A greve geral de 1906 em Porto Alegre, também conhecida como greve dos 21 dias, foi a primeira greve geral da história do Rio Grande do Sul. Entre os dias 3 e 21 de outubro, cerca de cinco mil operários abandonaram o trabalho exigindo a redução de jornada para oito horas diárias. O movimento foi inicialmente impulsionado pelos anarquistas, que haviam iniciado uma greve no dia 26 de agosto na marmoraria de Jacob Aloys Friedrichs reivindicando a jornada de oito horas. Logo após a declaração de greve, fundaram o Sindicato dos Marmoristas e chamaram os demais trabalhadores de Porto Alegre para se unirem ao movimento. Durante todo o mês de setembro, a classe trabalhadora da cidade se manteve solidária aos marmoristas paralisados, e no dia 3 de outubro, diversas categorias decidiram se declarar em greve.

Diante da paralisação de várias categorias — incluindo metalúrgicos, estivadores, pedreiros, trabalhadores dos bondes e têxteis —, o empresariado local se reuniu sob a liderança de Alberto Bins para firmar um convênio que concedia aos operários uma jornada diária de nove horas de trabalho, proposta que inicialmente não foi aceita pelos grevistas. Durante a greve, os socialistas Francisco Xavier da Costa e Carlos Cavaco emergiram como lideranças do movimento, alijando os anarquistas de sua direção e impulsionando a criação da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS), que se tornaria a mais importante organização da classe trabalhadora gaúcha durante a Primeira República. Os patrões se mantiveram intransigentes e a greve começou a se esvaziar a partir do dia 17 de outubro, quando diversos trabalhadores, pressionados pelas dificuldades econômicas decorrentes de tanto tempo paralisados, começaram a voltar ao trabalho, aceitando a jornada de nove horas. No dia 21, o movimento foi dado por encerrado pela imprensa local. Apesar da reivindicação original não ter sido atendida, a redução da jornada de trabalho foi vista como uma conquista parcial, e a greve ajudou a fortalecer a consciência de classe e a organização dos trabalhadores de Porto Alegre.

Contexto

Segundo a historiadora Joan Bak, a greve geral de 1906 em Porto Alegre está inserida em um contexto no qual se destacam pelo menos três elementos: a introdução de novas modalidades de produção, que desestruturaram os hábitos familiares de trabalho artesanal; a introdução crescente da mão de obra feminina no ambiente de trabalho; e a transformação de comunidades étnicas herméticas em comunidades mais heterogêneas, que passavam a se reconhecer enquanto classe trabalhadora.

Até o início do século XX, predominava na maioria das empresas de Porto Alegre uma organização típica das oficinas manufatureiras, com um número relativamente reduzido de empregados e uma hierarquia de funções baseada no talento e no tempo de aprendizagem profissional. Esse ambiente de trabalho trazia possibilidades de ascensão hierárquica aos empregados, bem como permitia uma maior proximidade entre estes e seus patrões, favorecendo relações sociais de tipo paternalista. Os trabalhadores das primeiras oficinas e indústrias eram quase sempre artesãos qualificados do sexo masculino, em geral imigrantes europeus ou descendentes. Os empresários geralmente contratavam apenas trabalhadores conterrâneos, numa tentativa de acentuar a solidariedade étnica e camuflar as diferenças de classe. As barreiras linguísticas acabavam por isolar os trabalhadores imigrantes daqueles de fala portuguesa, reforçando os laços culturais entre patrões e empregados. Os negros e mestiços, ainda que formassem parte importante da população da cidade, eram relegados a trabalhos não qualificados e mal pagos, enquanto muitos empresários contratavam somente trabalhadores de origem europeia.

No início dos anos 1900, ocorreu uma expansão da indústria e as relações sociais mais tradicionais entre patrão e empregado começaram a se modificar com o surgimento das grandes fábricas. Em decorrência desse processo, alguns artesãos passaram a culpar as máquinas por os terem tirado de seus antigos trabalhos e reclamavam que estavam trabalhando mais e ganhando menos. Estabelecimentos que empregavam mais de 50 trabalhadores se tornavam mais comuns, concentrados especialmente na metalurgia, na produção de vestuário, móveis e alimentos. De acordo com Bak, "esses estabelecimentos se tornaram um primeiro campo de batalha dos conflitos por mudanças nas relações sociais de produção", incluindo as primeiras greves, até então sempre circunscritas a apenas um estabelecimento. Com o aparecimento e a expansão de novas fábricas, a mão de obra feminina passou a ser cada vez mais empregada. Na fábrica de meias e espartilhos da Companhia Fabril Porto-Alegrense, uma das maiores e mais mecanizadas da cidade, três quartos da mão de obra era composta por mulheres, que trabalhavam por baixos salários e em condições insalubres.

Como consequência desse processo inicial de industrialização, Porto Alegre passou por um rápido crescimento urbano. A população da cidade, de 52.000 habitantes em 1890, havia dobrado em 1910, e também surgiram novos distritos urbanos nesse período. A expansão da cidade se dava principalmente ao norte e ao leste. A zona do quarto distrito — atuais bairros de São João e Navegantes — surgiu como a primeira região industrial da cidade, onde a presença da classe operária se fazia presente.

Em decorrência dessas rápidas transformações, as comunidades étnicas densas e herméticas começavam a se transformar em comunidades mais heterogêneas com mistura de identidades étnicas e de classe. Enquanto em um primeiro momento as organizações da classe trabalhadora eram marcadas pela etnicidade, já em 1896, a Liga Operária Internacional congregava membros falantes de português, alemão e italiano. No início do século XX, militantes anarquistas passaram a organizar sindicatos por ocupação, ainda que num primeiro momento, alguns ofícios fossem identificados com certas etnias — os italianos predominavam entre os sapateiros; os alemães, por sua vez, entre os metalúrgicos, chapeleiros e marceneiros.

A greve

Greve dos marmoristas miniaturadaimagem|direita|Henrique Faccini, Carlos Jansson e Arthur do Vale Quaresma, os iniciadores da greve na marmoraria de Jacob Aloys Friedrichs. No dia 26 de agosto de 1906, três marmoristas da oficina de Jacob Aloys Friedrichs – Henrique Faccini, Carlos Jansson e Arthur do Vale Quaresma – lhe entregaram uma carta na qual reivindicavam a jornada de oito horas de trabalho. A reivindicação da jornada de oito horas não era uma novidade no movimento operário: os socialistas gaúchos já a exigiam desde 1897, quando a demanda apareceu no programa do Partido Socialista do Rio Grande do Sul; ainda em 1906, entre os dias 15 e 22 de abril, foi realizado no Rio de Janeiro o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, que colocou a luta pelas oito horas na ordem do dia. Os militantes do movimento operário, em especial os anarquistas consideravam que a jornada de oito horas ajudaria a reduzir o desemprego e permitiria aos trabalhadores se organizar e se instruir em seu tempo livre, fazendo crescer sua consciência de classe. Embora o Rio Grande do Sul não tivesse enviado representantes ao Congresso Operário, os anarquistas de Porto Alegre tomaram conhecimento das propostas aprovadas no encontro, e inspirados pelo Congresso, decidiram iniciar um movimento em prol das oito horas. Henrique Faccini e André Arjonas, signatários da carta entregue à Friedrichs, eram militantes anarquistas.

Os marmoristas, assim como outros artesãos, possuíam suas próprias ferramentas e eram qualificados, o que os tornava difíceis de serem substituídos. Porém, trabalhavam 11 horas diárias. Na carta entregue a Friedrichs, os marmoristas se identificavam como classe operária e justificavam a sua exigência argumentando que essa medida lhes daria "algum tempo para o desenvolvimento moral e intelectual". Os empregados de Friedrichs acreditavam que ele era o mais indicado para introduzir a jornada de oito horas na cidade e esperavam uma resposta favorável de seu patrão, caso contrário, estavam dispostos a tomar uma "resolução diferente".

Apesar do tom respeitoso e cordial da carta, que não evidenciava hostilidade ou ardor revolucionário, considerando Friedrichs como um "homem honesto" e "laborioso e condescendente com tudo que é justo e que sempre nos tem tratado bem", a ameaça de que fosse tomada uma "resolução diferente" irritou o patrão. Na manhã seguinte, dia 27, Friedrichs encontrou somente um empregado na marmoraria; todos os demais, mesmo os aprendizes, estavam ausentes. Através de um informante que se declarou neutro, soube que seus funcionários só voltariam ao trabalho depois de conhecerem a resposta à solicitação apresentada no dia anterior. Houve então um impasse: Friedrichs afirmou que enquanto seus empregados "não voltassem ao trabalho e aguardassem com calma" a sua resposta, "eles poderiam esperar indefinidamente". Estabeleceu a volta ao trabalho como condição de sua resposta aos empregados e afirmou que a questão "já não girava em torno da jornada de oito horas", com a qual Friedrichs já havia se "conformado intimamente", mas sim, pela sua "autoridade de mestre e empregador".

Os grevistas se mantiveram firmes durante uma semana. Ao final desse período, Friedrichs informou que se dispunha a reduzir a jornada de trabalho para nove horas e impôs um ultimato: caso os trabalhadores rejeitassem sua proposta, deveriam retirar seus instrumentos de trabalho até às dezessete horas do dia seguinte. Os marmoristas nomearam uma comissão para tentar um acordo com Friedrichs, que se manteve intransigente. A comissão, por sua vez, declarou ao patrão que os trabalhadores seguiriam em greve enquanto suas reclamações não fossem atendidas. Já no dia seguinte, um grupo de grevistas tentou retirar suas ferramentas da oficina, mas o patrão se negou a entregá-las e pediu proteção policial. Os trabalhadores convenceram a polícia de que somente reclamavam o que lhes pertencia de direito e, quando a polícia cedeu, eles entraram calmamente no estabelecimento, recolheram seus pertences e saíram. direita|miniaturadaimagem|O socialista Francisco Xavier da Costa tentou buscar uma saída negociada para a greve dos marmoristas. Com a generalização da greve, se afirmou como um dos líderes do movimento. No dia 10 de setembro, o litógrafo socialista Francisco Xavier da Costa se ofereceu para mediar o conflito, escrevendo a Friedrichs e argumentando que seria "absolutamente impossível um acordo entre vós e os ex-vossos operários, desde que não tenhais a benevolência de atender ao que eles solicitaram, isto é – a redução do labor a oito horas diárias". Apesar de ser brasileiro e mestiço, Xavier da Costa possuía laços com a comunidade de fala alemã e já havia atuado como mediador entre patrões e empregados na greve da Companhia Fiação e Tecidos, no ano anterior. Por essas razões – e também em uma tentativa de reforçar sua liderança no movimento operário local e bloquear o avanço dos anarquistas –, tentou buscar uma saída negociada ao conflito.

Durante o mês de setembro, quase todo o operariado da cidade se manteve solidário aos grevistas. No dia 25 de setembro, nove marmoristas, inclusive Henrique Faccini, embarcaram rumo ao Rio de Janeiro, onde seriam empregados no regime de oito horas. Representantes de diversas associações de trabalhadores compareceram ao porto em uma demonstração de apoio aos marmoristas.

Generalização da greve miniaturadaimagem|esquerda|Ao lado de Xavier da Costa, o jornalista e literato Carlos Cavaco foi um dos principais líderes da greve. Ganhou destaque com seus discursos eloquentes dirigidos aos trabalhadores.