A Capela de Nossa Senhora do Monte, ou Ermida da Senhora do Monte ou de São Gens, é um monumento religioso situado na Graça, na freguesia de São Vicente, em Lisboa. Erguida no topo da colina outrora chamada Monte de São Gens, a estrutura actual data de 1796, com traço do arquitecto Honorato José Teixeira, combinando elementos arquitectónicos barrocos e neoclássicos. Substituiu o primitivo templo erguido em 1147, logo após a Reconquista de Lisboa, arrasado pelo terramoto de 1755. Historicamente associada aos frades Agostinhos e ao martírio de São Gens de Lisboa, a capela conserva no seu interior a célebre cadeira de pedra do santo, objecto de antiga devoção popular ligada à protecção das mulheres grávidas. O adro do templo integra o Miradouro da Senhora do Monte, uma das mais emblemáticas plataformas panorâmicas sobre a Baixa pombalina, o Castelo de São Jorge e o rio Tejo.LEANDRO, Sandra. «Ermida da Senhora do Monte ou de São Gens». In: ALMEIDA, Álvaro Duarte de; BELO, Duarte (org.). Portugal Património: Guia-Inventário. Volume VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008. p. 240-242.

História

Origens A fundação do templo remonta aos primórdios da ocupação romana na Península Ibérica, estando intimamente ligada ao Monte de São Gens, zona setentrional outrora conhecida por Almocovar e por Fornos de Tijolo. A tradição oral postula que neste local pregava São Gens, tido popularmente como o primeiro bispo de Lisboa, martirizado no ano de 284 e que alguns teóricos identificam como discípulo do apóstolo São Tiago. No sopé desta elevação repousava uma cadeira de pedra sob um alpendre, considerada a cátedra do prelado e alvo de imensa devoção popular por parte de grávidas, incluindo rainhas portuguesas (como D. Maria Ana de Áustria, cônjuge de D. João V), que nela se sentavam pedindo um bom parto. Quando D. Afonso Henriques tomou Lisboa aos mouros em 1147, chegaram quatro eremitas da Ordem de Santo Agostinho integrados na frota militar estrangeira. A população local doou-lhes o terreno sagrado e, em 1148, estes religiosos ergueram a sua primeira moradia com uma pequena capela adjacente dedicada a Nossa Senhora. No interior deste eremitério primitivo guardaram a referida cadeira, diversas relíquias oferecidas pelos crentes e um obelisco que assinalava a conquista da cidade. miniaturadaimagem|340x340px|A ermida ergue-se no topo da Colina de São Vicente

O novo eremitério No início do século XIII, o acréscimo de clérigos tornou as instalações exíguas e pouco salubres para a comunidade. D. Susana, uma nobre proprietária dos terrenos cimeiros, planeava edificar um santuário a Nossa Senhora da Visitação, mas mudou de ideias e doou as terras aos agostinianos no ano de 1243. Com os contributos locais, os monges construíram a sua segunda casa monástica no topo do monte, transferindo a cadeira milagrosa, as imagens de culto e o obelisco comemorativo. O fervor à Virgem sobrepôs-se gradualmente ao culto do mártir, fazendo com que o povo baptizasse a estrutura como Senhora do Monte. D. Susana entretanto mandou escavar uma cisterna a expensas próprias para colmatar a falta de água no local. É de mencionar que em tempos esteve junto ao templo uma pirâmide com a inscrição "ULISIPPONE HIC, AUGUSTINENSIUM PRIMA SEDES, A. B. anno 1148".

Contudo, a rudeza dos ventos forçou uma nova transladação monástica entre os anos de 1271 e 1291, fixando-se a congregação num reduto próximo chamado Almofala, onde despontaria o futuro Convento da Graça. As oficinas e celas inferiores mantiveram-se unicamente para os frades mais idosos devido à proximidade das linhas de água e humidade da zona.

A Confraria de São Gens Com a partida da comunidade principal, a cadeira foi deslocada para o alpendre exterior e a manutenção do templo transitou para a alçada da Confraria de São Gens, uma organização cujos registos documentais recuam até 1271. Segundo a Chronica dos Agostinhos, do Frei António da Purificação, o declínio do espaço motivou os frades a requerer a sua devolução ao bispo D. João Martins de Soalhães, que em 1306 dissolveu a confraria e entregou a gestão a um capelão residente. A situação assim perdurou até ao terramoto de 1755, que arrasou completamente a ermida e matou um religioso, cujo corpo foi mais tarde resgatado dos escombros ainda numa postura de prece, conta-se. A imagem de Nossa Senhora foi recuperada sem estragos de maior e depositada numa estrutura provisória de madeira construída pelo capelão sobrevivente.

A reedificação do imóvel foi confiada ao arquitecto Honorato José Cordeiro, resultando numa traça muito descaracterizada e de profunda simplicidade arquitectónica. Os trabalhos, que permitiram alargar a zona do eremitério, criar um pequeno jardim e recolocar a cadeira no interior sob o coro alto, terminaram em 1757 segundo as inscrições epigráficas, embora outras fontes apontem o fim das obras para 1796. Estas remodelações extinguiram a antiga tradição da Festa da Visitação, na qual os devotos davam nove voltas em redor da igreja rezando em memória dos nove meses de gestação de Maria. Posteriormente, a 30 de Setembro de 1796, o Papa Pio VI emitiu um breve que concedeu indulgências perpétuas aos fiéis que visitassem a capela.

No ano de 1815, os administradores agostinianos embelezaram o largo fronteiro com a plantação de diversas árvores, incluindo lodãos, ailantos, ulmos e amoreiras da China: isto foi assinalado por uma lápide gravada numa esquina exterior da igreja: "PATRIAE AVIBUS ET URBI, HOC NEMBUS IN AMOREN DELECTATIONE AUGUSTINIENSI PLANTARUNT ANNO M.DCCC.XV".

A vasta maioria destas espécies manteve-se frondosa até ser dizimada pelo violento ciclone de 1941, sobrevivendo apenas uma árvore e restando hoje somente a palavra "PATRIAE" legível na pedra. Até à década de 1830, o calendário litúrgico marcava-se por grandes festividades em honra de São Gens e Nossa Senhora, celebrações que incluíam três dias contínuos de feira.

A ermida após o liberalismo Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o Estado expropriou as parcelas, vendendo a ermida e a cerca agrícola a Clemente José Monteiro, um lojista de ferragens que manteve as obrigações de culto. Após a sua morte em 1848 ou 1849, os habitantes reagruparam os antigos Escravos de São Gens e de Nossa Senhora do Monte, possuindo a irmandade um livro de registos iniciado em 1791. A viúva do comerciante, Henriqueta de Mendonça, voltou a casar com Manuel Salustiano Damasceno Monteiro, que fundou uma nova irmandade em 1857. Neste mesmo período, as mortíferas febres que atacaram a capital de 1856 a 1858 motivaram uma romaria ao Monte de Caparica, resultando na introdução de uma imagem de Nossa Senhora da Graça no templo.

Ainda no século XIX, a capela albergou o Senhor dos Passos da Penha entre 1857 e 1865, imagem posteriormente levada para São Domingos e rendida pelo Senhor Jesus da Enfermaria, antes de se efectuarem novos restauros em 1866. O herdeiro, o pintor Higino de Mendonça, decidiu depois separar a vertente religiosa dos lotes agrícolas, abatendo o arvoredo da quinta para construir um palacete pessoal e lotear o restante terreno, dando início à urbanização moderna do bairro.

Contemporaneidade No dealbar do novo século, a ermida conheceu remodelações in 1902 e transitou para a posse da Coroa, adoptando o epíteto de Real Ermida de Nossa Senhora e São Gens. O interesse estatal culminou na sua classificação como a 28 de Dezembro de 1933, pelo Decreto 23 421, estatuto complementado a 6 de Janeiro de 1960 pelo estabelecimento de uma Zona Especial de Protecção.

Desde 1947, sucederam-se constantes intervenções levadas a cabo pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, começando por reparações ligeiras nos rebocos e na cobertura, passando ao arranjo das paredes exteriores em 1949. O ano de 1954 foi pautado pela reconstrução global dos anexos, limpeza dos tectos, substituição da instalação eléctrica e pintura de caixilharias. Seguiram-se arranjos estruturais na sacristia e numa porta lateral em 1955.

Actualmente, o culto regular da ermida encontra-se confiado aos monges beneditinos associados à Igreja da Graça, enquanto a histórica calçada adjacente sofreu remodelações que desvirtuaram o seu carácter original.

Descrição

Exterior A ermida exibe uma arquitectura religiosa de tipologia setecentista, de traça do arquitecto Honorato José Correia de Macedo e Sá. A planimetria do templo é longitudinal e escalonada, definindo-se pela justaposição de dois rectângulos correspondentes à nave única e à capela-mor. A frontaria é precedida por uma galilé de configuração quadrangular, cuja cobertura de três águas assenta sobre nove pilares de calcário erguidos a partir de um murete. Dois destes suportes encontram-se directamente adossados à fachada principal, a qual ostenta um portal rematado superiormente por um óculo. No flanco Norte do edifício ergue-se a torre sineira, completando a volumetria exterior da estrutura. O adro da ermida integra um miradouro arborizado que oferece uma perspectiva desafogada sobre o Castelo de São Jorge e a Baixa, espaço este que sofreu duas remodelações durante o século XX e permanece um local de encontro muito frequentado. No mesmo largo, encontra-se instalado um oratório envidraçado que alberga uma imagem do Sagrado Coração de Maria, um elemento acrescido que diverge da traça original do conjunto monumental.

Interior O interior do templo caracteriza-se pela sua tipologia barroca de nave única, dispondo de dois altares laterais. Tanto a nave como a capela-mor encontram-se cobertas por abobadilhas de arco segmentado, as quais ostentam uma ornamentação baseada em pintura monocroma. Esta mesma tipologia de decoração pictural prolonga-se pelas paredes laterais da capela-mor e pelos tímpanos do arco triunfal. O espaço da capela-mor distingue-se ainda pela aplicação de um silhar de azulejos de estilo rocaille, cuja composição figurativa retrata diversos episódios alusivos à vida da Virgem Maria. O altar-mor é dominado por um retábulo de talha dourada de estilo joanino, uma peça anterior ao sismo de 1755, que acolhe a venerada imagem de Nossa Senhora do Monte, escultura doada no ano de 1858 por um grupo de devotos lisboetas.

Do espólio da igreja, destaca-se a célebre cadeira de São Gens. Este assento, originalmente talhado na rocha e posteriormente revestido a mármore, mantém a tradição secular de atrair mulheres grávidas que ali procuram a bênção para um bom parto. Um relato inscrito nas Memórias Paroquiais de 10 de Abril de 1758, assinado pelo pároco dos Anjos, António Carlos de Oliveira, atesta a antiguidade desta devoção popular à cadeira e às imagens sagradas, numa época em que a ermida era administrada pelo Convento da Graça. Do lado do Evangelho encontra-se permanentemente exposto um antigo crucifixo esculpido em marfim de manufactura indo-portuguesa. O acervo pictórico inclui três tábuas renascentistas atribuídas a uma oficina lisboeta associada aos mestres de Ferreirim, ilustrando a Anunciação, a Natividade e a Circuncisão, presumindo-se que estas pinturas integrassem o retábulo da ermida primitiva.

Outro elemento de extrema relevância é o presépio monumental do século XVIII, de Joaquim Machado de Castro. Esta complexa composição figurativa foi alvo de remodelações no ano de 1757 e enriquecida no século XIX com a adição de novas figuras de barro, nomeadamente um grupo de vendedoras da cidade. Actualmente, a obra encontra-se exposta de forma permanente à vista dos visitantes. A salvaguarda de todo este património arquitectónico e móvel foi oficialmente documentada a 11 de Agosto de 1999, data em que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais elaborou a Carta de Risco do imóvel, servindo também para avaliar os estragos estruturais provocados pelo sismo de 1969.

Ver também Miradouro da Senhora do Monte

Nossa Senhora Monte Categoria:Graça (Lisboa)