miniaturadaimagem| Papiro de um manuscrito árabe de Dioscórides, Sobre Material Médico, 1229

Na história da medicina, a Medicina Islâmica se refere à ciência médica desenvolvida na Idade de Ouro do Islamismo que por sua vez é descrita em árabe, a língua franca da civilização islâmica. A medicina islâmica desenvolveu, sistematizou e preservou o conhecimento médico da Antiguidade Clássica, incluindo as principais tradições de Hipócrates, Galeno e Dioscórides. Durante a era pós-clássica, a medicina islâmica foi a mais avançada do mundo, integrando conceitos da medicina grega, romana, mesopotâmica e persa, bem como a antiga tradição indiana do Ayurveda, ao mesmo tempo em que fez numerosos avanços. A medicina islâmica, juntamente com o conhecimento da medicina clássica, foi adotada mais tarde na medicina medieval da Europa Ocidental, depois que os médicos europeus se familiarizaram com autores da medicina Islâmica durante o Renascimento do século XII. O conhecimento dos médicos medievais Islâmicos predominou até o começo do Iluminismo, quando houve a ascensão da medicina como uma ciência natural. Alguns aspectos da medicina medieval Islâmica continuam a ser de interesse médico até os dias de hoje.

Contribuições médicas

Anatomia humana e fisiologia miniaturadaimagem|Almançor ibne Ilias: Anatomia do corpo humano (), 1450, Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos

É amplamente aceito que Ibn al-Nafis fez um importante avanço no conhecimento da anatomia e fisiologia humana, porém é duvidoso que tais avanços e descobertas tenham sido feitas por dissecção humana, pois al-Nafis dizia que evitava a prática de dissecação por causa de sua 'compaixão' pelo corpo humano.

O descobrimento da circulação sanguínea através do corpo humano é atribuído aos médicos gregos. No entanto, havia entre eles a dúvida de como o sangue fluía do ventrículo direito do coração para o ventrículo esquerdo, antes de o ser bombeado para o resto do corpo. Segundo Galeno, no , o sangue atingia o ventrículo esquerdo através de passagens invisíveis no septo. Posteriormente, no , Ibn al-Nafis descobriu que o septo ventricular era impenetrável, sem qualquer tipo de passagens invisíveis, mostrando que as suposições de Galeno eram falsas. Al-Nafis descobriu também que o sangue no ventrículo direito do coração é transportado para o ventrículo esquerdo após passar pelos pulmões. Essa descoberta foi uma das primeiras descrições a respeito da circulação pulmonar, embora seus escritos sobre o assunto tenham sido lidos somente no , mais de 700 anos depois. Foi William Harvey o responsável por trazer o tema da circulação pulmonar à atenção geral.

Na Grécia Antiga, acreditava-se que a visão era possível a partir de um espírito visual que emanava dos olhos e permitia a percepção de um objeto. Muitos anos depois, no o cientista iraquiano Alhazen, também conhecido como Al-hazen em latim, desenvolveu um conceito radicalmente novo a respeito da visão humana. Alhazen adotou uma abordagem direta, explicando que o olho era um instrumento óptico. A descrição da anatomia oftálmica levou-o a formar a base para a sua teoria da formação de imagens, que é explicada pela refração dos raios de luz que passam entre 2 meios de diferentes densidades. Tal teoria foi desenvolvida por ele a partir de investigações experimentais. No , seu livro de ótica foi traduzido para o latim e continuou a ser estudado no mundo islâmico e na Europa até o .

Medicamentos As contribuições médicas feitas pelo Islã medieval incluem o uso de plantas como um tipo medicamento. Médicos medievais islâmicos usavam substâncias naturais como Papaver somniferum, a papoula e Cannabis sativa lineu, o cânhamo. Na Arábia pré-islâmica, nem papoula nem cânhamo eram conhecidos. O cânhamo foi introduzido nos países islâmicos no provindo da Índia passando pela Pérsia e pela cultura grega até a literatura médica. O grego Dioscórides,Forbes, Andrew ; Henley, Daniel; Henley, David (2013). 'Pedanius Dioscorides' in: Health and Well Being: A Medieval Guide. Chiang Mai: Cognoscenti Books. ASIN:B00DQ5BKFA 1953 que segundo os árabes foi o maior biólogo botânico da antiguidade, recomendou sementes de cânhamo para "saciar o nascimento" e seu suco para tratar otalgia. A partir do ano 800 e por mais de dois séculos, o uso de papoula ficou restrito ao campo terapêutico. No entanto, as dosagens frequentemente excediam as necessidades médicas e eram usadas repetidamente, além do que foi originalmente recomendado. A papoula foi prescrita por Yuhanna b. Masawayh devido a suas propriedades antieméticas, hipnóticas e analgésicas, especialmente para tratar cefaleia, pleurisia, dores nos olhos e nos dentes e para aliviar a dor gerada pelas pedras na vesícula biliar. Embora a papoula tenha benefícios medicinais, Ali Atabari explicou que o extrato de folhas de papoula (geradora do ópio) era letal e que deveria ser considerado um veneno.

Cirurgias O desenvolvimento e a popularização de hospitais na sociedade medieval islâmica, expandiram a prática do que hoje conhecemos como cirurgia. Os procedimentos cirúrgicos eram conhecidos pelos médicos durante o período medieval devido a textos de épocas anteriores que incluíam descrições dos procedimentos. A tradução de publicações médicas pré-islâmicas foi um alicerce fundamental para médicos e cirurgiões, a fim de expandir a prática. Os procedimentos cirúrgicos eram raramente praticados devido a uma taxa de sucesso extremamente baixa, mesmo que registros anteriores tenham descrito resultados favoráveis a certas operações. Dentre os procedimentos que eram realizados no Islã antigo, destacam-se aqueles da área da oftalmologia, como cirurgias de tracoma e catarata.

Técnicas A sangria e a cauterização foram técnicas amplamente usadas pelos médicos na sociedade Islâmica antiga no tratamento de pacientes. Essas duas técnicas eram comumente utilizadas devido à grande variedade de doenças que eram tratadas. A cauterização, um procedimento que consiste na queima de uma parte da pele ou de outros tecidos, como por exemplo o de uma ferida exposta, foi realizada para prevenir infecções e para estancar hemorragias. Para executar esse procedimento, os médicos aqueceram uma haste de metal e a usaram para queimar a carne ou a pele de uma ferida. Isso faria com que o sangue da ferida coagulasse e eventualmente curasse a ferida.

A sangria, remoção cirúrgica do sangue, era usada para curar um paciente com maus "humores" considerados prejudiciais à saúde. Os médicos que realizavam a sangria em um paciente, drenavam o sangue direto das veias. A "ventosaterapia úmida", uma forma de sangria, era realizada fazendo uma ligeira incisão na pele e extraindo o sangue aplicando um copo de vidro aquecido. O calor do vidro gerava sucção e fazia com que o sangue ficasse depositado dentro do copo. Também foi usada a “ventosaterapia à seco”, que consistia também na colocação de um copo de vidro aquecido (sem incisão) em uma área específica do corpo de um paciente para aliviar a dor, coceira e outras doenças comuns à época. Embora esses procedimentos aparentam ser relativamente fáceis de serem realizados, foram descritos casos em que os médicos tiveram que pagar uma compensação por causar ferimentos ou morte a um paciente devido ao descuido durante os procedimentos. Tanto a ventosaterapia quanto a sangria, foram consideradas eficazes no tratamento de diversas doenças.

Tratamentos Os procedimentos cirúrgicos foram importantes no tratamento de pacientes com complicações oculares, como tracoma e catarata. Uma complicação comum dos pacientes com tracoma é a vascularização do tecido que invade a córnea do olho, esta era considerada a causa da doença pelos médicos islâmicos antigos. A técnica usada para corrigir essa complicação era realizada cirurgicamente e tal procedimento é hoje conhecido como peritomia. As documentações dos procedimentos cirúrgicos da era medieval Islâmica, descrevem que a peritomia era feita "empregando instrumentos para manter os olhos abertos durante a cirurgia, vários ganchos muito pequenos para levantar [as pálpebras] e um bisturi muito fino para excisão". Uma técnica semelhante no tratamento de complicações do tracoma, chamada de pterígio, era usada para remover a parte triangular da conjuntiva bulbar na córnea. Tal procedimento era realizado levantando o excesso de tecido com pequenos ganchos e depois cortando-o com uma pequena lanceta. Ambas as técnicas cirúrgicas eram extremamente dolorosas para o paciente e complexas para o médico e seus assistentes.

A literatura medieval Islâmica, descreve que as cataratas são causadas por uma membrana ou fluido opaco que repousa entre o cristalino e a pupila. O método para tratar as cataratas no Islã medieval era conhecido por meio de traduções de publicações anteriores sobre a técnica. Com o uso de uma lanceta, era feita uma pequena incisão na esclera e uma sonda era inserida e usada para pressionar o cristalino, empurrando-o para um lado do olho. Após a conclusão do procedimento, o olho era lavado com água salgada e enfaixado com algodão embebido em óleo de rosas e clara do ovo. Após a operação, havia a preocupação de que a catarata, uma vez empurrada para o lado, se dissipasse, e por esse motivo os pacientes eram instruídos a ficarem deitados de costas por vários dias após a cirurgia.

Anestesia e antissepsia Tanto na sociedade moderna quanto na sociedade medieval Islâmica, a anestesia e a antissepsia são aspectos importantes da cirurgia. Antes do desenvolvimento da anestesia e da antissepsia, a cirurgia era limitada a fraturas, luxações e lesões traumáticas que resultavam em amputações. Além de distúrbios urinários e outras infecções comuns. Médicos medievais Islâmicos utilizavam técnicas para tentar impedir infecções ao executar procedimentos em um paciente, por exemplo, lavando o paciente antes de um procedimento; da mesma forma, após um procedimento, limpavam frequentemente a área operada com óleo de rosas, água salgada, água de vinagre ou com uma mistura de vinho com óleo de rosas. Segundo a literatura medieval Islâmica, tais produtos possuem propriedades anti-sépticas. Além disso, ervas e resinas, incluindo incenso, mirra, cássia e membros da família dos louros também eram utilizadas para prevenir infecções, embora seja, ainda hoje, impossível saber exatamente qual a eficácia desses tratamentos na prevenção da sepse. O uso do ópio para matar a dor era conhecidos desde os tempos antigos; outras drogas, incluindo meimendro, cicuta, erva-cidreira e sementes de alface também eram usadas pelos médicos islâmicos para tratar a dor. Sabe-se que algumas dessas substâncias, especialmente o ópio, possuem efeitos hipnóticos, e alguns estudiosos modernos afirmam que essas drogas eram usadas para fazer uma pessoa perder a consciência antes de uma operação, como faria um anestésico nos dias de hoje. No entanto, não há uma referência clara sobre esse uso antes do .

Estudiosos islâmicos introduziram o uso do cloreto mercúrico para desinfetar feridas.

Ética Médica Médicos como Rasis escreveram sobre a importância da moralidade na medicina e podem ter apresentado, juntamente com Avicena e Ibn al-Nafis, o primeiro conceito de ética na medicina islâmica. Rasis sentia que era importante para o médico não apenas ser um especialista em seu campo, mas também ser um modelo para a sociedade. Suas ideias sobre ética dentro da medicina foram divididas em três conceitos: a responsabilidade do médico para com os pacientes, a responsabilidade consigo mesmo e a responsabilidade dos pacientes com os médicos.

O mais antigo trabalho árabe em ética médica que restou foi feito por Isaque ibne Ali Aruaui e foi intitulado Adab al-Tabib ( Adab aț-Ṭabīb, "Moral do médico" ou "Deontologia Médica Prática") e foi baseado nas obras de Hipócrates e Galeno. Al-Ruhawi considerava os médicos como "guardiões de almas e corpos" e escreveu vinte capítulos sobre vários tópicos relacionados à ética médica.

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