thumb|upright=1.5|"Triunfo de Vespasiano e Tito" (1537-40), por Giulio Romano, no Louvre
Dinastia flaviana ou dinastia Flávia foi uma dinastia romana que governou o Império Romano entre 69 e 96 através dos reinados de Vespasiano (69–79) e seus dois filhos, Tito (79–81) e Domiciano (81–96). Os flavianos chegaram ao poder durante a guerra civil de 69 conhecida como "ano dos quatro imperadores". Depois que Galba e Otão morreram em rápida sucessão, Vitélio tornou-se imperador em meados de 69. Sua reivindicação ao trono foi rapidamente disputada pelas legiões das províncias orientais, que declaram seu comandante, Vespasiano, como imperador. A Segunda Batalha de Bedríaco alterou o equilíbrio de forças decisivamente em prol dos flavianos, que entraram em Roma em 20 de dezembro. No dia seguinte, o senado romano oficialmente declarou Vespasiano imperador, dando início à dinastia Flaviana. Apesar de breve em termos históricos, vários importantes eventos históricos, econômicos e militares ocorreram no período.
O reinado de Tito foi marcado por múltiplos desastres, o mais severo deles a erupção do monte Vesúvio em 79. As cidades vizinhas de Pompeia e Herculano foram completamente soterradas por cinzas e lava. Um ano depois, Roma foi acometida por um incêndio e uma epidemia. No campo militar, a dinastia Flaviana testemunhou o cerco e destruição de Jerusalém por Tito em 70 depois da fracassada revolta judaica de 66. Substanciais conquistas territoriais foram feitas na Britânia sob o comando de Cneu Júlio Agrícola entre 77 e 83, mas, ao mesmo tempo, Domiciano não conseguiu uma vitória decisiva contra o rei Decébalo na guerra contra os dácios. Além disto, o Império reforçou suas fronteiras expandindo suas fortificações ao longo do limes Germanicus.
Os flavianos inciaram também reformas culturais e econômicas. Sob Vespasiano, novos impostos foram criados para restaurar as finanças imperiais; Domiciano revalorizou a moeda romana aumentando seu conteúdo de prata. Um grande programa de obras públicas foi iniciado para celebrar a ascensão da dinastia, levando à construção de muitos marcos ainda hoje conhecidos na cidade de Roma, incluindo o mais espetacular de todos, o Anfiteatro Flaviano, que ficou conhecido como Coliseu.
O governo dos flavianos chegou ao fim em 18 de setembro de 96, quando Domiciano foi assassinado. Ele foi sucedido por um aliado de longa data e conselheiro da família, o senador Marco Coceio Nerva, que fundou a duradoura dinastia nerva-antonina.
Fundação História da família Décadas de guerra civil durante o contribuíram enormemente para a derrocada da antiga aristocracia romana, que foi gradualmente substituída em proeminência por uma nova nobreza italiana nos primeiros anos do .Jones (1992), p. 3 Uma destas famílias era a gente Flávia, que ascendeu de uma relativa obscuridade ao pináculo do poder em Roma em apenas quatro gerações, adquirindo riqueza e status sob os imperadores da dinastia júlio-claudiana. O avô de Vespasiano, Tito Flávio Pedro havia servido como centurião no exército de Pompeu durante a guerra civil de César. Sua carreira militar terminou em desgraça quando ele fugiu do campo de batalha durante a Batalha de Farsalos em 48 a.C..Jones (1992), p. 1 Apesar disso, Pedro conseguiu melhorar sua posição casando-se com uma romana extremamente rica chamada Tertula, cuja fortuna garantia a mobilidade ascendente do filho dos dois, Tito Flávio Sabino.Jones (1992), p. 2 O próprio Sabino aumentou a riqueza da família e conseguiu atingir o status de equestre servindo como publicano na Ásia e emprestando dinheiro na Helvécia. Ao se casar com Vespásia Pola, ele se aliou à mais prestigiosa gente patrícia Vespásia, assegurando a elevação de seus filhos Tito Flávio Sabino e Vespasiano ao status senatorial.
Por volta de 38, Vespasiano se casou com Domitila, filha de um equestre de Ferêncio. O casal teve dois filhos, Tito Flávio Vespasiano (n. 39) e Tito Flávio Domiciano (n. 51), e uma filha, Domitila, a Jovem (n. 45).Townend (1961), p. 62 Domitila (mãe) morreu antes de Vespasiano chegar ao poder e, a partir da morte dela, Caenis, sua amante, foi sua esposa em tudo menos no papel até a morte dela em 74. A carreira política de Vespasiano incluiu posições como questor, edil e pretor, culminando com um consulado em 51, ano do nascimento de Domiciano. Como comandante militar, Vespasiano ganhou fama muito cedo ao participar da invasão da Britânia em 43.Jones (1992), p. 8 Apesar disto, as fontes antigas alegam que a família era pobre na época da infância de Domiciano,Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Domiciano 1 chegando ao ponto de alegar que Vespasiano caiu em descrédito durante os reinados de Calígula (r. 37-41) e Nero (r. 54-68).Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Domiciano 4 Historiadores modernos refutam estas afirmações, sugerindo que estas histórias foram circuladas mais tarde, já durante o governo flaviano como uma campanha publicitária para diminuir o sucesso de Vespasiano durante o reinado de imperadores de má reputação da dinastia júlio-claudiana e para maximizar os feitos durante o governo de Cláudio (r. 41-54).Jones (1992), p. 7 Pelo rápido avanço da família, os flavianos gozavam de ótima reputação junto à família imperial durante as décadas de 40 a 60. Enquanto Tito recebeu uma educação na corte na companhia de Britânico, filho de Cláudio, Vespasiano desfrutou de uma vitoriosa carreira política e militar. Depois de um prolongado período de retiro durante os anos 50, ele retornou à vida pública na época de Nero, servindo como procônsul da África em 63 e acompanhando o imperador em uma viagem pela Grécia em 66.Jones (1992), pp. 9–11
Entre 57 e 59, Tito foi tribuno militar na Germânia e depois serviu na Britânia. Sua primeira esposa, Arrecina Tértula, morreu dois anos depois do casamento, em 65.Jones & Milns (2002), pp. 95–96 Ele então tomou uma segunda esposa de uma família mais distinta, Márcia Furnila. Porém, a família dela estava intimamente ligada à oposição ao imperador Nero. O tio dela, Bareia Sorano, e a filha dele, Servília, estavam entre os mortos depois da fracassada Conspiração Pisoniana de 65.Jones (1992), p. 168 Alguns historiadores modernos sugeriram que Tito se divorciou de Márcia por causa disto.Townend (1961), p. 57Jones (1992), p. 11 Depois disto, não se casou mais. Aparentemente ele teve muitas filhas, pelo menos uma delas com Furnila.Jones (1992), p. 38 A única a sobreviver até a vida adulta foi Júlia Flávia, provavelmente a filha dele com Arrecina, cuja mãe também se chamava Júlia. Neste período, Tito também estudou direito e foi questor.Suetônio, Vidas dos Doze Césares, Vida de Tito 44; with Jones and Milns, p. 95–96
Em 66, os judeus da Judeia se revoltaram contra o Império Romano. Céstio Galo, o governador da Síria, foi forçado a sair de Jerusalém e foi derrotado na Batalha de Beth Horon.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas II.19.9 O rei pró-Roma Agripa II e sua irmã Berenice fugiram para a Galileia, onde depois se entregaram aos romanos. Nero nomeou Vespasiano para acabar com a revolta à frente da Legio V Macedonica e da X Fretensis.Jones (1992), p. 13Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas III.1.2 Depois Tito se juntou a ele em Ptolemais levando consigo a XV Apollinaris.Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas III.4.2 Com uma força de soldados profissionais, os romanos rapidamente cruzaram a Galileia e, já em 68, estavam às portas de Jerusalém.
Ascensão ao poder
Em 9 de junho de 68, em meio a uma crescente oposição do Senado e do exército, Nero se matou e com ele a dinastia júlio-claudiana chegou ao fim. Sua morte provocou um vácuo de poder que levou a uma brutal guerra civil conhecida como "ano dos quatro imperadores", durante o qual quatro dos mais influentes generais do Império Romano — Galba, Otão, Vitélio e Vespasiano — conseguiram, em sucessão, tomar o trono para si. Notícias da morte de Nero chegaram a Vespasiano quando ele estava se preparando para cercar Jerusalém. Na mesma época, o Senado declarou Galba, o governador da Hispânia Tarraconense, imperador em Roma. Ao invés de continuar sua campanha, Vespasiano decidiu esperar novas ordens e enviou Tito para cumprimentar o novo imperador.Sullivan (1953), p. 69 Antes de chegar à Itália, porém, Tito soube que Galba havia sido assassinado e substituído por Otão, o governador da Lusitânia. E que Vitélio e seus exércitos na Germânia estavam em revolta e preparados para marchar até Roma com a intenção de derrubá-lo. Sem querer arriscar ser tomado como refém por um lado ou por outro, Tito abandonou a viagem a Roma e se juntou novamente a Vespasiano na Judeia.Wellesley (2000), p. 44
Otão e Vitélio perceberam a ameaça potencial representada pela facção flaviana. Com quatro legiões à sua disposição, Vespasiano comandada uma força de quase homens. Sua posição na Judeia ainda lhe dava a vantagem de estar mais próximo da vital província do Egito, que controlava o suprimento de cereais de Roma. Seu irmão, Tito Flávio Sabino, como prefeito urbano, comandava as guarnições municipais de Roma. A tensão entre as tropas flavianas aumentou muito, mas enquanto Galba e Otão estavam no poder, Vespasiano se recusou a agir.Wellesley (2000), p. 45 Quando Otão foi derrotado por Vitélio na Primeira Batalha de Bedríaco, porém, os exércitos na Judeia e no Egito assumiram a iniciativa e declararam Vespasiano imperador em 1 de julho de 69.Sullivan (1953), p. 68 Vespasiano aceitou e se aliou a Caio Licínio Muciano, o governador da Síria, contra Vitélio. Uma poderosa força escolhida entre as legiões judeias e sírias iniciou a viagem a Roma sob o comando de Muciano enquanto o próprio Vespasiano viajou para Alexandria deixando Tito encarregado de encerrar a revolta judaica.Wellesley (2000), p. 126
Nesse ínterim, Domiciano foi colocado em prisão domiciliar por Vitélio como garantia contra uma futura agressão flaviana.Waters (1964), p. 54 O apoio a Vitélio, porém, estava evaporando e mais e mais legiões por todo o império declaravam seu apoio a Vespasiano. Em 24 de outubro de 69, as forças dos dois se enfrentaram na Segunda Batalha de Bedríaco, que terminou numa decisiva derrota para as forças vitelianas.Tácito, Histórias III.34 Desesperado, Vitélio tentou negociar uma rendição. Os termos, incluindo uma abdicação voluntário, foram acordados com Tito Flávio Sabino,Wellesley (2000), p. 166 mas os soldados da guarda pretoriana — guarda-costas pessoais do imperador — consideraram o ato vergonhoso e impediram que Vitélio desse prosseguimento ao seu plano.Wellesley (2000), p. 189 Na manhã de 18 de dezembro, Vitélio foi depositar as insígnias imperiais no Templo da Concórdia, mas mudou de ideia no último minuto e voltou para o palácio imperial. Na confusão que se seguiu, os principais políticos da cidade se juntaram na casa de Sabino e proclamaram Vespasiano imperador, mas a multidão dispersou quando as coortes de Vitélio se desentenderam com a escolta armada de Sabino, que foi forçada a recuar até o monte Capitolino.Jones (1992), p. 14 Durante a noite, outros parentes se juntaram a ele, incluindo Domiciano. O exército de Muciano estava próximo de Roma, mas o grupo de Sabino não tinha condições de resistir por mais do que um dia. Em 19 de dezembro, os vitelianos conseguiram invadir o Capitólio e na luta que se seguiu Sabino foi capturado e executado. Domiciano conseguiu escapar se disfarçando de adorador de Ísis e passou a noite em segurança com um dos aliados de seu pai. Na tarde do dia 20, Vitélio já havia sido assassinado e o restante de suas forças havia sido derrotado pelas legiões flavianas. Com nada mais a temer em Roma, Domiciano apareceu para receber as tropas invasoras; ele foi universalmente aclamado pelo título de "césar" pela massa de soldados que o levou até a casa de seu pai. No dia seguinte, 21 de dezembro, o Senado proclamou Vespasiano imperador do Império Romano.Wellesley (1956), p. 213