Bolsonarismo é um fenômeno político de extrema-direitaCaracterizações como "extrema-direita" incluem, mas não se limitam a* * * * * *SAFATLE, Vladimir; SINGER, André; DUNKER, Christian; ARAÚJO, Cicero; LOUREIRO, Felipe; CARVALHO, Laura; PAULANI, Leda; BRAGA, Rui (2020). Por que assistimos a uma volta do fascismo à brasileira : Intelectuais da USP comparam bolsonarismo ao movimento integralista da década de 1930. Folha de S.Paulo: Ilustríssima.*REIS, Arão (2020). Notas para a compreensão do Bolsonarismo. Estudos Ibero-Americanos, 46(1), e36709. PUCRS. Porto Alegre. e cariz fascista que eclodiu no Brasil com a ascensão da popularidade de Jair Bolsonaro, especialmente durante sua campanha na eleição presidencial no Brasil em 2018, que o elegeu presidente. A crise do petismo durante o governo Dilma Rousseff, precipitada e acelerada pela crise político-econômica de 2014, fortaleceu a ideologia bolsonarista e a nova direita brasileira, que se inserem no contexto da ascensão do populismo da Nova Direita ao nível internacional.
O bolsonarismo foi a ideologia predominante do governo Bolsonaro e é associado à retórica de defesa da família, do patriotismo, do conservadorismo, do autoritarismo, de elementos neofascistas, do anticomunismo, do negacionismo científico, do porte de armas, da rejeição aos direitos humanos e da aversão à esquerda política, bem como pelo culto à figura de Bolsonaro, frequentemente chamado de "mito". O escritor Olavo de Carvalho é frequentemente citado como tendo sido o guru da ideologia bolsonarista.
Embora o ex-presidente Jair Bolsonaro, que definiu seu governo como "livre de amarras ideológicas", não reconheça o bolsonarismo como uma ideologia, seus seguidores — chamados pejorativamente de bolsominions — divergem entre os que concordam com Bolsonaro e os que ostentam o termo para expressar sua posição política.
O bolsonarismo tem atraído diversos seguidores e fanáticos, que, em nome de Jair Bolsonaro ou com base em suas ideias, realizaram diversos ataques extremistas e/ou atos terroristas como os ataques de 8 de janeiro em Brasília e o atentado em Brasília em 2024. Na política, figuras do bolsonarismo, como Eduardo Bolsonaro, têm buscado angariar punições e sanções internacionais para o Brasil de modo a livrar Jair Bolsonaro de ser legalmente julgado de acordo com as leis brasileiras, o que desencadeou um tarifaço norte-americano contra o país. Do mesmo modo, deputados bolsonaristas, com apoio de partidos como União Brasil, PP e Novo, têm tentado interditar, intimidar, desestabilizar e causar impedimento do funcionamento dos órgãos legais do Legislativo (Senado e Congresso) como forma de chantagem para seus objetivos, como dificultar a votação de projetos do governo em benefício ao trabalhador (tais quais a isenção do Imposto de Renda) e tentar livrar Jair Bolsonaro e envolvidos na tentativa de golpe e extremistas dos ataques de 8 de Janeiro. Os apoiadores de Bolsonaro também ameaçaram repetidamente matar autoridades e políticos brasileiros.
Origens e contexto
O bolsonarismo é um fenômeno que surge como resposta da classe dominante a alguns fatores: o antipetismo direitista, o medo e a reação à insurgência esquerdista de 2013, assim como as crises econômicas de 2008 e 2014. A principal figura do bolsonarismo ficou por toda sua carreira na política institucional como um político sem expressão nacional. Foi somente com o acúmulo desses fatores que Jair Bolsonaro se tornou uma opção viável. Mesmo na época do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o bolsonarismo era um elemento ainda minoritário no cenário político.CORDEIRO, Andrey Ferreira (2020). "Lulismo, bolsonarismo e a crise brasileira: do desenvolvimento dependente a uma política autonômica". Em: BARBOSA, Fabio; etal; O pânico como política: o Brasil no imaginário do Lulismo em crise. Mauad Editora, Rio de Janeiro. Bolsonaro conseguiu capitanear a imagem de um político capaz de corrigir a "velha política" e as mazelas do Brasil. Ele conseguiu associar à esquerda o vínculo do petismo e uma suposta degradação moral da sociedade.
A multiplicidade de grupos que constituem o bolsonarismo, as diversas alas (militar, ideológica, religiosa, capital, etc.), não só têm discordâncias pragmáticas, mas essas sim, estratégias, objetivos e métodos distintos. Dessa forma, bolsonarismo é uma unidade momentânea, não necessariamente um projeto político de longo prazo.
Alguns pesquisadores associam o fortalecimento da nova direita populista e do bolsonarismo às Jornadas de Junho de 2013, mas ainda não há um consenso científico sobre isso.
Apoiantes
Características
O bolsonarismo tem sido associado por estudiosos a elementos do neofascismo, da necropolítica, do antifeminismo e do protestantismo, bem como à defesa da ditadura militar brasileira. Em um estudo que analisa a dimensão linguística da ideologia bolsonarista, Cris Guimarães Cirino da Silva diz que o "termo bolsonarismo tem sido amplamente utilizado para caracterizar práticas populistas que combinam ideias neoliberais e autoritárias embutidas nas falas do ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro e seus seguidores". Desse modo, o bolsonarismo transcende a imagem do culto à imagem de Bolsonaro, encontrando repercussões também entre seus apoiadores e na formulação da política externa brasileira da gestão Bolsonaro, bem como na chamada "onda bolsonarista".
Em sua primeira reforma ministerial, Bolsonaro extinguiu Ministério da Cultura para criar, dentro da estrutura do Ministério da Cidadania, a Secretaria Especial da Cultura. Além disso, criou o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado pela ministra Damares Alves. Em seu discurso de posse em 1 de janeiro de 2019, Bolsonaro definiu os direitos humanos como "ideologia que descriminaliza bandidos, pune policiais e destrói famílias".
Segundo estudos de professores de sociologia do Instituto Federal da Bahia, o bolsonarismo não se define como uma mera versão local neofascismo nem do trumpismo mas um fenômeno essencialmente brasileiro. Segundo os pesquisadores, a ideologia não deve ser vista apenas como uma ruptura com a política. O movimento se muniu de um sentimento de anti-institucionalidade, alimentado numa parcela da população brasileira por séculos, a qual define por "Brasil Profundo". Nesta porção da população, "os valores, as crenças, a moral e mesmo o humor popular se constroem à margem das instituições ou da estrutura formal do Estado." Para essas pessoas, a família se torna a estrutura de amparo e afeto. Ao defendê-la, Bolsonaro ganharia status de mito.
Olavismo
miniaturadaimagem|Olavo de Carvalho, ideólogo da extrema-direita brasileira, ao lado de Jair Bolsonaro em 2019 Olavo de Carvalho foi considerado um ideólogo do bolsonarismo, suas teorias influenciaram na formação do pensamento dos seguidores do ex-presidente e nos rumos que ele adotou para o governo. A chamada "ala ideológica" do governo Bolsonaro é um grande expoente dos discursos contrários à China, movimentos sociais, imprensa e à esquerda, além de sustentar teorias conspiratórias, como uma suposta farsa do aquecimento global e a suposta falsa pandemia do corona vírus. O termo "ala ideológica do governo Bolsonaro" comumente se refere ao grupo de pessoas, ligadas ao governo ou dos bastidores dele, sob tutela intelectual do ex-astrólogo, escritor e influenciador digital Olavo de Carvalho, Vélez Rodríguez, Carlos Bolsonaro, Abraham Weintraub, Filipe Martins e Ernesto Araújo, por exemplo, além daqueles ligados ao fundamentalismo neopentecostal, como maior exemplo, a ministra Damares Alves.
Carvalho propunha uma guerra cultural para fazer frente ao Marxismo cultural, uma teoria de conspiração, segundo a qual há um movimento contemporâneo da esquerda mundial para destruir a cultura ocidental.Berkowitz, Bill (2003), "Reframing the Enemy: 'Cultural Marxism', a Conspiracy Theory with an Anti-Semitic Twist, Is Being Pushed by Much of the American Right." Intelligence Report. Southern Poverty Law Center, Summer. Lind, William S. "What is Cultural Marxism?". Maryland Thursday Meeting. Inspiradas no seu ideário, têm atuado nessa guerra cultural alguns produtores de cinema, como Josias Teófilo, da Lavra Filmes, Mauro Ventura Alves, sócio da IVIN Films e a produtora Brasil Paralelo. Outros canais bolsonaristas também têm papel importante na difusão das ideias olavistas, como Terça Livre, Senso Incomum, Conexão Política, Reaçonaria e Renova Mídia.
Bolsonaro, às vésperas da posse como presidente, prometeu "combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino". Uma das falas mais recorrentes dos membros do governo e de seus apoiadores foi a de que a vitória eleitoral de Bolsonaro teria significado a derrota do marxismo cultural, inspiração teórica dos governos de FHC, Lula e Dilma. Segundo o então ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, em um artigo publicado logo após a posse do governo, "o marxismo cultural governou por dentro de um sistema aparentemente liberal e democrático, construído por meio de corrupção, intimidação e controle de pensamento". Ricardo Vélez Rodríguez, na sua posse como ministro da educação, afirmou que o "marxismo cultural é uma coisa que faz mal para a saúde. A saúde da mente, do corpo e da alma". Segundo o ex-ministro, "somos pessoas individualizadas. O marxismo cultural passa a borracha em cima disso e nos considera massa. Nós não somos massa, somos indivíduos".
Militarismo
Houve, no início do governo, mais militares no gabinete de Bolsonaro do que durante o primeiro governo da ditadura militar. Durante o seu governo, quase 3 mil militares estavam espalhados por ministérios e outros órgãos federais. Os militares no Brasil assumiram cada vez mais cargos na administração federal, como a construção de estradas ou a proteção da Floresta Amazônica. O governo também planejava construir cerca de 200 novas escolas militares até 2023. O conteúdo do ensino inclui a alegação de que o golpe de 1964 foi "necessário para impedir o avanço do comunismo". O professor de Harvard Yascha Mounk, especialista em movimentos populistas, considera "preocupante" a crescente influência dos militares no Brasil. O fascínio bolsonarista por armas tem simbiose com esse novo militarismo. "Quero um povo armado", disse Bolsonaro, facilitando a aquisição de armas, a qual resultou em 2020 no aumento do número de vendas de armas em 200% em relação a 2019. A população que defende a flexibilização da legislação sobre armas é composta principalmente por pessoas brancas, ricas e heterossexuais.
Messianismo
O bolsonarismo foi apoiado por uma forte base eleitoral cristã, principalmente do protestantismo, e é apontado como uma ameaça às religiões afro-brasileiras, a exemplo do candomblé. A pastora Romi Bencke, que protocolou um pedido de impeachment contra Bolsonaro, disse que ele "nunca representou e nem representa" os desejos cristãos, mas que "é hábil em manipular a fé".
O bolsonarismo tem um componente que se afirma religioso, expresso no culto à personalidade do Bolsonaro como o Messias do Brasil. Para seus fãs, de "mito" ele se tornou o "salvador da pátria". Ele mesmo se vê como aquele que "salvou o Brasil do comunismo". Seria por isso que "Deus" teria salvado sua vida após o atentado a faca. Segundo o escritor Castro Rocha, autor de livro sobre a retórica do ódio, a guerra cultural dos bolsonaristas se aproxima do fundamentalismo: "É uma fábrica de inimigos em série". Essa forma de culto à personalidade surgiu ainda durante sua campanha eleitoral em 2018, quando pastores de diferentes igrejas rogaram a ideia de que Bolsonaro seria um escolhido de Deus.