A democracia racial é um argumento que nega a existência do racismo estrutural no Brasil, afirmando que o intenso processo de miscigenação no país produziu relações raciais harmônicas na sociedade brasileira. É tratada como mito e ideologia por buscar exprimir a vigência de uma suposta democracia plena que se estenderia às pessoas de todas as raças, a despeito das desigualdades motivadas pelo racismo no país e por estruturas racistas culturais, sociais e políticas que privilegiam brasileiros brancos.Nascimento, Abdias do. "Democracia racial: mito ou realidade?" Geledés, 20/04/2009Sanz, Beatriz & Rodrigues, Paula. "O mito do paraíso racial: Ideia de democracia racial foi amplamente adotada pelo Brasil pós-escravidão e ajuda a explicar racismo atual". Ecoa / UOL, 12/06/2020, série reportagens especiaisD'Adesky, Jacques. "A ideologia da democracia racial no limiar anti-racista universalista". In: Revista de Comunicação e Cultura Semiosfera, 2005 (5)

O termo denota a crença de que o Brasil escapou da discriminação racial vista em outros países, como os Estados Unidos. Pesquisadores notam que a maioria dos brasileiros não se veem como racistas, e alegadamente não prejudicam ou promovem pessoas baseadas na raça. Graças a isso, enquanto a mobilidade social dos brasileiros pode ser reduzida por vários fatores, como sexo e classe social, a discriminação racial seria considerada irrelevante. A democracia racial, no entanto, é desmitificada por sociólogos e antropólogos que estudam o preconceito e por vários indicadores sociais e econômicos que revelam desigualdades ligadas à etnia. O preconceito está arraigado na sociedade em larga escala. Portanto, a verdadeira democracia racial é uma meta que ainda está longe de ser atingida e por enquanto é um mito que tenta criar uma imagem positiva da sociedade, que não coincide com os fatos documentados.

Histórico miniatura|Escravo sendo castigado, aquarela de Jean-Baptiste Debret.

Foi uma visão corrente entre as elites brasileiras, desde o final do Segundo Império até o início da República, que o Brasil teria escapado do problema do preconceito racial, a partir da teoria de que no Brasil teria havido uma espécie de escravidão branda e uma harmonia entre senhores e escravos. Também era usual a comparação da situação racial observada nos Estados Unidos da América daquela época com a imagem que se fazia da realidade nacional, concluindo-se que no Brasil os negros tinham um tratamento muito melhor.Silva, Mateus Lôbo de Aquino Moura e. "Casa-grande & senzala e o mito da democracia racial". In: 39º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociai. Caxambu, 26-30/10/2015

Mas isso não era verdade, e diversos autores contestaram essa visão já no século XIX. Pesquisas posteriores reafirmaram a falsidade das ideias da harmonia social e da escravidão branda, mostrando como os negros viviam em habitações rústicas e muitas vezes insalubres, exerciam trabalhos pesados em longas jornadas, recebiam pouca assistência médica e comida de baixa qualidade, e sistematicamente eram abusados física, moral, psíquica e sexualmente. A resistência à dominação frequentemente resultava em repressão brutal com humilhações e castigos físicos severos que muitas vezes levavam à mutilação, deformação, desfiguramento ou morte.Queiroz, Suely Robles Reis de. "Brandura da escravidão brasileira: mito ou realidade". In: Revista de História — USP, 1975, 52 (103)Nogueira, Luiz Fernando Veloso. "Expectativa de vida e mortalidade de escravos: Uma análise da Freguesia do Divino Espírito Santo do Lamim – MG (1859-1888)". In: Revista Histórica, 2011 (51)Amantino, Márcia. "As condições físicas e de saúde dos escravos fugitivos anunciados no Jornal do Commercio (RJ) em 1850". In: História, Ciências, Saúde — Manguinhos, 2007; 14 (4)Boff, Leonardo. "A história foi escrita pela mão branca". Revista do Instituto Humanitas — Unisinos, 16/01/2020 Como assinalou Leonardo Boff, "a história foi escrita pela mão branca". thumb|esquerda|200px|A Redenção de Cam (1895), quadro de Modesto Brocos y Gomes. Avó negra, filha mulata, genro e neto brancos: para o governo da época, a cada geração o brasileiro ficaria mais branco."Livro explica surgimento do Homo brasilis". Ciência Hoje, 15/10/2002

Ao mesmo tempo, desejava-se o branqueamento da população brasileira, sustentado por teorias de eugenia e miscigenação seletiva e implementado por programas estatais de colonização com populações de imigrantes europeus.Seyferth, Giralda. "Colonização, imigração e a questão racial no Brasil". In: 25º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Caxambu, 16-20/10/2001Vainfas, Ronaldo. Dicionário do Brasil Imperial. Objetiva, 2002, p. 152 A teoria do branqueamento foi tida como uma verdade científica e foi muito divulgada até meados do século XX.Ennes, Marcelo Alario. "Imigração e Direitos na Região Noroeste Paulista". In: Estudos de Sociologia — Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, 2008; 12 (1): 58-59 Baseava-se na presunção da superioridade branca, entendendo a miscigenação como uma saída para tornar a população mais clara, por acreditar que o gene da raça branca prevaleceria sobre as demais e que as pessoas em geral procurariam por parceiros mais claros do que elas. Assim afirmava-se que o branqueamento produziria uma população mestiça sadia, capaz de tornar-se sempre mais branca, tanto cultural como fisicamente. Por esse motivo, o ideal da miscigenação era tido como um mecanismo eficaz de absorção do mestiço e eliminação, no longo prazo, dos traços da etnia negra na população. O objetivo desses mecanismos não era nem promover a ascensão social de certa porção de negros e de mulatos, nem estabelecer a igualdade racial, mas, ao contrário, preservar a hegemonia da raça dominante.. Refletindo o ideal citado, João Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional, e único latino-americano a apresentar um relatório no I Congresso Universal de Raças, em Londres, no ano de 1911, chegou a afirmar:

"No Brasil já se viram filhos de mestiços apresentarem, na terceira geração, todos os caracteres físicos da raça branca [...]. Alguns retêm uns poucos traços da sua ascendência negra por influência dos atavismos [...] mas a influência da seleção sexual [...] tende a neutralizar a do atavismo, e remover dos descendentes dos mestiços todos os traços da raça negra [...] Em virtude desse processo de redução étnica, é lógico esperar que no curso de mais um século os mestiços tenham desaparecido do Brasil. Isso coincidirá com a extinção paralela da raça negra em nosso meio".

Explica Martiniano Silva que a miscigenação é um antigo processo de enriquecimento étnico e cultural dos povos, capaz de produzir civilizações, e que ocorre espontaneamente. Afirma que historicamente a miscigenação de raças no Brasil "nunca foi tratada e nunca existiu como um processo livre, espontâneo, e, portanto, natural, de união entre dois povos". Ao contrário, a mulher negra era explorada, desonrada e violentada moral e sexualmente através de uniões forçadas, impostas pelo medo e pela insegurança, produzindo crianças concebidas sem pai legalmente reconhecido, permanecendo no status de escravas, não havendo, assim, nenhum enriquecimento racial e cultural de civilização alguma. Conclui dizendo que é preciso não confundir a descaracterização de um povo pela violência sexual com o mito de uma democracia racial. No entanto, há inúmeros casos de negras casadas com brancos, negras que dormiam com os senhores por sua própria iniciativa, e negras tratadas como princesas por senhores brancos. O que não foi muito comum no período eram homens negros com mulheres brancas.

O mito da democracia racial também recebeu força de narrativas que apontavam a existência de muitos mestiços bem sucedidos, mas ignoravam o fato de que esses casos eram uma pequena minoria e dissimulavam uma realidade de discriminação mesmo entre os mestiços, os quais, em vista da pesada carga de preconceitos de recaía sobre os negros, muitas vezes tentavam ocultar suas origens ou negá-las, como uma estratégia de sobrevivência social. Neste contexto, muitas vezes os mestiços eram mais ou menos aceitos pela sociedade branca identificando-os como "negros de alma branca", o que se encaixava nas ideologias de branqueamento populacional.Bernardino, Joaze. "Ação Afirmativa e a Rediscussão do Mito da Democracia Racial no Brasil". In: Estudos Afro-Asiáticos, 2002; 24 (2)

Contudo, de acordo com o sociólogo Oracy Nogueira, um dos primeiros estudiosos do racismo no Brasil, a presença de mestiços nas classes médias no Brasil é extremamente difundida, contudo a grande maioria dessas pessoas não se percebem, nem são percebidas como mestiças, mas sim como brancas.

À constatação de que mesmo depois da abolição da escravidão em 1888 os negros e pardos continuavam em situação de inferioridade, justificava-se dizendo que, como haviam sido dissolvidos os impedimentos legais para sua ascensão e como no Brasil não havia preconceito, se o sucesso não ocorria era devido à sua própria culpa, reiterando as ideologias racistas que viam o negro como preguiçoso, degradado moralmente, avesso ao trabalho, ignorante, intelectualmente inferior e incapaz de aproveitar as oportunidades que se abriam. Nas palavras de Petrônio Domingues, "segundo essa concepção, o negro passaria a conceber a liberdade como o oposto do trabalho. Liberdade como oposto à responsabilidade. Liberdade como oposto à disciplina. Além disso, o racismo científico referendava a hipótese segundo a qual tais deficiências eram mais de natureza biológica que cultural". Esse discurso cientificista isentava os antigos senhores de escravos e o Estado da responsabilidade pela situação dos negros e ganhou foros de oficialidade, e sua propaganda foi tão eficiente que foi aceito até mesmo por parte da população negra e mestiça.Domingues, Petrônio José. "O mito da democracia racial e a mestiçagem em São Paulo no pós-abolição (1889-1930)". In: Revista Tempos Históricos, 2003-2004; 5-6 miniatura|150px|Gilberto Freyre

Com a obra Casa-Grande & Senzala (1933), do historiador e sociólogo Gilberto Freyre, as teorias da democracia racial e da harmonia social foram sistematizadas e ganharam relevo na reafirmação de uma imagem idílica da realidade brasileira, e embora o autor não negasse a existência de violência e desigualdade, tendia a descrevê-las como circunstanciais e não fundamentais, e dar mais importância à contribuição dos negros e índios para a cultura e à miscigenação em si na formação da população como um processo dinâmico, adaptativo, democratizante e não conflitual que tendia a equilibrar antagonismos.Costa, Valeriano Mendes Ferreira. "Vertentes democráticas em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque". In: Lua Nova: Revista de Cultura e Política, 1992 (26) Segundo Clóvis Moura, Gilberto Freyre caracterizou a escravidão no Brasil como composta de senhores maleáveis e escravos conformados. O mito do "bom senhor" de Freyre seria uma tentativa no sentido de interpretar as contradições do escravismo como episódio sem importância, que não teria o poder de anular a suposta harmonia entre senhores e escravos.Barros, Adelson Florêncio de & Silveira, Regina Célia Pagliuchi da. "O papel da negra escrava e sua representação como objeto sexual no nordeste patriarcal-escravocrata a partir da obra Casa Grande & Senzala". In: Soares, Neiva M. M. & Almeida, Socorro Viana de (orgs.). Percursos semióticos e discursivos em gêneros textuais contemporâneos. Letra Capital, 2020 A obra recebeu consagração instantânea por significativa parte da intelectualidade, mas logo também passou a ser criticada como uma leitura fantasiosa do passado nacional, enquanto parte dos críticos a entendiam como um projeto utópico de uma sociedade profundamente racista.