Neorruralismo, ou Novos Rurais, é o movimento de pessoas que decidiram deixar as cidades e passar a viver nas áreas rurais, em um sentido contrário ao êxodo rural.

O neorruralismo surgiu durante a década de 1960 na França para designar, naquela época, o movimento de pessoas que abandonaram suas profissões e vida na cidade para morarem no meio rural, praticando a agricultura e criação de animais, sob a forma tradicional da agricultura familiar daquele país. Hoje esse conceito mudou, ficando um pouco mais amplo como veremos a seguir.

É marcante, na história moderna e contemporânea, desde a primeira revolução industrial, a intensificação do êxodo rural promovida pela demanda de mão de obra nas cidades e pela tecnificação da produção nas áreas agrícolas (agravado no ocidente pela concentração das terras em propriedades privadas), liberando mais pessoas do trabalho braçal rural em direção aos meios urbanos de produção.

Isso também foi bem observado por Milton Santos: "As cidades puderam formar-se graças a um determinado avanço das técnicas de produção agrícola, o qual propiciou a formação de um excedente de produtos alimentares. Com a existência desse excedente, algumas pessoas puderam dedicar-se a outras atividades, sendo a cidade, predominantemente, lugar de atividades não agrícolas".

Já no sentido contrário, as pessoas, ao se mudarem da cidade para o campo, trazem consigo um conjunto de valores, além de uma série de perspectivas de melhores condições e qualidade de vida para suas famílias. Desta forma, criam-se novas ruralidades que referem-se aos espaços habitados por comunidades humanas, com seus valores, histórias e pertencimento. Portanto, na medida em que os novos rurais se instalam no espaço, criam novas ruralidades, ao modificarem não só a sua própria vida, mas a dinâmica do viver local, da comunidade onde se inserem.

Milton Santos cita que “o campo brasileiro moderno repele os pobres”; condição que se acentuou desde então. Enquanto isso, a cidade também fomenta condições que conduzem algumas pessoas a condições críticas. Ao perceberem essa exploração e desigualdade urbana, buscam no retorno ao rural uma melhora na qualidade de vida.

Essa desigualdade é evidenciada no Censo Agropecuário do Brasil de 2017, quando apresenta que aproximadamente 1% dos imóveis agrícolas do Brasil somam 47,6% de todas as áreas agrícolas do país, enquanto os 50% menores estabelecimentos somados ocupam apenas 2,3% do território agrícola.

Santos ainda complexifica a questão, ao afirmar que não se trata mais da divisão distinta entre “regiões rurais” e “cidades”, pois hoje existem grandes “áreas agrícolas contendo cidades adaptadas às suas demandas e, […] áreas rurais”, nas cidades, “adaptadas a demandas urbanas”, sendo estas preferencialmente localizadas nas regiões metropolitanas, que vêm se urbanizando cada vez mais nas últimas décadas.

Ou seja, em busca de uma melhor qualidade de vida no campo, as pessoas não necessariamente precisariam se afastar por completo das facilidades oferecidas pelas cidades. Novos rurais portanto podem se encontrar nas mais diversas situações, mais ou menos rurais, com maior ou menor influência urbana. Santos ainda confirma que essa tendência de aproximação do agrícola com os limites urbanos “ganhará corpo e vai generalizar-se nos próximos decênios ”. Como o conceito de "agrícola" envolve o sentido produtivo mais que o conceito de "rural", podemos perceber uma outra tendência distinta, mais rural, que é confirmada por De Matheus E Silva ao propor uma “contracultura espacial” por pessoas que vão no sentido contrário do movimento predominante, buscando o rural e se tornando novos camponeses, inclusive algumas delas através da permacultura.

O “movimento de migração do espaço urbano-rural ” tem também um histórico recente, “sendo apontado o seu início no ano de 1968 ”. Embora tenha durado apenas até meados da década de 1970 na Europa do Norte e Ocidental, foi particularmente importante na França, em áreas envelhecidas e despovoadas transformando-se os novos residentes em “importantes agentes de desenvolvimento local, devido ao seu capital cultural e experiência ”.

O que Giuliani explica: "[…] na prática, o neorruralismo expressa a ideia de que uma série de valores típicos do velho mundo rural, e que se pensava estarem em vias de extinção, passam por um certo revigoramento e começam a ganhar para si a adesão de pessoas da cidade. A volta às relações diretas com a natureza, a ciclos produtivos e tempo de trabalho mais longos e menos rígidos, ao ar puro e à tranquilidade, assim como o desejo de relações sociais mais profundas e, sobretudo, da autodeterminação, são as dimensões que atraem pessoas da cidade ao campo; assim como outrora as luzes da cidade atraíram a população do campo ".

Estes valores parece que voltaram a tomar um novo vigor no Brasil durante a recente pandemia de Covid-19 (causada pelo “novo Coronavírus”, SARS-CoV-2) quando as limitações desse sistema urbano ficaram mais evidentes às pessoas, por alguns motivos, como estarem submetidas ao isolamento social imposto às cidades, à dificuldade de acesso a alguns recursos, também associada a uma grande estiagem atípica que durou praticamente um semestre inteiro em grande parte do Brasil. Tais limitações, segundo Leal (2014), sobre outros contextos, podem levar a um povoamento neorrural, que “é o termo escolhido para designar a expressão territorial deste movimento social de retorno ao campo, que é hoje um objeto de estudo estimulante para a geografia e para o planejamento, […] devido ao seu impacto no território” (LEAL, 2014, p.15).

Já o termo “neorrural” ou "novo rural", como um termo que é novo para os brasileiros, embora relativamente bem difundido na Europa, traz também outras possibilidades de interpretação.

Para Maria Roca (2011, p.7), neorrurais:"[…] são os indivíduos provenientes de meio urbano que, motivados por razões socioeconômicas, culturais e/ou ambientais, mudaram pela primeira vez ou regressaram ao meio rural, sendo que residem e/ou exercem atividades agrícolas ou não agrícolas no campo ".Também é visto como:"[…] uma nova classe de pessoas que, tendo nascido na cidade, optam por viver no campo, aproveitando o melhor de ambos os mundos. Estas pessoas procuram, nas zonas com menor concentração populacional o contacto mais próximo com a natureza, uma maior qualidade de vida" (AZEVEDO, 2010, p.82).E outros conceitos como:

“pessoas de diferentes idades e perfis que decidem retornar, ou simplesmente se mudar pela primeira vez para áreas ruraisASSEMBLÉE PARLEMENTAIRE. Documents. Strasbourg: Council of Europe, 2007.” (ASSEMBLÉE PARLEMENTAIRE, 2007, p.135); “Urbanos instalados no campo ” (UE – Observatório Europeu Leader apud PINTO, 2015 p.7); “Indivíduos que viviam nas cidades e passam a buscar o campo como espaço de residência, em função, sobretudo, da tranquilidade e da proximidade com a ‘natureza’CANDIOTTO, Luciano Zanetti Pessôa; CORRÊA, Walquíria Kruger. Ruralidades, Urbanidades e a Tecnicização do Rural no contexto do debate Cidade-Campo. Campo-território: revista de geografia agrária, v. 3, n. 5, p. 214–242, 7 fev. 2008. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/campoterritorio/article/view/11839>. Acesso em: 2 dez. 2018.” (CANDIOTTO; CORRÊA, 2008, p.240);

E ainda"O que faz reviver os valores próprios do mundo rural, transformando-os em força crítica das formas em que a sociedade inteira se desenvolve, é uma livre escolha bem precisa e particular. Isto é, quando as pessoas decidem não mais morar na cidade e não mais trabalhar em profissões urbanas, resolvendo se mudar para o campo e trabalhar na agricultura ou na criação de animais " (GIULIANI, 1990, p.1).Também conceitos divergentes ou distintos, como de que:

“os ‘neorrurais’ não vivem, geralmente, no campo, têm uma cultura pró-campo, são amigos do campo mesmo vivendo na cidade grande” (COVAS, 2009, p.7); “proprietários de segundas residências ou residência habitual no espaço rural ” (ROCA, 2011, p.6). “não gosto do rótulo ‘neorrurais’, eu gosto de falar os ‘novos rurais’, porque eu acho que vocês estão construindo outros rurais, de mais esperança, de mais solidariedade, de mais realidade, de mais ecologia” (GUZZATTI apud NEPerma UFSC, 2020, tempo 1:28:26)1.

Adotaremos aqui, em suma, o conceito de Venturi (2020) que: "novos rurais são pessoas que viveram parte da vida nas cidades e decidiram voltar ou migrar para a vida em áreas rurais, levando consigo seus conhecimentos e valores trazidos dos lugares de onde viveram ".

Neorruralismo no Brasil

Na atualidade, o Brasil possui cerca de 84% de população urbana (IBGE, 2010), mesmo contando com cerca de 60% dos municípios sendo rurais, graças a um histórico de investimento quase exclusivo no crescimento urbano e industrial, em especial nas décadas de 1960 e 70, e falta de foco governamental na qualidade de vida no meio rural, marcado pela ausência de serviços básicos como saúde e segurança. Além disso, criaram-se políticas de incentivo à concentração de terras, expulsando cada vez mais pessoas do campo, muitas vezes por milícias armadas, contratadas por latifundiáriosBORGES, André; NOSSA, Leonêncio. Terra Bruta: pistolagem, devastação e morte no coração do Brasil. O Estadão. Reportagem especial. 10 de julho de 2016. Disponível em: <https://infograficos.estadao.com.br/politica/terra-bruta/>. Acesso em: 14 jun. 2019..

Por outro lado, sabe-se que (embora sob uma perspectiva ainda utópica) o Brasil possui imensa extensão territorial e condições climáticas favoráveis a uma distribuição de boa parte desta população, hoje urbana, para as áreas rurais, com condições de sustentação adequadas à qualidade de vida almejada e ainda contribuindo para a produção de alimentos e a conservação ambiental, bastando ter vontade, apoio e condições políticas para isso.

Bernard Kayser citado por Santos (1993, p.121) diria que estamos presenciando um êxodo urbano. Mas não seria o caso visto que na realidade seria um fenômeno em que as cidades grandes não diminuem, mas crescem cada vez mais lentamente enquanto as cidades ditas médias crescem mais rapidamente que aquelas e que as pequenas. Cidades pequenas, que de “cidade”, urbanisticamente muitas vezes têm pouco e são ainda quase totalmente rurais, ou mais rurais que os dados oficiais apregoam. Este fenômeno de crescimento das pequenas e médias cidades foi acentuado com os programas de descentralização do governo federal que levaram, por exemplo, universidades públicas e outros órgãos para essas cidades intermediárias entre 2003 e 2011.

Em países onde esse fluxo é mais comum, como França e Portugal, há dados das ocorrências e movimentações da cidade para o campo, dados estes que não são aprofundados e diferenciados no Brasil, como também ocorre em relação aos estudos sobre o movimento contrário. No caso da França, até mesmo novas organizações foram criadas com a missão de motivar novos moradores para as áreas rurais onde está acontecendo um grande envelhecimento da população original, valorizando estes espaços anteriormente negligenciados. Como bem coloca Giuliani:

É esta, talvez, a dimensão mais evidente e a racionalização primeira do neorruralismo: valorizar o espaço cotidiano; tornando-o suportável, desejável, consumível. De fato, essa é a primeira justificativa oferecida pelos “novos rurais”, tanto franceses como brasileiros, à sua decisão de mudar para o campo. Todos eles, ao tecer elogios incondicionais às qualidades da vida agreste, definem como degradadas e degradantes as condições de vida nas cidades.