200px|miniaturadaimagem|Ferdinand de Saussure é considerado o fundador da linguística moderna.
A história da linguística remonta ao desenvolvimento da linguística como ciência da linguagem. Através dos séculos, muitos estudiosos se debruçaram sobre a análise formal, o significado e o uso linguístico em diferentes contextos. Desde a Idade Antiga até a contemporaneidade, diversas teorias surgiram em torno de fenômenos da linguagem.
A linguagem começou a ser estudada sistematicamente pelo gramático indiano Pānini no século VI a.C. Por volta do século IV a.C., alguns estudiosos da China também desenvolveram as próprias tradições gramaticais. Aristóteles lançou as bases da linguística ocidental como parte do estudo da retórica em sua Poética, datada entre 335 a.C. e 323 a.C. As tradições da gramática árabe e hebraica se desenvolveram durante a Idade Média em um contexto religioso, tal como a gramática sânscrita de Pānini.
As abordagens modernas de encarar os fenômenos linguísticos começaram a se desenvolver no século XVIII, quando a disciplina clássica da retórica foi gradualmente removida. Durante o século XIX, o estudo da linguagem passou a ser considerado parte da psicologia e da biologia, visão base para atual corrente anglo-americana. No entanto, essa integração foi questionada no início do século XX com Ferdinand de Saussure, que finalmente estabeleceu a linguística como disciplina autônoma. Segundo a concepção saussuriana, a linguística geral consiste no estudo da linguagem como um sistema semiótico que inclui a análise da fonologia, da morfologia, da sintaxe e da semântica. A abordagem do cientista, por sua vez, pode ser sincrônica ou diacrônica.
Depois de Saussure, muitos outros nomes marcaram o desenvolvimento da linguística, direta ou indiretamente, como Noam Chomsky, Mikhail Bakhtin, Roman Jakobson, Émile Benveniste, Louis Hjelmslev, Leonard Bloomfield, John Langshaw Austin, Algirdas Julien Greimas, Michel Foucault, Antoine Meillet etc. Hoje, a linguística é considerada como um campo de diálogos interdisciplinares produtivos, relacionada a um grande número de abordagens científicas, como é o caso da linguística aplicada, da linguística antropológica, da psicolinguística, da neurolinguística, da linguística computacional, entre outros.
A história da linguística acompanha o desenvolvimento do estudo sistemático da linguagem humana ao longo dos séculos. De um campo voltado para a descrição gramatical e filosófica da linguagem, a linguística se transformou em uma ciência autônoma com métodos e objetivos próprios. Ao longo de sua trajetória, diferentes tradições culturais e escolas teóricas contribuíram para moldar esse campo de conhecimento, com abordagens que vão desde a gramática normativa até teorias cognitivas e computacionais modernas. Halliday, M.A.K.; Webster, Jonathan. On Language and Linguistics. London: Continuum International Publishing Group, 2006.
Linguística na Antiguidade O estudo da linguagem remota à Antiguidade, com registros sistemáticos na India, na Grécia, na China e no mundo árabe.
Babilônia Os primeiros textos linguísticos — registrados com escrita cuneiforme em pequenas tábuas de argila — datam de quase quatro mil anos atrás. Nos primeiros séculos do segundo milênio a.C., no sul da Mesopotâmia, surgiu uma tradição gramatical que durou mais de 2.500 anos. Os textos linguísticos das primeiras partes da tradição eram listas de substantivos em sumério (uma língua isolada, ou seja, uma língua sem parentes genéticos conhecidos). Era a língua dos textos religiosos e jurídicos da época. O sumério estava sendo substituído na linguagem cotidiana por uma língua muito diferente e não relacionada, o acádio; no entanto, permaneceu como uma língua de prestígio e continuou a ser usada em contextos religiosos e jurídicos. Pela necessidade de ensiná-lo como língua estrangeira, informações sobre o sumério foram registradas por escrito por escribas que falavam acádio. Ao longo dos séculos, as listas foram padronizadas e as palavras sumérias receberam traduções em acádio. Por fim, surgiram textos que forneciam equivalentes em acádio não apenas para palavras isoladas, mas para paradigmas inteiros de formas variadas de palavras: um texto, por exemplo, tem 227 formas diferentes do verbo ĝar (“colocar”).
Índia O gramático indiano Pãnini, por volta do século VI a.C., produziu o 'Ástãdhyãyī, uma descrição extremamente precisa da gramática do sânscrito, baseada em regras formais que aproximam de algoritmos. Bod, Rens. A New History of the Humanities: The Search for Principles and Patterns from Antiquity to the Present. Oxford University Press, 2013.
Grécia Na Grécia Antiga, o interesse pela linguagem surgiu no contexto da filosofia. Platão, no diálogo Crátilo, discute a relação entre os nomes e as coisas, introduzindo uma reflexão sobre a arbitrariedade ou naturalidade dos signos linguísticos. Aristóteles desenvolveu uma teoria mais sistemática, tratando a linguagem como representação do pensamento. Em sua obra Da Interpretação (Peri Hermeneias), ele analisa categorias gramaticais como sujeito e predicado, estabelecendo uma base para a lógica e a semântica. Swiggers, Pierre; Wouters, Alfons. Philosophie du langage et linguistique dans lÀntiquité classique. In: Haspelmath, Martin. Language Typology and Language Universals. Vol. 1. De Gruyter, 2001.
Os Estóicos fizeram da linguística uma parte importante de seu sistema sobre o cosmos e o ser humano. Eles tiveram papel fundamental na definição dos termos de signo linguístico que seriam mais tarde adotados por Ferdinand de Saussure, como “significante” e “significado”. Os estóicos estudaram fonética, gramática e etimologia como níveis separados de análise. Em fonética e fonologia, definiram os articuladores. A sílaba tornou-se uma estrutura importante para compreender a organização da fala. Uma das maiores contribuições dos estóicos ao estudo da linguagem foi a definição gradual da terminologia e da teoria que ecoa na linguística moderna.
Os gramáticos alexandrinos também estudaram sons da fala e prosódia; definiram as classes de palavras com noções como “substantivo” e “verbo”. Houve também um debate sobre o papel da analogia na linguagem: os grammatici em Alexandria defendiam que a língua, especialmente a morfologia, baseia-se na analogia ou no paradigma, enquanto os grammatici das escolas da Ásia Menor consideravam que a língua não se baseia em fundamentos analógicos, mas sim em exceções.
Os alexandrinos, como seus predecessores, interessavam-se muito pela métrica e seu papel na poesia. Os “[pé (poesia)|pés]” métricos na língua grega eram baseados na duração necessária para pronunciar cada sílaba, classificadas quanto ao seu peso como “longas” ou “curtas” (também chamadas de “pesadas” e “leves”, respectivamente, para distingui-las das vogais longas e curtas). O pé é frequentemente comparado ao compasso musical, sendo as sílabas longas equivalentes a semibreves e as curtas a mínimas. A unidade básica na prosódia grega e latina é a mora, definida como uma única sílaba curta. Uma sílaba longa equivale a duas moras. Uma sílaba longa contém ou uma vogal longa, ou um ditongo, ou uma vogal curta seguida de duas ou mais consoantes.
Diversas regras de elisão às vezes impedem que uma sílaba gramatical forme uma sílaba plena, e outras regras de alongamento ou encurtamento (como a correpção) podem gerar sílabas longas ou curtas em contextos inesperados. O metro clássico mais importante, definido pelos gramáticos alexandrinos, era o hexâmetro datílico, o metro da poesia homérica. Essa forma utiliza versos de seis pés: os quatro primeiros normalmente são dátilos, mas podem ser espondeus; o quinto é quase sempre um dátilo; e o sexto é um espondeu ou um troqueu. A sílaba inicial de cada pé é chamada de ictus, o “batimento” básico do verso. Geralmente há uma césura após o ictus do terceiro pé.
O texto Tékhnē grammatiké (c. 100 a.C., do grego gramma = “letra”), possivelmente escrito por Dionísio Trácio (170–90 a.C.), é considerado o mais antigo livro de gramática da tradição grega. Ele lista oito classes de palavras e apresenta em linhas gerais a morfologia grega, incluindo as estruturas de casos gramaticais. Destinado ao ensino (assim como a gramática de Pāṇini), também aborda pontuação e alguns aspectos da prosódia. Outras gramáticas, como a de Carísio (principalmente uma compilação de Trácio e de textos perdidos de Remmio Palemão e outros) e a de Diomedes (com foco maior na prosódia), foram populares na Roma como material didático para ensinar grego a falantes nativos de Latim.
Um dos estudiosos mais proeminentes de Alexandria e da Antiguidade foi Apolônio Díscolo. Apolônio escreveu mais de trinta tratados sobre sintaxe, semântica, morfologia, prosódia, ortografia, dialetologia e outros temas. Felizmente, quatro deles se preservaram — temos ainda uma Sintaxe em quatro livros e três monografias curtas sobre pronomes, advérbios e conectivos, respectivamente.
A lexicografia tornou-se um domínio importante de estudo, já que muitos gramáticos compilaram dicionários, tesauros e listas de palavras especiais (léxeis) que eram antigas, dialetais ou específicas (como termos médicos ou botânicos) para aquela época. No início da Idade Média, surgiram mais categorias de dicionários, como o de Suda (considerado o primeiro dicionário enciclopédico), dicionários etimológicos, entre outros.
Nesse período, a língua grega funcionava como uma lingua franca, falada em todo o mundo conhecido (para gregos e romanos) da época. Como resultado, a linguística moderna ainda enfrenta o desafio de superar essa herança. Com os gregos, iniciou-se uma tradição de estudo da linguagem. A terminologia inventada por gramáticos gregos e latinos no mundo antigo e medieval permanece presente no nosso cotidiano — basta pensar em conceitos como palavra, sílaba, verbo, sujeito etc.
China Na tradição chinesa, durante a dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), estudiosos se dedicaram ao estudo dos caracteres e da etimologia, resultando na obra Shuowen Jiezi, escrita por Xu Shen. Esta obra classifica cerca de 9.000 caracteres chineses com base em seus radicais e estrutura gráfica, contribuindo para a compreensão da formação e da evolução da escrita.
Semelhante à tradição indiana, a filologia chinesa (小學; xiǎoxué; “estudos elementares”) surgiu como um auxílio à compreensão dos clássicos chineses por volta do século III a.C., durante a dinastia Han Ocidental. A filologia passou a ser dividida em três ramos: exegese (訓詁; xùngǔ), gramática (文字; wénzì) e fonologia (音韻; yīnyùn). O campo atingiu seu apogeu no século XVII, durante a dinastia Qing. O Erya (por volta do século III a.C.), comparável ao Nighantu indiano, é considerado a primeira obra linguística da China. O Shuowen Jiezi (por volta de 100 d.C.), o primeiro dicionário chinês, classifica os caracteres chineses por radicais, uma prática que seria seguida pela maioria dos lexicógrafos subsequentes. Outras duas obras pioneiras produzidas durante a dinastia Han são o Fangyan, a primeira obra chinesa sobre dialetos, e o Shiming, dedicado à etimologia.
Tal como na Grécia antiga, os primeiros pensadores chineses, como Confúcio (551 – 479 a.C.), preocupavam-se com a relação entre os nomes e a realidade. Os mohistas posteriores, grupo conhecido como Escola dos Nomes, consideravam que um nome (名; míng) pode se referir a três tipos de realidade (實; shí): universais (cavalo), individuais (João) e irrestritos (coisa). Eles adotam uma posição realista sobre a conexão entre nome e realidade – os universais surgem porque “o próprio mundo fixa os padrões de semelhança e diferença pelos quais as coisas devem ser divididas em tipos”. A tradição filosófica apresenta um enigma bem conhecido, “um cavalo branco não é um cavalo”, de Gongsun Longzi (século IV a.C.), que se assemelha aos dos sofistas; Gongsun questiona se, em afirmações copulativas (X é Y), X e Y são idênticos ou se X é uma subclasse de Y.