Definição Em humanos, a personalidade é definida como a forma individual de cada pessoa em lidar com o ambiente, relacionada às emoções, ao comportamento, forma de pensar e experiências de vida. Para os animais, os pesquisadores procuram traços apresentados por eles que podem ser classificados de maneira semelhante com os traços observados em humanos, observando principalmente sua maneira de agir, já que animais não se comunicam por meio de palavras faladas ou escritas.
Outros termos com conceitos semelhantes à personalidade são usadas em trabalhos científicos, como temperamento e síndrome comportamentalhttps://www2.psych.ubc.ca/~schaller/528Readings/Gosling2008.pdf Personality in Non-human Animals- Gosling, Samuel D. 2008.
O que determina a personalidade Há indícios de que ao menos alguns traços da personalidade sejam determinados geneticamente e herdáveis,mas também é influenciado pelo ambiente que crescem, desde filhotes até a fase adulta. Por exemplo, o modo como são criados, o ambiente em que vivem e o grupo social do qual fazem parte.
Histórico Um dos primeiros marcos importantes para o estudo da personalidade em animais foi a pesquisa de Pavlov, na qual ele identificou quatro tipos de personalidade baseados em diferenças do sistema nervoso dos animais. Durante o século XX, as pesquisas sobre personalidade animal ficaram mais escassas, porém, recentemente, o interesse de pesquisadores pelo tema tem aumentado em diversas áreas. Consequentemente, número de artigos publicados também vêm aumentando, contribuindo para tal área.
Em um artigo de 2003, Gosling estabeleceu critérios para se analisar a existência de traços de personalidade em animais: “(a) avaliações por observadores independentes devem concordar uns com os outros; (b) essas avaliações devem prever comportamentos e resultados do mundo real; (c) avaliações do observador devem ser mostradas para refletir os atributos genuínos dos indivíduos avaliados, não apenas as teorias implícitas dos observadores sobre como os traços de personalidade co-variam. Porém, antes da definição desses critérios, alguns estudos já demonstravam estabilidade temporal em traços comportamentais, podendo indicar a existência de personalidade em animais: artigos como por exemplo, Capitanio (1999) e Stevenson-Hinde et al (1980).
Codificações de comportamento eram antigamente muito usadas para classificar e analisar o comportamento animal, mas estudos mais recentes demonstraram que classificar as características (“rating”) seria um modo mais eficaz de classificação, pois detectam consistências no comportamento dos animais.
Com o tempo, mais estudos foram feitos com relação às personalidades em diferentes espécies, não apenas em animais domésticos e primatas, mas também em diversos tipos de mamíferos e até mesmo polvos. Assim, alguns pesquisadores também se interessaram em comparar características entre as diferentes espécies, não apenas entre indivíduos da mesma espécie, e identificaram que alguns traços de personalidade apareciam mais entre as espécies, e outros simplesmente eram menos comuns de serem presentes entre os diferentes animais.
A importância do estudo de personalidades também vem à tona quando Mehta & Gosling evidenciam e classificam os benefícios dessa área. Entre eles, a possibilidade de se controlar melhor o ambiente experimental de estudo, dificilmente feito em humanos; é possível realizar procedimentos mais invasivos; animais também podem ser observados por períodos de tempo mais longos, pois não haveria invasão de privacidade, direito básico de todo ser humano; acelerada longevidade animal, pois eles possuem gerações mais curtas, num geral.
Considerando-se a evolução dos estudos, métodos e análises feitas até os dias atuais, pode-se citar alguns métodos para classificar ou identificar a personalidade nas diferentes espécies animais.
Métodos para classificar/identificar a personalidade Em animais, definir, identificar e caracterizar a personalidade é diferente do que se faz em humanos. Em humanos, muitas vezes, os testes podem ser feitos a partir de questionários, enquanto em animais, os testes são feitos a partir da análise de comportamentos. Para isso, os pesquisadores colocam os animais em uma série de situações diferentes e observam suas reações à situação.
Alguns testes que podem ser feitos são:
Teste de novo objeto: coloca-se um objeto com o qual os animais nunca tiveram contato em um lugar ao qual os animais tenham acesso. A partir disso, as reações do animal podem ser observadas, por exemplo, os animais podem interagir mais com o objeto, ou podem evitá-lo. Com isso, as reações podem ser usadas na classificação da personalidade do animal, se são mais medrosos, ou tímidos ou são mais curiosos ou ousados. Teste de campo aberto: o animal é deixado sozinho em um ambiente desconhecido por um tempo curto. Observa-se se o animal apresentou mais comportamentos de medo ou agitação ou se apresentou comportamentos de calma e explorou o local. Paradigma residente-intruso: o residente é o animal que se está estudando, no local onde esse animal vive, é colocado outro animal da mesma espécie, mas que o residente não conheça. A reação do residente é então observado, por exemplo se agride o outro animal ou se apenas tenta reconhecê-lo. Isso pode ser informativo sobre a tendência à agressividade, que pode estar ou não relacionada à defesa de território. Teste de distância de fuga: uma pessoa, geralmente não conhecida pelo animal, aproxima-se dele. Assim, é possível observar o quanto o animal permite que a pessoa se aproxime antes de reagir e qual reação o animal apresente, por exemplo, se ele se aproxima ou se esquiva ou se tenta atacar. Essas reações podem ajudar a classificar o animal como dócil, amedrontado ou agressivo. Os animais também podem ser colocados em ambientes com comida, abrigo, brinquedos e outros indivíduos, assim, é possível analisar mais reações a mais de um tipo de situação. Esses animais são monitorados por longos períodos de tempo, observa-se quais comportamentos exibem, com relação aos objetos, ao espaço e aos outros indivíduos. Esse tipo de teste pode fornecer uma quantidade grande de informações comportamentais, que podem ser classificadashttp://amigosdoweizmann.org.br/stage/a-personalidade-dos-animais/ A personalidade dos animais.
Vários traços de personalidade já foram identificados em diferentes espécies e alguns traços foram identificados em mais espécies que outros. Alguns dos traços encontrados de forma mais generalizada foram extroversão, amabilidade e neuroticismo.
Os traços de personalidade podem ser organizados com base no modelo humano Five Factor Model, ou Big FiveRelações hierárquicas entre os traços amplos do Big Five- Gomes, Cristiano Mauro Assis e Golino, Hudson Fernandes 2012 https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-79722012000300004&script=sci_arttext, neuroticismo, afabilidade, extroversão, conscienciosidade e abertura para experiência, adicionando os traços de dominância e atividadePersonality Dimensions in Nonhuman Animals: A Cross-Species Review- Gosling, Samuel D. e John, Oliver P. 1999 - https://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1111/1467-8721.00017. A partir da identificação dos traços, eles podem ser aplicados em algoritmos e, assim, usados para classificar cada personalidade única, em uma escala, assim como se faz para humanos. +Traços de personalidade:Five Factor ModelExemplos de facetas/traços (animais)Neuroticismoestabilidade emocional; medo; amedrontado; excitabilidade; agitação; reatividade audiovisual ou emocionalAfabilidadeafabilidade; hostilidade; afeto; sociabilidade relacionada ao humano; agressividadeExtroversãosociabilidade; afiliação; solitário; energia (Energy); reatividade; ousado; esquiva; vivacidade (Vivacity)Conscienciosidadeconfiabilidade (Dependability); comportamento de realização de tarefasAbertura a experiênciascurioso; brincalhão; treinabilidade; competência; habilidade de aprender e obedecerDimensões adicionaisExemplos de facetas/ traçosDominânciaDominância; submissão; territorialidade; confiança (Confidence); assertividade (Assertiveness)AtividadeAtividade (Activity)
Adaptado de.
Fisiologia do comportamento As reações fisiológicas e suas intensidades que ocorrem em resposta à situações que um organismo enfrenta podem contribuir para explicar as várias personalidade dos indivíduos. Animais ‘calmos’ terão respostas menos intensas, menos duradouras à uma situação de estresse, logo voltando ao seu estado ‘normal’.
A frequência cardíaca ou coletas de amostras de sangue para medir as concentrações de hormônios do estresse (por exemplo cortisol) podem ser modos de classificar a intensidade da resposta fisiológica. Para compreender o comportamento e personalidades animais, muitos estudos se focam principalmente nas respostas ao estresse. À nível fisiológico, essas respostas ocorrem por meio de sinalização neuroendócrina, podendo ser pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), via simpático-adrenomedular (SAM) do sistema nervoso autônomo, importante para regular vários aspectos do organismo, e hipotálamo-hipófise-gônada (HPG).
Cannon (1915) descreve respostas de luta ou fuga (comportamento agressivo ou amedrontado, respectivamente), que estariam relacionadas à liberação de adrenalina ou noradrenalina no sangue pela medula adrenal.
Koolhaas e colegas (1999) introduziram a ideia de “estilos de enfrentamento”: estratégia proativa, se o animal enfrenta a situação versus reativa, se o animal tenta fugir ou evitar. Depois disso, muitos estudos verificaram que em vertebrados proativos (mais agressivos e ousados), a resposta simpática do sistema nervoso autônomo e noradrenérgica e adrenérgica do sistema SAM aumentava frente ao estresse. Já animais que apresentavam estratégia reativa, tinham maior ativação parassimpática e do eixo HPA. esquerda|miniaturadaimagem|480x480px|Eixos Hipotálamo-Hipófise-Adrenal, Hipotálamo-Hipófise-Gônada e via Simpático-Adrenomedular. Em outro estudo feito por Cavigelli e McClintock em 2003, que analisou comportamento frente à novidade, classificaram ratos neofílicos, que tinham comportamentos de exploração sem tanta cautela, e neofóbicos e se locomoviam mais devagar e hesitavam em explorar. Quanto à fisiologia envolvida, provavelmente o comportamento poderia ser consequência da maior liberação de corticosterona no sangue de ratos neofóbicos, representando maior ativação do eixo HPA, e um fenótipo mais reativo.
Em porcos, os resultados foram similares, com maior ativação do sistema SAM em indivíduos mais proativos, e maior ativação do eixo HPA, em porcos mais reativos. Dominância e subordinação também foram relacionadas aos eixos SAM e HPA, respectivamente.
Em outro estudo, pássaros chopins foram divididos em “rápidos” e “lentos” dependendo da velocidade com que começavam a explorar um ambiente e se aproximar de um objeto novo. Os lentos, semelhantes aos porcos e ratos, possuiam um eixo HPA mais atuante, além de uma temperatura corporal maior.
Já em um estudo com macacos, os mais ansiosos apresentam níveis elevados de cortisol e do hormônio liberador de corticotrofina (CRH) que os menos ansiosos. Em macacos-prego, o alto cortisol se correlacionou negativamente com traços agressivos, confiante, curioso, e oportunista e correlacionado positivamente com apreensivo, temeroso, inseguro, submisso e tenso. Outros estudos com macacos rhesus tiveram como resultado que macacos com personalidades mais ou menos ansiosas tinham maior atividade frontal cortical extrema no cérebro direito ou esquerdo.
Além do SAM e HPA, outro eixo é relacionado à personalidade: eixo HPG, operando do hipotálamo para produzir GnRH (hormônio liberador de gonadotrofina), estimulando a hipófise a liberar gonadotrofinas, as quais estimulam produção de andrógenos e estrógenos tanto em fêmeas quanto em machos, em fêmeas produzem mais estrogênios e progesterona nos ovários e os machos produzem mais testosterona nos testículos.