Xaruque Mirza (; ) ou simplesmente Xaruque (; Samarcanda, — Rei, ) foi o governante do Império Timúrida entre e . Sucedeu ao seu pai, Tamerlão (Timur), que fundou o império em 1370, mas governou apenas a parte oriental dos territórios conquistados pelo pai. O império durante o seu reinado era composto pela maior parte da Pérsia e da Transoxiana, pois os territórios a ocidente foram perdidos pouco depois da morte de Tamerlão. Apesar disso, o Império Timúrida manteve-se coeso durante a maior parte do seu reinado e foi uma das potências dominantes da Ásia.

Durante o seu reinado, o seu império controlou as principais rotas comerciais entre a Ásia e a Europa, incluindo a famosa Rota da Seda, e devido a isso tornou-se imensa rico. A capital do império, que o seu pai tinha colocado em Samarcanda (atualmente no Usbequistão), foi mudada para Herate (atualmente no Afeganistão). Herate tornou-se o centro político do Império Timúrida e a residência dos principais sucessores de Xaruque, mas ambas as cidades beneficiaram da prosperidade e privilégios da corte.

Xaruque foi um grande patrocinador das artes e ciências, que floresceram sob o seu governo. Passou o seu reinado empenhado na estabilidade das suas terras e na manutenção de relações políticas e económicas com os reinos vizinhos. No entender dos historiadores e , «ao contrário do seu pai, Xaruque governou o Império Timúrida não como um senhor da guerra turco-mongol, mas como um sultão muçulmano. Nas crónicas dinásticas ele é exaltado como um homem de grande piedade, diplomacia e modéstia — um modelo de governante muçulmano que reparou muitos dos danos físicos e psicológicos causados pelo seu pai.».

Primeiros anos Xaruque nasceu em 20 de agosto de 1377 e foi o mais novo dos quatro filhos de Tamerlão. O significado literal do seu nome em é "rosto dum rei", que é o mesmo termo persa para o movimento de xadrez "roque". Segundo o cronista seu contemporâneo , Tamerlão, que era um jogador de xadrez talentoso, estava a jogar xadrez quando recebeu a notícia do nascimento de Xaruque e por isso escolheu o nome do movimento de xadrez para o recém-nascido.

Algumas fontes sugerem que a mãe era a imperatriz Sarai Mulque Canum (ou Sarai Maleque Catum, mais conhecida como Bibi Canum, Bibi-Canim, Bibi Hanim, etc.), uma princesa Chagatai e principal consorte de Tamerlão. Bibi Canum tinha sido capturada por Tamerlão no harém de Amir Huceine Qara'unas vários anos antes do nascimento de Xaruque.No entanto, o historiador dos séculos XV e XVI afirmou que a mãe de Xaruque era uma concubina tajique caraquitai chamada Tagai Tarcã Aga, baseando-se em registos genealógicos escritos durante o reinado de Xaruque. Independentemente de quem foi realmente a sua mãe, o príncipe foi criado pessoalmente por Bibi Canum, juntamente com o neto de Tamerlão , filho de .

Reinado de Tamerlão Aparentemente Tamerlão nunca teve relações particularmente próximas com Xaruque, apesar de não haver qualquer registo de que o pai alguma vez tivesse mostrado desagrado com o filho ou algo que ele tivesse feito. Em 1397 Xaruque foi nomeado governador de Grande Coração pelo pai, com capital do vice-reinado em Herate. Apesar de ser uma região importante, o cargo também tinha sido atribuído a Mirã Xá, o irmão de Xaruque, quando aquele tinha treze anos de idade. Xaruque nunca foi promovido além desta posição durante a vida de Tamerlão. Além disso, durante a campanha de Tamerlão na China, os filhos mais novos de Xaruque ocuparam um lugar de muito maior destaque do que ele próprio.

Não há informações nas fontes históricas que permitam compreender a relação de Tamerlão e Xaruque, mas há algumas evidências que sugerem que a ascendência de Xaruque tenha originado algum desfavorecimento por parte do pai, por ser filho duma concubina e não duma esposa. Também há historiadores que sugerem que Tamerlão estava convencido que Xaruque não tinha as qualidades pessoais necessárias para reinar; o príncipe ganhou reputação de ser excessivamente modesto piedoso. O seu fervor religioso islâmico e consequente rejeição das leis de que sempre foram fortemente reverenciadas por Tamerlão também podem ter resultado no distanciamento entre pai e filho.

Juntamente com a maior parte da família real, Xaruque acompanhou o pai na sua campanha a ocidente contra o Império Otomano, que culminou na Batalha de Ancara em 1402. Nesta batalha, Xaruque comandou a ala esquerda do exército timúrida, Mirã Xá a ala direita e Tamerlão o centro. A vanguarda foi encabeçada por dois dos sobrinhos de Xaruque. A batalha resultou na vitória dos timúridas e na captura do sultão otomano , que morreria no cativeiro em Samarcanda em 1403.

Guerra de sucessão Tamerlão morreu em 1405, quando comandava o seu exército em direção a leste, numa campanha contra a Dinastia Mingue. Diz-se que no seu leito de morte disse que não tinha outro desejo que não fosse ver Xaruque Mirza outra vez e lamentou o facto de não tempo para o fazer.

Tamerlão não deixou qualquer herdeiro nomeado, pelo que surgiu uma disputa pela sucessão entre os seus filhos e netos. autoproclamou-se imperador em Tasquente pouco depois da morte do avô e apoderou-se do tesouro imperial e da capital Samarcanda. Xaruque saiu de Herate à frente do seu exército em direção ao rio Oxo (Amu Dária), mas não empreendeu qualquer ofensiva contra o sobrinho nessa altura. Isso deveu-se provavelmente ao facto de Mirã Xá, o pai de Calil, constituir uma séria ameaça, pois juntamente com o seu outro filho Abu Becre, tinha saído do Azerbaijão Com um exército para apoiar Calil. Porém, ambos foram forçados a retirar para se juntarem a Calil, devido a uma invasão dos jalaíridas na sua retaguarda e outra da Confederação do Cordeiro Negro (Qara Qoyunlu), que aproveitaram a morte do velho imperador para conquistarem territórios. Mirã Xá morreu em combate em 1408 quando tentava repelir os invasores, o mesmo acontecendo com Abu Becre no ano seguinte.

Nos anos que se seguiram à morte de Tamerlão, Xaruque e Calil Sultan tiveram várias conversações improdutivas e vários confrontos militares, dos quais frequentemente Calil saiu vitorioso. Durante esse tempo, surgiram outros pretendentes ao trono, entre eles , um neto materno de Tamerlão que depois apoiou Calil Sultão, para em seguida o trair, reafirmando a sua pretensão ao trono. Sultão Huceine foi derrotado pelo seu antigo aliado e fugiu para junto de Xaruque, que o mandou executar, o seu corpo foi despedaçado e as suas partes expostas nos bazares de Herate. Outros dois netos de Tamerlão, (filho de ) e Pir Maomé ibne Jaanguir, os quais foram derrotados por Xaruque e Calil, respetivamente, tendo sido ambos poupados pelos vencedores. Pir Maomé acabaria assassinado pelo seus nobres em 1407. Iscandar foi executado em 1415 na sequência duma rebelião falhada.

Só em 1409 é que o curso da guerra começou a virar-se a favor de Xaruque. Nessa altura, Calil Sultão começou a perder o apoio entre os emires em Samarcanda e a sua esposa Shadi Mulk tinha ganhado grande autoridade na corte e sob a sua influência várias pessoas de estratos sociais inferiores obtiveram posições elevadas, preterindo nobres do tempo de Tamerlão. Além disso, várias viúvas e concubinas de Tamerlão casaram, algumas à força, com homens de origem humilde.

A seguir a uma carestia, que aumentou ainda mais o descontentamento entre a população, Calil Sultão foi preso pelo poderoso emir Cudaidade Huceine, líder da tribo dos e antigo tutor do príncipe. Huceine levou Calil para Fergana e proclamou-o governante em Andijã. Com Samarcanda abandonada pelos apoiantes de Calil, a cidade foi tomada sem resistência por Xaruque. Quando mais tarde este capturou Xadi Mulque, Calil Sultão viu-se forçado ir ter com o tio a Samarcanda e submeter-se a ele. O príncipe teve a sua esposa de volta e foi nomeado governador de Rei, mas morreu em 1411; Xadi Mulque suicidou-se pouco depois.

Após a morte de Calil Sultão, Sultão Huceine e Pir Maomé, Xaruque deixou de ter rivais timúridas para contestar a ocupação do trono e começou finalmente o seu reinado como sucessor do seu pai. No entanto, em vez de governar a partir de Samarcanda, como o pai, Xaruque estabeleceu a capital em Herate, que tinha sido a capital do seu vice-reinado. O governo de Samarcanda e de toda a Transoxiana foi entregue ao filho mais velho de Xaruque, Ulugue Begue.

Campanhas militares Guerra com a Confederação do Cordeiro Negro O novo imperador começou o seu reinado lançando expedições contra regiões que tinham começado abandonar o império durante a guerra de sucessão. Fars, que era governada pelo seu sobrinho , foi tomada em 1414. Dois anos mais tarde, Quermã, que tinha sido governada como um reino independente por Sultan Uwais Barlas desde 1408, também foi subjugada. O território sob o domínio de Xaruque continuou a expandir-se e consolidar-se nos anos seguintes, quer pela subjugação voluntária de governantes menores quer através de alianças. Em 1420, a parte oriental do império de Tamerlão, bem como o centro e o sul da Pérsia estavam sob o controlo de Xaruque.

Porém, não obstante esses êxitos, a parte ocidental do império, nomeadamente o Azerbaijão e a Mesopotâmia, permaneciam fora do seu controlo. Essas regiões eram dominadas por (Qara Yusuf), líder da confederação turcomana do Cordeiro Negro, que anos antes tinha derrotado e matado , irmão de Xaruque. Com a conquista de cidades importantes, como Bagdade, Gasvim e Diarbaquir, os Qara Qoyunlu tornaram-se vizinhos perigosos para os timúridas. Esta ameaça foi uma das que permaneceu sem solução durante décadas. Xaruque fez muitas tentativas para pacificar a sua fronteira ocidental, mas tantos os meios político-diplomáticos como os militares (foram empreendidas três campanhas contra o Azerbaijão) falharam.

Cara Iúçufe morreu em novembro de 1420 durante a primeira campanha, que terminou com a conquista timúrida do Azerbaijão e da Arménia. Contudo, menos dum ano depois, Xaruque enfrentou uma rebelião dos filhos do líder turcomano morto. Um deles, , continuou as tentativas de retomar a autoridade da confederação turcomana na região, obrigando a que fosse organizada outra campanha em 1429. Esta resultou numa vitória de Xaruque e na colocação no governo da confederação dum governante fantoche, controlado pelos timúridas. Porém, Cara Iscander reconquistou a cidade de Tabriz dois anos mais tarde e mandou executar Abu Said.

Esse evento levou à realização duma terceira e última campanha em 1934, durante a qual Cara Iscander foi novamente forçado a retirar. Depois foi assassinado pelo seu filho Cubade na fortaleza de Alinja. Apesar desta campanha não ter resolvido definitivamente o conflito com os turcomanos do Cordeiro Negro, possibilitou estabilidade na região até ao fim do reinado de Xaruque, com a colocação à frente da confederação turcomana do menos belicoso Jeã Xá.

Conflito com os hurufistas e purgas anti-intelectuais Os hurufistas eram uma seita sufista cuja doutrina era baseada no misticismo das letras. No final do , a seita foi acusada de heresia pelos académicos islâmicos tradicionalistas e em resultado disso em 1394 o fundador do movimento, (Nāimī), foi preso e executado por ordem de Tamerlão pelo seu filho . A morte do seu líder levou a que os seguidores de Astarabadi passassem a odiar os timúridas.

Quando saía duma mesquita em 1426, Xaruque foi vítima duma tentativa de assassinato. O atacante, Amade Lur, um luro hurufista, aproximou-se do imperador com pretexto de lhe apresentar uma petição e apunhalou-o no estômago. Porém, o golpe não foi fatal e Lur foi rapidamente morto por um servo de Xaruque. Este recuperou passados uns dias e foi aberta uma investigação, que descobriu as ligações de Lur aos hurufistas e à família de Astarabadi.