O Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário, também referido como Coral Nossa Senhora do Rosário, Coral do Rosário ou Orquestra da Matriz, é um conjunto musical sacro brasileiro sediado em Pirenópolis, no estado de Goiás, historicamente vinculado à Banda Phoenix, sendo o mais antigo ainda em atividade no centro-oeste. Reúne cantores e instrumentistas, em grande parte voluntários, e atua em missas, novenas e procissões do calendário religioso da cidade, preservando repertórios litúrgicos tradicionais em latim e arranjos históricos da música sacra local.
Adota-se, neste verbete, fevereiro de 1900 como marco preferencial de fundação do conjunto, por ser a data com que parte da historiografia local identifica a estreia da formação própria do coro e da orquestra, sob a direção de Joaquim Propício de Pina, durante a Festa de Passos, na Igreja Nosso Senhor do Bonfim. Outras fontes patrimoniais e de inventário, entretanto, vinculam sua origem ao mesmo núcleo musical criado em 23 de julho de 1893 juntamente com a Banda Phoenix, razão pela qual ambas as datas aparecem na bibliografia sobre o grupo.
A tradição musical à qual o conjunto se vincula, contudo, é anterior ao século XX. Segundo estudo de Maria Lúcia Mascarenhas Roriz e Pina, em 1757 a Irmandade do Santíssimo Sacramento realizou melhorias no coro da Igreja Matriz do Rosário, o que constitui indício da presença de prática musical litúrgica no templo. A mesma bibliografia registra, já no início do século XIX, a atuação do padre José Joaquim Pereira da Veiga na formação de músicos e de um pequeno conjunto vocal e instrumental em Meia Ponte, atual Pirenópolis.
Considerado sucessor de formações musicais anteriores surgidas na antiga Meia Ponte, o Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário desempenha papel central na preservação da música sacra tradicional de Pirenópolis e integra as ações de salvaguarda da Festa do Divino, registrada pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil em 2010. Documentos do IPHAN destacam a atuação do Coral Nossa Senhora do Rosário e da Banda Phoenix nos rituais religiosos da festa, especialmente nas novenas e missas cantadas em latim, e recomendam a documentação do repertório musical do coral, da Orquestra e da Banda.
O Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário constitui uma entidade sem fins lucrativos e integra iniciativas de preservação do patrimônio cultural local, participando da Comissão de Salvaguarda da Festa do Divino de Pirenópolis e do Conselho Municipal das Cidades (CMC). Essa atuação reforça o compromisso da instituição com a valorização das tradições religiosas, a responsabilidade social e a integração com a comunidade pirenopolina.
Em parceria com a Banda Phoenix, o grupo preserva o repertório guardado no arquivo musical da instituição, descrito na bibliografia especializada como o mais importante arquivo musical de Goiás e, em bases patrimoniais, como o acervo musical mais antigo do estado. Esse conjunto documental reúne partituras oriundas de antigas corporações musicais de Pirenópolis, com obras que vão do século XVIII à atualidade, abrangendo repertórios sacros e profanos, inclusive composições de autores locais.
Durante a pandemia de COVID-19, em 2020 e 2021, o Coro e Orquestra adaptou sua atuação para manter as tradições religiosas locais. As celebrações passaram a ocorrer com coral e orquestra reduzidos, sem público presencial em parte das ocasiões, e com transmissões pelas redes sociais da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, o que permitiu a continuidade das novenas, missas e procissões em formato adaptado, voltando a normalidade em 2022.
A instituição tem como sede o centenário Casarão da Banda Phoenix, no Centro Histórico de Pirenópolis, edifício construído em 1914 pelo intendente José Ribeiro Forzani e posteriormente restaurado pelo poder público municipal. O espaço concentra atividades de ensaio, formação musical e guarda de parte do acervo documental associado à Banda Phoenix e ao Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário.
Histórico Contexto musical em Meia Ponte A ocupação branca na Capitania de Goiás, através da exploração do ouro no século XVIII, trouxe além dos bandeirantes e colonizadores, a tradição musical familiar herdada de geração em geração, proporcionando a produção da música nestes primeiros núcleos de povoamento do estado. Neste período, em todos os agrupamentos surgidos no Brasil colonial, as atividades artísticas e culturais eram realizadas em virtude das manifestações religiosas, através das irmandades, sobretudo a Irmandade do Santíssimo, que desempenharam um papel fundamental tanto no processo de povoamento quanto no de evangelização, fato também observado em Meia Ponte atual Pirenópolis.
Na formação do campo da produção musical de Pirenópolis, tiveram destaque, entre os séculos XVIII e XX, Pe. José Joaquim Pereira da Veiga (1772-1840), José Inácio de Nascimento (1787-1850), Pe. Francisco Inácio da Luz (1821-1879), Pe. Manuel Amâncio da Luz (1878), Comendador Joaquim Alves de Oliveira (1770-1851) mecenas local, Antônio da Costa Nascimento o "Tonico do Padre" (1837-1903), Silvino Odorico de Siqueira (1856-1935), Antônio de Sá, pseudônimo Gaspar Hauser (1879-1905), Joaquim Propício de Pina (1867-1943) e Vasco da Gama de Siqueira (1883-1971).
Quanto ao processo de Ensino Musical neste período, em meados de 1740, entre os primeiros portugueses que chegaram ao Arraial das Minas de Meia Ponte, atual Pirenópolis, estava Custódio Pereira da Veiga, músico que viveu na localidade até 1778, pai do Padre José Joaquim Pereira da Veiga. Ele e o trabalho de outras famílias, como a Rodrigues Nascimento, contribuíram decisivamente com o desenvolvimento da música do lugar, época em que a Irmandade do Santíssimo construiu o coro da Igreja Matriz de Pirenópolis.
Enquanto os coros e orquestras dedicavam-se às celebrações católicas, as bandas de música se popularizavam com a chegada da família imperial no Brasil, quando estas corporações de música dedicavam-se em grande maioria às celebrações para-litúrgicas (externas à igreja) e não litúrgicas. Em Pirenópolis, a figura central do Comendador Joaquim Alves de Oliveira e do Pe. Diogo Antônio Feijó impulsionaram a criação da primeira banda de música, a Militar Banda de Música da Guarda Nacional, em 1830, e que atuou até 1851, além de diversas outras corporações musicais que vieram a existir em Meia Ponte. Grupos musicais como a Banda Euterpe em 1868, através do Pe. Francisco Inácio da Luz e Antônio da Costa Nascimento; a Banda do Pe. Simeão ou Banda da Babilônia, que em 1873 tinha como Regente José Gomes Gerais, sendo seus integrantes empregados, capatazes e mesmo vizinhos de outras fazendas vizinhas; e o surgimento da Banda Phoenix em 23 de julho de 1893, o que possibilitou o Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário em fevereiro de 1900. Todas estas corporações musicais, exceto a Banda Militar, tiveram Coro e Orquestra para as celebrações religiosas.
Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário
Em 1867, nascia Joaquim Propício de Pina, o caçula de oito irmãos, órfão de pai aos 04 anos. Ele foi criado por seus tios Braz de Pina, Theodoro e Theodolino Graciano de Pina, que o levaram para vê-los atuar na segunda orquestra da Matriz de Meia Ponte, prestando serviços da Irmandade do Santíssimo, na época sob a liderança do padre Francisco Inácio da Luz, que era irmão de Antônio da Costa Nascimento o (Tonico do Padre). Neste ambiente musical, Propício de Pina se matriculou como aluno da Banda Euterpe, suportando o gênio forte e a disciplina rígida de seu mestre Tonico do Padre. Estudando clarineta, Propício de destacou como o mais brilhante músico da Euterpe e começou a ministrar aulas particulares aos jovens Olavo Batista, Américo Borges de Carvalho, José Ribeiro Forzani e Olegário Herculano de Aquino, que eram alunos do Colégio Ateneu Meiapontense e desejavam aprimorar suas habilidades musicais. Tais aulas, que começaram em janeiro de 1892, ocorriam sempre à noite, na casa de Antônio Tomás de Aquino Correa.
Com a dissolução da Banda do Padre Simeão em meados de 1880, os entusiastas alunos de Propício, que já eram mais numerosos, adquiriram uma clarineta, um cornetim, um trombone, um bombardino, um oficleide, um bombo e um par de pratos, o que impulsionou as aulas, que passaram de teóricas para práticas. No aniversário de 26 anos de Propício, em 23 de julho de 1893, esses alunos prepararam uma apresentação surpresa, surpreendendo o mestre e dando origem à Banda Phoenix, que renascia das cinzas da antiga Banda da Babilônia. Isso causou grandes ciúmes em Tonico do Padre, que considerou Propício um ingrato. Em 1898, Tonico do Padre foi vítima de um atentado e obrigado a ceder o posto de maestro da Euterpe para Odorico de Siqueira, também Irmão do Santíssimo. Um ano depois, quando Tonico retornou ao cargo de maestro da Euterpe, encontrou Propício já ocupando sua posição como Mestre Capela do Coro da Matriz, o mais alto cargo musical da cidade. Esse título era concedido desde meados do século XVIII ao principal maestro da cidade, encarregado de prestar serviços à Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Embora já idoso, Tonico do Padre ainda mantinha muita influência na Irmandade do Santíssimo Sacramento, tendo ocupado os principais cargos da confraria por anos. Em 1901, ele reassumiu o cargo de Mestre Capela da Matriz, liderando o coro e a orquestra que acompanhavam a Banda Euterpe. Em 1902, diante da nova rivalidade musical, a Irmandade do Santíssimo Sacramento dividiu a música da Semana Santa da seguinte forma: a Banda Euterpe ficou responsável pela quinta e sexta-feira santa, enquanto o sábado e o domingo eram entregues à Banda Phoenix. Com a morte de Tonico em 1903, sua viúva transferiu todo o acervo para o major Silvino Odorico de Siqueira, que assumiu o comando da Banda Euterpe, seu coro e orquestra. Começava assim uma nova fase da batalha musical entre as bandas, coros e orquestras, cada uma representando lados opostos na política partidária e disputando espaço nas festas profanas e religiosas, até a extinção da Banda Euterpe em meados da década de 1930.
Nesse período de disputas entre as duas bandas, com suas respectivas orquestras e coros, a rivalidade aumentava ainda mais quando uma partitura, seja do coro ou da banda, era clandestinamente transferida para a outra corporação, ou quando algum músico participava ora de uma, ora de outra banda. Essas disputas elevaram consideravelmente o nível musical da cidade.
Pós Propício
Com a morte de Joaquim Propício de Pina, em 11 de agosto de 1943, o Coro e Orquestra entrou em nova fase. A sucessão da regência, a reorganização dos ensaios e a definição do espaço físico para a continuidade da tradição passaram a ser questões centrais. Nesse período, Luiz de Aquino Alves e, sobretudo, Sebastião Pompeu de Pina Júnior (Tãozico Pompeu) assumiram papéis decisivos na manutenção do conjunto. Tãozico foi mestre de capela da Igreja Matriz, regente do Coral de Nossa Senhora do Rosário e também maestro da Banda Phoenix, além de compositor e instrumentista destacado.
Em 31 de dezembro de 1944, durante a administração franciscana da paróquia, o Coro e Orquestra sofreu restrições litúrgicas, em contexto de maior controle clerical sobre a música sacra, levando ao afastamento de Luiz de Aquino Alves. A reorganização posterior, entretanto, permitiu que a tradição continuasse viva. Na década de 1950, antigos musicistas foram convencidos a retornar, com redução pontual da formação instrumental e posterior recomposição do grupo. A partir da década de 1960, as mudanças decorrentes do Concílio Vaticano II também afetaram a prática musical religiosa local. Ainda assim, em Pirenópolis, parte expressiva do repertório latino e de tradição oitocentista foi preservada, sobretudo nas grandes festas da cidade.