A língua wari' (AFI: /waˈɾiʔ̚/), também conhecida como língua dos pacaas novos ou língua pacaanova, é um idioma da família linguística txapakura, falado pelo povo indígena wari', no estado brasileiro de Rondônia, ao longo de parte da Bacia do Rio Mamoré.
Com 2721 falantes registrados no ano de 2006, é a língua mais falada de sua família, sendo a única que possui transmissão intergeracional estável e contínua. Contudo, é classificada pelo Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO como definitivamente ameaçada, dado o seu pequeno número de falantes e a pressão crescente pelo uso do português, que serve como língua franca nas cidades mais próximas das terras indígenas habitadas por esse povo (Guajará-Mirim e Nova Mamoré).
A primeira menção feita ao povo wari' data de 1798; contudo, os primeiros estudos sobre a língua foram estabelecidos apenas na década de 1950, com a participação da Missão Novas Tribos do Brasil, grupo evangélico estadunidense. Desde então, os missionários da organização desenvolveram uma ortografia para o idioma baseada no alfabeto latino, criaram cartilhas de alfabetização e produziram alguns materiais didáticos sobre a língua, além de transcrições de trechos da Bíblia. Em 1997, foi publicado o primeiro material de referência sobre o idioma: a gramática descritiva "Wari': The Pacaas Novos Language of Western Brazil". O livro foi produzido por Daniel Everett, linguista da Universidade de Pittsburgh, e por Barbara Kern, linguista da Missão Novas Tribos do Brasil que convive com os wari' desde 1960.
Assim como outros idiomas da família txapakura, o wari' faz distinções de gêneros gramaticais — característica pouco usual entre línguas amazônicas — sendo eles o feminino, o masculino e o neutro. Além disso, o idioma dispõe de uma única preposição, que é flexionada obrigatoriamente em pessoa, número e gênero. Ainda, a ordem frasal da língua é verbo-sujeito-objeto. Ademais, como diversas línguas nativas sul-americanas, o wari' não possui nenhum artigo. Por fim, o idioma é analítico em sua estrutura, o que significa que a língua usa de poucas flexões gramaticais, sendo o sentido dos enunciados altamente dependente do contexto e da ordem das palavras na frase. Etimologia O povo wari' prefere ser chamado pelos não indígenas de wari', termo endônimo que significa "gente", "indígena", "nós mesmos",SOUSA, Maria de Fátima Lima de. 2009. sendo este o termo utilizado pelos não indígenas que com eles mantêm um contato mais próximo. Outro termo possível é oro wari', sendo formado a partir da junção do termo wari' com o termo oro, que é um coletivizador. Essas palavras são usadas tanto para se referir ao povo quanto à sua língua.
Para além desses nomes, é possível também encontrar o exônimo "pacaás novos", de origem portuguesa, que deriva do fato de os falantes desse idioma terem sido avistados pelos não indígenas pela primeira vez ao longo do rio Pacaás Novos, que desemboca na margem direita do rio Mamoré.
No entanto, que nenhum dos nomes anteriores são usados pelos próprios wari' para se referirem a si mesmos, uma vez que se dividem em vários subgrupos com culturas e dialetos próprios, e cada subgrupo possui uma forma própria de se referir a si mesmo, que pode ser vista na tabela seguinte:
+Classificação dos grupos wari'LocalizaçãoSubgrupoSignificado do nomeNorteOro mon"O povo das fezes"NorteOro waram"O povo macaco-preto"NorteOro waram xijein"Os outros povos macaco-preto"NorteCao oro waje"O povo 'comer ainda verde'"SulOro nao'"O povo morcego"SulOro eo"O povo do arroto"SulOro at"O povo do osso"SulOro jowin"O povo macaco-prego"
Distribuição O wari' é falado na porção oeste do estado brasileiro de Rondônia, na área que compreende as Terras Indígenas (TIs) de Igarapé Lage, Igarapé Ribeirão, Pacaás-Novas, Rio Guaporé, Rio Negro Ocaia e Saragana. O idioma possui 2721 falantes, o que o torna a língua indígena mais falada do estado. Apesar de estar listado no Atlas Mundial das Línguas em Perigo da UNESCO como definitivamente ameaçado devido a seu pequeno número de falantes e ao contato intenso com falantes lusófonos, o wari' segue sendo amplamente transmitido de forma intergeracional, sendo, na maioria das comunidades desse povo, a língua materna da maioria das crianças. Além disso, as aulas nas escolas são oferecidas frequentemente em wari', sendo que várias delas possuem ensino bilíngue em português e wari'. Por fim, cita-se que o índice de bilinguismo é considerado alto entre o povo referido, com a quase totalidade dos falantes monolíngues sendo crianças de 3 a 8 anos de idade. No entanto, algumas comunidades têm observado um declínio no número de falantes, ocasionado principalmente pela hegemonia do português nas cidades próximas aos territórios habitados pela etnia e pelo alto índice de casamentos interétnicos.
Dialetos O povo wari', conforme mencionado anteriormente, se divide em oito subgrupos, e cada um fala um dialeto próprio, com exceção dos oro jowin e dos cao oro waje, os quais se fundiram com os outros subgrupos, adotando o dialeto falado pelo grupo ao qual foram incorporados. O nome do subgrupo é também o nome do dialeto falado por ele. +Lista de palavras em alguns dialetos do wari'Oro nao'Oro eoOro atOro monOro waramOro waram xijeinpeixehwamhwamhwamhamhamhammarimbondowiriwiriwiriawriawriawricaráxüxütxüxütxüxüttütüttütüttütütnoiteximximximtimtimtimcasaxirimxirimxirimtirim/trimtirim/trimtirim/trimpaiateateatete/atete/atete/ate
{| class="wikitable sortable" |+ Localização dos dialetos do wari' ! Terra Indígena (TI) !! Município !! Aldeamentos !! Dialetos |- | TI Guaporé || Guajará-Mirim || Parque Indígena (PI) Ricardo Franco:<ul> Sede; Baía da Coca; Baía das Onças; Baía Rica || Oro eo, oro nao', oro waram xijein |- |rowspan="4"| TI Laje ||rowspan="3"| Guajará-Mirim || PI Laje:<ul>Sede ||rowspan="2"| Oro mon, oro nao', oro waram, oro waram xijein |- | Limão (Lage) |- | Linha 14 || Oro nao', oro waram, oro waram xijein |- |Nova Mamoré|| Linha 31 || Oro at, oro nao' |- |rowspan="2"| TI Negro Ocaia ||rowspan="2"| Guajará-Mirim || PI Negro Ocaia:<ul> Sede; Ocaia II; Piranha || Oro at, oro eo, oro mon, oro nao', oro waram, oro waram xijein |- | PI Negro Ocaia:<ul> São Luiz Pedreira; Limão (São Luiz) || Oro at, oro eo, oro nao' |- |rowspan="4"| TI Pacaás Novos ||rowspan="4"| Guajará-Mirim || PI Tanajura:<ul> Sede; Cajueiro;Capoeirinha; Pitop; Graças a Adeus ||Oro at, oro eo, oro mon, oro nao', oro waram |- | PI Santo André: <ul> Sede, Bom Futuro ||Oro at, oro mon, oro nao' |- | PI Deolinda:<ul> Sede; Barranquilha; Calafate ||Oro eo, oro nao', oro waram |- | PI Sotério:<ul> Sede ||Oro at, oro eo, oro mon, oro nao', oro waram, oro waram xijein |- |rowspan="4"| TI Ribeirão ||rowspan="4"| Nova Mamoré || PI Ribeirão || Oro mon, oro nao', oro waram, oro waram xijein |- | Lage Velho ||Oro eo, oro mon, oro nao', oro waram, oro waram xijein |- | Linha 10 ||Oro mon, oro nao', oro waram |- | Linha 26 ||Oro at, oro eo, oro nao', oro waram |- | TI Sagarana || Guajará-Mirim || PI Sagarana:<ul>Sede ||Oro at, oro eo, oro mon, oro nao', oro waram xijein
Línguas relacionadas O wari' faz parte da família linguística txapakura, que agrupa um total de 12 idiomas falados no estado de Rondônia, no Brasil, e no departamento de Beni, na Bolívia, ao longo do rio Mamoré e de seus afluentes. Os idiomas txapakuras que são ou eram falados em território brasileiro são o kujubim (ou cojubim), o torá, o wanhan (ou wanyam ou miguelenho), o urupá, o jarú (ou yarú), o oro win e o wari'. Já os que são ou eram falados em território boliviano são o txapakura (ou tapakura), o kitemoka, o napeca, o moré e o rokorona. Desses idiomas, apenas o wari' não se encontra em perigo iminente de desaparecimento, sendo que o oro win está em fase de extinção e todas as outras 10 línguas já se encontram extintas. O wari' é um parente próximo da língua oro win, que possuía, em 2010, apenas seis falantes. + Lista de palavras nas línguas txapakuras txapakuraKitemokaNapecaMoré/IteneKujubimToráWanhanUrupáJarúWari'Oro winFogoiseiseiseitʃeʔitʃeʔiʃeʔiʃeʔiseisetʃeʔseRede - -siattʃattʃatʃiatʃijatsiatsiattʃijatsatAraratiaramuin - -samintʃamintramintramintramintramintramintraminFígado - - -sawantʃawantrawanatrawaneʃiʔ -trawanasitrawanatʃiʔtrawanasiPeixeiʃuamihamiham - -hoamihamihamihamʔhwamifamPernaukutʃikohotʃi -pokpokhokhokiʃi -ekisikokotʃiʔfokisi Joshua Birchall, Michael Dunn e Simon J. Greenhill, que estudaram a família txapakura, agruparam os idiomas pertencentes a ela da seguinte maneira:
Henri Ramirez, por outro lado, propõe a seguinte classificação, que é próxima da sugerida pelos etnolinguistas Curt Nimuendajú e E. H. do Valle Bentes:
Nela, Ramirez considera as línguas itene (ou moré), txapakura, kitemoka e cautário como codialetos entre si; e o wanhan e o miguelenho, como dialetos de um mesmo idioma.
História Pré-colonial
No passado, os wari' ocupavam uma vasta área geográfica no Sudoeste da Amazônia, que abrangia vários cursos d'água pertencentes à Bacia do Rio Mamoré, juntamente com os outros povos da família txapakura. De acordo com suas tradições, viviam junto aos pequenos rios e igarapés da bacia, afastados dos rios principais. Tal fato foi decisivo para que os primeiros contatos com os não indígenas fossem registrados apenas no século XX, enquanto outros povos da família txapakura tiveram contato com o "homem branco" já no século XVII. Isso foi vital para que sua língua fosse preservada até hoje, enquanto os outros idiomas txapakuras desapareceram progressivamente em decorrência de epidemias, aculturação e ataques armados de portugueses e espanhóis. É possível que esse hábito dos wari' estivesse relacionado a uma tentativa de evitar confrontos com outros povos, visto que as áreas em torno de rios maiores costumavam ser amplamente disputadas.
Antes dos primeiros contatos com os não indígenas no século XX, pouco se sabe, concretamente, sobre o idioma falado pelos wari'. Sabe-se, porém, que os diferentes grupos wari' relacionavam-se intensamente entre si, sendo que ocorriam casamentos entre diferentes subgrupos e havia três festas na qual esses subgrupos se reuniam: tamara, huroroin e hwitop. Desde os primeiros contatos, os wari' já se apresentavam com o nome de seu subgrupo, sendo bastante possível que as diferenças dialetais já existissem bem antes do encontro com os não indígenas.
O wari' começou a divergir de sua parente mais próxima, a língua oro win, provavelmente por volta de 1710, sendo que o ramo wanhan-wari-oro win das línguas waric começou a divergir do ramo urupa-yaru em 1440, aproximadamente. A divergência entre esses dois ramos da família waric provavelmente ocorreu quando os falantes do ancestral das línguas jarú e urupá migraram para a região além da Chapada dos Parecis, separando-se dos falantes do ancestral das línguas wanhan, wari' e oro win.
O proto-txapakura, ancestral mais remoto do wari', era falado, muito provavelmente, entre 690 e 971, na região que compreende o baixo curso da bacia do rio Mamoré, na fronteira entre a Bolívia e o Brasil. Nos séculos seguintes, a família se expandiu ao longo das bacias dos rios Mamoré e Guaporé.