populares no mundo. Ao mesmo tempo é um dos tipos mais estigmatizados, sendo descrito por muitos que há uma protagonista feminina passiva e fraca. O conto de Kongjwi e Patjwi há a similaridade do tema principal, sendo a “heroína inocente e perseguida”, característica marcante de Cinderela.

Em uma versão, o enredo segue quase exatamente a mesma trajetória dos contos europeus da Cinderela, no qual há o tema do sapato perdido e o casamento com o Príncipe. A principal diferença entre a “Cinderela Coreana” e as outras histórias de Cinderela é que a protagonista passiva amadurece e se torna uma mulher independente.