Manuel Carvalheiro (Lisboa, 30 de dezembro 1950 - Lisboa, 21 de abril 2019) foi um cineasta, documentarista, argumentista, produtor cinematográfico independente, ensaísta, cronista e crítico de cinema português. Foi o primeiro teórico de cinema português.

Primeiros anos Manuel Duarte Ferreira Dias Carvalheiro nasceu em Lisboa, filho de Manuel Teixeira Dias Carvalheiro, militante do sector intelectual do Partido Comunista Português, licenciado em Económicas e Financeiras pelo ISCEF, e de Maria de Lourdes da Silva Ferreira, médica especialista em Pediatria pela FMUL e em Medicina Tropical pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical, ambos naturais da Figueira da Foz (freguesia de S. Julião).

O avô paterno, Manuel Duarte Carvalheiro, republicano, proprietário da Livraria Moderna, na Figueira da Foz, e opositor ao Estado Novo, foi preso pela PVDE em 1937. A par da sua atividade comercial, incluindo a editorial, a livraria foi um polo de resistência antifascista e importante local de reunião de militantes comunistas, recebendo e distribuindo publicações proíbidas durante a Ditadura, como o Avante!. Sob a gestão de uma tia paterna, Maria Celinda Dias Carvalheiro, a livraria organizou a Comissão de Socorro aos Presos Políticos que conferiu apoio logístico às famílias da região centro, para além de funcionar como centro de receção de correspondência e elo de ligação entre a clandestinidade e o exterior.

A outra tia paterna, Maria Regina Dias Carvalheiro e o marido, Albano Rodrigues da Cunha, ambos militantes comunistas e advogados, desenvolveram uma atividade jurídica de resistência antifascista em Coimbra e na Figueira da Foz. O tio foi preso várias vezes entre 1947 e 1966, passando da Delegação de Coimbra para a prisão do Aljube e Caxias e para o Forte de Peniche, onde permaneceu de 16 de julho de 1952 a 10 de março de 1954, acusado de “atividades contra a segurança do Estado e de pertencer a uma organização comunista em Coimbra denominada Sector Intelectual”. Foi inicialmente defendido pelo advogado Nuno Rodrigues dos Santos, no mesmo processo que Francisco Antunes de Brito Amaral, David dos Santos Carvalho, Fernando Correia Pinto Loureiro, Mário Armando Braga Temudo, António Gil Júdice, Manuel Dinis Jacinto e Arquimedes da Silva Santos e, posteriormente, pelo advogado Luiz Francisco Rebello. A tia, uma das referências do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, presa pela PIDE de 1962 a 1963, integrou o mesmo processo de Ivone Teles, Madalena Coelho Marques de Almeida e Eva Amado e foi companheira de cela de Julieta Gandra, Aida Paula e Maria Alda Nogueira, na Prisão de Caxias.

Os pais conheceram-se, ainda adolescentes, na Figueira da Foz, aproximando-se inicialmente em torno da apreciação mútua da literatura e da música clássica. Com efeito, se o pai era filho de um livreiro, a mãe tinha tido aulas de canto gregoriano e concluído o curso de Piano do Conservatório Nacional. Prosseguiram os estudos universitários em Coimbra, mas combinaram transferir as respetivas matrículas para a Universidade de Lisboa, mais próxima dos movimentos oposicionistas e contestatários. O pai tornou-se amigo de Bento de Jesus Caraça, de quem tinha sido aluno no ISCEF, e em cuja casa confraternizou com intelectuais e militantes antifascistas, entre os quais José Dias Coelho e António Dias Lourenço.

A 1 de janeiro de 1949, casaram em Lisboa por solicitação do PCP que os incumbiu da gestão de uma casa clandestina cujo arrendamento passou a subsidiar, depois de ter assumido as despesas da lua de mel no emblemático Hotel Palácio do Estoril, conhecido centro de espionagem durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo passava por alojar secretamente com o casal um membro do Comité Central do PCP mergulhado na clandestinidade, permitindo-lhe continuar a desenvolver a publicação comunista pela qual era responsável. A coordenação da sua impressão nas tipografias clandestinas estava a cargo de outro membro do Comité Central do PCP, António Dias Lourenço. Antes e depois da prisão de Álvaro Cunhal, ocorrida em março de 1949, a referida casa clandestina foi um dos principais locais de reunião dos membros do Comité Central do PCP.

A pedido de José Dias Coelho e na sequência de uma série de prisões políticas de dirigentes comunistas, a familia mudou-se para Angola, com a missão de dar apoio aos movimentos independentistas.

Inicialmente instalados em Silva Porto, acabaram por radicar-se em Luanda onde a mãe iniciou uma destacada atividade profissional, sendo a única especialista formada em Pediatria de Angola colonial. Enquanto Delegada de Saúde Pública no Dispensário de Luanda, coordenou a campanha de vacinação contra a poliomielite. Diretora do Serviço de Puericultura do Hospital Maria Pia, foi médica pediatra da Maternidade Indígena, bem como da função pública, da elite colonial e dos filhos de Agostinho Neto. Foi uma acérrima defensora da pediatria social, distinguida com cinco bolsas de estudo pela OMS.

O pai foi professor de matemática e diretor da Escola Industrial e Comercial de Luanda, e co-fundador do Cine-clube de Luanda, cinema ao ar livre. Antifascista e pacifista, defensor do nacionalismo angolano, foi vogal da Sociedade Cultural de Angola (SCA), entidade defensora de expressões artísticas angolanas avant la lettre que atribuiu, em 1961, um prémio literário a Luuanda, de Luandino Vieira, cujos escritos guardou em casa e de que foi co-editor.

A par de uma atividade cultural pública, a SCA desenvolveu um movimento político clandestino defensor de ideais independentistas na génese do MPLA, ditando a perseguição e prisão política de vários dos seus membros, entre os quais Julieta Gandra, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade, Luandino Vieira, Manuel Alfredo Tito de Morais e Alfredo Bobela da Motta. O pai chegou a ser vigiado pelo sub-diretor da PIDE para Angola e Moçambique, Aníbal de São José Lopes, com quem se tinha cruzado no ISCEF quando eram estudantes em Lisboa.

A SCA acabaria extinta, em 1965, pelo Governador-Geral de Angola Silvino Silvério Marques. Quando Luandino Vieira saiu da prisão, os pais de Manuel Carvalheiro acolheram-no na vivenda em que residiam e de que eram proprietários, na Maianga, em Luanda, assegurando todas as despesas e proporcionando-lhe efetivamente um lar para viver com a mulher e o filho.

Assim, Manuel Carvalheiro cresceu com consciência política e cultural, num ambiente com mais liberdade que na metrópole. Recebeu a sua primeira máquina fotográfica aos oito anos, durante uma viagem com o pai ao Congo Belga e ao Congo Francês. Incentivado pelo pai, tirou fotografias aéreas e da travessia de barco pelo rio Congo, no que foi o despertar de uma paixão duradoura pela fotografia. Posteriormente e sem o seu conhecimento, o pai enviou os negativos pelo correio a um contacto do PCP.

Adolescente, passou um ano letivo na Figueira da Foz, tornando-se próximo do seu outro tio paterno, Manuel Leitão Fernandes, fotógrafo amador, cinéfilo e, mais tarde, um dos fundadores do Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz. A poucos meses de completar 17 anos, realizou com os pais uma viagem pelas principais capitais europeias e assistiu ao Festival de Veneza de 1967.

Carreira Aos dezanove anos, iniciou-se como crítico de cinema no Círculo Universitário de Cinema de Luanda e no jornal O Comércio, de Luanda. Horrorizado com a Guerra Colonial Portuguesa e a frequentar o segundo ano do curso de engenharia química, na Universidade de Luanda, parte para o exílio, estudar cinema no Laboratoire Audio-visuel da Escola Prática de Altos Estudos, em Paris, no rescaldo de Maio de 1968. Forma-se com o documentarista Jean Rouch, pioneiro do cinéma vérité (cinema direto). A nível político, manifesta o seu apoio à Primavera de Praga e, posteriormente, o seu repúdio pela invasão da Checoslováquia.

Aos vinte e dois anos, nomeado encarregado de curso na Universidade Sorbonne Nouvelle, deu o Seminário de Semiologia do Cinema. Residiu na Maison de l'Italie, na Cité Internationale Universitaire de Paris e fundou o Cine-clube Bento Caraça, na Maison du Portugal. A partir de 1972, participou como correspondente de cinema nos festivais internacionais de Cannes, Veneza, Berlim, Grenoble e Karlovy Vary. No Festival de Cannes, conheceu António da Cunha Telles, António de Macedo, António-Pedro Vasconcelos, a atriz Maria Cabral, entre outros cineastas e artistas do Novo Cinema.

Manuel Carvalheiro e Glauber Rocha conheceram-se em 1972, no Festival de Berlim, surgindo, entre eles, uma amizade que duraria até à morte do realizador brasileiro. Glauber Rocha assumiu o papel de mentor de Manuel Carvalheiro e trabalharam juntos em França, Portugal e Alemanha. Com a notícia do 25 de abril de 1974, Manuel Carvalheiro viajou de carro para Lisboa, onde chegou passados quatro dias, no dia 29 do mesmo mês. Acolheu Rocha e a namorada deste, Juliet Berto, na sua casa da rua dos Lusíadas, em Lisboa, e participou no histórico desfile do 1º de maio, imortalizado no filme coletivo As Armas e o Povo. Trabalharam, ainda, no filme inacabado sobre a revolução portuguesa, Lisboa Livre, rodado nos dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. A 27 de novembro de 1974, casou-se com Ondina Silva em Lisboa. Dois anos mais tarde nasceu, em Paris, a filha única de ambos.

Aos vinte e seis anos, sob a orientação do teórico de cinema Christian Metz, defendeu a tese "Reflexões sobre a Teoria Eisensteiniana no Cinema" na École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS). Nesse mesmo ano letivo, é contratado pelo Consulado Português em Paris para dar aulas de Português aos filhos dos emigrantes residentes em Champigny-sur-Marne, um conhecido bairro de lata dos arredores de Paris. Em 1979, foi um dos subscritores do Manifesto dos Novíssimos Cineastas, na 8.ª edição do Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz.

Em 1981, Manuel Carvalheiro realizou Abecedário (ABC) em Paris, verdadeiro testamento cultural e única entrevista do género a Glauber Rocha. Mais tarde, ajudou o mentor e amigo a instalar-se em Sintra com a família e colaborou no seu último argumento, Império de Napoleão, que não chegou a ser filmado por morte do realizador brasileiro. No ano seguinte, Manuel Carvalheiro representou Portugal com a sua curta-metragem Abecedário (ABC), oficialmente selecionada pela organização do Festival Internacional de Cinema de Huelva e distinguida no Festival international du jeune cinéma de Hyères com o Prémio da CICAE, Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio.

Manuel Carvalheiro teve uma colaboração profícua com o diretor de fotografia Manuel Costa e Silva e, em 1982, representou Portugal com a curta-metragem Amores de Salazar, oficialmente selecionada pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Em 1985, sob a direção de Christian Metz, doutorou-se com Mention Très Bien pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) com a tese O Cinema intelectual: Mutações na teoria Eisensteiniana, na génese do seu livro de 1989, As Mutações do Cinema no Tempo do Vídeo.

Manuel Carvalheiro foi membro da Associação Portuguesa de Escritores e o primeiro teórico de cinema português. Ensaísta, cronista e crítico de cinema, colaborou nos Cahiers du Cinéma, na revista cinematográfica Positif (revue) e em várias publicações portuguesas, entre as quais Seara Nova, Jornal de Letras, Diário de Notícias, Público, A Capital, Diário de Lisboa, Diário Popular, O Primeiro de Janeiro, O Século, República (jornal) e a revista Vértice.