O acervo da obra musical e pictórica do maestro Cláudio Santoro é patrimônio imaterial tombado pelo governo do Distrito Federal desde 2009. É composto por mais de 400 obras musicais, divididas entre partituras, quadros, correspondências, publicações e prêmios.
Entre as diversas obras de canções eruditas contemporâneas do maestro Cláudio Santoro, constam uma ópera, catorze sinfonias, obras para instrumento solo, para o cinema e composições eletroacústicas.
Contexto
A única ópera A única ópera criada por Santoro, denominada "Alma", composta em 1984, foi inspirada na primeira parte da trilogia "Os Condenados", de Oswald de Andrade, uma estória que se passa em São Paulo na década de 1920 e retrata o dilema da paixão não correspondida que o escritor João do Carmo sentia por Alma, moça de vinte anos que preferiu se relacionar com Mauro, um cafetão que a agredia e a obrigava a se prostituir em cabarés.
Tal ópera contém quatro atos e dura duas horas e trinta minutos, contando com um intervalo de vinte minutos. Essa obra já foi apresentada em duas versões, sendo a primeira em 1998 no segundo Festival Amazonas de Ópera e a segunda em 2019, ano do centenário do maestro, na vigésima segunda edição do mesmo festival.
Sinfonias, quartetos e sonatas Por outro lado, em se tratando de sinfonia, o artista compôs catorze obras. A primeira delas é datada de 1941 e tem característica dodecafônica. As sinfonias posteriores tem aspecto mais simples e lírico, porém não abandonam totalmente o dodecafonismo.
Entretanto, as sinfonias não foram suas primeiras obras, pois o maestro amazonense, natural da capital, Manaus, já havia iniciado suas composições ainda bem jovem, aos dezenove anos de idade, quando incentivado por Nadile de Barros, sua professora no Conservatório de Música do Distrito Federal, compôs um quarteto para cordas, uma sonata para violino e piano e várias peças que, inclusive, foram elogiadas pelo professor e renomado compositor Francisco Braga. ligação=Ficheiro:Manuscrito_da_canção_%22No_Meio_da_Rua%22,_de_Cláudio_Santoro.png|miniaturadaimagem|Manuscrito da canção "No Meio da Rua", de Cláudio Santoro. A "Sonata para Violino e Piano n° 1", de 1940, apresenta uma inclinação espontânea para o uso de séries e também conta com características da técnica dos doze sons, criada pelo compositor e professor alemão naturalizado brasileiro Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005). Um ano depois da primeira sonata, Santoro concluiu a "Sinfonia nº 1", de caráter dodecafônico mais evidente.
Em 1943, iniciou a segunda fase de sua carreira, passando a compor canções mais líricas e programáticas. Buscou a simplicidade, de forma a se comunicar mais facilmente com os ouvintes, mas sem abandonar o dodecafonismo. Nesse contexto, a sinfonia "Impressões de uma Usina de Aço", de 1943, primeiro sucesso de público, descreve o interior de uma siderúrgica, em homenagem ao desenvolvimento dessa atividade no Brasil na época. São ainda dessa fase o "Quarteto nº 1" , também de 1943, que recebeu menção honrosa no concurso da Chamber Music Guild, de Washington, e a "Sinfonia nº 2", do ano de 1945, uma das peças mais importantes do período. Nelas já aparecem os experimentos com timbres e a densidade contrapontística que marcam sua obra orquestral.
A terceira fase da obra do maestro é a fase nacionalista, iniciada pela "Sinfonia n° 3", de 1948. Essa nova etapa aconteceu pelo fato de o dodecafonismo ter sido considerado "burguês e decadente" no Congresso dos Compositores Progressistas, no qual Santoro foi delegado brasileiro. O evento ocorreu em Praga, em 1948, quando ele havia se mudado para a Europa a fim de estudar composição e regência no Conservatório de Paris. Foi uma época de polarização política em decorrência da Guerra Fria, o que fez com que os congressistas se preocupassem até mesmo sobre como a música dividia a elite da classe menos favorecida. Assim, propuseram a utilização de técnicas simples de composição, de modo a aproximar a arte das massas.
O maestro, então, afastou-se um pouco do dodecafonismo e se aproximou do nacionalismo – caminho seguido por outros compositores do Música Viva, como César Guerra-Peixe e Eunice Katunda. Entretanto, suas composições dessa fase, como a "Música para Cordas", de 1946, caracterizada por um "dodecafonismo nacionalista", a "Sonata para Trompete e Orquestra", também de 1946, que contém ritmos brasileiros, e a "Sinfonia nº 3, que marcou definitivamente o início de seu nacionalismo em 1948, não exaltavam o folclore brasileiro, nem os recursos empregados pelos nacionalistas, influenciando-se apenas pela música soviética, com a adoção de soluções próximas às de Prokofiev, mesclando o realismo socialista a colorações brasileiras. Com isso, foi criticado pelo artificialismo de sua brasilidade, pois esta abandonava o folclore e, portanto, parecia falsa. miniaturadaimagem|180x180px|César Guerra Peixe, músico contemporâneo de Cláudio Santoro que também adotou o nacionalismo em suas composições. Ao longo da década de 1960, Santoro iniciou a quarta fase de sua carreira, com o retorno à música de vanguarda sendo marcado pela "Sinfonia nº 8", de 1963. A sinfonia seguinte, a de número 9, foi composta dezenove anos depois da oitava, e era uma homenagem ao compositor alemão Johannes Brahms (1833-1897), com o resumo de todos os estilos do artista, desde o dodecafonismo até as experimentações aleatórias, passando pelo "realismo-socialista-nacionalista".
Músicas eletrônicas associadas à pintura Destacam-se ainda no acervo os elementos de música eletrônica associados à pintura na década de 1960. Estas foram criadas na Alemanha, quando ele participava do programa artista residente em Baden-Baden, pela Casa de Brahms, e em Berlim Ocidental (1965-1967), após ter se desligado do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB) por não concordar com a demissão de professores, praticada pelo governo militar brasileiro. miniaturadaimagem|236x236px|Apreensão de livros e perseguição à professores na Universidade de Brasília (UnB) durante o golpe militar de 1064, razão pela qual Cláudio Santoro decidiu se desligar da fundação. Nesse contexto, idealizou os quadros intitulados "Aleatórios", formados por uma parte auditiva, gravada em fita magnética, e outra visual, com pinturas de sua autoria. Com a aproximação do ouvinte, uma aparelhagem fotoelétrica gerava trinta segundos de música eletroacústica. Dificuldades técnicas, contudo, impediram o prosseguimento desses experimentos.
Santoro passou, então, a empregar recursos da música aleatória e da micropolifonia em suas composições, além de explorar contrastes de densidade e novos timbres, inclusive com o uso de clusters. Com "Mutações", série de peças escritas cada qual para um instrumento solista e dois gravadores, ele trouxe inovação aos estúdios eletrônicos da Europa.
Composições para rádio e cinema Cláudio Santoro começou a compor canções para rádio e cinema em 1949 no Brasil, logo após retornar de seus estudos na Europa. Escreveu músicas para os filmes Agulha no Palheiro, de 1943, do diretor Alex Viany; Chamas no Cafezal, de 1955, do diretor José Carlos Burle; Escadas, de 1947, do diretor Carlos Scliar; A Estrada, de 1955, do diretor Oswaldo Sampaio; Osso, Amor e Papagaio, de 1956, dos diretores Carlos Alberto de Souza Barros e César Memolo; O Saci, de 1952, do diretor Rodolfo Nanni; A Sogra, de 1954, do produtor Mário Civelli; Fatalidade, de 1953, do diretor Jacques Maret; Mulher de Verdade, de 1954, do diretor Alberto Cavalcanti; Volta Redonda, de 1952, de Alberto Cavalcanti; e para os documentários "Cacau" e "Santa Isabel do Ivaí", de 1953, de Ruy Santos.
Obras em ordem cronológica