Nicolas Malebranche (Paris, 6 de agosto de 1638 — Paris, 13 de outubro de 1715) foi um filósofo racionalista e padre francês. Em suas obras, procurou sintetizar o pensamento de Agostinho de Hipona e René Descartes, a fim de demonstrar o papel ativo de Deus em todos os aspectos do mundo. Malebranche é mais conhecido por suas doutrinas de visão em Deus, ocasionalismo e ontologismo.
Biografia Em 1660 entrou para a Congregação do Oratório e, quatro anos mais tarde, foi ordenado sacerdote. Ainda em 1664, a leitura de Descartes deixou-o tão entusiasmado que resolveu dedicar-se ao estudo da filosofia. No entanto, alguns comentaristas acreditam que esse interesse pela filosofia tenha derivado de seus estudos sobre a filosofia dominante no Oratório (a de Santo Agostinho).MALEBRACHE, Nicolas. Meditações cristãs e metafisicas. Colibri. 2003
Sua principal obra é De la recherche de la vérité (A busca da verdade), onde trata da natureza do espírito humano e do que o homem deve fazer para evitar o erro nas ciências. Foi publicada em três volumes, o primeiro em 1674 e os outros dois em 1675.
Malebranche critica os filósofos que estudam as relações da alma com o corpo, sem considerar sua união com Deus. Segundo ele, o enfraquecimento das relações da alma com Deus foi consequência do pecado original, que fortaleceu a relação alma-corpo.
Em A busca da verdade ocorreria a dissolução dos erros provocados pela forte interação da alma com o corpo. Para o filósofo, o erro é a causa da miséria dos homens. Assim, afirmava ser necessário denunciar os erros e suas causas através de uma análise das percepções da alma, que se realizariam por três modos distintos: os sentidos, a imaginação e o entendimento. Pregava, portanto, o exame dos erros devidos a cada uma dessas formas de percepção. Mediante tal exame seria possível encontrar um critério geral para a descoberta da verdade.
Por outro lado, todos os movimentos que se efetuam entre os corpos e entre a alma e o corpo, além dos movimentos internos da alma, teriam em Deus sua causa eficiente. Essas relações, sendo estabelecidas pela razão divina mediante uma ordem eterna e invariável, poderiam ser compreendidas pelo entendimento, da mesma forma que as leis científicas. Os seres particulares não seriam propriamente causas eficientes de nada que ocorre, mas apenas ocasiões para o exercício da causa única que é Deus, doutrina denominada ocasionalismo, porque causar é criar; e só Deus pode criar. Por isso, o movimento é um paralelismo (o que também sucede com os comportamentos humanos). Da alma não temos nenhuma ideia, mas apenas uma persuasão interior. Deus, além disso, conteria em si mesmo todas as idéias como arquétipo das coisas. O conhecimento da verdade, por parte do homem, consistiria, em última instância, em um visão de Deus.
Dualismo em Malebranche Malebranche, embora influenciado pelo problema da relação entre corpo (extensão) e alma (pensamento) levantado por Descartes, MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 18 (nota de rodapé) e adotando uma posição que admite uma separação radical entre elas – chamada dualismo –, não aceita a solução proposta por ele no que se refere à relação entre essas duas realidades, sobretudo a “glândula pineal”. REALE, Giovanni. História da Filosofia: do Humanismo a Kant. São Paulo: Paulus, 1990. Vol. 2. (Coleção Filosofia.) p.392 Se para Descartes, embora separadas, a alma age sobre o corpo e tem uma faculdade passiva de sentir as paixões deste, SEVERINO, Emanuele. A Filosofia Moderna. Tradução de José Eduardo Rodil, Lisboa, Edições 70, 1987, p. 76 Malebranche é muito mais radical ao afirmar que a alma não tem qualquer tipo de relação com o corpo – e vice-versa –, quebrando, assim, o princípio de causalidade. SEVERINO, Emanuele. A Filosofia Moderna. Tradução de José Eduardo Rodil, Lisboa, Edições 70, 1987, p. 88 Para ele, “tudo o que é, ou pode ser concebido isoladamente, ou não pode ser concebido de maneira alguma”, MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 15 e portanto, “uma vez que a substância é um ser que subsiste em si mesmo, a ideia de uma substância necessariamente não contém a ideia de um outro ser”. MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 16 Consequentemente, a extensão, que é uma substância, não se relaciona com o pensamento, que é outra substância. REALE, Giovanni. História da Filosofia: do Humanismo a Kant. São Paulo: Paulus, 1990. Vol. 2. (Coleção Filosofia.) p. 400 Assim, se a alma não pode agir sobre o corpo e nem o corpo sobre a alma, há uma outra causa que produz de maneira eficiente essa mudança e que pode, ao mesmo tempo, ser a causa da vontade e do movimento – a saber: Deus, o único poder ativo capaz de gerar mudanças. Sendo assim, a vontade de se realizar um movimento é apenas uma ocasião na qual Deus age, sendo ele a causa eficiente, e a vontade apenas a causa ocasional do movimento realizado - daí o ocasionalismo. Nas palavras de Malebranche: “Os teus desejos ou os teus esforços de modo algum são as causas verdadeiras que produzem mediante a sua eficácia o movimento dos teus membros (...). Trata-se, portanto, de meras causas ocasionais que Deus estabeleceu para determinar a sua eficácia das leis da união entre Alma e Corpo, pelas quais tens a potência de mover os membros de teu corpo”. MALEBRANCHE, Nicolas. Conversaciones sobre la Metafísica y la Religión. traducción y estudio preliminar de Pilar Andrade e Ignacio Quintanilla, Madrid, Encuentro, 2006, pp. 137-161
A Alma não se relaciona com o corpo O livro “Diálogos sobre a Metafísica e a Religião” é o texto que melhor representa de maneira sucinta o pensamento de Malebranche. MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 9 (introdução) No primeiro diálogo, que trata da alma e de sua distinção em relação ao corpo, MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 10 Malebranche questiona Descartes acerca da possibilidade da relação entre corpo e alma, uma vez que o corpo é extensão e a alma, pensamento: “Penso, logo sou. Mas o que sou eu, eu que penso, no momento em que penso? Seria eu um corpo, um espírito, um homem? Nada sei sobre isso ainda. Sei somente que, no momento em que penso, sou alguma coisa que pensa. Mas vejamos: poderia um corpo pensar? Poderia uma extensão em comprimento, largura e profundidade refletir, desejar, sentir? Sem dúvida que não, pois todas as maneiras de ser de uma tal extensão não são mais que relações de distâncias, e é evidente que essas relações não são percepções, raciocínios, prazeres, desejos ou sentimentos – em uma palavra, não são pensamentos. Portanto, esse eu que pensa, minha própria substância, não é um corpo, dado que minhas percepções, que seguramente me pertencem, não são relações de distância”. MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 14
O tópico central da obra de Malebranche é o de que “a consciência da consciência” e a “consciência da extensão” são duas modalidades de consciências radicalmente distintas e incomensuráveis. MALEBRANCHE, Nicolas. Conversaciones sobre la Metafísica y la Religión. traducción y estudio preliminar de Pilar Andrade e Ignacio Quintanilla, Madrid, Encuentro, 2006, p. 15 Malebranche afirma: “eu não sou luz para mim mesmo, porque a minha substância e as minhas modalidades nada mais são do que trevas”. REALE, Giovanni. História da Filosofia: do Humanismo a Kant. São Paulo: Paulus, 1990. Vol. 2. (Coleção Filosofia.) p. 402 Há que se notar, entretanto, que entre corpo e mente há certa correspondência, mas não interação, uma vez que qualquer interação imaginável já é corpo. MALEBRANCHE, Nicolas. Conversaciones sobre la Metafísica y la Religión. traducción y estudio preliminar de Pilar Andrade e Ignacio Quintanilla, Madrid, Encuentro, 2006, p. 22
Crítica à teoria mecanicista Malebranche discorda da teoria mecanicista para explicar o movimento, pois nega a ação mecânica do choque. REALE, Giovanni. História da Filosofia: do Humanismo a Kant. São Paulo: Paulus, 1990. Vol. 2. (Coleção Filosofia.) p. 396 Para os mecanicistas, todos os fenômenos se explicam por causas mecânicas, de maneira que todo movimento tem uma causa em outro movimento; no entanto, para não haver redução ao absurdo, pressupõem a existência de um ser não mecânico, que seja a causa primeira dos movimentos, isto é, o primeiro motor (ou Deus). Para Malebranche, tal qual é demonstrado no paradoxo de Zenão, o espaço é infinito em ato, MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 36 (nota de rodapé) e contém, portanto, infinitas etapas entre o início de um movimento e seu final, não sendo possível ao próprio corpo, pelo fato de serem infinitas, ultrapassá-las todas. Assim, ao contrário do mecanicismo, Malebranche entende que para haver movimento é necessária uma mudança nas partes que compõem o corpo – sendo essa mudança possível apenas através da ação de Deus, que cria e conserva sucessivamente os corpos. MALEBRANCHE, Nicolas. Conversaciones sobre la Metafísica y la Religión. traducción y estudio preliminar de Pilar Andrade e Ignacio Quintanilla, Madrid, Encuentro, 2006, p. 151
Diferença entre saber e realizar movimentos Para reforçar o abismo entre o corpo e a alma, entre movimento e saber, Malebranche compara um camponês a um anatomista no que se refere a realizar um movimento: o primeiro não sabe que há músculos, nem que existam os espíritos animais – o que chamaríamos hoje de terminais nervosos MALEBRANCHE, Nicolas. Diálogos sobre a Metafísica e a Religião: Primeiro Diálogo. Oficinas de tradução. Departamento de Filosofia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba: Ed. SCHLA/UFPR, 2011, p. 42 –, nem mesmo o que é preciso fazer para movimentar o braço; no entanto, realiza o movimento tão sabiamente quanto o mais hábil anatomista. MALEBRANCHE, Nicolas. Conversaciones sobre la Metafísica y la Religión. traducción y estudio preliminar de Pilar Andrade e Ignacio Quintanilla, Madrid, Encuentro, 2006, p. 137-161 Por isso, Malebranche acrescenta: “Pode-se fazer, pode inclusive se querer aquilo de modo nenhum se sabe fazer?”. Dessa maneira, ele argumenta que não é o saber o responsável direto pelo movimento.
A ação de Deus e o ocasionalismo