thumb|300px|O Solar Souza Leão, casa-grande do Engenho Moreno, na área metropolitana do Recife. Os senhores de engenho eram membros destacados da nobreza da terra. Nobreza da terra foi uma classe de nobreza informal e não titulada que se desenvolveu no Brasil durante o período colonial e sobreviveu até o tempo do Império.
A nobreza da terra evoluiu paralelamente à nobreza institucionalizada pela Coroa Portuguesa (e depois da Independência, pelo Império Brasileiro) e nunca foi formalizada juridicamente, embora gozasse de relevantes privilégios derivados de um reconhecimento social da condição de nobre, tais como acesso preferencial (em certos períodos quase exclusivo) às magistraturas, às altas patentes militares, à governança, à posse da terra e às mercês honoríficas. Foi a classe de nobreza predominante no período colonial e o núcleo da elite colonial brasileira.Oliveira, Ricardo Costa de. "A 'Nobreza da Terra' nas vilas de Paranaguá, Curitiba e São Francisco do Sul". In: Congresso Internacional Pequena Nobreza nos Impérios Ibéricos de Antigo Regime. Lisboa, 18-21/05/2011
Formação e consolidação Sua distinção não era fruto do acaso, sendo uma evolução de princípios portugueses de distinção e qualificação social coloridos e modificados pelo contexto local. Já em Portugal o conceito de nobre era muito mais amplo e difuso do que o de fidalgo ou de nobre titulado, admitindo uma multiplicidade de integrantes de variadas extrações e funções. Neste sentido a nobreza da terra brasileira foi uma continuidade ou uma adaptação de conceitos e práticas antigos cultivados na Metrópole durante o Antigo Regime a respeito da existência de uma "nobreza civil" ou "nobreza política", formando, segundo Joaquim Romero Magalhães, "uma classe social dentro da ordem ou estado popular e que, pela sua conduta, modo de vida e exercício de governo, conseguiu ficar nas bordas da ordem da nobreza", uma classe distinta dos fidalgos e titulados, que lhes ficavam por cima, e distinta dos cidadãos, que ficavam abaixo.Bicalho, Maria Fernanda Baptista. "Conquista, Mercês e Poder Local: a nobreza da terra na América portuguesa e a cultura política do Antigo Regime". In: Almanack Braziliense, 2005; (11)
Grande parte da nobreza da terra era constituída por famílias antigas e tradicionais, geralmente possuidoras de sesmarias ou grandes extensões de terra, engenhos de açúcar e significativa riqueza. Outras famílias haviam adquirido nobreza através da ocupação de magistraturas e postos militares, como a vereança nos municípios principais e o alto oficialato na Guarda Nacional. Em particular no caso dos oficiais, muitas vezes seus postos foram transmitidos hereditariamente, formando-se diversas linhagens de nobreza militar.Raminelli, Ronald. "Nobreza e principais da terra — América Portuguesa, séculos XVII e XVIII". In: Topoi, 2018; 19 (38): 217-240 A posse de muitos escravos também era fator de qualificação. De acordo com Bruna Milheiro Silva, "ter escravos era símbolo de poder e se encaixava nos preceitos de 'viver ao modo da nobreza'. Isso porque, em primeiro lugar, significava ter quem o servisse, não precisando estes portanto, fazer atividades mais árduas, além disso, quanto mais escravos um senhor possuísse, mais prestígio era atribuído a ele diante dos outros".Silva, Bruna Milheiro. "A nobreza da terra do Rio de Janeiro e a utilização do trabalho indígena (Séculos XVI e XVII)". In: XVIII Encontro Regional da ANPUH-MG. Mariana, 24-27/07/2012
Até a Independência todos os nativos do Brasil eram súditos portugueses, mas estes eram discriminados em relação aos residentes que haviam nascido na Metrópole, que se consideravam superiores. Assim, a nobreza da terra formou-se como uma tentativa de equiparação — pelo menos social, se não jurídica — da dignidade e qualidade da elite nativa em relação à elite reinol, e foi um reflexo do processo de formação e estratificação da sociedade colonial. A formação da classe foi gradual, sendo articulada através de um processo consciente de auto-afirmação, amparado em um discurso político nativista, numa ética própria de "viver ao modo da nobreza" e em práticas de construção genealógica, sendo muito prestigiada uma descendência dos primeiros colonizadores e dos primeiros administradores coloniais. Casamentos de filhos da nobreza da terra com filhas de lideranças indígenas fortaleciam o prestígio das famílias e apoiavam a retórica nativista.
Embora a maioria das primeiras famílias da nobreza da terra não tivesse nenhuma ligação de sangue com a nobreza formal portuguesa, nos primeiros tempos muitas vezes tentou com sucesso se aproximar, através de casamentos, de seus estratos inferiores (até o século XIX a alta nobreza portuguesa não participou da formação da nobreza da terra), ou se não com nobres, pelo menos com boas famílias reinóis, mas no século XVIII a nobreza da terra já estava solidamente consolidada e segura de si, praticamente monopolizando os meios de produção, os principais cargos públicos e sistemas de influência da colônia, e exercendo importante impacto cultural, passando a considerar desnecessário afirmar-se por casamentos com nobres ou reinóis e optando preferencialmente pela endogamia.Bulhões, Angélica Lopes. "Senhoras ilustres: Mulheres, família e povoamento na capitania de Pernambuco (séculos XVII-XVIII)". In: XVII Encontro Estadual de História da ANPUH-PB: História: conhecimento e profissão. Universidade Estadual da Paraíba, 18-22/07/2016 Nesta época, para os brasileiros, pertencer a esta classe emprestava mais prestígio social do que receber um foro oficial de fidalgo ou uma ordem honorífica. Estudando o caso da aristocracia pernambucana, disse Evaldo Mello: thumb|Engenho de açúcar pernambucano no século XVII em pintura de Frans Post. No alto da colina vê-se a capela e a casa-grande, e em primeiro plano a usina de açúcar. thumb|Interior da Fazenda Engenho d'Água, Bahia.
"O sentimento nativista tendeu previsivelmente a reforçar o critério de antiguidade em detrimento do da nobreza reinol, de modo que, ao longo do século XVIII, valorizar-se-á mais o fato de se descender de um colono Duartino, de um herói das guerras holandesas, de um vereador de Olinda ou de um provedor da Santa Casa de Misericórdia, do que de um morgado minhoto ou de um fidalgo da Casa Real, desde que, por trás deles, opere, ao menos inicialmente, a fortuna familiar, a posse de 'grossos cabedais', mesmo quando encarnados na modéstia relativa que já era então, e provavelmente foi sempre, a da grande maioria dos senhores de engenho. [...] Numa sociedade monocultora, escravocrata e latifundiária como a da Mata do Nordeste, à propriedade açucareira é que correspondia, em última análise, a função de filtrar e de decantar, ao longo do tempo, as pretensões nobiliárquicas e as posições sociais. [...] Em cidades como Olinda, Salvador ou Rio de Janeiro as pessoas que se arrogavam o título de 'principais' ou de 'nobreza da terra', justificavam-no não enquanto uma categoria natural ou jurídica, de acordo com o Direito do Antigo Regime, mas por meio de um discurso baseado numa cultura política".Mello, Evaldo Cabral de. O imaginário da restauração pernambucana. Topbooks, 1997, pp. 181-187
A Coroa Portuguesa apoiava a nobreza da terra e em diversos documentos reconheceu sua existência (embora nunca a regulamentasse), pois dependia dela em termos financeiros e políticos para manter seus projetos na colônia. Durante do ciclo do açúcar os senhores de engenho foram o principal pilar de sustentação econômica da colônia e sua atividade gerava grandes divisas para o Reino, além de promoverem o povoamento e defesa do território.Machado, Estevam Henrique. "O ideal nobiliárquico e a busca por distinção social no Antigo Regime Português: em busca de uma definição para o conceito de nobreza da terra". in: Aedos, 2017; 9 (21): 435-455Fragoso, João. "Modelos explicativos da chamada economia colonial e a ideia de Monarquia Pluricontinental: notas de um ensaio". In: História (São Paulo), 2012; 31 (2): 106-145 Depois, no século XVIII, passou-se a reconhecer como nobres os membros das governanças locais, comerciantes de grosso trato e outros agentes que de uma forma ou outra eram importantes para a manutenção da estrutura colonial e controlavam extensas clientelas.Cunha, Alexandre Mendes. "Patronagem, clientelismo e redes clientelares: a aparente duração alargada de um mesmo conceito na história política brasileira". In: História (São Paulo), 2006; 25 (1) De fato, a Coroa muitas vezes premiou membros destacados da nobreza da terra com títulos nobiliárquicos e ordens honoríficas, geralmente em reconhecimento de boa vassalagem e serviços prestados, reforçando juridicamente e exteriorizando uma qualidade de nobre já possuída informalmente pela tradição ou pelo merecimento. thumb|esquerda|160px|Estátua do bandeirante Raposo Tavares no Museu Paulista, exemplo da glorificação dos primeiros colonizadores de São Paulo
Outro exemplo clássico é a construção da nobreza das famílias paulistas que mais tarde se tornaram conhecidas como as quatrocentonas, em sua maciça maioria descendentes de plebeus aventureiros e sem fortuna, mas que no século XVII já haviam enriquecido e se empoderado, reivindicando uma qualidade de nobres. A ideologia legitimadora dessa reivindicação começou a ser articulada no século XVIII — em parte para responder às múltiplas críticas que os paulistas recebiam dos oficiais da Coroa, missionários e viajantes, acusando-os de serem bárbaros, rebeldes, viciosos e só se preocuparem consigo mesmos e seu proveito, ignorando as leis e suas obrigações como súditos — e estava baseada em vários argumentos. Um dos principais era a alegação de que os pioneiros paulistas descendiam da nobreza portuguesa, mas as provas usadas quase sempre foram falsas ou se baseavam em suposições fantasiosas, desacreditadas pelas pesquisas mais recentes. Outro argumento importante era a glorificação acrítica dos seus ancestrais bandeirantes, até hoje retratados como heróis desbravadores do sertão, sem cujo concurso a conquista do território brasileiro não poderia ter sido completada. Por fim, argumentava-se que o casamento de pioneiros portugueses com mulheres indígenas, fato verdadeiro e relativamente comum na história dessas famílias, justificava as reivindicações de merecimento social por terem sido os forjadores de uma pujante nova sociedade, da qual o bandeirante virava o símbolo, a despeito de os bandeirantes terem sido notórios inimigos dos indígenas, escravizando-os e dizimando-os aos milhares. Ao mesmo tempo, descender dos bandeirantes também serviu para distinguir a alegada melhor qualidade dos quatrocentões em relação às muitas outras famílias de imigrantes e comerciantes que chegaram mais tarde.Bogaciovas, Marcelo Meira Amaral. "A gente paulistana e sua genealogia". In: Revista da ASBRAP, 2006 (12)Schneider, Alberto Luiz. "Os paulistas e os outros: Fama e infâmia na representação dos moradores da Capitania de São Paulo nas letras dos séculos XVII e XVIII". In: Projeto História, 2016 (57): 84-107Fragoso, João. "A gênese do quatrocentão". Folha de S.Paulo, 28/01/2007Veiga Edison. "Como os bandeirantes, cujas homenagens hoje são questionadas, foram alçados a heróis paulistas". UOL, 20/06/2020Marins, Paulo César Garcez. "O Parque do Ibirapuera e a construção da identidade paulista". In: Anais do Museu Paulista, 1998-1999; (6/7): 9-36 thumb|Brasão outorgado em 1754 em favor de Antônio de Magalhães Corrêa, de Cachoeira da Bahia, bacharel em Direito e juiz.