miniaturadaimagem|"A Extração da Pedra da Loucura", de Hieronymus Bosch. Arte feita entre 1488 e 1516
Desde que a psiquiatria existiu, ela foi objeto de controvérsia. Tratamentos psiquiátricos, algumas vezes, são vistos em última análise como mais prejudiciais do que úteis para os pacientes. A psiquiatria atual baseada em evidências científicas é legitimada e considerada em seu objetivo uma prática médica benigna, mas às vezes é vista por alguns como um instrumento coercitivo de opressão. Ela já foi criticada, dentre outros motivos, como envolvendo uma relação de poder desigual entre médico e paciente; que o processo diagnóstico seria subjetivo, deixando espaço demasiado para opiniões e interpretações; e que sua prática estaria sujeita a abusos através de alienação social, medicalização e medicamentalização excessiva.
A história da psiquiatria envolve o que alguns consideram ser tratamentos perigosos. Terapia eletroconvulsiva é um deles, que foi amplamente usado entre as décadas de 1930 e 1960 de forma agressiva, e é ainda utilizada hoje, porém com maior segurança, menos intensidade e visando a nenhum dano (primum non nocere). O procedimento de cirurgia cerebral para fins psiquiátricos é outra prática que acabou sendo vista como muito invasiva e brutal, mas atualmente há critérios bioéticos e protocolos rígidos para a garantia de segurança em psicocirurgia. O uso prolongado de medicações psiquiátricas modernas também já foi criticado, tanto em relação a prescrições nocivas quanto a interesses farmacêuticos de mercado.
Já no século XVIII, autoridades médicas na Europa consideravam os doentes mentais como lunáticos, de forma que para alguns considerados incuráveis o único "tratamento" consistia de isolamento da sociedade; houve relatos de métodos agressivos, incluindo castigos físicos. Exemplos notórios ocorreram na Inglaterra, com o hospício Bedlam, em que internados eram submetidos a restrição de dieta, banhos frios, purgantes, além de exposições como zoológico humano; e as chamadas "madhouses", locais particulares convertidos em manicômios rentáveis em meio a demanda, servindo àqueles de condição financeira abastada como asilos de refúgio, enquanto os mais pobres chegavam a ser encarcerados em celas insalubres e sofriam maus tratos - já na época foram levantadas denúncias quanto a esse tipo de confinamento, e apenas com o Lunacy Act de 1845 foram lá consideradas as pessoas doentes como necessitando de tratamento.Unsworth, Clive. (inverno de 1993). "Law and Lunacy in Psychiatry's 'Golden Age'", Oxford Journal of Legal Studies. Vol. 13, No. 4., pp. 482. Novas propostas iluministas para uma psiquiatria moderna surgiram no início do século XIX, o que foi marcante no hospital Bicêtre em Paris, com Jean-Baptiste Pussin, Marguerite Jubline e Philippe Pinel, que libertaram cativos de correntes e consideraram os doentes mentais como indivíduos necessitando de condições sociais humanas e afeto (tratamento moral), prática que se difundiu na fundação de novos hospitais e levou a uma das primeiras reformas psiquiátricas institucionais, dentre pioneiros em outros países. Críticas à especialidade, como a antipsiquiatria, e buscas de humanização do tratamento levaram a reformas, como o movimento antimanicomial no Brasil, por exemplo, destacando-se, dentre os pioneiros, a atuação de Nise da Silveira.
Contexto
Frequentemente, as instituições têm muito poder e as preocupações dos pacientes ou de seus parentes são ignoradas Enfermeiros psiquiátricos impõem decisões, relutam em compartilhar informações e sentem que sabem melhor. Apenas uma minoria da equipe envolve os pacientes na tomada de decisões. A capacitação do cliente pode melhorar o desequilíbrio de poder. Pacientes psiquiatricamente doentes correm o risco de abuso e discriminação no sistema de saúde mental e também no setor de cuidados primários. São necessários estudos para determinar se o desequilíbrio de poder leva ao abuso. Algum grau de desequilíbrio de poder parece inevitável, uma vez que alguns pacientes não têm capacidade de tomada de decisão, mas mesmo assim os pacientes se beneficiam de serem imputados dentro de seus limites. Equipes multidisciplinares beneficiam os pacientes na medida em que profissionais com uma variedade de especialidades diferentes estão cuidando deles. Também há um problema porque os pacientes que reclamam da maneira como são tratados enfrentam um grupo, e não um indivíduo que se opõe a eles. Desde 1960, houve muitos desafios ao próprio conceito de doença mental. Thomas Szasz é um controverso expoente da antipsiquiatria que escreveu O Mito da Doença Mental (1960), que dizia que as doenças mentais não são reais no sentido de que os cânceres são reais, e que não seriam objetivamente diagnosticáveis e detectáveis em exames. Sociólogos como Erving Goffman e Thomas Scheff disseram que a doença mental era apenas outro exemplo de como a sociedade rotula e controla os não-conformistas; psicólogos comportamentais desafiaram a confiança fundamental da psiquiatria em fenômenos inobserváveis; e ativistas dos direitos gays criticaram a listagem da Associação Americana de Psiquiatria da homossexualidade como um transtorno mental. Um estudo amplamente divulgado pelo Experimento de Rosenhan na Science foi visto como um ataque à eficácia do diagnóstico psiquiátrico: Reimpresso pela Academy for the Study of the Psychoanalytic Arts.Eles sugeriram que os conceitos centrais da psiquiatria são mitos, que a relação da psiquiatria com a ciência médica tinha apenas conexões históricas, que a psiquiatria era mais apropriadamente caracterizada como um vasto sistema de gestão social coercitiva e que seus métodos de prática paradigmática (a cura pela fala e o confinamento psiquiátrico) eram ineficazes ou piores.
Medicalização
Por muitos anos, alguns psiquiatras (como David Rosenhan, Peter Breggin, Paula Caplan, Thomas Szasz) e críticos externos (como Stuart A. Kirk) têm "acusado a psiquiatria de se envolver na medicalização sistemática da normalidade". Mais recentemente, essas preocupações vieram de pessoas de dentro que trabalharam e promoveram a APA (por exemplo, Robert Spitzer, Allen Frances).
Medicalização é o processo pelo qual as condições e problemas humanos passam a ser definidos e tratados como condições médicas e, portanto, tornam-se objeto de estudo médico, diagnóstico, ou tratamento. A medicalização pode ser motivada por novas evidências ou hipóteses sobre as condições; mudando atitudes sociais ou considerações econômicas; ou pelo desenvolvimento de novos medicamentos ou terapias. O conceito de medicalização foi criado por sociólogos para explicar como o conhecimento médico é aplicado a comportamentos que não são evidentemente médicos ou biológicos. O termo medicalização entrou na literatura da sociologia nos anos 1970 nas obras de Irving Zola, Peter Conrad e Thomas Szasz, entre outros. Esses sociólogos viam a medicalização como uma forma de controle social em que a autoridade médica se expandia para os domínios da existência cotidiana e rejeitavam a medicalização em nome da libertação. Essa crítica foi incorporada em trabalhos como "A descoberta da hipercinesia: notas sobre a medicalização do desvio" de Conrad, publicado em 1973 (hipercinesia foi o termo então usado para descrever o que poderíamos agora chamar de TDAH). Esses sociólogos não acreditavam que a medicalização fosse um fenômeno novo, argumentando que as autoridades médicas sempre se preocuparam com o comportamento social e tradicionalmente funcionaram como agentes de controle social (Foucault, 1965; Szasz, 1970; Rosen). No entanto, esses autores entendiam que a tecnologia cada vez mais sofisticada ampliava o alcance potencial da medicalização como forma de controle social, especialmente em termos de "psicotecnologia" (Chorover, 1973). No livro de 1975 Limits to medicine: Medical nemesis (1975), Ivan Illich apresentou um dos primeiros usos do termo "medicalização". Illich, um filósofo, argumentou que a profissão médica prejudica as pessoas por meio da iatrogenia, um processo no qual as doenças e os problemas sociais aumentam devido à intervenção médica.
Alguns argumentam que, na prática, o processo de medicalização tende a despojar os sujeitos de seu contexto social, de modo que eles passam a ser entendidos em termos da ideologia biomédica prevalecente, resultando em um desprezo por causas sociais abrangentes, como distribuição desigual de poder e recursos. Marxistas como Vicente Navarro (1980) ligaram a medicalização a uma sociedade capitalista opressora. Eles argumentaram que a medicina disfarçava as causas subjacentes das doenças, como desigualdade social e pobreza, e em vez disso apresentava a saúde como uma questão individual. Outros examinaram o poder e o prestígio da profissão médica, incluindo o uso de terminologia para mistificar e de regras profissionais para excluir ou subordinar terceiros. Uma série de publicações da Mens Sana Monographs enfocou a medicina como uma empresa capitalista corporativa.Ajai R Singh, Shakuntala A Singh, 2005, "Medicine as a corporate enterprise, patient welfare centered profession, or patient welfare centered professional enterprise?" Mens Sana Monographs, 3(2), p19-51Ajai R Singh, Shakuntala A Singh, 2005, "The connection between academia and industry", Mens Sana Monographs, 3(1), p5-35Ajai R Singh, Shakuntala A Singh, 2005, "Public welfare agenda or corporate research agenda?", Mens Sana Monographs, 3(1), p41-80.
Órfãos Duplessis
Entre 1945 e 1960, o governo federal canadense pagava US$1,25 centavos por dia por órfão para orfanatos, enquanto hospitais psiquiátricos recebiam US$2,75 por dia, por paciente. Supostamente, mais de 5000 crianças órfãs foram falsamente certificadas como doentes mentais, de modo que o governo da província de Quebec pôde lucrar por falso diagnóstico.""Duplessis Orphans", The Canadian Encyclopedia, January 14, 2015". Arquivado do original em 9 de maio de 2019.
Abuso político
Psiquiatras estiveram envolvidos em abuso dos direitos humanos em estados em todo o mundo quando as definições de doença mental foram expandidas para incluir desobediência política. Hoje em dia, em muitos países, os presos políticos às vezes são confinados e abusados em instituições mentais. O confinamento psiquiátrico de pessoas sãs é uma forma particularmente perniciosa de repressão.
A psiquiatria possui uma capacidade interna de abuso maior do que em outras áreas da medicina. O diagnóstico de doença mental permite que o estado mantenha as pessoas contra sua vontade e insista na terapia em seu interesse e nos interesses mais amplos da sociedade. Além disso, receber um diagnóstico psiquiátrico pode ser considerado opressivo. Em um estado monolítico, a psiquiatria pode ser usada para contornar os procedimentos legais padrão para estabelecer culpa ou inocência e permitir o encarceramento político sem o ódio comum vinculado a tais julgamentos políticos. A utilização de hospitais em vez de prisões impede as vítimas de receberem assistência jurídica perante os tribunais, torna possível o encarceramento por tempo indeterminado, desacredita os indivíduos e suas ideias. Dessa forma, sempre que julgamentos abertos são indesejáveis, eles são evitados.