A história digital da educação é uma abordagem da História da Educação que, a partir dos recursos digitais existentes, se utiliza de dados e softwares para coleta, organização, sistematização e leitura de fontes digitais ou digitalizadas. Para além de uma abordagem metodológica da pesquisa histórica no contexto digital, pode ser compreendido como um viés "epistêmico oportunize ao campo avanços nas discussões e análises", discutindo teoricamente sobre os aspectos da era digital e a produção historiográfica. Já a história da educação digital refere-se a uma abordagem historiográfica que investiga os percursos históricos da educação digital, em especial no contexto da virada digital, observada na década de 1990, com a comercialização da internet e dos computadores pessoais.

Campo da história da educação no Brasil

Enquanto componente curricular nos programas de ensino, a história da educação alcançou aderência primeiramente como disciplina no curso de Pedagogia, da qual é oriunda, sendo implementada posteriormente ao chamado curso normal superior e na licenciatura. Seu processo de consolidação no campo educacional brasileiro remonta ao início do século XX e se apoiou “[...]no tripé formado pelos elementos: ensino, pesquisa e formação do campo”SAVIANI,Demerval,Aberturas para a história da educação (2013).Campinas-SP: Autores Associados,p.233..Na atualidade é entendida “como tendo completado o processo de formação do campo” e “consolidada e com perspectivas, ao menos aparentemente, bastante promissoras de desenvolvimento”.

História da educação como disciplina Os nexos entre a história da pedagogia e história da educação encontram referências na Europa do século XVIII.

A história da pedagogia fora marcada como “pesquisa elaborada por pessoas ligadas à escola, empenhadas na organização de uma instituição cada vez mais central na sociedade moderna”CAMBI,Franco,História da Pedagogia(1999).São Paulo:Unesp,p.21.. Nascida como história ideologicamente orientada para formar técnicos e cidadãos, valorizava a continuidade dos princípios e ideais representados pela filosofia. “Tratava-se de uma história persuasiva por um lado e teoreticista por outro, sempre muito distante dos processos educativos reais referentes às diversas sociedades [...]” CAMBI,Franco,História da Pedagogia(1999).São Paulo:Unesp,p.22..

Predominaram na Europa e nos Estados Unidos, entre a segunda metade do século XIX e meados do século XX, a escrita da história da pedagogia ancorada no estudo das ideias e sua sucessão histórica delineada pela filosofia. Entre os partidários dessa orientação: “Compayré na França, Jaeger na Alemanha, Cobberley e Dexter nos EUA” .Tal contexto contribuiu paulatinamente para mudanças na construção do conhecimento histórico que incidiu na aproximação entre a história da pedagogia e a ciência histórica. A partir dessa revolução historiográfica é instituído "[...]um modo radicalmente novo de fazer história dos eventos pedagógico-educativos, que rompeu com o modelo teoreticista, ideológico, continuísta do passado para dar vida a uma pesquisa mais problemática e pluralista, bastante diferenciada que pode ser definida como história da educação" CAMBI,Franco,História da Pedagogia(1999).São Paulo:Unesp,p.23..

No decorrer dos anos 1950 a pesquisa em história da educação passou por intenso processo de renovação teórico-metodológica com o propósito de superação da chamada historiografia tradicional. A história da educação passa a abarcar as mudanças instituídas desde a década de 1920 com os historiadores da Escola dos Annales. Chega-se à década de 1970 com ampla renovação qualitativa em que os estudos voltados ao entendimento da vida sociocultural ganham espaço em detrimento das análises que privilegiavam os fatos políticos de tradição positivista e aspectos econômicos. Esse período marca a transição da história da pedagogia para uma articulada história da educação CAMBI,Franco,História da Pedagogia(1999).São Paulo:Unesp.

No contexto brasileiro, a instituição da história da educação como disciplina esteve associada à Escola Normal.  As reformas educacionais se constituem em marcos legislativos desse processo. Em Minais Gerais “[...] com o Regulamento que reorganizara as escolas normais do Estado, Decreto nº 2836 de maio de 1910, fora criada a cadeira História e Educação Moral e Cívica” LOPES, Eliane M. T.,Perspectivas Históricas da Educação(2002).São Paulo:Ática,p.16.A reforma mineira de 1927 empreendida por Francisco Campos definiu que a formação do professor se daria através dos Cursos de Aplicação cuja estrutura curricular trazia como uma das disciplinas a “[...] História da Civilização, particularmente história dos métodos e processos de educação” LOPES, Eliane M. T.,Perspectivas Históricas da Educação(2002).São Paulo:Ática,p.17.

No Rio de Janeiro, então capital republicana, a introdução da disciplina história da educação ocorreu em 1928 como parte da reforma da instrução promovida pelo educador Fernando de Azevedo VIDAL,Diana G.;FARIA FILHO, Luciano Mendes de, As lentes da história: estudos de história e historiografia da educação no Brasil(2005),Campinas: Autores Associados, p.88.Na década de 1930, com a reforma do ensino no Distrito Federal (Rio de Janeiro) promovida por Anísio Teixeira, Decreto 3.810 de 19 de março de 1932, a história da educação figurava juntamente com a disciplina filosofia da educação. Na cidade de São Paulo, a reforma educacional, Decreto 5.846 de 21 de fevereiro de 1933, também promovida por Fernando de Azevedo, incluiu a história da educação no currículo das escolas normais TANURI, Leonor M.A Historiografia da educação brasileira: uma contribuição para o seu estudo na década anterior à da instalação dos cursos de pós-graduação, em: MONARCHA, Carlos(Org.)(2005),História da Educação Brasileira: formação do campo,Ijuí:Unijuí,p.227-250.

A Lei Orgânica do Ensino Normal, Decreto Lei nº 8 530 de 2 de janeiro de 1946, que fixou normas e diretrizes para formação de professores nem território nacional, preconizava que no currículo houvesse a presença da disciplina história da educação. A primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 4.024 de 20 de dezembro 1961, a Lei nº 5.692 de 11 de agosto 1971 e a LDBEN 9.394 de 20 de dezembro de 1996 mantiveram a história da educação como parte integrante do currículo de formação de professores SOUZA, Vera L.L. História da Educação como disciplina, pesquisa e narrativa de uma experiência docente, em: SCHIAVETTO, Solange N.; RUELA, M.(Org.)(2018),Narrativas Incomuns: formação e atuação de professores e professores da educação superior, Curitiba: CRV, p.182 .

Em nível superior, o Decreto Lei nº 1.190 de 4 de abril de 1939 instituiu o Curso de Pedagogia da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) e incluiu a disciplina história e filosofia da educação. A expansão das Faculdades de Filosofia Ciências e Letras e dos cursos de pedagogia pelo país também asseguraram a presença do ensino da história da educação, hoje contemplando também os estudos de história da educação brasileira SOUZA, Vera L.L. História da Educação como disciplina, pesquisa e narrativa de uma experiência docente, em: SCHIAVETTO, Solange N.; RUELA, M. (Org.)(2018),Narrativas Incomuns: formação e atuação de professores e professores da educação superior,Curitiba:CRV,p.182.

Instituída como disciplina a partir dos cursos de formação de professores na década de 1930, incialmente esteve apartada do campo da investigação histórica e secundarizada no campo da educação ao ser subordinada à filosofia, assim a história da educação teve seu campo configurado CARVALHO, M.M.C. A configuração da historiografia educacional brasileira, em: FREITAS, Marcos Cezar de (Org.). Historiografia brasileira em perspectiva (2001).São Paulo: Contexto, p.329 .Ao mesmo tempo, esse percurso de inclusão da história da educação como peça integrante da formação docente também coincidiu com seu processo de configuração como história das ideias pedagógicas, entendidas como “[...] uma espécie de legado moral da humanidade. Como decorrência, fundiam-se frequentemente os objetivos de ensino da História da Educação e Filosofia da Educação, prática de que são resíduos, ainda hoje” WARDE, Miriam Jorge; CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Política e cultura na produção da história da educação no Brasil (2000),Contemporaneidade e Educação, Rio de Janeiro, v. 5, n. 7, p.11.

História da educação como pesquisa e formação do campo Desde meados do século XIX, tratados sobre história da educação escritos por médicos, advogados, engenheiros, religiosos, educadores e historiadores circularam no país e no exterior, tendo como resultado um amplo horizonte de fontes documentais potentes nos estudos da história da educação, como documentos oficiais, séries legislativas, relatórios, projetos de Governo, discursos de autoridades políticas. Com o alargamento das possibilidades de análise documental a partir dos objetos de investigação, graças aos caminhos abertos pela história cultural, registros imagéticos, como fotografias, iconografia, como também, plantas arquitetônicas, imprensa pedagógica, cultura material escolar: arquivos escolares, diários de classe, cadernos de aluno, manuais escolares, programas de ensino, passaram por exemplo, a contribuir significativamente nas investigações no campo da  historiografia da educação VIDAL,Diana G.;FARIA FILHO, Luciano Mendes de, As lentes da história: estudos de história e historiografia da educação no Brasil(2005),Campinas:Autores Associados.

Podem ser identificas três vertentes de escrita histórico-educacional na pesquisa e formação do campo em história da educação. 1 - A história da educação e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) com autores e obras de história produzidas com o intento de erigir uma ideia de nação para o Brasil e tangenciando para a educação um esforço de levantamento e compilação de documentos oficiais  e memória sobre a instrução pública e privada no país. O primeiro livro de história dedicado à educação brasileira foi L’Instruction publique au Brasil: histoire et legislacion (1500-1889) de José Ricardo Pires de Almeida. 2 – A história da educação e as escolas normais com autores, obras e ações acopladas a um conjunto de reformas educacionais promovidas com o intento de modificar a educação nacional introduzindo os princípios da Escola Nova no Brasil. Tem por livro emblemático: A Cultura Brasileira, de Fernando de Azevedo publicada em 1943 pela Imprensa Nacional (Brasil). 3 – A história da educação e a escrita acadêmica com pesquisadores e obras resultantes de projetos de pesquisa vinculados às universidades e aos Programas de Pós-Graduação, estes criados a partir de fins dos anos 1960 e início de 1970.

Tornada marco fundador de um discurso na história da educação, a obra A Cultura Brasileira de Fernando de Azevedo adota duas estratégias: "a de ler o processo civilizatório brasileiro como uma luta incessante entre o velho e o novo e a de dar visibilidade apenas aos que, nessa luta operam a favor da modernização da educação, purgando o político pelo técnico-pedagógico" WARDE, Miriam Jorge; CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Política e cultura na produção da história da educação no Brasil (2000),Contemporaneidade e Educação,Rio de Janeiro,v.5,n.7, p.24.

Os anos 1950 e 1960 marcam o início da configuração do campo de pesquisa em história da educação embora não existissem nesse período cursos de pós-graduação. No Rio de Janeiro foi criado o Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais (CBPE) e em alguns Estados surgiram os Centros Regionais de Pesquisas Educacionais (CRPE) vinculados ao Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos, na atualidade Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira(INEP).